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24.7.08

TEMPO DE CIGANOS

Este é um excerto de um texto meu escrito há muito sobre memórias de infância. Porque hoje e neste meu país se fala muito de ciganos, lembrei-me de relê-lo e, já agora, de o publicar. Eram assim os ciganos que os meus olhos de menina retrataram. Como são hoje os ciganos? Melhores, piores, outros? E nós, os não ciganos, como somos? Melhores, piores, outros?


...Mais pobres do que todos os pobres, mais sujos do que todos os sujos, um dia chegaram ao Beco os ciganos. Vestiam andrajos cor de terra queimada, carregavam fardos informes nas ancas e nas costas. Eram uma família: o pai, de chapeirão com abas roídas, vinha ligeiramente adiantado, marcando o território com passos largos e pesados. A seguir, uma velha com cara de tartaruga, o lenço a escorregar-lhe da cabeça rapada, em sinal de viuvez inconsolável. Depois, a mãe, estranhamente elegante na saia rodada a que se agarravam dois rapazinhos de olhos brilhantes como brasas. Um deles, o mais franzino, segurava na mãozita uma corda onde amarrava um cão famélico, de traseiro descaído à maneira de lobo envergonhado.
Vinham ocupar um tugúrio que ficara vago, por morte do velho patriarca do Beco, de nome oficial desconhecido, mas a quem toda a gente chamava, sem ofensa, o Ti Capado. Não sei donde lhe viria tal alcunha, mas se alguma coisa significava, dificilmente se explicaria a prole que lhe era atribuída.
Vigiados pelos olhares apreensivos dos habitantes do Beco, instalaram-se sem grandes ruídos, trocando entre si palavras cantaroladas, em frases breves que ninguém entendia.
Ciosos dos seus não haveres, conhecedores da fama de ladrões que os ciganos transportam pelo mundo fora, nessa noite todos se recolheram mais cedo e fecharam as portas à chave.
No dia seguinte, a cigana mãe sentou-se à porta a pentear os cabelos longos e oleados, os filhos brincando com o lobinho-cão e a cada habitante que aparecia dirigindo um arrastado: Bom dia, viziiinho... Foi esta a senha para romper o círculo de temores e desconfianças. Bom dia, senhora. Como se chama? arriscou a lambisgóia da Fernanda Fininha. Preciosa, vizinha. E o seu homem? Antonho, vizinha.
Foi fácil. Já se dizia lá pelo Beco: Afinal são com’a gente.
De que viviam, pouco se sabia. Falava-se vagamente de negócios de burros pelas feiras, mas burro algum passou pelo Beco. Ao certo, só se sabia que a fome os apertava. Preciosa e os filhos aprenderam depressa a bater às portas das casas da rua grande, mendigando pelas alminhas de quem lá tem um bocadichinho de pão. Quando uma vez a Dona Celeste, impressionada pela sujidade que os recobria, lhes ofereceu um pedaço de sabão, a Preciosa indignou-se e desdenhosa atirou: Para que quero eu sabão? Ainda se fosse pão... Vá lá compreender esta gentinha. Uns ingratos. Uns porcos e uns ingratos, é o que são. - comentava a Dona Celeste com as amigas.
Como chegaram, assim partiram. Ninguém deu pela mudança totalmente imprevista. Quando o Beco acordou, bem cedinho, ouviu-se a voz sonante da Maria do Raul: Foram-se embora, foram-se embora! Quem? perguntou alguém ainda estremunhado. Os ciganos. Levaram tudo o que tinham. E o cão? O cão também. Os miúdos já se tinham habituado ao rafeiro. Que gente mais esquisita. Que vão para o diabo que os carregue. A gente a tratá-los tão bem e abalam assim, sem mais nem menos. A honra do Beco fora de certa maneira ofendida. Mas as novidades só duram três dias. E tudo voltou à miséria estabelecida, sem sobressaltos de estranhas gentes.


Licínia Quitério

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