30.5.16
PATAS
pata aqui pato acolá
mas que fresquinho aqui está
ó senhores venham cá
não nos façam cara má
patuscos é o que mais há
deixem tristeza pr'a lá
quá-quá, quá-quá e quá-quá
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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9:01 da tarde
16.5.16
QUATRO MENINOS
Eram quatro meninos com a adolescência enfiada nas mochilas,
quatro à mesa, de volta dos seus hamburgers, dos seus sumos de lata e palhinha,
falando e rindo, sem qualquer alarde de irreverência, daquela que tantas vezes
se ata ao nome de meninos assim grandes como estes. Espremiam o frasco da
maionese sobre as batatas fritas e depois comiam-nas com as mãos, pegadas pelas
pontas, no equilíbrio entre a máxima a vir à boca e a mínima a agarrar-se aos
dedos. Comiam e falavam e riam e tinham um ar guloso que dava gosto ver. Os
telemóveis descansavam ao lado do prato, mas não lhes tocavam, riam, comiam e
conversavam. Pagaram, moedinhas bem contadas, pegaram nas mochilas e saíram.
Tinham um ar feliz, estes quatro meninos do seu tempo, tão diferentes do
retrato daqueles de que se diz serem mal-educados, mal-comportados, mal-vestidos,
mal-de-nós quando só formos capazes de assim os vermos.
Licínia Quitério
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Licínia Quitério
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2.5.16
ESPERAS
Senhora do seu nariz, ao telefone, queixa-se da comida, nem bons produtos, nem bem cozinhada, sim, tem vista para o mar, e isso o que lhe importa, não, não há-de acabar ali os seus dias, está na clínica à espera que a chamem para um exame médico, uma seca, há horas, o que é que eles estão a fazer lá dentro que não chamam ninguém, neste momento estou sozinha, sim, ela foi às compras e deixou-me aqui, já há um tempão, hoje em dia são assim, em todo o lado, olha, vem a chegar, vou desligar.
Chegou a acompanhante, com farda de profissão, jovem, traz-lhe bolachinhas, a senhora ainda não comeu, e água, bebeu, mas tem de beber, eu vou buscar.
A senhora tira do saco um segundo telemóvel e diz para a jovem lhe pôr ali o número do Gonçalo, está no outro, veja lá, porcaria de telemóveis, tenho de comprar um que seja bom, mas a senhora já tem dois, pronto, o número do Gonçalo já está também neste, a senhora insiste, tenho de comprar um melhor.
A senhora não deve ter falta de dinheiro, nem de telemóveis, o que a senhora não tem é paciência para esta porcaria de vida que já lhe deu muitos anos, diabetes, e horas de espera numa clínica, que ela detesta esperar, principalmente agora que já não tem ninguém que espere por ela.
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Licínia Quitério
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