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31.10.07

ZÉ NETO

O seu nome? O seu nome? O Zé Neto emite sempre um duplicado das suas frases. Pediu-me um cigarro, um cigarro. E lume, e lume. Só depois me perguntou o nome. Maria, disse. Virou-se para os poucos circunstantes, o cigarro aceso entre o dedo médio e o anelar e anunciou, na voz volumosa e rouca: O nome oficial é Maria. Maria o nome oficial. Ninguém o ouviu. Também ninguém o olhou.
Um destes dias, encontrou-me numa loja e disse: Iogurte, iogurte. Acompanhou-me ao expositor e, antes que lhe perguntasse, apontou com os dedos grossos e sujos, peremptório: Destes, destes. Por entre a profusão de marcas que me confunde, O Zé Neto sabe o que quer.
Quando os demónios o atormentam, grita ou canta. Sabe estribilhos de canções e repete-os. Por vezes, cria as suas próprias letras. Tão loucas como as de qualquer poeta em confusão.
Zanga-se muito. Só ele saberá com quem. É quando solta palavrões, alto e bom som, em duplicado, em triplicado, tantas vezes quantas a raiva o exigir. Como qualquer de nós gostaria de fazer.
O Zé Neto tem sempre muito calor. Há dias em que não suporta a roupa e se despe. Chega a ficar só com as cuecas. Claro que escandaliza as pessoas de bem. O Zé Neto não sabe que não é um jovem atlético e que a rua da vila não é uma “passerelle”.
Já o tenho visto dançar. Nas ancas tem ritmo de “twist” e os braços ensaiam figuras de ginástica aeróbica. De fazer inveja a muito pé-de-chumbo que por aí anda.
Devo dizer que nem sempre é assim destrambelhado e exuberante. Hoje encontrei-o sentado numa esplanada, de perna traçada, recostado, com um cigarro apagado entre os dedos. Tem lume? Tem lume? e nem sequer destraçou a perna. Cheguei-lhe o isqueiro. Aspirou fortemente, repetidamente. Entre duas fumaças, atirou: Obrigado, obrigado.

Há dias em que o invejo. Tão livre, tão livre.
É doida, é doida.


Licínia Quitério

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