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13.5.14

N S F



No treze de Maio, lembro-me sempre dum outro treze, do fim dos anos quarenta, em que tivemos de colocar nas janelas umas luminárias com as iniciais N.S.F., abrir as janelas e acender as luzes da casa. Sabido que era não sermos uma família religiosa, foi meu Pai avisado de que correria perigos se não colaborasse colocando a iluminação, distribuída de casa em casa, à passagem da procissão. Eu fiquei à janela, encantada com as luzes das velas e os cânticos do padre ou seus acólitos. No chamado "carro de som" alguém gritava: "Nossa Senhora de Fátima livrai-nos do comunismo. Nossa Senhora de Fátima rogai por nós. Afastem-se do carro". E a multidão, maioritariamente mulheres, de véus ou lenços na cabeça, conforme a classe social, rezava em coro. Minha mãe punha um lenço e ficava à janela também. Tinha muito medo. Meu pai deitava-se ainda mais cedo. Eu gostava daquela festa e não entendia lá muito bem a zanga do meu Pai. Não tardei muito a perceber. Era a guerra fria que passava na rua e nós tínhamos que ser dos bons. Dos maus a Senhora de Fátima nos livraria se rezássemos muito. Nessa altura eu já era bastante desobediente e assim continuei até hoje.

Licínia Quitério

foto da net

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