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12.10.07

"HÁ QUE RESISTIR!" (parte 3)

Em temas como este, tinha dificuldade em manter a calma. Revoltas insanadas vinham à tona e faziam-no limpar repetidamente os cantos da boca com o lenço, como sempre fazem os velhos. Quase esquecera o que queria contar, mas depressa retomava a narrativa.
O rancho, a comida da soldadesca, talvez por ser tão má, sobrava sempre. Em vez de a deitarem no lixo, decidiram as altas instâncias, sempre generosas, que as crianças pobres podiam vir buscar os restos, “se quiserem, que há muita ingratidão nessa gente”, como diria o senhor Administrador, dono civil da Terra e das gentes. Quiseram, claro, que barriga vazia não escolhe pitéu. Era vê-los, os miúdos mais pobres, em magotes, organizados, pé descalço, batendo nas latas, que serviam de tacho, com as colheres, cada vez mais retorcidas, imitando os rufos dos tambores do exército de cujas sobras faziam, quantos dias, a única refeição.
Da filha, falava sempre com ar enlevado. Fora uma aluna brilhante, compreendera cedo os mecanismos da injustiça social. Dirigente estudantil, escapara da prisão por uma unha negra. Com ela não falava de política. Não era preciso. Sabia que estariam sempre do mesmo lado. Quando veio a festa da Liberdade, desfilaram nas ruas, lado a lado, entoando canções há muito sabidas, de esperança e despertar. Mais do que Pai e Filha, dois Irmãos de sangue e de luta. As lágrimas rolaram-lhe pelas faces, abundantes, imparáveis. Um Homem não chora? Quem disse? Todo o Homem chora quando a Felicidade o agarra pela garganta. Nesses momentos raros, perde a fala e ganha o choro.

Há dias que não aparecia no café, depois do almoço, onde o esperavam, na mesa do costume, a bica e o bagacinho a estalar entre a língua e o palato. Estranharam a ausência. Foi averiguado o que teria acontecido ao velhadas, tão quezilento quanto amigo do seu amigo. Depressa se soube. O neto mais velho, filho da filha, para ele ainda um menino, apesar da barbicha a emoldurar-lhe o rosto fino, fora apanhado nas malhas viscosas da droga. Como clímax de um caminho de sombras há longo tempo percorrido, estava preso “por tráfico e consumo”, tout-court. Tinham andado a esconder-lhe a verdade que agora o aguilhoava em cheio, em pleno peito. Todos tentaram acalmá-lo. Em vão. Revolvia-se na cadeira e dizia, com os olhos aflitos, muito abertos: “Corja de assassinos! Sempre o dinheiro a encher-lhes o cu! Vampiros, a sugarem o meu Menino!”. Cantarolava, em toada lamentosa: “Eles comem tudo, eles comem tudo…”. A filha, em estátua de dor, afagava-lhe as mãos, frias, arroxeadas. A ferroada no peito era cada vez mais forte. A alargar-se para os braços, em cruz, insuportável. Levaram-no para a urgência do hospital, onde chegou, como disseram os técnicos, “já cadáver”.
O caixão foi coberto pela bandeira do Partido em cujas causas acreditara e pelas quais lutara toda uma longa vida. Na casa mortuária, uma velhota benzia-se e rezava-lhe por alma. Como ele se devia rir, lá dentro, já sem perseguições nem decepções. Por certo, não perderia a oportunidade para uma boa imprecação: “Coitada, não é má mulher, mas sempre foi muito burra. Talvez ainda vá parar ao Governo! Quem sabe? Como as coisas estão, não é de admirar!”. Poder-se-ia afirmar que uma risada mais forte, que não pudera conter, fora responsável por um levíssimo estremecimento dum cravo vermelho que lhe depuseram sobre o vulto das mãos convenientemente sobrepostas.
Homens como ele têm funerais breves e não constarão nunca da toponímia das suas Terras.
Há que resistir!

FIM
Licínia Quitério

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