O pianista, no seu afã de tocar com limpeza, entre cada peça romântica, com o único lenço branco, afagava os beiços, a testa, os óculos que retirava da fronte, e as brancas e as pretas do teclado. Ajeitava com esmero as bandas da casaca, puxava os punhos, encolhidos mangas adentro, repuxava as calças para que os joelhos articulassem confortavelmente.
Nós no camarote exíguo, porque as pessoas no seu tempo eram mais exíguas de formas, roçando os veludos vermelhos. Pensando bem, seria lugar de Manon Lescaut e seus protetores. E eu desejei ter, ao menos, um lorgnon que me permitisse melhor divisar o colar de esmeraldas da galdéria que o conde de Maupassant, o do bigode talhado para provocar sonhos húmidos a donzelas, se atrevia a trazer pelo braço, provocador e triunfante.
À saída, pareceu-me ouvir: Marguerite! Alguém respondeu: C'est moi!
Lá dentro, as últimas palmas ao pianista do lenço agora menos alvo.
Pus termo às fantasias, antes que Alexandre Dumas me trespassasse com o seu olhar de desdém.
2 comentários:
Dumas foi um dos autores da minha adolescência - era então bibliotecária em regime de voluntariado numa colectividade de aldeia, onde, por obra e graça de mecenas, os livros cobriam as paredes de uma saleta. Eram tesouros aos meus olhos, e, de titulo em titulo, "A Dama das Camélias" saltou-me para o colo... talvez tenha sido o romantismo do texto, sei lá. Mas nunca o esqueci ....
beijinho
Mel
Podia ser uma cena de um filme. :-))
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