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14.11.07

DESVAIRADAS GENTES (Folhetim)

Fascículo 1º.

Traz lugar? Perguntou o homúnculo por detrás do balcão, por debaixo dos capachos e dos mata-moscas pendentes do tecto, entalado entre os grandes frascos de rebuçados e a pirâmide multicolor dos alguidares de plástico. Ao silêncio de incompreensão do cliente, repetia aparentemente agastado Traz lugar ou precisa de um saco? É que temos poucos. Assim se falava na Drogaria Moderna, de João Cipriano (Herd.os), Lda., mais conhecida no bairro pelo Tem-Tudo. Fica numa dobra de velha Calçada de Lisboa, sinuosa como a história da própria Cidade, povoada de pequenas lojas que, tal como o Tem-Tudo, resistem, não se sabe bem como, à avalanche inexorável das novas modas.
Gritos de mulher, onde era notória a rouquidão da raiva, ouviram-se no Tem-Tudo, nesse princípio de tarde de Primavera. Os clientes, três na ocasião, viraram em sintonia as cabeças para a porta e entreolharam-se numa mudez que, se soasse, diria O que será?. Só o Senhor António continuou, imperturbável, a pesar a goma, nem um grama a mais, o olho assestado no fiel da balança, o cotovelo direito alçado, a manter o ritmo lento da saída das pedrinhas brancas do frasco com rolha de esmeril.
O Senhor Amaral, que tinha a banca do Totobola e de outros jogos da Santa Casa, tudo muito legal, nada de trafulhices, instalada em espaço sub-alugado na entrada do Café, Snack-bar e Churrascaria CAFUNÉ (nome aprendido em telenovela brasileira) exclamou Ó Diacho! e encaminhou-se para a porta estreita e atafulhada de mercadoria, a não permitir passagem a mais do que uma pessoa de cada vez. Postou-se no passeio, pôs a cabeça de lado, a aproveitar o seu melhor ouvido, o direito, que o esquerdo devia andar atascado de cerume, a avaliar pelos sons que lhe fazia chegar como se viessem do fundo de caixa de cartão com tampa, acompanhados de ressonâncias e tudo. Já muitas novidades sobre a vizinhança lhe tinham escapado por via daquela orelha meio mouca.
A Dona Amália, que vendia queques para fora, receita da sua falecida mãe, uma delícia, a desfazerem-se na boca, viera ao Tem-Tudo por para comprar um rapa-tachos novo, que o velho já cumprira bem a sua obrigação, mas agora, de tão gasto, largava pedacinhos de borracha que poderiam misturar-se na massa e estragar-lhe o negócio que tanto jeito lhe dava para ajudar o neto. De há uns tempos a esta parte, ele não parava de lhe pedir ajuda para comprar gasolina para a moto que deixara de arrumar à beira do passeio, alegando ter encontrado estacionamento mais seguro. Onde? Ali atrás! E alongava o braço, num movimento impreciso, enquanto fungava. Sempre constipado. E magrito. Uma ralação, este miúdo.
Só o Zeca, filho da Dona Antónia da tabacaria que falava duas oitavas acima, de modo a fazer-se ouvir ao longo da Calçada sempre que dizia Bom Diiia!, só ele ignorou o alarido e aproveitou para ser de pronto atendido. Fósforos, uma caixa. Das grandes ou das pequenas? O Zeca coçou a orelha, ou antes, torceu-a e atirou Sei lá. A minha mãe não disse. Então levas das grandes. Se não for, diz à tua mãe que eu destroco. Isto é preciso uma paciência! Tá bem, prontos. Saiu com as mãos nos bolsos dos calções, a fazer salientar o traseiro gorducho que era frequente motivo de implicâncias dos adultos que atiravam inconveniências como Que grande padaria! ou Para que queres um cu tão grande?. Mas o Zeca tinha uma fórmula mágica para lhes acabar com a gozação É para cagar!. E seguia o seu caminho, expelindo o sopro com que melhor conseguia imitar um assobio. Depois de breve silêncio, algum dos crescidos desabafava O cabrão do puto é mesmo malcriado! Onde é que se viu um fedelho ganhar às palavras com um homem? Já não há respeito como antigamente, é o que é.

(continua)


Licínia Quitério

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