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11.7.10

CRONICA DO QUOTIDIANO 2

Gosto de lá ir. Não é como no supermercado. A porta está sempre escancarada ao vento áspero da minha terra. Também não é a feira em campo aberto. Tem telhado e paredes sólidas. Não há azáfamas. Só umas pequenas pressas de um “pexinho” para cozer ainda para o almoço, dos pimentos para a sardinhada de domingo, de dois parrameiros para matar as saudades da amiga que virá passar a tarde connosco.

Vai-se à praça dar uma espreitadela. Da entrada, abarca-se com o olhar os tabuleiros mais distantes, semi-cerrando o olhar, aconchegando o casaco a afastar um súbito arrepio. O ar da praça, àquela hora da manhã, é lavado e fresco. “Ó senhora Estrudes, estas nabiças são de hoje?”. “Atão não haveram de ser, valha-a Deus. E olhe! Trazia quarenta mãos delas e só há o que vê”. “E quanto custa isso?”.“Por ser para si, e só para não dizer que as levo para casa, faço-lhe os dois molhos por trazentos escudos”. “Duzentos?” .“Traazentos”!, confirma, enquanto remexe os trocos no bolso fundo da bata e faz vaguear o olhar matreiro pelos ares, fingindo ignorar que ainda ali estou. Divirto-me com este toca-e-foge. “Não, não quero.”. Retiro-me devagar, dando-lhe o tempo preciso para me chamar. “Psst! Ó menina!” (Só aqui me chamam ainda de menina.). ”Leve lá por duzento xinquenta. Ai, isto não tá p’ra ninguém.”. Cumpriu-se o ritual do negócio. Na minha terra, como em qualquer Marrocos deste mundo.

Na praça está o Senhor Paulo que só tem um dente. Os outros foram ficando pela côdea do cascudo, pela coxa dura de roer da poedeira que deixou de cumprir. Faz contas de cabeça, com rapidez, sonorizadas por uma imperceptível ladainha. Acabado o exercício, afasta o boné para trás, coça o alto da cabeça com a unha negrita do dedo médio e atira o resultado com ar falsamente envergonhado: “Não sará assim?”. “É, claro. O senhor é uma máquina.”. Um sorrisinho de orgulho indisfarçado, os olhos em baixo. “Como um comportador?”. E o sorriso explode em gargalhada rouca e breve.

Na praça conversa-se, de lugar para lugar. É preciso enganar o tempo. “Ó priga, qué feito da tu mãe? Há canto tempo ná a vejo!”. “Tá rija e tesa. Tomara você e eu chegar à idade dela com aquela genica toda. Ah mulher dum sacana! Vai a caminho dos satenta e nove. Faz em Dezembro se lá chegar, se Deus Nosso Senhor quiser. Só lhe digo que inda onte mondou umas leiras de nabiças que só queria que você visse.”.

Na praça as freguesas encostam-se aos tabuleiros. Primeiro ao de leve, só a redondeza da barriga a roçar a moldura. Depois, perante o aproximar de uma conhecida, apoiam o braço, com firmeza. Ficam um bocadinho por ali, a falar. Dos achaques. “Com este tempo húmido, tenho andado à rasquinha aqui deste artelho. Atão na cama, mulher, nem queira saber, parece formigas a subir pela canela da perna. Os anos não perdoam. Isto tem andado mesmo bera.” Dos mortos. “Coitado, parece que vendia saúde, sempre com uma graça, inda a semana passada tive com ele nas Finanças.” .Dos pequenos escândalos. Aqui, a mão em concha encobre meia boca e da outra metade a fala jorra mansa, a prenunciar confidências, a fazer a outra aproximar discretamente o ouvido, a olhar para o chão e a desviar com o pé um recorte de folha de couve… “Isto é um perigo. Não é preciso mais para partir uma perna. Lagarto, lagarto, lagarto!” .Feito o esconjuro certo, não vá o Diabo tecê-las, vão ao que interessa: “Disseram-me há bocadichinho que a Nela… Sim, a Nela, a filha da Ti Canetas. Não conhece você outra coisa. Aquela que morava por cima do Xico da Jula. Ó mulher, como é que lhe hei-de explicar? Aquela que andou metida com o marido da Marimelinda. Pronto. Já tá a ver quem é? Tava a ver que não era para hoje. ”A curiosidade bem espicaçada. A conversa promete. A outra ajeita o travessão que lhe prende o cabelo já grisalho. “Quando era rapariga, tinha uma trança de cabelo a meter inveja a qualquer uma. Da grossura deste punho. Agora, é estas farripas que tão à vista. Ó mulher, vamos ali mais para aquele lado que a gente tamos a estorvar.”. Vão. Para ficarem. Longamente.

A praça é assim. Não é como o supermercado. Ainda há tempo para dois dedos de má língua. “Ora, tudo faz parte da vida! E, a bem dizer, isto não é dizer mal de ninguém. Se não for verdade, estou a vender pelo mesmo preço que comprei.”.

Na praça não há artigos empacotados. O senhor Joaquim tem o tabuleiro tão desarrumado que a rama das cenouras espreita por entre os nabos e os limões. Mas, se procurarmos bem,( “Prècure a senhora à su vontade!”), por baixo de toda aquele emaranhado, encontramos umas beterrabas gorduchas. “Já me têm dito que faz bem ao saingue. Dizem, que eu cá disso não sei nada. E não quer também um pipino? Olhe que lindo!”.

Na praça não há cogumelos, nem rebentos de soja, nem papaias, nem tarambolas. Nomes e cheiros que nos chegam de longe. Mas, no tempo certo, na praça aparece planta de tomateiro e cebolo. Para dispor, claro. E flores! Não, não são as das floristas. Segadas com a foice da erva para os coelhos. “Sim, senhora, dou erva aos meus. Tá visto que comem reção, mas só p’ra variar. E a carne fica logo com outro sabor.” Ah, sim, as flores. Todas juntas, à laia de natureza morta em quadrinho de feira. Um ramalhete de rosas, de mistura com uns agapantos, uns malmequeres. “Quer uma pernadinha de zipsofila? Fica muita bonito com as rosas. Pronto, a senhora só leva o que quer”. Tudo borrifado. Foram apanhadas bem cedinho e metidas em garrafas de plástico cortadas a meio. “Dálias? Nã senhora. Tenho-as lá em botão. E é cada um! Lá p’ra semana, ou p’ra outra, já as tenho abertas. Sim, daquelas dobradas. Lindas!”.

No supermercado não há fruta com bicho. Na praça ainda há. É sinal que não levou produto. “Palavra. Coisíssima nenhuma. Disto pode a senhora levar à confiança. Até se dá às criencinhas. Os meus netos não querem outra coisa. Tadinhos. Lá em Lisboa na apanham disto. Olhe este pêro vermelhinho. Feio? Doce comó mel. É o que lhe digo. P’ra qué queu tava a enganar a senhora? Já não quer os limões? Prontos, eu desarrisco. Todos os males fossem esse.”.

Na praça há sempre falta de sacos de plástico. Bastas vezes, são as freguesas que os juntam em casa e os levam aos fornecedores do costume. “Obrigadinha! Que Deus lhe dê saúde e a mim que não me falte.”.E assim se sai da praça com as compras em sacos exibindo logotipos das grandes superfícies de venda. O mesmo para os ovos. “Quando a senhora tiver lá caixinhas, não as deite p’ro lixo. Se se alembrar traga, que a gente tem sempre precisão.”. A praça vai assim promovendo a reutilização. Não protesta contra os gigantes da concorrência. Aceita-os com conformismo e aproveita-lhes os despojos.

Na praça não se compram ervas aromáticas. A salsa, os coentros, a hortelã, muitos pés com raízes e terra húmida agarrada, são dados, como brinde, aos fregueses bem comportados. Talvez por isso, quase nunca estão à vista. Debaixo ou por detrás dos tabuleiros, meio tapados. Só para quem merece. “Que ele há para aí umas madamas com ares de que todos lhes devem e ninguém lhes paga. Coitadas. Umas cagonas, desculpe a senhora. Vai-se a ver, umas pelintras que não têm onde cair mortas. E a porem defeitos em tudo, com ar de enjoadas. Para essas, não há nada. Nadinha. Prefiro migar tudo e dar aos animais. Isto que a senhora aqui vê é cebola para aturar uns tempos. Qual da Espanha! Essa, a senhora pode pagar menos, mas não vale nada. É o que eu lhe digo. É reles, reles a valer. Esta é da nha horta, quer dizer, da horta do mê filho. Não, na é ele que amanha. Ele tem outras vidas. A gente nova hoje já não quer saber da terra pra nada. Agora é tudo dòtores. Também tou de acordo, sim senhora. Saber mais nunca fez mal a ninguém. Eu cá sou um estúpedo. Não conheço uma letra do tamanho do convento.” O Convento é inevitavelmente o padrão de medida para quem lhe conheceu a sombra. “Cá me tenho governado. Claro, também sei muita coisa que os mais novos não sabem. Mas isso é a senhora que pensa assim. Adiente. Faço a continha ou leva mais alguma coisa?”.

Na praça as conversas são sonoras, sincopadas, metafóricas, vivas. Têm o cheiro agridoce dos coentros e alguma mordacidade das malaguetas. Nascem do pó da antiga linguagem camponesa. Denunciam amiúde a sedução pelas telenovelas brasileiras. É quando as línguas se soltam e os gestos ganham algum nervosismo. “ Aquilo é tudo uma fantochice, mas distrai a gente. É melhor que tar a ver desgraças. Era escusado era mostrarem tanta desavergonhice. Se eu alguma vez na nha vida pensei ver coisas daquelas. Ó Joana, na viste onte aqueles na cama? É pessoal, até fazia faísca!”. Dura pouco o desvario. “Isto é o fim do mundo, é o que eu te digo.”.

Na praça percorrem-se velhos caminhos que nos trazem à memória a espessura do caldo de grandezas e misérias que incorpora a nossa mais profunda ruralidade.

A praça é bem diferente do supermercado. Gosto de lá ir. E de a ouvir.


Licínia Quitério

Nota: Esta crónica foi escrita há uns anitos, antes da criação da ASAE. Muita coisa já mudou. Fica o registo.

1 comentário:

Anónimo disse...

LI ESTA FOTOGRAFIA DUM MERCADO...E NÃO ESTAVA NEM UM BOCADINHO DESFOCADA!
EDUARDO MERCÊ

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