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7.11.07

HÁ DIAS ASSIM

Ele há dias assim. Tudo corre mal. Foi aquela dor no pescoço. Só dei por ela quando acordei estremunhado com o plim-plim, plim-plim da campainha da porta. Sem parar, a malvada. Levantei-me de um salto, pus os pés no tapete e não é que não consegui virar a cabeça sem soltar um grito? Uma dor áspera, antipática. E a campainha plim-plim, plim-plim. Agastado, de pescoço ao lado, espreitei pelo visor da porta. Um rosto feminino, jovem, de óculos de aros azuis. Deformado pelo vidro, fazia lembrar aquelas imagens no espelhado convexo dos antigos bules cromados. Compus o pijama, abri apenas uma nesga da porta. A jovem adiantou um passo e as pontas dos nossos pés quase se tocaram. ”Muito bom dia!”, disse. “Bom dia. Que deseja?”. “O meu nome é Sandra Santos. Pode dar-me um minuto de atenção?”. Empunhava uma esferográfica assestada a uns papéis que se desdobravam sobre uma pasta rígida. Sem me dar tempo a responder, disparou: “Tem telefone?”. E eu, de pescoço ao lado, demorando a responder. “Tem telefone?”, insistiu. “Preciso saber. No seu interesse.”. Recuei. “Faça favor de entrar.”. Ela avançou, os olhos em relance pelo hall. “Já vejo que tem.”. O cão irrompeu pela casa e desatou a ladrar. “Hoje não está sociável, o Poker. Quieto, Poker, quieto!”. Lá se sentou, rosnando. A jovem manteve-se imperturbável, elegante na sua gabardina com gola de pele sintética. Apenas deu um toque de circunstância a ajeitar uma haste dos óculos, quando o Poker ameaçou abocanhar-lhe o cano enrugado de uma das botas. Mas continuou. “Quantas pessoas utilizam este telefone? Quanto gasta em média por mês em chamadas? Não gostaria de poder falar mais e pagar muito menos?”. E eu, de pescoço hirto, respondendo em monossílabos, um olho no Poker o outro no pijama de uma justeza inconveniente. E eu já sem a ouvir, nem ao rosnado do Poker, nem ao martelo pneumático que começara a função nas obras do passeio em frente. E a jovem também martelando sons em que eu não encontrava nexo. E a dor no pescoço, a cada tentativa de torsão, intensa, agreste. Num rompante, pôs-me a esferográfica na mão e eu percebi, mesmo sem ouvir, ela dizer: “Assine aqui.”. E apontou-me o dossier, como uma faca. A dor no pescoço agudizou-se. Senti a fúria tomar conta de mim. “Nem pense!”, disse. “Não assino nada. Não quero pagar menos do que pago. E nem sequer tenho telefone. Aquilo que ali vê é de plástico. O brinquedo preferido do Poker.”. Foi a vez de ela recuar. Pareceu-me enfim feita de carne e osso. “Não entendo…”, disse. “Pois não.”, disse eu. Encaminhei-a para a saída. Fechei a porta com demasiada força. O telefone tocou. Fui atender. Uma voz masculina, do outro lado: “O meu nome é Marco Santos. Tenho umas perguntinhas para lhe fazer. No seu interesse.”. Soltei o meu palavrão preferido seguido de "eu não tenho telefone" e desliguei. Há dias em que tudo corre mal.
“Senta, Poker, senta! Cão maluco…”.


FIM


Licínia Quitério

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