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7.3.08

ERA TÃO ENGRAÇADO (2)

Tinha um cágado chamado Horácio cujas unhas pintava de vermelho, sempre que terminava a sua letargia do Inverno, para, como dizia, lhe tornar mais alegre o regresso à Vida. O grande e velho andar onde habitava estava infestado de baratas, com que convivia sem repugnância, recusando que as envenenassem. Encarregava a gata preta, a Dona Antónia, de as afugentar, em correrias e saltos pelo corredor comprido, na calada da noite.
Quando se deitava, postava os sapatos a par, muito alinhados, virados para a porta. Dizia que não eram sapatos, mas barcos, e, como tal, deviam estar sempre prontos a zarpar do porto, apenas aguardando ordens do almirantado. A criada velha benzia-se: “O Menino tem cada uma! Já sabe que essas coisas me assustam!”.
A sua relação com o dinheiro era altamente dinâmica, ao ponto de o fazer sair antes de ter entrado, o que lhe permitia viver em deficit permanente que, aliás, considerava o único processo estimulante de gerir os proventos. Como era de uma grande seriedade, o saldo inquestionável dos seus compromissos permitia-lhe fontes de crédito totais e variadas. Costumava dizer que estava assegurando a imortalidade, porquanto fazia sempre os possíveis por não ter onde cair morto.
Detestava que lhe exigissem horários, prazos. Trabalhava quando queria e exclusivamente por prazer. Chalaceava, ditando aos amigos o epitáfio que gostaria lhe pusessem na sepultura: “Aqui repoisa quem nunca fez outra coisa”. Mas trabalhava muito, noite fora, como gostava, cigarro sobre cigarro, escrevendo, escrevendo, na mesa fradesca, rectangular. Abominava mesas redondas cuja ausência de cantos, afirmava, produzia a queda assídua dos cinzeiros, seus companheiros de vida e de morte.
Comia e bebia do melhor, nos mais elegantes restaurantes, durante a primeira semana do mês. Depois, até ao próximo ordenado, era cliente altamente considerado dos tascos castiços e algo imundos da cidade que era a sua. Quando o cozinheiro, a escorrer gordura, vinha propositadamente da cozinha, com o polegar enfiado no empadão a rescender na travessa, fazia-o por deferência para com o Xenhor Doutor que honrava a casa com a sua presença. “Dejejo que lhe xaiba às maravilhas.” E sabia. O G ficava bem em qualquer cenário, sem se constranger. Inconfundível.
Dizia gostar de ter sido Papa, que achava o cargo mais atraente do mundo. Ter-se-ia chamado Papa Açorda I. No seu escritório-biblioteca, tinha uma casula e outros paramentos, hieraticamente dispostos num cabide de pé. Nas vitrinas, um livro de cantochão, um cálix e respectiva patena e muitas outras preciosidades que ali tinham chegado por heranças ou por via das muitas visitas a antiquários que insistiam para que mantivesse a sua conta-corrente. Um figurão, este G.
Vivia em estado de paixão permanente. Procurava a frescura das mulheres jovens, a eterna primavera nas montanhas de que carecia para respirar fundo. Sofria, em profundidade, sucessivos desaires amorosos, nunca se deixando porém vitimizar. Quando, mais uma vez, uma rapariguinha de dezoito anos trocou os seus encantos de homem maduro e sabedor pelos ímpetos de um jovem macho afirmativo, lastimou-se por ter sido preterido por alguém com um defeito físico evidente. Qual? Usava óculos, o infeliz.
Os amores proibidos perturbavam-no. Não era homem de clandestinidades. Quando um dia se pegou de paixão por uma dama casada, ficou cheio de pruridos pela traição que, em seu entender, o pobre do marido não merecia. Cedeu, a custo, a todas as incitações e excitações da aventura, tanto quanto o picante da situação o convenceu. Mas a uma coisa resistiu: O pijama do marido, não. Recusou a pele do outro. Coitado, bastava-lhe a da mulher. Começou a ter pesadelos recorrentes: alguém o perseguia, de noite, na rua, com uma faca na mão. Acordava com o coração a pular, banhado em suor. Foi, talvez por isso, uma aventura com um único capítulo.

(continua)


Licínia Quitério

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