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3.8.13

PELAGENS




   Tomara acabem as férias dele. Para eu ter as minhas. Homens em casa, sabe como é. Isto diz a dona da pelagem loira coberta de uma pasta esbranquiçada que a havia de tornar de um loiro mais aberto, segundo ela declarara à menina cabeleireira. Mal acabara de falar, cala-te boca. O cão ladrou e o dono disse entre portas fica aí. E bico calado. Ficou, a trela amarrada a uma das grades do alpendre, a pelagem cor de café com leite recentemente tosquiada, hirsuta e abundante apenas nas orelhas e na cauda. A t-shirt de manga à cava e os calções deixam escancaradas grandes porções dos membros superiores e inferiores, do peito e das costas, forrados todos de uma pelagem negra, longa e espessa. O fio de ouro, grosso, de malha batida, com crucifixo, brilha pelo meio daquela selva. Uma tentação para a ladroagem. Bem lhe dizia, mas ele ai do filho da mãe que se atreva. Leva que contar. Exemplificava, a mão em cutelo, uma perna atrás, os joelhos flectidos, num arremedo de artes de defesa com nomes impronunciáveis. Um homem pronto para ir à praia, com as suas havaianas verdes, a dar com a t-shirt, essa de um tom mais discreto. Faz rodar, no pulso direito, uma fitinha cor de laranja que diz Porto Galinhas. Este ano, conta ela, compondo o botão que se desabotoara mesmo no meio do peito, ficaram pela Tunísia. Gostaram. A comida é que tinha sido um problema, especialmente para ele que só gosta dos cozinhados dela. O hotel, isso sim, uma lindeza. Até pétalas de flores lhes punham em cima da coberta da cama. Quem não gosta de um luxozinho de vez em quando, replicava a menina cabeleireira, com olhos de telenovela. Ela ajeita na cadeira os quilos a mais, pega no leque e abana-se, com expressão de fastio. Ah o Verão, o Verão. Não veste bata de dona de casa, mas é como se vestisse. Talvez sugestão do padrão do tecido da blusa, miudinho, em fundo escuro, para não se notar tanto a sujidade. A expressão, o gesto, esses são de professora primária, do tempo em que assim se chamavam e a escola assim era. Ele aproxima-se dela, o cão fora do alpendre a pedir festas, a companhia da dona, o rosto perto do dela, a fala num segredo, quase a roçar a pasta de tinta esbranquiçada rente à orelha. Por detrás dos óculos, tem o olhar assustado dos míopes. A careca não condiz com o traje decidido a grandes ares, grandes mares. Ela não deixa que a lamba, concede uma festa ao cão, na área tosquiada, distraidamente, da testa à nuca. Senta-te ali. Aqui fazes-me ainda mais calor. No alpendre há um latido frouxo. Ele vai escorregando pelo braço da cadeira em que se apoiou, escorregando, sentando-se, enroscando-se. Ela grita deixa-te de graças. O latido do cão no alpendre cada vez mais frouxo, mais espaçado.

   No 112 não pode ir o cão, o da pelagem cor de café com leite. Diz a lei.


Licínia Quitério

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