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5.5.08

DONA CLOTILDE (em folhetim)

Capítulo 4º.


O telefone tocou. O Ferreira atendeu. Mesmo a propósito, a aliviar a alta tensão que se sentia em volta. Para melhor ajudar a mudança de cena, acabava de chegar um montão de correio de que era preciso tratar. Dona Clotilde não se permitia ter trabalho em atraso. Contendia-lhe com os nervos. Não era pessoa de reclamar, de reivindicar, como diziam agora os “comunas”. Dizia a palavra espúria entre dentes, não fosse algum deles (que os havia por todo o lado) ouvir e dizer como a Dona Elvira, da outra vez, na sua linguagem desbragada, muito peculiar: “Isso de comuna por acaso é comigo? Pois, partindo do pressuposto, também lhe digo que antes comuna que cornuda como certas madamas que eu conheço, a armar ao fino.”. Se tivesse um buraco tinha-se metido por ele abaixo. Mas calou, a fazer de conta que não era nada com ela, as mãos a tremer, ainda por cima na altura crítica de lacrar um envelope. Continuava firme nos seus princípios sobre as regras de bem viver: “Ca-da ma-ca-co no seu ga-lho!”. Silabava o aforismo, espaçadamente. Uma frase inteira sem “erres” era para ela um raro prazer de oratória que não podia dar-se ao luxo de desperdiçar. Cumpria o seu dever o melhor que sabia e o patrão, graças a Deus, nunca faltara com o ordenadinho no dia certo. Isso mesmo. Como o mundo seria melhor se todos pensassem como ela e, muito mais importante, se assim procedessem. Respirava fundo, de bem consigo própria.
Quando aquilo aconteceu, gritou, chorou, arrepelou a cabeleira farta. O corpo ficou-lhe cheiinho de urticária. Parecia um bicho, salvo seja. Uma porcaria daquelas na sua casa, não! Passaram-lhe coisas muito más pela cabeça, confessava. Se tivesse uma arma ali à mão, tinha acabado com os dois. Mas não tinha, graças a Deus. O certo é que a expressão dela devia ter sido medonha, de tal modo que os dois pombinhos, apanhados em plena e gostosa prevaricação, vestiram à pressa o que tinha sido despido, pegaram nos sapatos, não perderam tempo a calçá-los, e, ala que se faz tarde!, desceram a escada íngreme como se tivessem asas e sumiram-se da vista, toldada pela raiva, da infelicíssima Dona Clotilde.
Como sofreu, dias e noites a fio sem pregar olho. A casa parecia-lhe enorme, sem aqueles dois. Um túmulo, a bem dizer.
Lentamente, começou a deitar contas à vida, às voltas com o seu tormento. Sentia um ódio feroz contra um mundo inteiro que a teria traído, deixando-a como barata virada, a espernear em busca do equilíbrio perdido que lhe assegurasse nada mais que a própria sobrevivência. Apercebeu-se de que, apesar do cansaço, não poderia abrandar o esforço. Tinha de conseguir. Só mais um impulso, bem controlado, e a carapaça voltaria a erguer-se sobre as patitas retorcidas, cambaleantes, a princípio, mas capazes de a tirar debaixo daquele tapete que ameaçava sufocá-la, antes que a curiosidade de algum gato a descobrisse e, num gesto ágil, lhe desfechasse o golpe final.
Deles, nem sinal. Até ao dia em que o telefone retiniu pelas concavidades da casa, de súbito desperta. Atendeu, toda a tremer. A voz dele, num sussurro: “Quero ver-te. Precisamos falar. Eu explico tudo.”. Um tampão na garganta, um zumbido a atravessar-lhe as têmporas. “Está? Está?”. A voz dele, numa interrogação onde se percebia insegurança. Alguém, que não ela, respondeu finalmente por dentro da sua voz: “És tu, Tavinho? O que aconteceu?”. A voz dele, a insistir, já mais seguro: “Precisamos falar. Não te aflijas que tudo se vai arranjar. Confia em mim.”. A mão que segurava o auscultador foi descaindo, o som da voz dele continuando, afrouxando, até não se fazer entender. Desligou. A voz do Tavinho, em eco: “Confia em mim.”. Sentou-se devagar no cadeirão de verga, apoiou as mãos no colo, o olhar fixo nas grandes flores dos cortinados de cretone. Assim ficou, até deixar de sentir as pernas, dormentes como a sua vida.


continua...


Licínia Quitério

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