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10.12.07

DESVAIRADAS GENTES (Folhetim)

Fascículo 4º.

Era uma construção que mantinha uma certa dignidade, a apresentar-se orgulhosa no gaveto ensolarado da Calçada, apesar das rachas no reboco, que se adivinhava ter sido pintado de ocre claro, e das janelas de alumínio, que se iam atrevendo a substituir velhos caixilhos de madeira apodrecida pelas muitas invernias e pela falta de manutenção. Rendas agora baixíssimas, como se lamentava o Senhorio, que não davam para mandar pregar um prego. Quem não estivesse bem que se mudasse! Pudera! Um forreta que morava em bela casa própria em Campo de Ourique, com portas pesadíssimas de ferro trabalhado, com elevador e tudo. Parecia mesmo tirada de um filme português, daqueles que a gente não se cansa de ver e em que se percebe tudo. Nada como os de agora que são só p’ra dótores e mesmo esses não acredito que não adormeçam pelo meio. Isto dizia a Dona Rosa, admiradora indefectível da Dona Beatriz Costa e a quem o Senhorio, só de pensar nele, provocava subidas bruscas de tensão.
Quando um cano se rompia e vertia águas para o andar inferior, as discussões entre os inquilinos atingiam foros de raiva transformada em impropérios contra o forreta que nem sequer atendia o telefone. Depois, na ausência do sujeito da culpa, a zanga tomava conta de todo o prédio e nas escadas organizavam-se concílios em que tudo e todos eram atingidos, até o “encanalizador” que não aparecia. Coitado, já lhe pica a cevada na barriga, como protestava a Elvina em voz aflautada pela indignação. O barbeiro passava imperturbável pela turba, sem dizer mais do que um bom-dia anémico, como se tivesse desprezo pela vizinhança. Se fosse na casa dele que a água caísse, a ver se não dizia alguma coisa. Se calhar chamava a polícia e tudo. Isto, homem pequenino… E todos aplaudiam a opinião do inquilino do andar de cima, o Zé Mário, metalúrgico reformado, que sofria horrores com a gota e por isso se agarrava com ambas as mãos ao corrimão para poder trepar aqueles malditos lances de escada, enquanto praguejava entre dentes. O somítico havia de sentir na língua as dores que ele tinha no dedo grande do pé por se negar a mandar consertar aquele maldito degrau que o obrigava a um esforço acrescido para não se afundar no buraco que o caruncho tinha lavrado.

..

No rés-do-chão direito, no mesmo patamar do barbeiro e família, vivia um casal de quarentões, casados há muito, sem filhos. Ele, um pouco curvado, de careca reluzente, invariavelmente com os seus camisões axadrezados. No Inverno, eram de flanela de lã, ou de uma qualquer imitação. No Verão, tinham meia manga e eram de tecido fino, porém um pouco áspero para peles sensíveis como a dele, principalmente quando a temperatura teimava em manter-se acima dos trinta graus na cidade seca e poluída. Nesses dias, antes de ir para casa, ao fim da tarde, entrava no CAFUNÉ e pedia um fino, ao balcão. Não se demorava, apenas o tempo de pagar, limpar um resto de espuma dos beiços com as costas da mão e soltar um ligeiro, contido, arroto de satisfação. Quando saía, já com a chave da porta na mão, havia sempre um circunstante que comentava qualquer coisa brejeira, do tipo: Hoje o Marreco fez uma estravagança. O pior é que, se este dedo não me engana, depois do fino a mulher vai obrigá-lo a dar o litro.

(continua)

Licínia Quitério

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