Nada sabe do mundo a que chegou há pouco. Mama, dorme, chora e já sorri. Crescerá, o seu corpo mudará e o mundo mudará com ela. Uma ínfima partícula do universo, ainda infante. Da voz à fala chegará. Nomeará então as coisas e o céu e o sol e a lua e os homens e as mulheres. Caminhará sobre os seus passos que outros não lhe serão dados. Em algum tempo, terá uma flor em cada mão, estrelas no olhar e na boca bagos de romã. Construtora da própria vida, espectadora e actriz no imenso palco onde representará a sua história. Única, irrepetível, a Mulher que agora começa.
27.11.10
CHEGOU
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Licínia Quitério
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7:08 da tarde
OS MENINOS
Chegam em qualquer mês,
em qualquer dia.
Os meninos.
Como as flores,
que as há de todos os tempos.
Como os beijos que não sabem a hora.
Entram-nos em casa
e procuram-nos o rosto.
Trazem recados de outros tempos
e nós não os sabemos decifrar.
Vêm do ventre das mães,
feitos de sangue novo.
Em que pensam? dizemos.
Nunca o saberemos.
Guardam segredos
que não podem revelar.
Quando puderem
já os terão esquecido.
Inviolável o seu tesouro de meninos.
Chegam com os ventos altos,
com as areias, com as cores do outono.
Sempre chegam, os meninos.
Por eles somos e nada sabemos.
Licínia Quitério
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6:43 da tarde
SINTRA
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2:20 da tarde
A BUGANVÍLIA
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2:12 da tarde
JARDINS
Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.
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1:58 da tarde
MÃE
Tu sabes, Mãe, eu sou assim, esqueço-me dos dias assinalados no calendário dos homens. Sei do dia em que nasceste, mas não sei bem o dia em que te foste embora. Estiveste comigo durante muitos, muitos anos. Tantos que me habituei à ideia de que estarias sempre ali para me dizeres: Filha, não andes tão à pressa. Eu sei ...que tens muito que fazer, mas senta-te um bocadinho aqui. Tenho muitas coisas para te contar. Poucas vezes me sentei ali, a escutar-te. E a tua voz era tão bonita! Tão cheia de risos e de cantos e de outras vozes que reproduzias na perfeição. Mas eu tinha tanto que fazer. Eu tive sempre tanto que fazer. Hoje que já não tenho tanto para fazer, lembrei-me, vê lá tu, de me sentar aqui um bocadinho a recordar todas as histórias que não tive tempo para ouvir. Conta lá, Mãe, conta. Com a tua voz límpida, com as tuas mãos de gestos serenos a sublinharem, com elegância, o discurso directo que dá tanto colorido aos teus relatos. Sabes, Filha.... Não, Mãe, conta lá.
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1:52 da tarde
A CIDADE
O cinzento opaco do céu escureceu a cidade anunciando o aguaceiro. Não tardou. Chuva grossa, pesada, apressada, tanta que a cidade não a conseguiu beber toda. Por algum tempo as ruas da cidade baixa fizeram-se leito de rios de águas escuras, gordurosas, a invadir as casas, a imobilizar os carros. Os homens trataram de expulsar a água das casas aflitas, de secar os rios de ocasião.
Cansado daquele grande choro, o céu foi clareando, primeiro quase a medo, logo logo mostrando amplos rasgões de azul. Era a bonança.
Nas colinas, a cidade, ali escorrida e quase enxuta, movia-se, na sua cadência de todos os dias. Foi quando reparei na couve e nos girassóis e no alecrim crescendo em torno da árvore, e na rede protectora da horta-jardim. Mesmo ali, no meio do passeio, olhando a Sé lá ao fundo e o vinte-e-oito que sobe que desce que sobe que desce. Matreira, esta cidade das couves inesperadas, perto, muito perto do Pátio do Carrasco, envergonhado, espreitando a garridice das Portas do Sol. Não há chuva que lhe tire esta ironia, este sorriso malandro que nos atira em cada esquina. E eu gosto dela assim.
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1:50 da tarde
A SALAMANDRA
A minha salamandra envelheceu. A pele enrugou, as articulações desgastaram-se. Já não aguenta o lume. Não admira. Foi uma longa vida de serviço à casa e a quem a habitou. Através do vidro, deixava ver o fogo e o seu bailado de chamas rubras. Espalhava pela casa um calor bondoso que punha mansidão nas falas e brandura n...os gestos. As paredes ainda conservam memórias dos serões da salamandra, como foram chamados. Ali permanece, com a elegância de uma velha senhora que tem um longo passado de horas calorosas e histórias desses tempos que conta a quem as quer ouvir.
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1:46 da tarde
CHOVEU
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1:43 da tarde
O BANCO
Que faz ali aquele banco? Por detrás tem uma bonita sebe e pela frente, mesmo à beirinha, uma rua antiga e estreita onde passam carros. Que se pode fazer sentado naquele banco novinho em folha? Ler? E o barulho dos carros zz zzz! Conversar com alguém? Porquê ali, de cabecinha ao sol, mesmo rente à rua zzz zz? Um banco destes tem de fazer parte da história da terra. Tem de receber os velhos a procurarem a sombra, tem de sentir os pés das crianças traquinas a empoleirarem-se-lhe nas costas, tem de ouvir segredos de namorados à noitinha e conversas banais dos que a ele se encostam porque não têm tempo de se sentarem. Um banco em lugar público tem de ser a extensão da cadeira de lona do nosso alpendre, um cúmplice do nosso olhar sobre a pele dos dias. Verdade, verdadinha, nunca vi ninguém sentado neste banco. Foi por isso que não tive pudor em fotografá-lo.
Licínia Quitério
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1:39 da tarde