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3.6.08

O ROUPEIRO (2º. episódio)

Davam depois um passeiozinho à beira-mar, o braço dele oblíquo, a enfiar no dela. Não há melhor que este sol e este cheirinho a maresia. Saía-lhe um arroto que ameaçava sonoridades inconvenientes, logo travadas por um apertar de maxilares e uma pressão forte dos três dedos maiores da mão apressada. Com licença! E o olhar dela, de través, reprovador. Desculpa, filha, não pude evitar. Regressavam a casa cedinho, para evitar as bichas, essa praga que dá cabo dos nervos a um homem e obriga a um despesão em gasolina. Já para não falar no desgaste da “embriage”, com aquele para-arranca, para-arranca… Resumia o quadro, queirosianamente: Uma seca, menina!
Corriam assim as semanas, os meses, os anos. Todo o tempo arrastado num bocejo de felino, a vida num tabuleiro de xadrez arrumado, cada peça imóvel na sua casa originária, à espera dos jogadores.
Na rua do escritório que dava trabalho ao F., havia outros escritórios onde seres seus semelhantes se ocupavam de tarefas igualmente monótonas, sublinhadas por gestos sempre iguais, repetidos até à sonolência, como se de digestão de almoço desmesurado se tratasse. F. conhecia os seus homólogos, de se cruzar com eles diariamente, nos mesmos quarteirões, às mesmas horas.
Depois do almocinho de lancheira, num desvão do escritório, pomposamente chamado de bar, ia tomar uma biquinha à Pastelaria Mèlita, ao balcão exíguo, mas onde, com boa vontade, cabia ainda muita gente. Do lado de lá do balcão, moviam-se, com grande incómodo, os donos, dois irmãos que obviamente se odiavam, e um pobre empregadito que ambos maltratavam, descarregando sobre ele os rancores espartilhados por um pacto social firmado nos tempos em que decidiram juntar os magros pés-de-meia e tomar de trespasse o pequeno café. Acreditavam que uma sociedade entre irmãos seria coisa para prosperar e durar. Os laços de sangue para alguma coisa haveriam de servir. Enganaram-se. A exiguidade do espaço e dos afectos vinham corroendo as bases da sociedade e hoje dificilmente disfarçavam semblantes carregados e congestionados, pragas inaudíveis arranhando-lhes as gargantas. Mas a clientela não tinha de sofrer por isso. Era indispensável segurá-la, tratando-a com mimos. Um dos irmãos, um celta puro, de Arcos-de-Valdevez, arrepanhava os lábios finos e desbotados e ordenava: sai uma bica para o Senhor Doutor X, ou para o Senhor Engenheiro Y, ou para o Senhor Major Z, ou para a Menina Alicinha. Identificavam meticulosamente os clientes. Quem lá fosse mais do que uma vez seria de pronto investigado, de molde a poder ser tratado pelo nome, oportunamente precedido do título académico, se fosse esse o caso. Era um ponto de honra da casa. Na Mèlita não podia haver anónimos.
A Menina H. também tomava bicas na Mèlita. De tantas vezes se encontrarem ao balcão, o F. começou a esboçar um cumprimento. Bons Dias, Menina. Seguiram-se os sorrisos, as frases curtinhas, até que o diálogo se deixou desatar. Tímido, o F. falava do tempo que fazia, deste calor abafado que nos faz transpirar, e deitava um olhar brilhante às pequeníssimas pérolas de suor no buço discreto da Menina H. Acabavam por sair juntos, a despedirem-se por alturas do escritório dela, com um até amanhã de olhos nos olhos. Dias passados, já se apertavam as mãos, sem grandes delongas, tudo muito respeitosamente.

(continua)

Licínia Quitério

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