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20.5.11

A MATILDE



A Matilde está sempre bem disposta, enérgica, faladora. Gosta dos clientes e os clientes têm respeito e carinho por ela. É ainda uma jovem, morena de olhos negros, sem pintura, que a cor do sorriso basta para a embelezar. Sabe muito do seu ofício. Dá atenção às perguntas dos agricultores que a consultam. Conhece todos os bichos nefastos às hortaliças, às árvores, às flores. Fala das pragas no tempo exacto em que se anunciam e avisa dos cuidados a ter, dos prazos a respeitar. Pergunta pormenores sobre o aspecto das espécies doentes, pensa um pouco e arrisca um conselho, sem imposição, apenas com a autoridade que o saber reconhecido lhe confere. Pergunta pelas melhoras do limoeiro que teimava em adoecer e fica feliz por saber que o remédio resultou. Atende várias pessoas ao mesmo tempo. Dá os “bons-dias”, as “boas-tardes”, diz “está boazinha?”, “desculpe lá a demora”, “escolha à su vontade”, com a pronúncia cantada de camponesa para camponeses. A loja da Matilde é um lugar apertado, onde ninguém está mal-disposto e ninguém discute sobre a vez de ser atendido,  graças, em boa medida, à Matilde que sabe gerir os produtos e o bem estar das pessoas. Os pretextos que eu invento para ir à loja da Matilde, eu que não sou camponesa! Hoje trouxe um mangerico, ainda “em planta para dispor”. Quis um saquinho de plástico transparente que deixasse ver a minha plantinha. A pouco e pouco tenho ganho alguns créditos na loja da Matilde. De vez em quando meto conversa com um ou outro cliente e sempre aprendo alguma coisa dos estragos da geada, do atraso da batata, do preço do adubo e até reciclo o meu vocabulário. Ali um tomate chama-se um tomate e  não um legume, e a nabiça tem rijeza e não fibra. Pessoa influente da minha terra esta Matilde, com  a sua pequena loja com cheiro a terras, a pimentos, a amores-perfeitos.

Licínia Quitério

1 comentário:

M. disse...

Imagino o lugar. Deve apetecer ir lá.

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