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19.11.08

PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA

"A linguagem conhece dois trabalhos: um como escrava, outro como soberana. No primeiro serve, no segundo oferece. Se um gesto aponta alguma direcção, então o gesto é só um instrumento e vê-se, à transparência, através dele. Se um gesto é feito por um bailarino, ninguém procura o seu significado. A história da dança não foi mais do que o anseio para passar de classe, para deixar de estar em nome de outra coisa e impor a intensidade do momento.
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
(excerto do prefácio, da autoria de Hélia Correia, ao meu livro de poemas "De Pé sobre o Silêncio")

2 comentários:

Justine disse...

Sou fã antiga da escrita da Hélia Correia, e este prefácio está um primor!
E ainda por cima é amante de gatos...:))

Rodrigo Rodrigues ("Perdido") disse...

Como sou mais para o prosaico, e já que este não tem muito em comum, achava estar fadado a não perceber patavina do que lia e ficar perdido a meio do texto.

Entretanto, o gato apareceu e ficou tudo muito claro.

Claro!

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