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15.7.15

O FUMO


Sempre triste, a rapariga. Sempre igual nos seus dias sempre iguais. Chega, em passos de uma única medida, a mesma de todos os dias, no seu caminho sempre o mesmo. Elegeu a mesa, a cadeira onde fica, à mesma hora, até à mesma hora de todos os dias. Não se pode afirmar que vista sempre as mesmas calças, a mesma blusa, mas nela tudo parece o mesmo dos dias anteriores, a fita com que prende o cabelo, a cor do cabelo, o penteado. Também iguais a mala a tiracolo, as sandálias com que marca a precisão dos passos lentos. Fuma, a rapariga, vagarosamente, enquanto bebe o café, o copo de água, enquanto folheia o jornal de sempre. Nesta monotonia, o que chama mais a atenção é o mistério no olhar da rapariga, parado, vazio, com que olha o mundo, ou não olha. Um olhar daqueles é igual a um desgosto persistente, a uma espera de nada, a um hiato no tempo da rapariga, a um buraco negro que ninguém sabe o que seja, nem sequer que exista. Tão triste, esta rapariga sempre igual, a sua figura ensaiando a transparência, até que um dia se esvaia com o fumo do cigarro.

Licínia Quitério
foto da net

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