
Há frases que nos atravessam recorrentemente como se quisessem falar por nós. "Nadie escribe al General", o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez, muitas vezes se me cola ao pensamento, impertinente, assim mesmo em castelhano, como o li. A tal ponto se impõe que já o tenho repetido a alguém, em voz alta, a sublinhar lamentos de desamparo, decepções por eternas esperas. Vem isto a propósito do pormenor de foto que aqui reproduzo, sem licença prévia do autor que também é o construtor da pequenina fonte. Chegou ontem, ao fim da noite, triunfante, acompanhada de uma breve carta electrónica. Explicava que memórias persistentes da infância lhe exigiam uma fonte. Andou a fazê-la, devotadamente. Já a tem. Só faltam uns pequenos arranjos a darem mais consistência ao quadro. Agora sorri ao ouvir a voz do fiozinho de água a correr para os fundos. Ali perto, o maior bicho é o gato da casa que compõe o seu ar falsamente desinteressado da novidade. Mas o dono pode ouvir os chocalhos dos grandes animais que se vão dessedentar, à tardinha, como dantes. Aposto que um dia destes contará ao neto uma história de encantar: Era uma vez uma fonte, era uma vez...
Se todos soubéssemos assim reconstruir os nossos lugares, bem poderia eu afastar as palavras de "Gabo" e prendê-las na capa do livro que fala do General que esperava uma carta que tardava. O meu amigo não ficou à espera. Escreveu-a.
Licínia Quitério