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17.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO 3

Fora casado, uma vez. Por amor, claro, como tudo o que fez na vida. Não durou muitos anos a relação. Adivinhava-se que alguma grande dor lhe tinha ficado, pela maneira ligeira, em suspiro, com que se referia, muito raramente, à Mulher. Conservador, católico não praticante, como se costuma dizer, fazia finca-pé na indissolubilidade do matrimónio. Por isso, só por isso, recusou, até a lei lho permitir, o divórcio. Embora gostando de muitas mulheres, continuava a amar a “sua” Mulher. Filhos, tinha havido, nados-mortos. Lamentava, mais por ela, a pobrezinha, de maternidades frustradas, que por ele.
Era conhecido e estimado no seu bairro da Lisboa antiga, como um prior de aldeia. Para os mais velhos, o Menino Jorge, para os mais novos, o Senhor Doutor. Não era licenciado, não era vaidoso, mas fazia questão de não esclarecer o equívoco. Explicava: “Não vou desapontá-los. Assim são mais felizes.”
No rés-do-chão do prédio que habitava, funcionava uma padaria. Quando chegava a camioneta da lenha, as coisas complicavam-se na rua estreita e movimentada. O carro encostava de tal modo à casa que a porta do G ficava bloqueada. Nesses dias, telefonava para o emprego e explicava em tom lamentoso e algo enigmático: “Não posso sair de casa enquanto não descarregarem a lenha.” Até que um dia o vizinho, pedindo desculpas pelo repetido incómodo, lhe disse: “O Senhor Doutor só tem que me pedir a chave do carro. Depois, entra por uma porta e sai pela outra.” Ficou deliciado e não perdia a oportunidade de atravessar a viatura que afinal, como comentava, tinha porta para o Paraíso.
Não tinha carro, nem carta de condução. Gostava de viajar em transportes públicos, onde colhia elementos para histórias deliciosas que depois contava, divertidamente teatralizadas. Tinha processos muito próprios de atrair as atenções. Frequentemente, lia um livro ou um jornal de pernas para o ar e espiava, deliciado, os olhares algo aflitos dos passageiros perante aquele senhor tão bem posto e que afinal parecia ter um parafuso a menos.
Não se interessava muito por viagens. Preferia as suas viagens interiores, os seus mundos sonhados, sem horários nem cansaços. A primeira e única vez que foi a Londres, por obrigações de serviço, pouco saiu do bairro em que, dizia, as casas eram todas irritantemente iguais, parecidas com jazigos de família. Passeou por Saint James Park, mas, para além de cisnes e pessoas mal vestidas, pouco mais encontrou. E depois, falavam todos inglês, aquela língua horrorosa... Para ele, o francês, isso sim, era la langue de Dieu, mesmo quando dela se servia para dizer: “Volto já. Vou ao cabinet d’essences”. Se estava ocupado, batia com os nós dos dedos na porta, com suavidade, e gemia, desta vez em italiano: “No po più”. Invariavelmente, o ocupante, intrigado, apressava-se e dava-lhe o lugar.
Dele se pode dizer que não devia ter morrido tão cedo. Mal tinha passado do meio século, quando a doença se mostrou, óbvia, ameaçadora. Não tinha paciência para estar doente. Levou para os hospitais a tradução de espanhol de um livro sobre arte em que andava empenhadíssimo. “Que má altura para ficar doente!”, lastimava-se. “É que não tenho tempo!”.

(continua)


Licínia Quitério

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