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27.11.10

A CIDADE

O cinzento opaco do céu escureceu a cidade anunciando o aguaceiro. Não tardou. Chuva grossa, pesada, apressada, tanta que a cidade não a conseguiu beber toda. Por algum tempo as ruas da cidade baixa fizeram-se leito de rios de águas escuras, gordurosas, a invadir as casas, a imobilizar os carros. Os homens trataram de expulsar a água das casas aflitas, de secar os rios de ocasião.


Cansado daquele grande choro, o céu foi clareando, primeiro quase a medo, logo logo mostrando amplos rasgões de azul. Era a bonança.

Nas colinas, a cidade, ali escorrida e quase enxuta, movia-se, na sua cadência de todos os dias. Foi quando reparei na couve e nos girassóis e no alecrim crescendo em torno da árvore, e na rede protectora da horta-jardim. Mesmo ali, no meio do passeio, olhando a Sé lá ao fundo e o vinte-e-oito que sobe que desce que sobe que desce. Matreira, esta cidade das couves inesperadas, perto, muito perto do Pátio do Carrasco, envergonhado, espreitando a garridice das Portas do Sol. Não há chuva que lhe tire esta ironia, este sorriso malandro que nos atira em cada esquina. E eu gosto dela assim.

Licínia Quitério

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