Desde puto que acumula saberes aprendidos nos braços e nos livros. Sabe fazer, sabe como se faz, procura saber mais, de tudo. Da metalurgia pesada, da agricultura, da mecânica, da razão das coisas da nação, do mundo, do amor da família, dos amigos que sempre chegam e a quem dá o que tem e o que sabe. Gosta de se pôr à prova em problemas novos e quando lhes descobre a solução solta um riso gaiato porque ganhou mais um tesouro.
O magro salário do António chegou ao fim. O país não pode dar-se ao luxo de pagar a homens como ele. Não foram estes Antónios que saquearam o trabalho dos outros, a inteligência dos outros, a honestidade dos outros e inventaram dinheiro para depois o roubarem. Mas são estes Antónios que hoje são expulsos do trabalho, da casa, da dignidade com que respira um Homem.
O meu amigo António não é digno de pena. A sabedoria que acumulou ninguém lha poderá roubar, porque a toda a hora a acrescenta e a reparte. Por muitas portas que neste país se vão fechando.
Licínia Quitério