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30.7.13

A CASINHA DA EIRA



  Quando nos recebem numa casa assim, A Casinha da Eira, feita e mantida por várias gerações de obreiros incansáveis, preservada com esforço e carinho, no respeito pelos objectos que atestam usos e trabalhos, renovada no serviço de refeições frugais, de conversas amenas, de risos de crianças, quando entramos numa casa assim, dizia, é como entrar num verso em que todas as palavras encontraram o seu lugar, sem artifícios nem desperdícios, isto é, as palavras imprescindíveis para vogar na suprema arte de ser simples.


Licínia Quitério 

10.7.13

A ORQUÍDEA


Há a orquídea acesa na janela, há um novíssimo, secreto, indecifrável dia, aceso na janela, em redor da orquídea.


Licínia Quitério


2.7.13

A ESCADA


O meu pátio vale um poema. Tem uma escada que leva ao céu.

Licínia Quitério

26.6.13

AS COISAS


  Quando eu era nova, não comprava flores. Ofereciam-mas, em corte, em vaso, para a jarra, para o quintal. E eu também as oferecia, ou roubava um tronquinho, como ainda faço. Levei muito tempo a convencer-me a comprar plantas, flores. Ainda hoje raramente o faço. Quando eu era nova, não comprava gatos, nem cães, nem pássaros, nem peixes, nem cágados. Davam-mos ou vinham ter comigo. Até hoje, apenas comprei peixinhos vermelhos para deitar em lagos. Quando eu era nova, não comprava salsa, nem coentros, nem hortelã, nem louro. Davam-me ou ia eu colher. Tenho sorte, ainda hoje me dão, para semear, para plantar, para usar. Quando eu era nova, não comprava amoras. Colhia-as, picava-me, e, sem sequer lhes soprar o pó do caminho, comia-as. Hoje não as compro, mas raramente as colho. Ficou-me o valor das coisas, o amor das coisas que me deram, que dei, que plantei, que colhi, que me acompanharam, sem nada para a troca a não ser a promessa de ficarem na memória dos meus sentidos. Coisas de velha.

Licínia Quitério

22.5.13

A MASTABA



Não se pode ficar indiferente a esta mastaba barroca com o seu peso descomunal, distante a pedra das gentes, muda, hierática, construída a ouro e sangue, testemunha de vãs glórias, nascida de promessa, de compromisso, de intrigas de nobres e frades, morada episódica de reis, albergue de monges, de soldados, de paisanos, de prisioneiros, de belíssimas peças de arte, viveiro de lendas mais ou menos macabras, poderosa, fria, mais fria ainda nas noites frias, desertas, estranhamente belas e pálidas.

Licínia Quitério

1.5.13

OLAIA



Não hesitou no seu labor de florir em tempo certo. Indiferente à sujidade, aos despojos de vidas mal contidas, às sobras das infindáveis obras que os homens sempre encetam, sem irmãs que a confortem, a olaia vive e abre múltiplos sorrisos coloridos, na esperança de uns olhos que nela se revejam, pensando em tempos idos, de muitas árvores,  de outras ruas, de outra pressa de chegar, os olhos sendo os outros e os mesmos.

Licínia Quitério

29.4.13

CRISE



Um corpo assim complexo
só pode ser um desafio 
à eternidade e afinal 
uma pequena oscilação, 
um ínfimo deslize, 
uma desatenção 
podem ser a explosão,
o fim da crise

Licínia Quitério


24.4.13

NÃO FORA ABRIL



Mal nos conhecíamos. Só tínhamos aquele conhecer por outras bocas, aquele saber de morar no mesmo sítio sem nos cruzarmos, aquele nada que sendo essência se fazia distância. Poderíamos ter vivido e morrido sem nada mais termos um do outro, um para o outro, sem nada mais que nos sabermos do mesmo lado, como tantos outros que entre nós e de nós falavam. Teria sido assim, sem mais notícia, sem mais prazer, sem mais pesar. Não fora Abril e não nos teríamos encontrado, de súbito, nos lugares mais claros que alguma vez teríamos sonhado, nós que vivíamos a sonhar com o fim da escuridão. Não precisámos que nos explicassem porque estávamos ali, naqueles dias, olhando-nos como se sempre nos tivéssemos olhado, olhando-nos com o falar ansioso da longa espera, sabendo exactamente o que nos cabia fazer. E foi tanto o que fizemos que nunca pudemos parar de nos olhar falando, na alegria e na tristeza, como se diz de quem se ama. Não fora Abril e eu não saberia.


Licínia Quitério

18.4.13

LUA NOVA


Lua que não se mostra
não ilumina
não entontece 

não anima 
não engravida
não enlouquece
não bate à janela
não chama lobo
não despe mulher.
Lua de maré-baixa
de cabeleira curta
de erva rasteira
de noite escura
de descaminho
de perdição.
Lua Nova
não nascida
ausente.
Promessa silenciosa de crescente.
Decrescente.

Licínia Quitério

17.4.13

O PRIMEIRO RELÓGIO




Já era crescidinha, já, quando mo deram, embora tivesse ainda uma grande curiosidade de criança. Foi por isso que depressa se avariou. Não parava de o abrir, de o mirar e de, pior ainda, lhe tocar as minúsculas peças que me fascinavam no seu vai-vem-tic-tac-tic-tac. As rodinhas, as pedrinhas vermelhas, a seta e, enroladinho, fininho, o que eu sabia chamar-se " o cabelo". Muitos minutos, talvez horas, de puro enlevo, abre, fecha, dá corda, acerta, escuta. Um dia, o cabelo desenrolou-se, com um quase inaudível clic e a minha aflição cresceu, cresceu. Encobri o crime, disse apenas "o relógio não trabalha", o meu Pai abriu-o e ralhou, oh se ralhou, que mania a minha de mexer onde não devia, que não ganhava juízo, por isso o relógio não tinha vindo há mais tempo. Acho que chorei, de vergonha mais que de arrependimento. Voltei a abri-lo, muitas vezes, a  tentar entender aquele mecanismo de peças tão diligentes nas suas infalíveis voltas e voltinhas, para trás, para a frente, tic-tac tic-tac. Foi guardado, conservado em vitrine, no seu tempo de reforma, há muitos, muitos anos, milhões de milhões de horas depois do seu tic-tac ter emudecido para sempre. Conservada também a minha curiosidade por saber como são as coisas por dentro, como funcionam, como pensam, se pensam. Por vezes, ainda avario um ou outro mecanismo que me cai nas mãos. Sinto sempre alguma vergonha, mesmo sabendo que ninguém me vai ralhar, mas arrependimento nunca. São crimes tão saborosos.

Licínia Quitério

11.4.13

LÍQUIDO




Assim chorosa, assim pingada, a gente passa, a vida vai, a vida fica, e eu a ver, sem perceber, que tempo faz, que hora é, há um desacerto, há um engano, há um enredo, há uma aflição, e a gente passa, e eu a ver, e a chuva cai, uma balada, uma toada, uma batida, rente à janela um coração.

Licínia Quitério

9.4.13

PAN



Ouvi o silvo tentador, ao longe, depois mais perto, mais perto. Um assobio, uma chamada, uma música de sílabas poucas. Pensei nos seus pés de cabra, no seu erguer de bicho-homem, poderoso, ameaçador e triste, tão triste. De que fogem as ninfas neste bosque sombrio, gotejante, com odores do princípio dos mundos? Do bicho-homem que as seduz, forte e hirsuto, débil como um canavial de outono, chamando um amor perdido com a flauta em que transformou a fala, essa rouca e agreste, desamparada e inútil.
Acordei tarde, ao som do amola-tesouras que passou na rua, procurando sustento, prolongando as chuvas. 

Licínia Quitério

7.4.13

REGRESSOS



A hora dos regressos, costumava ele dizer. Tudo se cansa, tudo arde, tudo se decompõe, tudo desiste, tudo deixa de ser. Até aquele jeito de ele falar dos regressos como se esperasse ainda que, para lá da chaminé, do telhado, da rua, de todas as ruas e todas as serras que sempre moram para lá das ruas, ela iniciasse o seu caminho de volta. Até deixar de ser, contava as gaivotas, ou as andorinhas, ou os tordos, ou os estorninhos, ou os pardais quando, esses sim, regressavam da sua faina de voar. Depois, os olhos caiam-lhe mais para longe, mais longe do que a serra que nem sequer sabia se lá morava, e ficava no seu jeito de esperar, um jeito assim amolecido e turvo, de ombro descaído, de pálpebra frouxa, de sussurro que só ele ouvia, que só ela ouviria na hora de voltar, para cá da serra, para cá da rua, para cá da chaminé da casa onde ele contava as aves, na hora dos regressos, como sempre dizia.

Licínia Quitério 

4.4.13

O GELO



Dobro-me, enovelo-me, reduzo-me, enquisto-me. Só eu resto da alvura dos lençóis, dos dourados da festa, do tumulto, do ardor, do suor, do amor. Só eu, o meu manto de pele, este travo de fel. O gelo.

Licínia Quitério

30.3.13

TANTAS PEDRAS



Tantas pedras. Tantas casas, tantas coisas, tantas causas, tanto céu, tanta terra, tanta serra, tanta água, tanta mágoa, tanta gente. Tantos olhos que me olharam, tantas as mãos que me acharam, tantas as que me perderam. Eu fico, eu volto, eu recordo, desfio as contas e os contos que de contar não cansei. Tanta légua por andar, tanta légua já andada, e as pedras no meu caminho, e o céu no peito a crescer, e os meus braços alongados, tão cansados de voar, com duas asas de pedra, com duas ondas de mar.

Licínia Quitério

MARÇO



Março, marçagão, manhã de inverno, tarde de verão. Assim se fez o ditado, assim se fez o desejo. Assim não tem sido este Março de maus humores, de carão fechado, de humidades que escorrem e pingam nos nossos quartos interiores, nos nossos pátios que para a luz se construiram. Março velho, mês cansado de sustos e discursos sibilinos, atormentando os ares, sufocando a beleza a que temos direito. Limito-me a olhar através dos vidros embaciados da janela fechada onde espreitam jardins que inventei e que demoram a cumprir-se.

Licínia Quitério


21.3.13

UMA AVENTURA



Era inverno e eu perdia-me no jardim-floresta com as miúdas. Levava-as (levavam-me?) a uma aventura, daquelas dos livros que eu lhes comprava. Nesse tempo, a manta morta entre as árvores era o país dos duendes, verdinhos, de grandes gorros e orelhas que neles não cabiam. Tínhamos cuidados para não os pisar. As miúdas levantavam os pezitos e às vezes estatelavam-se e magoavam os joelhos. Nada de importante, nada de choros. Uma aventura é uma aventura e se uma silva nos arranha as pernas é para depois escrevermos uma história emocionante. Bonito, bonito, e as miúdas não esquecem, e eu não esqueço, foi quando ouvimos a conversa das árvores. Com os ouvidos encostados ao grande tronco, podíamos distinguir os gritos, os rugidos das seivas, das cascas. Com a força do vento da véspera, uma árvore mais débil tombara e apoiara-se na outra, velha e forte. Os olhitos das miúdas aumentavam de tamanho, de brilho e de algum susto. Fi-las olhar para cima, lá muito em cima, onde as ramadas de ambas as árvores se tocavam, se entrelaçavam, se soltavam, numa briga que o vento alimentava. Eram as falas das árvores zangadas que os nossos ouvidos escutavam, maravilhados. Depressa começámos a traduzir as falas vegetais, os suspiros, os ais, o ranger de cordas, tronco acima, tronco abaixo. Nunca mais ouvi uma discussão assim. As miúdas também não. Mas ainda hoje falamos da aventura das árvores que falam. 

Licínia Quitério

1.3.13

O JANTAR



Não se lembra do gosto da carne, nem consegue enumerar os acompanhamentos. Gostou, sim. Durou horas, o jantar, como sempre acontecia nos dias que reservavam um para o outro e que eram muitos, agora que os outros cada vez menos precisavam deles, arrumados que estavam vários destinos. Agora que tudo se fazia mais suave, menos vermelho ou negro, mais um tom indefinido, um mate de chá ou de seda verdadeira. Sabia lá ela dizer a cor da toalha,  se a havia, ou tão só uns papéis coloridos sob os pratos. Sabia-lhe as mãos, tão bonitas as mãos, naquele entrelaçar e soltar de dedos, num pontuar nervoso das frases que ela ia deixando no ar, dançantes, cantantes. Sabia-lhe os olhos, tão bonitos os olhos, tão tristes, tão movediços, tão procurantes, por dentro, por dentro. Lembra-se, isso sim, do vinho, do copo de pé, da minúcia com que ele o olhava, o cheirava, o provava, devagar, um pequenino golo, a ponta da língua a aflorar o palato e os olhos movediços, muito antes de dizer: gosto, prova e diz-me. E ela apressada, sem jeito, a provar e já pronta para lhe fixar os olhos e dizer: gosto.  O leve encolher dos ombros dele, meio amuado, a perdoar-lhe a mentira. Gostava dele, não do vinho, e ele que fazia tudo para lhe oferecer outros gostos, outros saberes, outros ouros, outras flores.  Disso tudo se lembra hoje, mas não sabe, na verdade, se era peixe ou carne o que comeram, antes do vinho cor de amoras maduras que lhe tingiu por instantes a boca, tão bonita a boca.

Licínia Quitério

8.2.13

POMBOS



Os plátanos dormem o seu tempo de braços nus. O vento sopra pelas esquinas e traz recados de um mar revolto. Na praça, o sol, a caminho do poente, ilumina as fachadas. Os pombos esvoaçam,  poisam nos troncos da cor do inverno e fazem corpo com eles, imóveis, por instantes a iludirem-nos o olhar. 

Licínia Quitério

1.2.13

CIRCE


Tinha uma camisola cinzenta. É tudo o que sei da senhora que fazia crochet durante a viagem de metro. Sei das mãos dela segurando o círculo de lã que ia crescendo, em volta, em volta. De vez em quando as mãos paravam de tecer e os dedos contavam pontos, contavam. E a rodela de várias cores continuava a crescer, a crescer, em volta, em volta. A camisola cinzenta era um pano de fundo da peça que volteava, volteava. Houve um momento em que as mãos pararam, a rodela parou de voltear. Foi um momento breve, mais breve do que a paragem do comboio na estação. Depois, num arranque brusco da mão, a senhora puxou o fio, puxou, desfez, desfez, voltas e voltas a desmanchar, a desmanchar, à roda, à roda, no sentido inverso do fazer, do fazer. A rodela a minguar, a minguar, o comboio a andar, a andar, a camisola cinzenta como pano de fundo, enquanto Ulisses nos braços sedosos de Circe.

Licínia Quitério 

15.1.13

A SEDE




Traz-me notícias ou um copo de água fresca. Tenho sede. Uma grande sede que não me larga a boca, as mãos, a blusa. Perdi a memória dos líquidos sobre a pele, sobre o chão em redor dos pés. Fresca era a alegria da manhã, a mansidão da noite. Como dizer-te que a chaminé já não tem fumo no inverno, nem pássaros na primavera? O céu é o mesmo retalho agarrado aos muros do quintal, mas, pouco a pouco, tudo vai tendo a mesma cor e há dias em que as nuvens pardacentas se prendem nos meus cabelos. Se me trouxeres um copo de água fresca, ou notícias, ou o que tu quiseres que me mate a sede, talvez o céu volte a ser azul e os pássaros poisem na chaminé. Depois do fumo, morta a cinza.


Licínia Quitério

 

2.1.13

BECOS



Há becos estreitos, escusos, escuros, envelhecidos, por onde entram e saem as cidades. Este fica em terra fria de gente fria, junto a praça que comemora dias sangrentos. Ao turista vendem-se fantasmas, objectos de tortura, algum bloody mary. Nada que me seduza especialmente ou me amedronte, ou me faça rir. Um beco é uma passagem entre a rua e a rua, às vezes entre o sol e a sombra. Também na minha terra os há, que ficaram das traças primitivas, ainda longe do deserto basáltico, da higienização dos costumes, do agora tem que se poupar na iluminação. O beco das curvas é o mais castiço, assim chamado obviamente pela sua serpente entre muros, uns cheiros de glicínia lá no alto, um cheiro a urinol cá mais abaixo. Passo por lá de tempos a tempos, só por passar, para ver se algo mudou, se ainda é atalho de bêbados que com ele conciliam as curvas do andar. Os becos são caminhos de resistência, de modéstia, de clandestinidade. Tudo isto a propósito do beco que vem na foto que nada tem a ver com os da minha terra, mais ao sol, mais ao sul, mais de gente pacata de raro sangue, e agora com um medo transparente no olhar, não me tirem a rua, não, ao menos não me tirem o beco. Gente boquiaberta com o deserto de basalto impoluto, entre a conformação e a saudade, num desatino quando a luz dos candeeiros esmorece, pouco dada a contestações, a exigências, na altura logo se vê, são todos iguais, entre mortos e feridos. Gente de provérbios e frases feitas que fazê-las dá cansaço, gente que ainda não viu bem o beco sem saída em que a meteram, por agora.

Licínia Quitério

30.12.12

NEVOEIRO


Anoiteceu com um nevoeiro a invocar fantasmas, as torres da igreja liquefeitas, a luz dos candeeiros a explodir em auréolas contra a cortina, as árvores a agarrarem o céu, a espicaçarem o escuro. Também o calendário anoitece e com ele as folhas a procurarem cama breve no asfalto. É nas noites de nevoeiro que sinto a respiração alta da terra a convocar-me para encontros imprecisos, em lugares desconhecidos, de mágoas diluídas nos meus passos silenciosos. Não resisto e vou. E volto antes que o nevoeiro se desfaça.

Licínia Quitério


23.12.12

EDUARDO


Tinha quinze anos, era um menino triste, carinhoso, e embalava sonhos dentro de livros. Durante duas semanas, sentámo-nos à mesma mesa, eu, ele e os outros. Tínhamos tudo para fazer e ele fazia amizade com outros meninos. Olhava-me como se olha uma mãe e eu não tinha tempo para entender o que ele não tinha. Procurou-me algum tempo depois. Vinha ver-me, dar-me um beijo. Triste, ainda. Passou tanto 
tempo, mas, no meu desvão das memórias, guardei-o e fiz dele personagem fantasiada de escritas avulsas. E o tempo passou, tanto tempo, até que um dia me descobriu na net e me falou. Estremeci comovida. O menino voltava a procurar-me. Triste, ainda. Como sempre, não entendi o que é que ele não tinha. Hoje soube. Desistiu, o menino. Não aguentou ser triste por mais tempo. Talvez um dia o encontre, a ler para os outros meninos, finalmente contente, a olhar-me como se olha uma mãe.


Licínia Quitério

17.12.12

POESIA


O PEDRO RAMOS leu o meu livro OS SÍTIOS e fez este desenho que me ofereceu.  A Poesia continuou, noutro registo.

Licínia Quitério

8.11.12

CRÓNICA DE POBREZA


Começo por dizer da caixinha vermelha, que fora do pó-de-arroz da minha mãe, com chinesas de sombrinha aberta pintadas a negro. Gostava eu daquelas almofadas que elas traziam às costas e dos sapatos com duas tiras entre os dedos. A caixinha, que já não era de pó-de-arroz, servia de mealheiro das moedas pequeninas, escuras. Chamavam-se tostões e faziam parte da “demasia” que os meninos que faziam os recados devolviam à minha mãe. Ao fim da semana, já as demasias eram um montinho que dava aquele barulho engraçado quando eu agitava a caixa, com a tampa posta, de cima para baixo, traca-traca, traca-traca. A mãe dizia, vê lá não deixes cair que são para os pobrezinhos de sábado. A partir não sei de quando, na minha terra só havia pobrezinhos ao sábado. Imagino que eram os mesmos pobrezinhos de sexta-feira da terra vizinha a norte, e os da quinta-feira da terra vizinha ao sul e assim sucessivamente até chegarem de novo à minha terra que era a de ser pobre ao sábado. Por andarem tanto, de dia em dia da semana, a acertarem com as terras de ser pobre, por isso, julgava eu, apareciam semre descalços, com os pés muito sujos, tão sujos que a minha mãe não lhes dizia para entrarem. Por isso e porque tinham piolhos, principalmente aquele que se coçava muito e a que puseram a alcunha de O Migalhinhas. Era eu que distribuia os tostões das demasias pelos pobrezinhos de sábado de manhã. Ainda me lembro das mãos deles, só das palmas, que era essa parte que eles me mostravam, viradas para cima, meias encurvadas, para apararem os tostões escuros, um bocado mais escuros que as palmas das mãos.  A minha mãe mandava-me sempre lavar as minhas mãos depois da distribuição das esmolas, que era assim que se chamava aos tostões que iam parar às palmas das mãos dos pobrezinhos. Tenho saudades desse tempo. Não sei bem se das chinesas com almofadas nas costas, se do cheiro a azedo dos tostões, se do traca-traca da caixa para baixo e para cima e para cima e para baixo, se do sorriso da minha mãe. Sei que não tenho saudades, isso não, das palmas das mãos dos pobres das manhãs de sábado onde eu deitava tostões da caixa que já não era de pó-de-arroz.

Licínia Quitério

foto da net   

24.10.12

DONA AUGUSTINHA



No meu bairro não há só vulcões, há também a dona Augustinha lá ao fundo da loja, entre o armário dos congelados e a estante dos detergentes. Mesmo à entrada, fica a hortaliça. Eu só quero umas bananas, mas a dona Augustinha, arrastando uma pernita, logo exibe o feijãozinho verde, não quer, olhe que não tem fio, e estas perinhas, lindas, "pipino" para a saladinha, é boa ideia, vê, minha senhora, a gente gosta de mostrar o que tem, as clientes coitadinhas às vezes têm pressa e não veem, anda tudo com pressa, não é, minha senhora, pois, não sabemos para quê, até que deus queira, é a vidinha, tadinhas das criancinhas, diz a senhora muito bem, e os tomates chucha, não quer, uma beleza, leva só dois, pronto, a freguesa manda.
E lá fica a dona Augustinha, com os seus diminutivos, arrastando a pernita, até que deus queira, que ela de vulcões não sabe nem quer saber, isso são ideias minhas, mas não tenho culpa de ter um pelourinho a bem dizer à porta de casa, e de haver manhãs assim que nem chove nem faz sol e eu preciso mesmo de comprar bananas.

Licínia Quitério

14.9.12

LISBOA




Falo-te, com o peito a latejar de ausência, cidade aberta ao sul, meu porto de chegadas e partidas nos dias comovidos da asfixia, quando te fugia para a respiração dos homens livres que se chamavam Jacques ou James, das mulheres que se chamavam Claire ou Valery, que passeavam livros nas margens dos rios e fumavam em caves apinhadas de suor e dança e saxofone e contrabaixo e em ti as guitarras choravam por um fado noutra escala, noutra fala.
Suportei-te, com os esbirros de café e teatro, com os amigos lá de casa que partiam de madrugada e não voltavam ou só voltavam anos depois, roídos de saudade e conformados com a pequenez das mesas, o silêncio dos poemas, a palidez dos quadros.
Perdoei-te, quando os  amores viviam clandestinos e as prostitutas tinham meias arrendadas e o pé à parede e não se falava de sífilis. 
Amei-te, quando te ofereceram a madrugada limpa de Sofia e a cobardia dos tiranos não suportou a pulsação das flores.
Vivi as tuas praças ensolaradas de cantos e de pássaros novos chegados de longe para te ver abrir o sorriso de pedra e rio.
Atenta ao regresso dos corvos, assustei-me com as sombras dos esqueletos nos balcões apagando as sardinheiras, com a turvação do rio, com as moedas por detrás da mesa, trinta vezes trinta.
Falo-te e choro-te, cidade do meu norte e do meu sul, porque seca e cabisbaixa te vejo, catando despojos de batalhas perdidas, agoniada nas sirenes das ambulâncias, roída pelos ratos que perderam as naus, encalorada pelas áfricas que acolhes e rejeitas e maltratas  como se não quisesses fazer-lhes filhos tantos. 
Guardo-te, com o peito a latejar de ausência, no meu cofre de vaidade e ternura, para que não te percas, não te vendas, não expulses os teus homens novos, não mates as tuas mulheres velhas, não ponhas de novo o pé à parede como faziam as sem amor antes daquela imensa madrugada.

Licínia Quitério

  

  

10.8.12

ALCINA MAGRINHA DE PERNA BONITA




A Alcina magrinha tinha umas pernas bonitas. Boas, diziam os olhares dos machos vestidos de azul quando ela descia às oficinas pela escada de metal, sem espelhos nos degraus. Eram raras as mulheres dos escritórios que se misturavam com os homens de azul, junto aos guinchos das máquinas, à estridência das chapas de ferro, ao cheiro a óleos e a tintas. Alcina ia até lá com os senhores estrangeiros que vinham ver o produto, mirar e remirar, fazer perguntas, pôr defeitos. Parecia ganhar gosto por aqueles sítios barulhentos, acres, escorregadios. Falava com os homens de azul e depois com os senhores da estranja, num leva e traz de palavras trasladadas. Alcina ouvia as vozes dos homens e aprendia-lhes os olhares envergonhados, zangados. Os senhores só conheciam a voz e os olhos de Alcina que lhe traziam explicações, respostas, desculpas por vezes.
Foi num Natal que Alcina desceu, pela primeira vez sem senhores estranjeiros, ao fundo dos armazéns onde os homens de azul empilhavam os produtos, o cansaço e a zanga. Um estrado que Alcina julgou um palco, erguido num dos topos do amplo ventre da máquina de produzir os dias da raiva e os da fortuna. Os homens de azul chegavam e o cheiro ao seu suor ansioso perturbava os homens e as mulheres de outras cores que iam descendo as escadas, vindas das caixas de madeira e vidro onde gastavam os anos, vigilantes e vigiados. Era outro o cheiro do suor deles, temperado com almíscares de fancaria, mas tão ansioso como o dos de azul.  Paradas as máquinas da máquina grande, era preciso encher aquele silêncio desesperado com o matraquear de falas, desatadas em frases retalhadas, decalcadas, incoerentes as mais das vezes. Os homens de azul tinham vozes grossas e gritavam para se fazerem ouvir contra as vozes perfurantes, chiantes, batentes, de ritmos e volumes vários, do universo vulcânico das oficinas. Alcina, magrinha, de perna bonita, sentia-se entontecida. Seria dos cheiros, das vozes, da luz da manhã em que dançavam poeiras escuras como aves de mau agoiro.
Dois homens subiram ao estrado que Alcina gostava de pensar palco. Um deles era baixinho, arredondado, com o cabelo ruço já a rarear. O outro, grande, a curvar em vénia muito usada, de melena untuosa. Traziam nos braços cestos de arame luzidio que poisaram numa mesa grande. Os olhos de todos ficaram por instantes a navegar sobre os cestos, os papéis que tinham dentro, os desejos. Envelopes, corrigiu a outra, lendo as palavras ditas pelos olhos de Alcina. Envelopes com dinheiro. Dinheirinho, disse a outra. A leve agonia de Alcina encorpou, instalou-se e um friozinho tonto veio humedecer-lhe as palmas das mãos. Apenas um prólogo da peça a acontecer no estrado, atravessado pela poalha de luz negra na manhã de inverno. A voz esganiçada, em falsete, do homem baixinho, picou os ares, os ouvidos, os desejos. Disse um nome de gente escrito num envelope que tirou de um cesto. Um homem de azul destacou-se do novelo de murmúrios e dirigiu-se ao estrado, em passo desengonçado, amarrotando o boné escuro entre os dedos de ambas as mãos. Agarrou o envelope, com a falta de jeito de mãos que não folheiam, antes prendem. Afastou-se, rasgou-lhe um pedacito, espreitou para dentro dele, olhou em volta, fechou-o com ambas as mãos e saiu pelos fundos. Alcina seguiu-lhe os mais pequenos gestos, a tentar saber o que o homem pensava, o que o homem sentia, o que o homem sabia que ela não aprendera. Mais um nome gritado pela voz aflautada, mais um envelope a chegar a mãos desajeitadas, ásperas, enegrecidas. Um a um, o ventre da grande máquina foi sendo despejado de homens de azul que saíam, silenciosos, pela abertura dos fundos. Tão distraída Alcina com a sorte dos homens de azul, que nem deu pelo próprio nome, enfiado na voz esganiçada do homem baixinho empoleirado no estrado. És tu, disse a outra. Despertou e lá foi, de perna bonita, subir ao estrado, receber o envelope que lhe estendiam. Regressou, sem o abrir, sem falar. Um pequeno grupo de homens de azul esperava, olhos fitos no estrado, ouvidos atentos à voz de flauta. A chamada continuava, chegavam os envelopes ao fim, e o grupo quase imóvel, continuava intacto. Alcina demorou-se, quis saber o final do ato, encostou-se a uma parede, esquecida do seu envelope, atenta ao grupo de azul que sobrava. A outra disse: vamos, estás à espera de quê, para o ano há mais. Aquela poalha por entre a luz da manhã a fazer-lhe semicerrar os olhos. O grupo sobrante a sair pelos fundos, sem envelopes, sem pressa, sem desejo. Alcina magrinha a murmurar: não gosto, não gosto. A outra a dizer: depois habituas-te.

Alcina gordinha, velhota, de perna cansada, sem se habituar: não gosto, não gosto.

FIM

Licínia Quitério

4.7.12

ESTENDAIS



A rua velha, as casas velhas e o estendal da roupa. Nas aldeias, nas cidades, aqui ou nos outros lados do mundo, a intimidade dos corpos e das casas exposta aos favores e à devassa do sol e do vento, relegados os pudores, os costumes, as clausuras. 

Licínia Quitério

25.6.12

O LINHO




Colher, ripar o linho. Fases primeiras do "tormento", assim chamado ao ciclo de um ano em que se trabalha para chegar da semente ao fio. Tarefas duras, de homens e de mulheres, saberes milenares, gestos ritualizados,  benzeduras e cantares que Giacometti ouviu e registou. As fiandeiras, as tecedeiras, as bordadeiras, as mulheres antigas que nos deixam obras preciosas onde se pode ler a paciência, o engenho, os nós da vida atados e desatados, em telas  de ingenuidade e de experiência feitas.

Licínia Quitério

AS ALMAS




As tentadoras histórias das fachadas do tempo. Fico a olhar, a olhar, a máquina a procurar as almas da janela, da dona dos vasos, de todos os que por ali viveram e morreram. Há andorinhas por dentro da frescura do barro. O calor faz ricochete na Gardunha e abrasa a cidade. Regresso com a fachada dentro da máquina. As almas ficaram por lá, no confronto eterno com o calor, com o gelo.

Licínia Quitério

16.6.12

ARROZ DE TELHADO




A liberdade de nascer, de crescer, de avizinhar, de florir, de desistir. Assim acontecem os pequeninos mundos vegetais e as suas fabulosas geometrias. Entre o sol e a chuva, as abelhas rondam as florzinhas de neve de uma planta a que ouvi chamar "arroz de telhado" porque enraíza entre telhas, lá onde o sol é alto e o barro guarda a chuva. Quero que sejam os pardais os semeadores destas heroínas que tão pouco pedem para os seus modestíssimos destinos.

Licínia Quitério

15.6.12

A PORTA DA TARDE



Entretenho-me a espreitar a porta da tarde nas flores dos meus vasos e sonho jardins de outras babilónias, outros impérios, outras gentes, outras tardes quentes que até mim vieram, porque tudo é possível quando espreitamos as portas abertas dos dias cerrados.

Licínia Quitério

Nota: Resposta ao desafio em http://outrostemas.blogspot.pt

13.6.12

ERA UMA CASA




Era uma casa. Às vezes há uma casa que segreda por detrás da cal. Uma casa e uma árvore que veste a intimidade da casa. Há um muro. E o muro está ali para contar que houve um tempo antes da casa. E antes dele nasceram as pedras. A memória antiga das pedras fala de conchas, de peixes, de sal. Ao princípio era o mar, depois a terra e os seus bichos. E houve guerras quando chegaram os homens que fizeram os muros. E fizeram a casa. E plantaram a árvore. E colhem os frutos. E vivem e dormem, por detrás da cal, na casa dos segredos, na concha de terra que veio depois do mar, depois do nada que foi antes do mar, antes, muito antes. 

Licínia Quitério

"O DESPERTAR DOS VERBOS"



Poema de Mário Domingos, do seu único e grande livro. Foi o Amigo, ficou a Poesia e a Saudade.

Licínia Quitério

9.6.12

TADZIO



Um postal, datado de 1911, para o meu Pai, escrito por uma irmã dele. Mergulho em tempos antes do meu. Logo digo: Mio Tadzio! Thomas Mann, Visconti e a Morte em Veneza. O hotel, a mãe de Tadzio, a praia, a cadeira de praia, o calor, o calor, a febre, a beleza, o amor, o amor, o aceno, Tadzio!, o suor, a tinta do cabelo, Amore mio!, a febre, a peste, a água, Tadzio!, o amor, Mein Liebe! a morte.

O postal que a mim chegou, talvez igual a outro que Thomas Mann olhou. Foi ontem. O tempo breve, breve.


Licínia Quitério

20.5.12

AVE





Porque estive há pouco em Guimarães, lembrei-me de quando lá fui, com os meus Pais, pouco mais do que adolescente, de olhos arregalados para novas terras e ouvidos já atentos a outros falares. Há dias, o comboio levava-me lentamente pelo vale do Ave, lindíssimo de verdes e de águas e de sombras, manchado de esqueletos de fábricas, muitas fábricas abandonadas, desfazendo-se em estilhaços de vidro, em chapas de metal ferrugentas, janelas rasgadas num riso monstruoso. Pelo meio dos vinhedos, as velhas casas de granito ainda por lá estão, com ou sem gente, com longas histórias para contar. Foi no balanço ritmado do comboio que me revi junto de casas como aquelas, sendo eu muito jovem e muito curiosa. Amigos de meus Pais levaram-nos a visitar uma fábrica de cutelaria que funcionava num daqueles recantos de paraíso, perdido no verde vinha e no luzir das micas. Era a hora do almoço do pessoal, quase só mulheres que, sentadas no chão à sombra das parreiras, sorviam o caldo em malgas, que seguravam com ambas as mãos. Foi aí que senti os olhares das mulheres acocoradas a espiarem-me por detrás das malgas. Recordo o meu vestido em trapézio, o meu cabelo tufado, os meus sapatos de salto. E as minhas mãos muito brancas que me deram de repente uma imensa vergonha ao notar as mãos, da cor do granito, da cor do pó de polir os talheres, das mulheres na hora do caldo. As minhas mãos, ainda brancas, têm rugas e veias azuladas como as paredes das fábricas mortas, no vale do Ave, a caminho de Guimarães, muitos, muitos anos depois de eu ter aprendido como eram os olhos das mulheres suspensos do trapézio do meu vestido.

Licínia Quitério

14.5.12

O CALOR E O VERDE




Foram os dias do calor e do verde. A luminescência do granito acendia estrelinhas sob os nossos passos. A sinfonia de verdes, nas alturas da Penha, dissipava todo o cansaço que do corpo se esquecia. Da humildade dos musgos à altivez das frondes dos carvalhos, toda uma gama de ondas de cor e de luz, que uma e a mesma coisa são, mas nos confundem o desejo de diversidade. As grandes pedras, solitárias ou em acasalamentos de improvável estabilidade, chamam-nos, provocam-nos, sugerem a nossa pequenez, a quase transparência que somos no tempo do calor e do espanto. Só quando regressamos ao casulo dos dias, repegamos a construção da solidez, antes de sermos, nós também, uma cor, uma luz, na última, possível, única dimensão.

Licínia Quitério

14.4.12

TECLADO


Menino à chuva
subindo a rua
mochila às costas
pula que pula
chuva não molha
herói não morre
joga que joga
tecla que tecla
corre que corre
grita que grita
chega que chega
senta que senta
tecla que tecla
joga que joga 
herói não morre
ó mãe já vou
tecla que tecla
tecla que tecla


Licínia Quitério

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