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30.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 3


A senhora chegou com a cadela muito grande e muito velha. Disse-lhe Senta, Santa! Senta, Santa! e depois para quem estava nas outras mesas da esplanada Está surda, coitadinha. E gritou Senta, Santa! A Santa sentou-se. Depois a senhora disse para a empregada Que bolos tem? A empregada ficou calada, a pensar. E a senhora disse Tem bolos de arroz? E a empregada disse Não! mais com a cabeça do que com a fala. A senhora continuou Tem queques? A empregada disse Sim! com a voz. A senhora disse Então traga. E um chá. Tem chá de quê? A empregada disse dois ou três nomes, em voz baixa. E a senhora disse Esse mesmo. Traga. A Santa continuava sentada. Antes da empregada chegar à mesa, a senhora gritou Nunca mais cá venho. Chá numa caneca. Não. E preta. Isso é que nunca. Que horror! A empregada parou com a caneca preta na bandeja. A senhora disse Ponha aí. Eu vou beber, mas fique sabendo que não volto cá. Um chá deve vir em cafeteira. A empregada disse Eu trago outro chá. A senhora disse Não. Hoje bebo assim. Segundos depois gritou Que horror. A água está morna. Não sabe a nada. E disse para a mesa do lado Não ferveram a água. Eu tenho de dizer. Para aprenderem. A empregada ouviu, foi lá dentro e quando voltou trazia um chá a ferver num bule de metal. A senhora arreganhou um sorriso e disse Pronto. Está bem. Assim é que é. Quando começou a vazar o segundo chá na nova chávena, disse Apre! Assim também não. Desviou a perna para não ser queimada pela água que escorria antes da chávena. A Santa deu um grito de cadela com dor, levantou-se e correu até ao fim da trela. A senhora gritou Nem oito nem oitenta. Santa, meu amor, senta! Nunca mais cá venho.

Licínia Quitério

7.6.10

CRÓNICA DE DESPERTAR 2


Acordei tarde e o dia fez-se parco e o desatino das horas foi a tontura do quarto em desalinho, do sol já alto cravando uma lança de oiro no soalho.  No silêncio da casa uma censura pela ausência do matinal concerto do chiar dos gonzos das portadas, do arrastar dos passos na rotina dos lugares onde mora o aroma do café, a garridice dos amores-perfeitos, o prato do comer da gata miando pela fome prolongada.
Ligar o computador e dar uma vista de olhos ao correio, ao resumo das notícias que pela tarde chegarão, com os seus pormenores bastas vezes devassos e sórdidos.
Preparar um dia não é tarefa fácil, tanto mais quanto o sono o encurtou. Viver a vida não é tarefa fácil, tanto mais quanto o tempo a encurtou. O que nos vale é ter havido um poeta que nos disse do sol, da poesia, das danças e os outros que, mesmo sem o dizerem, alimentam seus versos do riso ou do choro das crianças.

Vou viver tudo o que tenho até ser noite. E é muito ainda. Amanhã falaremos melhor.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE DESPERTAR

Em que estou a pensar? Perguntam-me ao despertar. Poderia responder: em nada, como se nada fosse nome de coisa em que se pense. Melhor dizer: em muitas coisas, tantas que se apresentam como uma massa informe, parecida, lembrei-me agora, com um pão de sementes antes de ser cozido. É isso. Estão a ver? Uma mole de farinha e água, a tomar jeito, pespontada aqui e ali por grãozinhos de cereais. Farinha foi a noite e os sonhos muitos, incoerentes, difusos, como se querem os sonhos. A noite ainda aqui mora, mas os grãos de ideias multiplicam-se, colidem, atrapalham-se, procuram os seus lugares no dia.
No páteo, um leve zumbido de insectos para a colheita do néctar divino. Há um diálogo de cães, na vizinhança. Que dirão? Fome, sede, amor pela cadelinha branca que os provoca? Tomo o meu café, negro, quente, amargo e só então dou os bons dias a mim mesma. Como quem diz: A moleza por hoje acabou. O dia espera-te.

O céu está azul, imaculado, mas, vinda dos lados do mar, anuncia-se uma neblina que talvez à tarde se diga frescura. Como é costume neste mês de rosas, mas também de caprichos e incertezas.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE PERMANÊNCIA


Havia um relógio na parede, com um cavalinho a encimá-lo. Talvez tivesse uma patinha dianteira erguida, já não sei bem. O balançar do pêndulo hipnotizava-me. Não conseguia desviar os olhos daquele disco dourado, lavrado de arabescos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E a menina que eu era entristecia, como entristecem as meninas, levemente, sem demoras. Logo, logo, se abria uma luzinha nos meus olhos. Na mesma parede, um de cada lado do relógio tic-tac, um azulejo de loiça branca, com uma cara de gato preto. Cara, sim, que os gatos sorriem e só sorri quem tem cara. Ao pescoço uma coleirinha amarela, com um guizo pendente, da mesma cor. Por detrás do gato havia umas folhas verdes que eu imaginava serem de couve e que nunca entendi muito bem para que quer um gato a companhia de uma couve. Iguaizinhos, nos seus baixos relevos brilhantes, lá estavam eles, um de cada lado do tic-tac. Sempre esperei que um dia virassem ao de leve as cabecitas e se olhassem, como se um deles fosse apenas espelho, o que nunca aconteceu. Muitos anos passados, já sem a avó nem o relógio tic-tac, um deles continua comigo. O outro seguiu caminho diferente, vive noutra casa. Por isso deixei de esperar que voltasse a cabeça para olhar o outro como se fosse um espelho.
O certo é que, ainda hoje, quando sinto que a tristeza quer chegar porque algum tic-tac soou no meu coração, olho o meu gato preto, com seu guizinho dourado e sorrimos, frente a frente, como mulher e gato que se conhecem, se adivinham.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 2


Foi uma pequena semente, espalmada como uma minúscula folhinha. Deitaram-na em cama de terra fofa e com a mesma terra a ocultaram. Precisava de um sono tranquilo, prolongado, com sonhos de álacre grandeza.
Da pequena semente foi saindo um corpito decidido a enfrentar o que quer que houvesse do lado de cima, do lado de lá da cama de terra.
Quase cegou quando chegou à luz que tudo banhava em seu redor. Deitou-se a medo no chão que sentiu firme e húmido e logo decidiu crescer e alongar-se em viagem, numa profusão de corpos verdes e de grandes folhas, cada dia maiores. O sol escaldava e pedia vida, muita vida. Respondeu ao pedido e, ao abrigo das grandes folhas, fez-se também flor, tomando a cor do ar quente em seu redor. Flor que nasceu para ser mãe.
E enquanto os seus braços cor de ar quente se encolhiam, se anulavam, um filho lhe crescia, de verde pequenino à ousadia da cor do próprio sol que lhe sorria. Os filhos crescem para ganhar o longe e assim ele partiu, esplendoroso, ganhando mundo para um dia o perder.
Quando o vemos, na madureza da idade, não recordaremos a sementinha que foi, mas aplaudiremos o triunfo do sol, redondo como ele, ardente assim na sua cor de fogo.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 1


Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.

Licínia Quitério

CRÓNICA DAS LONJURAS

Não tardaria aí o minuto de comer as passas, de beber o espumante, de subir para a cadeira, de beijar os amigos, de apitar as gaitas, de bater latas.
A mulher afastou-se discretamente do ruído da sala de festa e foi à varanda. A noite fria, húmida, serena. Iluminações festivas nas ruas ao longe, que aquela ainda guardava o nome de azinhaga e luzes só as das janelas. Na antecipação da explosão, faz-se um silêncio. Breve, ansioso, quase dorido.
Foi esse tempo que o homem aproveitou para se passear pela azinhaga deserta de gentes e de carros. Era só um homem no escuro da rua, que a claridade começava à altura de dois pisos. Com andar desengonçado, sinuoso, falava alto para o telemóvel bem encostado ao ouvido direito. O sotaque de africano falando português, de vogais bem abertas. “Que saudades, maninho. Tou bem. Tou bem. Beijo na Jessica, mano. Tudo bem. Tudo bem.”
Na TV da sala ouvia-se a contagem decrescente: “…cinco…quatro…três…dois…uuum!!”
O homem deu uma gargalhada e desapareceu ao virar da esquina. Dobrara o cabo do ano. A rir, ao telefone, com o maninho num outro continente.
A mulher continuou à varanda e viu o fogo de artifício romper o céu. Novelos de luz, flores de cor, lágrimas descendentes. Uma delas reflectiu-se-lhe no rosto. Como se pedisse guarida. “Tudo bem, maninha. Tudo bem.”


Licínia Quitério

6.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 2

Pelo modo como ela disse Posso? e puxava já uma cadeira, deviam ser conhecidas, mas não muito íntimas, que a outra respondeu Faça favor. A conversa das mulheres desenvolve-se com maior fluidez do que a dos homens.

Eles precisam de ter um jornal aberto, de preferência desportivo, para que o assunto se apresente e ganhe cor. Se a televisão estiver ligada, comentarão o programa a que ambos não ligam nenhuma. Lá a patroa é que sabe disto, nomes dos actores, quem anda com quem, vem tudo naquelas revistas cheias de mulheres boas na capa e outras, diga-se, umas carcaças cheias de cremes ou gel, ou lá o que é. Tudo gente fina e cheia de grana, o que lá vai por trás é que não dizem. Isto é tudo uma falsidade, é o que é. E aquele gatuno do árbitro do jogo de ontem? Gatuno, não é bem assim. Não? Então não estava à vista de toda a gente que foi mão do Nequinho? Não? É porque você não viu o replay. Está lá, clarinho como água. Gatuno e vendido. Espere pela pancada. Um dia destes alguém perde a paciência, mete a boca no trombone e você vai ver. Sim, não me admirava. Há jornais que vivem dessas fofoquices. Depois não dá em nada, mas entretanto vão fazendo esticar o assunto e é ver as vendas a subirem. Não variam muito as conversas dos homens que se encontram por detrás duns jornais e que não têm nada para dizer um ao outro. Ter até tinham, mas pieguices dessas são para mulheres. Sempre a queixarem-se, da saúde, dos preços, dos filhos, deles, maridos, que não as ouvem. Mas quem é que tem paciência para aquela lenga-lenga? Quando a minha está virada para aí, ala que se faz tarde. E agora por isso, estou no ir que o almocinho já deve estar a chamar por mim. Até amanhã. E, olhe, não tenha dúvida que foi mão. Estou a gozar consigo, homem. Bom apetite.

Com as mulheres é mais fácil, mais variado. O que é que toma? Um abatanado. Para mim é bica normal. Já sei que anda à procura de emprego. Não está fácil, pois não? Nem me diga. Na minha idade ninguém me dá trabalho. Ainda sou nova, diz a Alda? Já passei dos quarenta, pois. Olham para mim e perguntam: O que foi o seu último emprego? Quando lhes falo do instituto de massagens, franzem logo o nariz. Terapeuta ou dessas de estética? Como se as de estética não tivessem a categoria das outras. Diploma não tenho. Também nos sítios por onde andei ninguém mo pediu. O melhor diploma tenho-o aqui nas costas que isto de passar horas a fazer assim. E arqueava as costas e esticava os braços sobre a mesa, em flexões síncrones dos pulsos. A outra olhou em volta e disse, a fazê-la parar a demonstração. Pronto. Já percebi. Agora tinha uma promessa vaga de tomar conta de crianças nessas coisas dos tempos livres. Seria bem bom, seria. O meu marido? Esse está em grande. O que ganha é para ele e eu que me vire. Foi, foi sempre assim. Só pensa nele. Tem um trabalhito leve, desses com computadores, que ele de parvo não tem nada. E uma saúde de ferro. Ainda agora foi fazer exames de rotina, que ele tem um medo de morrer que deus me livre, e não quer saber a Alda os resultados? Não, muito pelo contrário. Tem tudo bom. Nem uma pontinha de colesterol, a tensão é óptima, até a próstata está como deve ser. Bom, uma ova! Isto anda tudo muito mal distribuído, é o que lhe digo. Mais nova uns anitos sou eu e já tenho uma data de mazelas. Elas não matam, mas moem. Bom, tenho que ir andando que se ele chega e o almoço não está na mesa, está bem, está, temos trombil para o resto do dia. Senta-se a ver o jogo na televisão e conversa nem eu. A porcaria do jogo é que interessa para amanhã ter que falar com os amigos. E desculpe lá estes desabafos, Alda, mas nós mulheres temos de ser umas para as outras. Até amanhã se Deus quiser.


Licínia Quitério

17.5.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 1

Reformados já há um bom par de anos, a vida os juntou naquelas mesas de café onde, diariamente, salvo à segunda-feira que era dia de fecho, tomavam os seus lugares cativos, tacitamente aceites. Parecia que se davam bem, se atendermos à convergência de opiniões sobre o rol de assuntos que desfiavam, ao mesmo tempo que, jornais abertos sobre a mesa, iam comentando “as gordas”. A maior parte deles tinham sido militares de carreira, com postos a meio da tabela, que as habilitações literárias mais não permitiram. Tinham feito a guerra que lhes dera a conhecer várias Áfricas. Ao mais velho de todos, o Silvino, até outros continentes. Da guerra, propriamente dita, raramente falavam e, mesmo assim, em frases curtas, sem lugar a prosa continuada. Eram unânimes em achar que os jornais mentiam, que a televisão era uma vergonha, que “Da maneira que isto está, já nada me admira”. Mas admiravam-se quando a mocinha que os servia, loira, com rosto de loiça, vinda lá detrás da cortina de ferro, lhes falava da história de Portugal, a antiga e a recente, com a mesma naturalidade com que perguntava: “Para o senhor é mal cheia, como de costume?” Não a contradiziam, apenas apuravam os ouvidos, uma interrogação nos olhos, uma ligeira subida dos ombros. E gostavam muito da maneira delicada com que os tratava. Incomodados ficavam quando um casal jovem, ela de pele branca, a dele de cetim negro, de mãos dadas, tomavam um breve pequeno almoço, de pé, ao balcão. Só retomavam a conversa depois deles sairem. O mais falador dizia: “Sem comentários”. E as falas prosseguiam, os tons das vozes elevando-se. De verdade, ninguém estava interessado em ouvir. Achavam todos, muito secretamente, que tinha chegado o tempo de serem ouvidos. Falavam pouco dos achaques, daquele joelho a pedir canadiana, daquela vesícula preguiçosa, mas tudo rápido, com uma graçola, do género “Coisas da juventude. É o que é.” Quando algum faltava, avisava os outros: “O Custódio telefonou a dizer que não vem. Passou mal a noite.” Sobejamente informados, ninguém perguntava pormenores. “No tempo da minha mulher”, referia amiúde o viúvo, sem sombra de emoção na voz, a expressão servindo apenas para localizar no tempo devido a acção a desenrolar. Houve mais dias em que o Custódio faltou. Estava internado. “Não tarda está cá fora. Esta cambada quer é despachá-los”. A cambada eram os médicos, os enfermeiros, os porteiros, os taxistas, os dos partidos, todos iguais, os do governo, uns gulosos. Só o Artur uma vez se atreveu a dizer que tinha conhecido um político honesto. “Quem? Quem?” E os olhares eram ameaçadores. Arrependeu-se logo e inventou um argumento esfarrapado. “Propriamente eu não o conheci. Foi o meu cunhado que me disse.” “Ah e tu acreditaste? Não venhas agora armar em ingénuo. Qualquer dia acreditas que o Sporting vai ser campeão.” Eram todos do Benfica, excepto o Custódio que, por sorte ou azar, não estava presente. O Inverno já ia a meio, o reumático fazia-se sentir, “heranças de quem andou por esse mundo a dar o corpo pela Pátria”, como bem dizia o Silvino. Inesperadamente, numa manhã de sol envergonhado, o Custódio apareceu. “Então homem? Já estás rijo?” Senta aí. Queria saber novidades. “Tudo velho, tudo velho. A não ser a minha neta que arranjou novo emprego. A cambada lá achou que a rapariga é competente.” O Custódio saiu mais cedo, tinha que ir levar uma injecção. O Silvino disse. “Está mais magro.” “Magro e verde”, explicitou o Artur. A Primavera anunciou-se e encontrou-os nas mesmas mesas, com os mesmos jornais, a mesma bica mal cheia para o Silvino. Faltava o Custódio. Chegou novo conviva, acabadinho de se aposentar das Finanças, um homem exuberante, de voz aflautada que também odiava a cambada. “Sente-se aí, homem. Era o lugar do Custódio. Foi-se.”

Licínia Quitério

24.8.09

A JANELA DA INFÂNCIA


Pela janela da infância o mundo entrava. O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste,com um carrapito preso por ganchos de tartaruga. O bater sola,cadenciado,do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca. O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois. Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava. E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas, Meu vadio, meu malandro, Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer. O piar dos pardais, à boquinha da noite, disputando um abrigo nos braços enormes do velho plátano solitário. Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância. Estranhos pássaros a chiar como ratos. E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares. Chiiu, chiiu, chiiu… E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava o mundo, em nova ordem, bizarro e encantatório. Era então que o canário da vizinha Celeste,liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem qualquer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais. E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua. Depois, num clarão deslumbrante,as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia,deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz, quem sabe o nada. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério-2002

13.8.09

A CIDADE

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer um pequeno título de glória. Mas não podia evitar (isso não podia) que nos olhos lhe pairasse a névoa melancólica que envolve todo o ser desterrado.

Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.

Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas muralhas, tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.

Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.

O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.

Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.

Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.


José Saramago

3.8.09

SONHAR, TRABALHAR...

Uma biblioteca duma escola, muitos meninos, papéis com palavras escritas e uma conversa animada acerca de livros e de poesia e de tantas outras coisas que iam nascendo, em grupo, em cumplicidade.
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.

Licínia Quitério

20.7.09

O CONVENTO


Ter nascido e crescido à vista e à sombra de um monumento destes alguma influência há-de ter na pessoa que sou e no modo como vejo a vida. Eu já sabia muita coisa sobre a história do colosso, tal como a aprendi na escola, nos velhos, nos livros. Sabia que tinha sido construído por capricho ou vontade de um rei que eu considerava ser da minha terra. Sabia das histórias de fantasmas como a do capitão-sem-cabeça e das ratazanas gigantescas nos esgotos, ameaçando invadir a vila. Sabia chamar "musaninhos" às salas com janelas ovaladas lá no alto. Sabia o que eram escadas de caracol quando subia até à torre para ver um amigo tocar os carrilhões. Sabia histórias dos santos de pedra, com pés enormes para os meus olhos de menina de metro e pouco. Havia os amigos que moravam "lá dentro" e os que eram cá "de fora". Conhecia cantos escusos que não eram dados a conhecer a visitantes. Ficaria horas a falar do tempo em que eu e o convento nos entendíamos, como menina e casa grande que lhe escuta os segredos.
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".

Licínia Quitério

3.7.09

DANÇAR E MORRER



Nada sei de dança. Não sei, mas gosto. Gosto do voo breve dos corpos, do seu sofrimento rente ao solo, da sensualidade, do suor, das contorsões, da fala, do grito, do encontro e da fuga. Passei a gostar mais, desde que vi pela primeira vez, no pequeno écran, um bailado de Pina Bausch. Nunca a vi ao vivo e agora sei que nunca a verei. Era uma mulher do meu tempo. Pode dizer-se que morreu dançando. Quando passei há dias em Loulé, fixei este par desafiando o azul. Quase liberto, quase. Pronunciei baixinho: Pina Bausch. Foi a homenagem possível, em passeio acidental.


Licínia Quitério

31.5.09

QUANDO A TERNURA



Meu querido filho,

Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
Eu tremi. E é irónico um poeta a tremer, a temer, quando o filho lhe diz que também, à sua maneira, quer ser poeta. Eu tremi, meu filho. E sei porque é que tremi.
Percebi desde logo que tinhas escolhido o caminho mais belo e, se calhar, por isso mesmo, o mais difícil. Aquele que está mais afastado do mundo mecanicista em que vivemos. Aquele que te vai fazer voar até alturas impensáveis e mergulhar no mais fundo de ti e dos homens teus irmãos.
Vais trabalhar com as mais complexas matérias que habitam desde sempre o coração dos homens: os símbolos. Tu sabes, já sabes hoje, que os símbolos são as palavras e as formas que desde sempre nos permitiram dialogar com as nossas angústias e os nossos medos mais fundos. São as chaves que te permitirão entrar em terríveis e complexos labirintos cuja saída só tu poderás encontrar.
Mesmo assim, sabendo tudo isto, escolheste o caminho mais difícil, aquele que te vai trazer muito mais dúvidas que certezas, muito mais infinito que descontos para a reforma.
Vais trabalhar sem repartição nem horário. Levarás o teu ofício colado à pele para todo o lado. Não poderás fugir a essa febre. Tudo, a lágrima e a dor, a revolta e o júbilo, o pão e o vinho, a tua juventude e o teu envelhecimento, um corpo de mulher e um riso de criança, tudo te vai servir de matéria prima. Estás condenado a uma fantástica doença.
Tem sido um pouco assim a minha vida e, pelos vistos, à tua própria maneira, assim será a tua. Os teus passos vão levar-te a andar sempre e sempre à volta dessa fome de tudo ao mesmo tempo a que se chama Arte. Arte das palavras, das formas e das cores, da música, da dança. Arte. Tão incompreendida nesta sociedade que tudo quer reduzir ao pacote de margarina, ás pobres vedetas da televisão ou às modas que ainda mal o são e já deixaram de ser.
Não há dúvida de que escolheste o caminho mais difícil. Aquele que ninguém trilhou. Porque é o teu, só teu, e como dizia o poeta espanhol António Machado: “Caminhante, não há caminho/ faz-se o caminho ao andar.”
Vais esbarrar com muitas dificuldades e mais incompreensões. Vais sofrer na pele o ferrete de assistir ao êxito ribombante das vedetas descartáveis, dos opinosos iníquos, dos comerciantes de influências, dos fabricantes de “facas sem lâmina a que lhes falta o cabo”, como dizia o Alexandre O’Neill. Tudo isso vai acontecer enquanto tu atravessas as noites lutando contigo em busca de uma cor azul, de um perfil exacto, de uma grande harmonia ou de um imenso desacato.
Julgo que já não podes voltar atrás. Escolheste o caminho mais difícil. E, por isso, meu filho, estou cheio de orgulho em ti.

JOSÉ FANHA


Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog
Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.


Licínia Quitério

25.5.09

A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES

Mutuamente se observam, as suricatas e os humanos. Disseram-lhes que pertencem ao mesmo maravilhoso mundo dos episodicamente vivos. Como as palmeiras anãs ou as iguanas ou a mosca da fruta ou as amibas. Passam os milénios que os homens tomam por medida e toda esta massa pulsante de viventes se transforma e adapta e evolui e continua em sucessivos estádios de comunhão com os glaciares e as estrelas. Nós, os não cientistas, nem teólogos, nem filósofos, nem poetas de alta estirpe, raras vezes nos olhamos interrogativamente e, quando o fazemos, brevemente desistimos de obter respostas que relegamos para o lugar confortável dos "insondáveis mistérios".
Vem isto a propósito duma excelente exposição sobre o pensamento e acção de Darwin e suas implicações no mundo de hoje. E a propósito também de dois jovens que encontrei numa paragem de transporte público. Não me viram. Não se viram. O rapaz exercitava freneticamente os polegares em dois telemóveis que constantemente produziam sons breves e desencontrados. Quando os sons se detinham, o rapaz continuava a agitar os polegares sem tocar os aparelhos e mordia o lábio inferior, num sinal que intrepretei como angústia perante a momentânea quebra de contacto. A rapariga trajava de negro, tinha ao peito um pin branco com uma caveira e duas tíbias a negro e lia contos de Allan Poe. Quando interrompia a leitura, os olhos eram de um lindo azul translúcido, parados como os olhos parados dos velhos.
Que sei eu daqueles humanos com que me cruzei senão o que Darwin afirmou? Eu, as suricatas, o rapaz teclante, a rapariga de negro, somos partes de um mesmo todo. Uma universal solidão nos agrega, colmatando a diversidade das espécies.


Licínia Quitério

19.5.09

Uma pista

http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/

Se me permitem, um conselho: entrem neste link, vejam, oiçam e fiquem felizes. Já agora, não deixem de dar uns passeios pelo blog do Tiago - Geométricas - que é um belo campo de olhares e sentires. A net também tem destas coisas bonitas, de gente com nervos e coração.


Licínia Quitério

7.5.09

TURISMO OCIDENTAL 2

"O meu avô contava de um homem que era tão pobre, tão pobre, que a única coisa que possuia era dinheiro."

É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Antes do furacão há um vento quente que despenteia os palmares e rola os corais mortos no areal. A exuberância vegetal é um grito de espanto perante a invasão das construções que abrigam "souvenirs", como se a memória não fosse mais do que um cartaz a cores berrantes.
É o vergar do trópico cansado da sua guerra elementar há muito perdida na voragem fundacional do novo mundo.
A obesidade mórbida dos turistas ameaça a resistência da lona das cadeiras. A pele cor de azeviche dos indígenas forra-lhes a magreza e faz sobressair as dentaduras arruinadas e aparentemente muito brancas.
O reggae põe-me doida, digo. Um slogan, como qualquer outro, que inventei para meu conforto na passagem por lugares que não consigo adjectivar.
Não fora aquela história que um guia contou, floresta adentro, e que acima registo, talvez a solidão dos homens me tivesse sido insuportável.

Licínia Quitério

4.4.09

UM CONCERTO A SOLO

Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.


Licínia Quitério

Foto retirada da net

25.3.09

O MEU AMIGO ANTÓNIO

São tantas as portas que se fecham, diariamente, neste país onde nasci. Como se vai fechar mais uma sobre o esforço e a dedicação do meu amigo António. O negócio está mal, não há sucessores à altura. É o que consta. É preciso reduzir o pessoal. Ele já é velho. Daqui a um par de anos será sexagenário. No meu país, sexagenário só patrão ou administrador ou banqueiro ou...
Desde puto que acumula saberes aprendidos nos braços e nos livros. Sabe fazer, sabe como se faz, procura saber mais, de tudo. Da metalurgia pesada, da agricultura, da mecânica, da razão das coisas da nação, do mundo, do amor da família, dos amigos que sempre chegam e a quem dá o que tem e o que sabe. Gosta de se pôr à prova em problemas novos e quando lhes descobre a solução solta um riso gaiato porque ganhou mais um tesouro.
O magro salário do António chegou ao fim. O país não pode dar-se ao luxo de pagar a homens como ele. Não foram estes Antónios que saquearam o trabalho dos outros, a inteligência dos outros, a honestidade dos outros e inventaram dinheiro para depois o roubarem. Mas são estes Antónios que hoje são expulsos do trabalho, da casa, da dignidade com que respira um Homem.
O meu amigo António não é digno de pena. A sabedoria que acumulou ninguém lha poderá roubar, porque a toda a hora a acrescenta e a reparte. Por muitas portas que neste país se vão fechando.


Licínia Quitério

21.3.09

QUERER


Um dia em que se fala de Primavera, de Florestas, de Poesia. Palavras bonitas que nos põem no coração esperanças e frescuras e cantigas. Assim fossem todos os dias, em todos os lugares do mundo que sabemos.

Como disse Ruy Belo:
...

Entre mim e as coisas havia vizinhança
E tudo era possível
Era só querer


Licínia Quitério

27.2.09

ANA


Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.

Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec

Licínia Quitério

9.2.09

TURISMO OCIDENTAL

Abdul conduziu-nos a um chá num oásis no limiar do deserto. Talvez lhe chame oásis porque havia árvores e tanques com água e pássaros cantadores. Porque no limiar dos desertos tem de haver um chá e a tenda em que ele fumega. Na tenda tem de haver tapetes e almofadas e cheiro de menta. Por todo o lado a simetria dos desenhos e a cor escandalosa do açafrão só acalmada pelo verde negro das palmeiras do anoitecer. Ah e a música e os requebros do ventre e o choro-cante a ecoar nas nossas antigas oliveiras. Por toda a parte os belíssimos olhos negros de Ali-Babá e de Moriana. Ou de Abdul, com um joelho avariado a por-lhe um pequeno soluço na voz a cada degrau transposto. Breve passagem por um cenário de faz-de-conta em que tudo nos é dado como certo excepto o soluço escondido na voz de Abdul, o nosso guia.

Licínia Quitério

24.1.09

UM DIA DIFERENTE


Uma avaria grande, disseram na rua. Tem de ir um camião buscar uma peça. Previsões não dão. Como não? O que é que eu vou fazer sem electricidade? Um lamento comum ao pessoal da rua.

Foi esse o dia em que falaram a dois, a três, a quantos iam chegando. Os que passavam falavam a quem se encostava às ombreiras. Do lado de fora da porta, como nunca se vira. As casas iam arrefecendo e felizmente cá fora havia sol. Melhor ficar por ali, num remanso forçado, a desatar as falas tão guardadas que nem se sabia que existiam. Quem havia de dizer que se foram descobrindo amigos comuns? O mundo é bem pequeno, já todos tinham ouvido dizer. Mas a senhora sabe de artes gráficas? É que muita gente me pergunta: Que é isso em que trabalhas? E foram falando da feitura de livros. A máquina em que agora opera tem vinte e três metros de comprimento. Um orgulho no cerrar dos lábios, no arquear das sobrancelhas.

Claro que o Senhor Joaquim conhece a vizinha. Não, como ela supunha, por lhe dar o calçado a arranjar, por lhe conceder os bons dias, as boas tardes, a que ele responde sem levantar os olhos da obra. Conhece-a desde sempre, o pai, a mãe, o marido, alguns amigos. Foram, a bem dizer, colegas na mesma grande empresa já lá vai muito tempo. Agora porta com porta. Quem diria?

E a luz que não vem. Isto está para durar. Mais vale fechar a loja por um instantinho que a freguesia também anda perdida. E vão as duas, as três, tomar um café na outra rua, onde a avaria não fez estragos. Extravagâncias a que nunca se permitem, a não ser hoje, que esta arrelia não deixa fazer nada. Já passava das cinco quando a luz apareceu. Houve uns gritinhos de alegria. Depois disseram: Bom, vamos andando que tenho tudo atrasado. Talvez amanhã voltem a falar de coisas que nem sonhavam que sabiam.

Em casa, a velha senhora, depois de passada a hora de desacerto em que todos os gestos de autómato não produziram efeito, sentou-se. Simplesmente sentou-se. Pegou num livro, pegou noutro, mas não conseguia concentrar-se na leitura. Só mais tarde entendeu que na casa havia um silêncio desconhecido. Todos os aparelhos desligados, recordou a orquestra de ruídos, de zumbidos, de estalidos que fazia parte dos seus dias. Passou a tarde a escutar os passos, as vozes na rua, os miados dos gatos nos quintais das traseiras, a tosse do vizinho do lado. A inoperância das máquinas deu-lhe a percepção de mais vida. Soube-lhe bem a imobilidade. Nem deu pelo frio da casa. Pensou, como sempre, nos seus mortos, mas não ficou com olhos húmidos. Achou que talvez estivesse próximo do silêncio deles. Fazia já escuro quando a luz voltou. Estremeceu, levantou-se e não parou até acertar todos os autómatos. Há muito que não tinha um dia como este. Avariado. Diferente.


Licínia Quitério

2.1.09

AN EYE FOR AN EYE




Fiquei a escutá-la. Tem um nome de que desconheço a pronúncia. Tzipi Livni. A pele é branca e o cabelo mostra-se loiro. É uma mulher do meu mundo a que chamam ocidental. A terra dela fica na linha fronteiriça de muitos ódios. Terras vizinhas de deuses e de profetas e de disputas sangrentas por água e terra e pastagens e camelos e oleodutos e mísseis. Berço de civilizações, diz-se. A mulher tem filhos crescidos. A mulher notabilizou-se na perseguição e aniquilação de inimigos. São inimigos dela, dos pais, dos avós e de todos os avós de toda a sua gente. A mulher tem uma inteligência aferida em 150 não sei que unidades. A mulher chefia, praticamente, a sua nação que está desde sempre em guerra. Com todo o interesse aguardei a sua comunicação sobre a guerra desta semana. Foi quando me apercebi de que tem dificuldade em articular certos sons. A língua avança demasiado e os dentes demoram em descerrar. O som produzido é semelhante a um silvo. Nesse preciso instante, há um estremecimento no rosto de maxilas largas. Só os olhos não denunciam a dificuldade, a imperfeição. São olhos parados, secos, esquecidos das pálpebras. A mulher acabou de afirmar que a guerra continuará e se intensificará até à destruição do inimigo. É ela quem ordena. Avisa que morrerão inocentes. Como em todas as guerras, explica. Retira-se, com o olhar sem pálpebras.

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.


Mahatma Gandhi disse, na língua dos seus inimigos: An eye for an eye makes us blind. Não sei em que unidades se poderá aferir a inteligência do seu coração.


Licínia Quitério

imagens Google

26.12.08

UM APONTAMENTO

imagem obtida na net

Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny

Quando Cesariny escreve ou diz ou desenha um texto sobre o par Vieira/Szennes é como se ele próprio nos conduzisse pelos caminhos insondáveis do labirinto amoroso. E os mitos se apoderam de nós. Nós, mitificados, nós, as duas pontas do fio, nós, homem ou mulher, Helena ou Ariane, Arpad ou Teseu, nós tão frágeis e tão poderosos, no limite do desejo, no princípio da morte.

Licínia Quitério

5.12.08

QUASE POLICIAL



Eu nunca tinha ouvido falar em Harrogate, mas aconteceu achar-me por lá. Desde então o lugar passou a existir. Bem enquadrado nas brumas de suas majestades reinantes, rodeada de prados encharcados por águas de todo o ano, a povoação deixa que nos aproximemos e oferece-nos, a nós, transeuntes de fim de tarde, a disponibilidade de um jardim, a solidez da frontaria de um belo edifício vitoriano. Eram ali os Banhos, luxos de tempos não muito distantes, lugar de veraneio e descanso de aristocratas de sangue e de pensamento. Hoje, um hotel de gama média, confortavelmente estrelado. Um dos sítios eleitos para sossegos e deambulações de Agatha Christie, a senhora de imaginação prodigiosa, construtora de histórias de crimes imperfeitos desvendados por detectives astutos, de mentes necessariamente mais perversas do que as dos criminosos praticantes.

May I? A inesperada voz de falsete do empregado fez-me soltar um riso desordenado e, em lastimável convulsão, sem conseguir articular um Yes, afastei o tronco para que retirasse o prato. Ainda lhe vi o olhinho seco, traverso, como uma praga. Junto à janela, Miss Marple tamborilava os dedos na mesa e olhava alternadamente para mim e para o empregado. Encontrei-a de novo no dia seguinte, no check-in do hotel. Segurava um manuscrito de poucas páginas. Pude ver o título: "The Murder of the Laughing Guest". A voz aflautada soou por detrás do meu ombro: Good morning! Não me ri. Sou uma senhora de boas maneiras.

Licínia Quitério

30.11.08

O PROGRESSO, DIZEM


Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.

Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.


Licínia Quitério

19.11.08

PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA

"A linguagem conhece dois trabalhos: um como escrava, outro como soberana. No primeiro serve, no segundo oferece. Se um gesto aponta alguma direcção, então o gesto é só um instrumento e vê-se, à transparência, através dele. Se um gesto é feito por um bailarino, ninguém procura o seu significado. A história da dança não foi mais do que o anseio para passar de classe, para deixar de estar em nome de outra coisa e impor a intensidade do momento.
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
(excerto do prefácio, da autoria de Hélia Correia, ao meu livro de poemas "De Pé sobre o Silêncio")

7.11.08

A ALFACE













A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.

Licínia Quitério

P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.

15.10.08

UM LUGAR ESPECIAL

Ao lançar a rede neste mar imenso de lugares virtuais, encontrei na morada


um diário que aconselho vivamente. É muito forte, mesmo doloroso, mas de uma humanidade e de uma poética extraordinárias. Tem dois personagens que são também dois tempos de cada um de nós. Não digo mais que há lugares que só devemos frequentar em silêncio, de olhos bem abertos e coração atento. Espero que gostem.

4.10.08

A FONTE

Há frases que nos atravessam recorrentemente como se quisessem falar por nós. "Nadie escribe al General", o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez, muitas vezes se me cola ao pensamento, impertinente, assim mesmo em castelhano, como o li. A tal ponto se impõe que já o tenho repetido a alguém, em voz alta, a sublinhar lamentos de desamparo, decepções por eternas esperas. Vem isto a propósito do pormenor de foto que aqui reproduzo, sem licença prévia do autor que também é o construtor da pequenina fonte. Chegou ontem, ao fim da noite, triunfante, acompanhada de uma breve carta electrónica. Explicava que memórias persistentes da infância lhe exigiam uma fonte. Andou a fazê-la, devotadamente. Já a tem. Só faltam uns pequenos arranjos a darem mais consistência ao quadro. Agora sorri ao ouvir a voz do fiozinho de água a correr para os fundos. Ali perto, o maior bicho é o gato da casa que compõe o seu ar falsamente desinteressado da novidade. Mas o dono pode ouvir os chocalhos dos grandes animais que se vão dessedentar, à tardinha, como dantes. Aposto que um dia destes contará ao neto uma história de encantar: Era uma vez uma fonte, era uma vez...
Se todos soubéssemos assim reconstruir os nossos lugares, bem poderia eu afastar as palavras de "Gabo" e prendê-las na capa do livro que fala do General que esperava uma carta que tardava. O meu amigo não ficou à espera. Escreveu-a.

Licínia Quitério

27.9.08

"CURVA OBLÍQUA"


Gosta de poesia? Julguei que ouvira mal. Gosta de poesia? Quase um murmúrio. Franzina, jovem, vestida de negro. Com um monte de papeis mal contidos numa capa de plástico azul claro que agora entreabria. Quer ler um dos meus poemas? Eu disse, também em voz baixa, sem saber porquê: Gosto. Deixe-me ler. Ainda não tinha tempo de acabar, já novas perguntas: E este? Quantos quer? Parei de ler. Olhei-a bem nos olhos e disse: Escreve muito? Precisa de ajuda? Não sei se lha posso dar. Logo me arrependi da incoerência do discurso. Sem me dar conta da grande idade, as costas ainda aprumadas, o olhar demasiado brilhante, quase senti vergonha de ter ali defronte uma jovem embrulhada em negro, curvada ao peso de papéis desalinhados e de aflições com que dizia escrever poemas. Que vendia. O rendimento mínimo, a renda do quarto, a solidão que não era a falta de companhia, era sim um aperto por dentro da cabeça, a ameaçar estoirar. Disse-lhe que tinha um blog. Se me deixava publicar. Sim, sim, agradeço-lhe muito. Que nome devo citar? O meu nome literário é Cília Ramos. Depois tirou-me o papel da mão e escreveu no verso outro nome. O autêntico. Leonora. Ponha este. E por baixo, em letras de mão sinistra, Nair Leonora Correia. E o contacto: 91....... Tudo isto sem altear a voz. Às vezes a polícia causa-me problemas. E eu a passar-lhe uma nota, a olhar em volta, estranhamente com receio de ser apanhada em flagrante. Quer mais? Eu tenho cópias. Não tive coragem. Fiquei com este que abaixo transcrevo. Incomodada, sem saber traduzir o que me fora dado ouvir e ver, despedi-me. Escreva sempre. Um dia a claridade virá para a sua vida. Frase desajeitada, pedante. Ela deu um saltinho para se reaproximar. Obrigada. Dê-me um beijo. Curvei-me um pouco e dei-lhe dois e ela a mim outros dois. Nem me virei para a ver afastar-se. Subi a rua. Entrei no café e pedi uma bica ao balcão. Cá fora, no passeio, Fernando Pessoa continuava impávido, ouvindo o sino da sua igreja e pousando para a eternidade com um turista à bandoleira.

Licínia Quitério

CURVA OBLÍQUA

A noite descreve uma curva
Oblíqua sobre a cidade
Dentro ou fora desta
Milhares de corpos são lambidos
Pelo calor...
E há um cheiro a morte
Ruidosos os corpos e as bocas
Agitam-se
A noite estende-se como um lençol
Porém quando tornarmos a olhar
A madrugada chega e com ela
O canto das aves
E faz-se silêncio
Rasgado apenas aqui e ali
E a noite descansa para voltar a repetir-se
Na curva oblíqua que a descreve

Nair Leonora Correia
Lisboa, 27/09/08

25.9.08

O UNIVERSO




Ela disse: Têm falta de cabeça. Não sabem orientar-se, gastam o que não podem, depois chegam a isto.
A outra disse: Não sabemos. Pode acontecer. Um dia estamos tão sós como o universo. E só nele encontramos amparo.
Ela disse: Lá estás tu a brincar com as palavras. Nunca se sabe quando falas a sério.
A outra encolheu os ombros e disse: Se um dia tiver um barco há-de ter o nome deste.


Licínia Quitério

16.9.08

APONTAMENTO



Ocupado a reconstruir um cigarro. Boa colheita de matéria-prima num lugar de viajantes, num tempo antes da limpeza. Meticulosamente, esbrugava as pontas velhas e, com os farrapos de tabaco enrolado em folhinhas de papel branco, sedoso, ganhava os seus cigarros do dia. Ali, rente ao chão, senhor do degrau de porta para o passado. Havia o tapete usado que me intrigou. Quero pensar que lhe pertence. Um homem tem de ter os pertences que lhe dêem a diferença dos outros da mesma rua.

Licínia Quitério

9.9.08

QUANDO EU FOR VELHA...


AVISO


Quando eu for velha hei-de vestir-me de roxo
E pôr um chapéu vermelho que não combine nem me fique bem.
E hei-de gastar a minha pensão em brandy e luvas de verão
E sandálias de cetim, e hei-de dizer que não tenho dinheiro nem para manteiga.
Hei-de sentar-me no chão da rua quando estiver cansada
E mastigar com ruído amostras de rebuçados nas lojas e tocar campainhas de alarme
E fazer tilintar as grades dos jardins públicos com a ponta da bengala
E compensar a sobriedade da minha juventude.
Hei-de andar de chinelos à chuva
E apanhar flores nos jardins alheios
E aprender a cuspir.
Usar blusas horrorosas e engordar mais
E comer quilo e meio de salsichas de uma assentada
Ou passar uma semana só a pão e pickles
E guardar em caixas, com desvelos, canetas, lápis, bases para copos de cerveja e coisas assim.
Mas agora temos de vestir roupas que nos mantenham secos
E pagar a renda da casa e não andar na rua a praguejar
E ser um bom exemplo para as crianças.
Devemos receber amigos para jantar e ler jornais.
Mas não seria bom começar já a praticar um poucochinho?
É que assim as pessoas que me conhecem não ficarão demasiado chocadas e surpreendidas
Quando eu ficar velha de repente e começar a vestir-me de roxo.


JENNY JOSEPH


Uma tradução caseira de um poema que acho uma delícia. Espero que também gostem.

Licínia Quitério

22.8.08

O TREVO - 3.ª e última parte


Naturalmente, Jesus não vivia somente de botânicas e de sonhos. Tinha o ofício de caiador de casas e de muros que lhe assegurava o sustento e o mais que permitisse vidinha humilde, mas tranquila. Trajava sempre de branco, a cabeça protegida dos pingos da cal por um lenço a que quatro nós nos cantos conferiam forma achapelada. Era meticuloso nas suas caiações. Revia-se com orgulho nas faixas de azul berrante com que enfeitava os rodapés e as molduras das janelas das casas branquinhas. Subia devagar a escada-de-mão, a fazer lembrar lagartixa sonolenta amarinhando em tronco de árvore encharcada de sol. Esgueirava-se assim até aos beirais de telha vermelha, belamente recortados, para os forrar de branco, não sem antes os ter raspado das sujidades da passarada e dos velhos líquenes verde-amarelados.

Os anos passavam por Jesus Veredas Bicho ou, melhor dizendo, Jesus passava pelos anos, gastando-se neles. Os baldes de cal que transportava pareciam mais pesados, tornando-lhe os braços mais alongados, as mãos a roçar os joelhos. As costas encurvavam-se, os ombros estreitavam-se. As crateras das bexigas viraram casulos esbranquiçados, à força de abrigarem tanta cal. Começou a sentir tonturas que atribuía ao mau funcionamento da vesícula. Fazia chazinho de boldo. Três colheres de café para um púcaro de água. Deixava levantar fervura, moderava os ímpetos do lume e ficava a vigiar, não transbordasse, cinco minutos bem contados. Depois era só deixar arrefecer um pouco e coar por um pano linho que tem boa rede e não larga fios. Bebia um copo da infusão em jejum e outro ao deitar. Não havia melhor para livrar o interior dos maus humores que no fígado se albergam.

Aquele dia quente dos princípios do Verão, destinou Jesus a caiar uma casa bem bonita, piso térreo e primeiro andar, sita numa quintinha afável e rodeada por canteiros primorosamente ajardinados e orlados de buxo em devido tempo aparado. A casa era um bocadito alta e a velha escada-de-mão de Jesus Bicho um nadita baixa para chegar com desejado à vontade ao beiral de dupla telha, a indiciar desusada abastança do proprietário. Por isso, encostou a escada à parede da frente, experimentou a obliquidade consentida e verificou, com algum alívio, que era mesmo à conta para a pretendida missão. Teria apenas de esticar bem o braço e usar o pincel de cabo mais comprido. Tudo na vida tem remédio, pensou. E acrescentou: menos a morte. Sentiu um estranho formigueiro na cana do nariz que esfregou energicamente como a tentar expulsar algum agente intruso. Deitou uma olhadela em redor, aspirou com delícia o perfume dos goivos que nesse ano exibiam capitosas inflorescências e preparou-se para trepar a escada, lentamente, a mão direita nos degraus, um após o outro, a permitir os impulsos, a esquerda segurando o balde. A meio da subida, sentiu uma ligeira tontura. Esqueci-me de beber o chá esta manhã. Onde ando eu com a cabeça? Por um momento, sentiu-se apreensivo. Chegou ao topo, pendurou o balde com um gancho apropriado num dos extremos do último degrau, mirou de perto o beiral e aspergiu com o pincel embebido no leite de cal uma osga furtiva, ordenando em tom de esconjuro: Vai-te, peçonha! De novo o cheiro dos goivos, agora mais intenso, inebriante. De repente, sem querer acreditar, ouviu um chamamento que lhe pareceu nascido de um dos canteiros. Olhou para baixo, sentindo-se envolto numa nuvem de vozes ténues e de cheiros indecifráveis. Esforçou os seus pobres olhos a tentar focar o que quer que fosse que o atraía algures no meio dos goivos. O coração disparou numa batida célere e deixou de sentir o peso do corpo. Foi então que um estranho sorriso de pura felicidade lhe inundou o rosto. Sempre a sorrir, Jesus Veredas Bicho soltou a única mão apoiada na escada, abriu os braços feitos asas de gaivota e voou. Cá em baixo, rasteirinho, com os quatro corações de brinquedo, esperava-o o trevo dos seus sonhos. Jesus não se estatelou. Poisou, de mansinho, sobre as flores. A cabeça de lado, os olhos brilhantes como nunca, fitando com encantamento a folhinha da sorte que finalmente se mostrara. O sorriso de felicidade permaneceu mesmo depois de o levarem para um sítio muito branco, com gente vestida de verde onde lhe era perguntado: Aqui dói? Não. Nada lhe doía. Queria ir-se embora dali. Já não o podiam ouvir dizer: Ele está lá à minha espera. Curou-se e saiu do sítio branco e verde. Tanto quanto as forças lho permitiam, apressou-se até ao canteiro. Lá no fundo, temia ter tido uma visão. Como os santos cujas estampas colava no caderninho de folhas de papel grosso. Procurou, as mãos a tremer, os olhinhos a rolar. Viu-o. Lá estava, um pouquinho amachucado como ele, mas vivo. Deitou-se a seu lado, na cama macia de folhinhas. Deve ter dormitado. Quando despertou, tinha uma mão dormente. Abriu-a, a custo, e qual não foi o seu encanto quando viu que o trevo nela se guardara, numa oferta silenciosa àquele homem pequenino e míope, caiador de profissão e botânico por devoção, a quem puseram o nome de Jesus Veredas Bicho e que teve um sonho fechado na mão.

FIM


Licínia Quitério

15.8.08

O TREVO - 2ª. parte



Jesus Bicho gostava muito de plantas. Ainda na escola primária, dedicava largas horas a cuidar dos seus pequeninos canteiros onde coleccionava ervinhas que tratava com desvelos maternais. A pouco e pouco, foi-lhes conhecendo os nomes, as formas, os cheiros, as fragilidades ou as insuspeitadas forças com que enfrentavam os tratos dos homens e dos elementos. Alegrava-se com o cheirinho doce da cidreira, com a frescura lavada da alfazema, com a estridência da cor da macela. Aprendera a conhecer-lhes as preferências por humidades ou securas, por asperezas de rocha ou molezas de aluvião. Tinha Jesus Bicho uma particular preferência pelas plantas baixinhas, discretas, como que a pedirem licença às grandes para as deixarem afirmar a presença. Regalava-se com as violetas que floriam às ocultas, na sombra fresca; com a simetria das formas galantes do polipódio, com as belas cabeleiras volantes do dente-de-leão, com o verde aveludado dos musgos natalícios. Para ele, não existiam ervas daninhas. Todas eram criaturas inocentes e benfazejas. Estudou-lhes as virtudes, entendeu as dádivas que propunham. Assim se tornou mestre em receituários, famoso pelos seus conhecimentos e pelos alívios que era capaz de proporcionar com tisanas e mezinhas. Tinha conseguido obter remédios para a espinhela caída, para o bucho virado, para as sezões, para os sapinhos e para o ermo dos bebés, para o flato, para a erisipela, para os panarícios, para o quebranto, para as frieiras e até para as mais teimosas pieiras do peito.

Era um homem quase feliz. Respeitado pelos seus saberes, era amiúde visitado por pobres desesperados em busca de melhoras, porém a troco de nada. Recusava-se a comerciar conselhos, a vender virtudes. Dizia, invariavelmente, quando lhe perguntavam quanto era: Melhore vossemecê que eu ficarei pago.

Tinha Jesus um sonho inconfessado. Entre as plantinhas de sua estimação, figurava uma apreciável colecção de trevos, com folhas e flores de vários tamanhos e coloridos. Gostava profundamente das suas folhinhas quando abertas em leque, a fazer equilíbrios contra o vento na ponta dos pecíolos longos e delicados. Simpatizava com as flores falsamente campanuladas, amarelas umas, rosa outras, que se fechavam em tubo para dormir e se espreguiçavam triunfantes às primeiras luzes da manhã. As mãos de Jesus catavam diariamente, com suavidade, as inúmeras folhas de trevo, todas elas tripartidas em corações de brincar. Enquanto tirava um bichinho de conta aqui, uma sujidade acolá, por detrás das lentes grossas, as continhas de colar giravam, giravam, perscrutando com minúcia aquele estendal de frescuras. Pacientemente, Jesus espiava a sorte que, acreditava, um dia se revelaria em forma de trevo de quatro folhas. Sim, uma daquelas plantazinhas transcenderia a sua própria natureza e, subvertendo os códigos originais, dar-lhe-ia o sinal da raridade guardado só para eleitos.


continua...


Licínia Quitério

6.8.08

O TREVO - 1ª. parte



Jesus Veredas Bicho foi sempre enfezadito. Padeceu de todas as doenças que dizem ser próprias da idade primeira, mas nunca o seu sangue se viu livre dos maus humores que deveriam ter sido expurgados pelo sarampo, sarampelo que sete vezes vem ao pelo. Até as danadas das bexigas doidas acorreram a esculpir-lhe o rosto de pequeninas crateras lunares. Quanto aos olhos, nem é bom falar. Jesus sempre fora um cachopo de vistas curtas. Perguntava amiúde: onde é que está isso? E os olhos, cansados do esforço infrutífero, viravam pequenas frestas, alongadas por rugazitas precoces. Os adultos impacientavam-se: Se fosse bicho, mordia-te. O rapaz parece que é cego. Tanto não seria, mas quando chegou à escola e a professora reparou que Jesus encostava o livro à ponta do nariz para poder relatar o que nele encontrava, chamou o pai e sentenciou: Trate de arranjar depressa uns óculos para o seu filho, que tem uma miopia enorme. Faltava mais esta. O raio do rapaz só dá é despesa. O médico receitou-lhe uns óculos de lentes grossas como fundos de garrafa. Por detrás delas, passaram a rolar os olhos redondos e brilhantes como contas desenfiadas de um colar de fraco préstimo.




continua...

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