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11.5.14

AS AUSTRÍACAS


Eram conhecidas pelas Senhoras  Nunes e nenhuma delas se casou. Dedicavam-se a ensinar crianças pobres a ler, a escrever, a contar, a rezar. Não eram ricas, mas herdeiras de um ar distinto e senhorial que as fazia respeitadas. Generosas, cultas, católicas convictas, praticantes assíduas, mas sem nunca serem referidas como beatas, que delas se distinguiam por alguma altivez e finura de maneiras. Veio a guerra que tingiu de sangue a Europa. Salazar mantinha uma neutralidade complacente com o nazi-fascismo, naquela muito sua manha de estar bem com Deus e com o Diabo. Em plena guerra, anos quarenta, apareceram em casa das Senhoras Nunes duas meninas estrangeiras que, soube-se, se tinham disposto a acolher, fugidas que vinham do seu país, a Áustria, esmagada por Hitler. Eram as refugiadas, assim chamadas nas terras de acolhimento, sem que alguma vez se pronunciasse a palavra judias.  Vi-as aos domingos, a caminho da missa, ou em fins de tarde de novenas muito praticadas na altura. Eram bonitas, mais loiras e mais brancas do que eu, bem mais corpulentas, tendo aproximadamente a mesma idade que eu. Davam as mãos às Senhoras Nunes, caminhavam muito sossegadas e quase não falavam. Eram para mim motivo de curiosidade, que delas apenas sabia que tinham nomes estranhos e um dia voltariam para o seu país, o que aconteceu anos mais tarde. Uma delas voltou em visita às Senhoras Nunes, já mulher, grande, loira e bonita. Eu não soube mais da saga das meninas austríacas que passavam na minha rua aos domingos ou de semana em fins de tarde. Sei hoje que enquanto estiveram ao abrigo das bondosas senhoras praticaram a religião que não seria a delas, certamente. Que contarão as meninas, se ainda viverem, tão ou mais velhas do que eu, daqueles anos em que rezaram o terço, numa língua que não era a delas, num país que não era o delas, sem as famílias que por certo não voltaram a ver? Para mim foram a notícia mais próxima de uma guerra que eu não conhecia.

Licínia Quitério

1 comentário:

mfprata disse...

Que história mais interessante, adoro recordações bem descritas.
Um refugiado ter de rezar numa língua e crença que não era a sua que diferença dos tempos actuais. Esta história tem muito material para futuras divagações dos meus pensamentos.
Que cabecinha a sua Lícina!

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