
Abdul conduziu-nos a um chá num oásis no limiar do deserto. Talvez lhe chame oásis porque havia árvores e tanques com água e pássaros cantadores. Porque no limiar dos desertos tem de haver um chá e a tenda em que ele fumega. Na tenda tem de haver tapetes e almofadas e cheiro de menta. Por todo o lado a simetria dos desenhos e a cor escandalosa do açafrão só acalmada pelo verde negro das palmeiras do anoitecer. Ah e a música e os requebros do ventre e o choro-cante a ecoar nas nossas antigas oliveiras. Por toda a parte os belíssimos olhos negros de Ali-Babá e de Moriana. Ou de Abdul, com um joelho avariado a por-lhe um pequeno soluço na voz a cada degrau transposto. Breve passagem por um cenário de faz-de-conta em que tudo nos é dado como certo excepto o soluço escondido na voz de Abdul, o nosso guia.
Licínia Quitério