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27.9.08

"CURVA OBLÍQUA"


Gosta de poesia? Julguei que ouvira mal. Gosta de poesia? Quase um murmúrio. Franzina, jovem, vestida de negro. Com um monte de papeis mal contidos numa capa de plástico azul claro que agora entreabria. Quer ler um dos meus poemas? Eu disse, também em voz baixa, sem saber porquê: Gosto. Deixe-me ler. Ainda não tinha tempo de acabar, já novas perguntas: E este? Quantos quer? Parei de ler. Olhei-a bem nos olhos e disse: Escreve muito? Precisa de ajuda? Não sei se lha posso dar. Logo me arrependi da incoerência do discurso. Sem me dar conta da grande idade, as costas ainda aprumadas, o olhar demasiado brilhante, quase senti vergonha de ter ali defronte uma jovem embrulhada em negro, curvada ao peso de papéis desalinhados e de aflições com que dizia escrever poemas. Que vendia. O rendimento mínimo, a renda do quarto, a solidão que não era a falta de companhia, era sim um aperto por dentro da cabeça, a ameaçar estoirar. Disse-lhe que tinha um blog. Se me deixava publicar. Sim, sim, agradeço-lhe muito. Que nome devo citar? O meu nome literário é Cília Ramos. Depois tirou-me o papel da mão e escreveu no verso outro nome. O autêntico. Leonora. Ponha este. E por baixo, em letras de mão sinistra, Nair Leonora Correia. E o contacto: 91....... Tudo isto sem altear a voz. Às vezes a polícia causa-me problemas. E eu a passar-lhe uma nota, a olhar em volta, estranhamente com receio de ser apanhada em flagrante. Quer mais? Eu tenho cópias. Não tive coragem. Fiquei com este que abaixo transcrevo. Incomodada, sem saber traduzir o que me fora dado ouvir e ver, despedi-me. Escreva sempre. Um dia a claridade virá para a sua vida. Frase desajeitada, pedante. Ela deu um saltinho para se reaproximar. Obrigada. Dê-me um beijo. Curvei-me um pouco e dei-lhe dois e ela a mim outros dois. Nem me virei para a ver afastar-se. Subi a rua. Entrei no café e pedi uma bica ao balcão. Cá fora, no passeio, Fernando Pessoa continuava impávido, ouvindo o sino da sua igreja e pousando para a eternidade com um turista à bandoleira.

Licínia Quitério

CURVA OBLÍQUA

A noite descreve uma curva
Oblíqua sobre a cidade
Dentro ou fora desta
Milhares de corpos são lambidos
Pelo calor...
E há um cheiro a morte
Ruidosos os corpos e as bocas
Agitam-se
A noite estende-se como um lençol
Porém quando tornarmos a olhar
A madrugada chega e com ela
O canto das aves
E faz-se silêncio
Rasgado apenas aqui e ali
E a noite descansa para voltar a repetir-se
Na curva oblíqua que a descreve

Nair Leonora Correia
Lisboa, 27/09/08

4 comentários:

Justine disse...

História (presumo que verdadeira) pungente, Licínia.
O poema, acho que bem construído, mostra apesar de tudo uma cintilação de esperança. Que caso!

P.S.: só hoje, sei lá porquê, descobri que este teu sítio também aceitava comentários. Pensava que não...

AnaMar disse...

Relato fascinante (pela escrita!) de uma situação dolorosa, que infelizmente não é única.
E o poema é bonito, apesar do apelo desesperado de dias e noites sem surpresas.

Gosto muito deste seu espaço.
Um abraço.

M. disse...

Sintomático este clicar sobre as horas? Pensei nisso. Não passamos nós por elas? Ou elas por nós? A tua história vivida está, na minha ideia, de certo modo relacionada com isto.

Perdido disse...

Ficando para uma outra oportunidade rever e comentar o teu blogue, Venho aqui hoje apenas para informar que o meu novo blogue se intitula "O Lugar & os Monos" e que tem o seguinte endereço [ http://perdido-teste.blogspot.com/ ]. Os postais expedidos de O Tremontelo estão acessíveis a partir do novo blogue. Beijos e abraços. Rodrigo (Perdido)

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