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29.11.07

DESVAIRADAS GENTES (Folhetim)

Fascículo 3º.

As férias de Verão eram invariavelmente passadas na Terra, assim simplesmente chamada porque o nome da aldeia era qualquer coisa terminada em “ões” que preferia não citar para não se sujeitar a trocadilhos maldosos das colegas da Escola em que era Contínua (um nome estranhíssimo para os desconhecedores das razões da Semântica).
O carro, já com muitos anitos, e sem uma beliscadura, saía da garagem alugada por tuta e meia num barracão pertença da Sociedade Desportiva Recreativa e Cultural Os Amigos do Bom. Iam carregados de geleiras onde transportavam o farnel feito ao serão da véspera da partida e que os alimentaria nas numerosas paragens da viagem. Toalhinha aos quadrados brancos e vermelhos com um “picot” de que a Felismina não ensinava o segredo, loiça e talheres de plástico e sacos do supermercado para o lixo sobrante. Que não eram como esses ordinários que deixam os recantos das bermas cheios de ossos de frango e de cascas de melão. Além de lhes sair muito mais económico, o farnel livrava-os de se sujeitarem a comer porcarias servidas em restaurantes em que, já tinham ouvido falar, os restos dos pratos voltavam à mesa transformados em croquetes. Isto já para não falar do gato, gato mesmo, servido por coelho. Uma nojice, carago!
Quanto não valiam os produtos da Terra, tudo ainda sem químicos, que só provocam doenças, Olha a Marcela que ficou que nem um bicho, salvo seja, depois de comer aqueles morangos em Maio do ano passado. Não, lá era tudo semeado e colhido em tempo próprio por quem conhecia como as palmas da mão as leis e os caprichos da Natureza. Gente temente a Deus, está visto, a quem não se tinham pegado os vícios da Cidade que, lá isso tinham de confessar, era lugar para se juntar algum dinheirito, desde que houvesse boa cabeça e mão de ferro com as crianças para não cairem em tentações que era o que mais se via por aí. Que Deus nos defenda!, a Felismina dizia, enquanto beijava o Bentinho Doutor Sousa Martins que sempre trazia pendurado no fio de prata, juntamente com o crucifixo que a prima Maria do Sacramento lhe tinha trazido da excursão à Terra Santa, promovida pelo senhor Padre Francisco, um santo homem que, por um preço insignificante, lhes servira de guia e ainda por cima tinha ajudado a transportar ao hospital a Maria das Poças que em má hora torcera um artelho que começara a inchar e a arroxear, mas que, com a graça de Deus, não foi mais nada de cuidado. Apenas teve de ser transportada durante os dias que faltavam para o fim da viagem, em cadeirinhas improvisadas pelos braços fortes e peludos dos irmãos Videirinha. Coitados, não admira que, num desabafo, quando enfim deixaram em casa a Maria das Poças, um deles tivesse deixado escapar E agora veja lá se começa a comer menos, que Vossemecê pesa mais que a porca do Manel da Eira, com sua licença!

..


O prédio, quase em frente ao “CAFUNÉ”, era velhote mas simpático. Três pisos apenas, uma das caves com janelinhas a roçar o passeio, por via da inclinação da Calçada, de tal forma que a Dona Rosa, com as artroses a fazerem ranger as cervicais, impedida de esticar o pescoço, só via da cintura para baixo quem passava junto das janelas. Não era assim tão mau, porquanto dava para estimular a imaginação. Quantas vezes perguntava para com os seus botões Como será este dos coses para cima? Se for de acordo com o que vem para baixo, não seria a Rosa a deitá-lo no lixo. Sonhos a florirem rente à Calçada, como sardinheiras em balcão.


(continua)


Licínia Quitério

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