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7.11.08

A ALFACE













A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.

Licínia Quitério

P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.

1 comentário:

Justine disse...

Que belo texto, amiga!Poético, telúrico, humano, encantador e encantatório!

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