Licínia Quitério
30.6.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 3
Licínia Quitério
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5:48 da tarde
7.6.10
CRÓNICA DE DESPERTAR 2
Acordei tarde e o dia fez-se parco e o desatino das horas foi a tontura do quarto em desalinho, do sol já alto cravando uma lança de oiro no soalho. No silêncio da casa uma censura pela ausência do matinal concerto do chiar dos gonzos das portadas, do arrastar dos passos na rotina dos lugares onde mora o aroma do café, a garridice dos amores-perfeitos, o prato do comer da gata miando pela fome prolongada.
Ligar o computador e dar uma vista de olhos ao correio, ao resumo das notícias que pela tarde chegarão, com os seus pormenores bastas vezes devassos e sórdidos.
Preparar um dia não é tarefa fácil, tanto mais quanto o sono o encurtou. Viver a vida não é tarefa fácil, tanto mais quanto o tempo a encurtou. O que nos vale é ter havido um poeta que nos disse do sol, da poesia, das danças e os outros que, mesmo sem o dizerem, alimentam seus versos do riso ou do choro das crianças.
Vou viver tudo o que tenho até ser noite. E é muito ainda. Amanhã falaremos melhor.
Licínia Quitério
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12:02 da tarde
CRÓNICA DE DESPERTAR
No páteo, um leve zumbido de insectos para a colheita do néctar divino. Há um diálogo de cães, na vizinhança. Que dirão? Fome, sede, amor pela cadelinha branca que os provoca? Tomo o meu café, negro, quente, amargo e só então dou os bons dias a mim mesma. Como quem diz: A moleza por hoje acabou. O dia espera-te.
O céu está azul, imaculado, mas, vinda dos lados do mar, anuncia-se uma neblina que talvez à tarde se diga frescura. Como é costume neste mês de rosas, mas também de caprichos e incertezas.
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11:53 da manhã
CRÓNICA DE PERMANÊNCIA
Havia um relógio na parede, com um cavalinho a encimá-lo. Talvez tivesse uma patinha dianteira erguida, já não sei bem. O balançar do pêndulo hipnotizava-me. Não conseguia desviar os olhos daquele disco dourado, lavrado de arabescos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E a menina que eu era entristecia, como entristecem as meninas, levemente, sem demoras. Logo, logo, se abria uma luzinha nos meus olhos. Na mesma parede, um de cada lado do relógio tic-tac, um azulejo de loiça branca, com uma cara de gato preto. Cara, sim, que os gatos sorriem e só sorri quem tem cara. Ao pescoço uma coleirinha amarela, com um guizo pendente, da mesma cor. Por detrás do gato havia umas folhas verdes que eu imaginava serem de couve e que nunca entendi muito bem para que quer um gato a companhia de uma couve. Iguaizinhos, nos seus baixos relevos brilhantes, lá estavam eles, um de cada lado do tic-tac. Sempre esperei que um dia virassem ao de leve as cabecitas e se olhassem, como se um deles fosse apenas espelho, o que nunca aconteceu. Muitos anos passados, já sem a avó nem o relógio tic-tac, um deles continua comigo. O outro seguiu caminho diferente, vive noutra casa. Por isso deixei de esperar que voltasse a cabeça para olhar o outro como se fosse um espelho.
O certo é que, ainda hoje, quando sinto que a tristeza quer chegar porque algum tic-tac soou no meu coração, olho o meu gato preto, com seu guizinho dourado e sorrimos, frente a frente, como mulher e gato que se conhecem, se adivinham.
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11:12 da manhã
CRÓNICA VEGETAL 2
Foi uma pequena semente, espalmada como uma minúscula folhinha. Deitaram-na em cama de terra fofa e com a mesma terra a ocultaram. Precisava de um sono tranquilo, prolongado, com sonhos de álacre grandeza.
Da pequena semente foi saindo um corpito decidido a enfrentar o que quer que houvesse do lado de cima, do lado de lá da cama de terra.
Quase cegou quando chegou à luz que tudo banhava em seu redor. Deitou-se a medo no chão que sentiu firme e húmido e logo decidiu crescer e alongar-se em viagem, numa profusão de corpos verdes e de grandes folhas, cada dia maiores. O sol escaldava e pedia vida, muita vida. Respondeu ao pedido e, ao abrigo das grandes folhas, fez-se também flor, tomando a cor do ar quente em seu redor. Flor que nasceu para ser mãe.
E enquanto os seus braços cor de ar quente se encolhiam, se anulavam, um filho lhe crescia, de verde pequenino à ousadia da cor do próprio sol que lhe sorria. Os filhos crescem para ganhar o longe e assim ele partiu, esplendoroso, ganhando mundo para um dia o perder.
Quando o vemos, na madureza da idade, não recordaremos a sementinha que foi, mas aplaudiremos o triunfo do sol, redondo como ele, ardente assim na sua cor de fogo.
Licínia Quitério
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11:04 da manhã
CRÓNICA VEGETAL 1
Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.
Licínia Quitério
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11:00 da manhã
CRÓNICA DAS LONJURAS
A mulher afastou-se discretamente do ruído da sala de festa e foi à varanda. A noite fria, húmida, serena. Iluminações festivas nas ruas ao longe, que aquela ainda guardava o nome de azinhaga e luzes só as das janelas. Na antecipação da explosão, faz-se um silêncio. Breve, ansioso, quase dorido.
Foi esse tempo que o homem aproveitou para se passear pela azinhaga deserta de gentes e de carros. Era só um homem no escuro da rua, que a claridade começava à altura de dois pisos. Com andar desengonçado, sinuoso, falava alto para o telemóvel bem encostado ao ouvido direito. O sotaque de africano falando português, de vogais bem abertas. “Que saudades, maninho. Tou bem. Tou bem. Beijo na Jessica, mano. Tudo bem. Tudo bem.”
Na TV da sala ouvia-se a contagem decrescente: “…cinco…quatro…três…dois…uuum!!”
O homem deu uma gargalhada e desapareceu ao virar da esquina. Dobrara o cabo do ano. A rir, ao telefone, com o maninho num outro continente.
A mulher continuou à varanda e viu o fogo de artifício romper o céu. Novelos de luz, flores de cor, lágrimas descendentes. Uma delas reflectiu-se-lhe no rosto. Como se pedisse guarida. “Tudo bem, maninha. Tudo bem.”
Licínia Quitério
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10:52 da manhã
6.6.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 2
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3:08 da tarde