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4.10.08

A FONTE

Há frases que nos atravessam recorrentemente como se quisessem falar por nós. "Nadie escribe al General", o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez, muitas vezes se me cola ao pensamento, impertinente, assim mesmo em castelhano, como o li. A tal ponto se impõe que já o tenho repetido a alguém, em voz alta, a sublinhar lamentos de desamparo, decepções por eternas esperas. Vem isto a propósito do pormenor de foto que aqui reproduzo, sem licença prévia do autor que também é o construtor da pequenina fonte. Chegou ontem, ao fim da noite, triunfante, acompanhada de uma breve carta electrónica. Explicava que memórias persistentes da infância lhe exigiam uma fonte. Andou a fazê-la, devotadamente. Já a tem. Só faltam uns pequenos arranjos a darem mais consistência ao quadro. Agora sorri ao ouvir a voz do fiozinho de água a correr para os fundos. Ali perto, o maior bicho é o gato da casa que compõe o seu ar falsamente desinteressado da novidade. Mas o dono pode ouvir os chocalhos dos grandes animais que se vão dessedentar, à tardinha, como dantes. Aposto que um dia destes contará ao neto uma história de encantar: Era uma vez uma fonte, era uma vez...
Se todos soubéssemos assim reconstruir os nossos lugares, bem poderia eu afastar as palavras de "Gabo" e prendê-las na capa do livro que fala do General que esperava uma carta que tardava. O meu amigo não ficou à espera. Escreveu-a.

Licínia Quitério

3 comentários:

M. disse...

Às vezes são comoventes os desejos dos homens. Ou se calhar sê-lo-ão sempre, já que se pertencem uns aos outros e isso é que importa nesta breve vida de vagabundos deste mundo.

Justine disse...

"...que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer"!
Mas apesar de gente como o teu amigo, haverá infelizmente sempre lugar para o lamento do Gabo...
Texto muito bem escrito, como sempre:))

Perdido disse...

Não percebo nada de cartas que se esperam e de cartas que não se escrevem. Tudo isso será devido, porventura, a não perceber nada de generais que é uma confissão que oculta o facto de nunca ter lido Garcia Marquez.

Vou procurar não me culpar dos erros e omissões que cometi ao longo da minha errática vida. E tu também não te culpes por não teres licença prévia. Porque, saldadas as contas, o teu construtor também não deve ter licença de construção e a fonte aí está com o seu fiozinho de água murmurante e a aproximação da bicharada.

Como tudo tem um ar intensamente bucólico, vou pôr no quadro um zumbido de abelhinhas, e o suave soprar do vento e remeter o teu dono, salvo seja, o dono da fonte que, ao fim e ao cabo, virá a ser o bichano da casa, esse orgulhoso ser pretensamente alheado do que ali à volta se passa, repito: remetê-lo para uma cena de Horácio

Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi silvestrem tenui musam meditaris avena; nos patriae finis et dulcia linquimus arva. nos patriam fugimus: tu, Tityre, lentus in umbra formosam resonare doces Amaryllida silvas.

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