2.8.14
OS MENINOS CRESCEM
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28.7.14
NEUTRO
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A VIDA PASSA
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19.7.14
DANÇAS
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16.7.14
A OUTRA COISA
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10.7.14
A PERGUNTA
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7.7.14
PORTUGAL
Portugal dos que foram, dos que voltaram, dos que por lá ficaram. Portugal belíssimo, das casas abertas uma vez por ano, dos que ainda constroem, dos que ainda cultivam, dos que de novo partem, do temor dos incêndios, dos falares antigos casados com falares alheios. Portugal que um dia se despejou em Hendaye e em Austerlitz, de sagas intermináveis, de brava gente que resistiu ao pior, que diz "a casa feita" como quem diz "o corpo erguido", que ombreia com os melhores de cá e de lá, que está hoje num eido duma aldeia serrana com o mesmo orgulho com que se mede nas capitais do mundo. Percebi que está muito ainda por contar da história da emigração a salto, a medo, na fuga do frio, da fome, na busca de trabalho, de comer, de um mundo para os filhos. País tão lindo, de amor madrasto.
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29.6.14
SERENATA À CHUVA
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21.6.14
O TELEMÓVEL
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18.6.14
A OUVIDORA
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RONALDO
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6.6.14
SERÁ TALVEZ...
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30.5.14
A PALIDEZ
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13.5.14
N S F
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11.5.14
AS AUSTRÍACAS
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10.5.14
CARTAGENA DAS ÍNDIAS
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4.5.14
CHOCOLATE
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7.4.14
HAVIAS DE GOSTAR
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2.4.14
A PRIMAVERA
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30.3.14
PICO, PICO, SERENICO
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23.3.14
MUITOS FILMES
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15.3.14
LER O JORNAL
Nunca encontrei lugar melhor para ler um jornal do que uma mesa de café, de preferência com tampo quadrado, com sessenta por sessenta. Em casa, nunca tive uma mesa dessas e duvido que, se a tivesse, fosse a mesa de ler o jornal, sem que logo se atafulhasse de papéis, livros, esferográficas, corta-unhas, um pacote de açúcar, o comando electrónico de qualquer geringonça. O certo é que a leitura de um jornal em casa me obriga a esforços que me põem mal disposta . Pode ser a mesa da sala, que tem mais de sessenta numa das dimensões, mas é baixota e não está tão perto do sofá que não me obrigue a debruçar-me, as costas em desamparo, a barriga a dizer que agora é maior e já não admite dobragens como antigamente. Há a mesa de trabalho, vulgo secretária, com o extenso tampo e a cadeira ergonómica, confortável. Apenas um inconveniente, ou melhor, um somatório deles: o tampo está literalmente cheio, de teclados, ratos, monitores, parafrenálias dos novos tempos, e mais as dos antigos que coexistem: os vasinhos cheios de canetas, a tacinha dos clips, os papéis e os pisa-papéis que não pisam mas são pisados pelas várias pilhas de livros prontos a colapsar. Pode-se abrir um espacinho, a custo, clareira em densa floresta, mas não dá. O espaço é sempre menor do que o tablóide aberto e lá ficam os cantos do papel dobrados, presos, amarrotados, a não deixar continuar, sem sobressalto, a leitura do texto que continua duas páginas mais tarde. Há a cama, claro, da leitura antes de dormir, mas aquele esticar de braços, as almofadas a escorregarem, o corpo a afundar, o ajeitar permanente dos óculos, a letra de tipo minúsculo que não se conforma com o foco de luz do candeeiro. Resta a mesa da cozinha, mas há sempre o pecado das nódoas, das migalhas que se insinuam por debaixo do papel e picam ao de leve o cotovelo que em má hora resolvemos apoiar sobre a página dos anúncios. Mais soluções sempre terá a casa, por muito pequena que seja, mas nunca me servirão. Tive há pouco a minha hora de luxo, no café a ler um jornal, muito mal escrito quase na sua totalidade, mas à medida da mesa onde até cabe a chávena da bica e mais o pratinho do bolo e o copo de água, tudo em devido lugar, sem incómodo para o folhear deleitoso do jornal, para trás, para diante, até ao fecho e dobragem em canudo que se instala pacificamente debaixo braço. Um mundo perfeito assim não cabe nas casas onde tenho vivido. Ainda melhor do que isto era aquela mesa onde o jornal dava para dois, muitas vezes para três, e a mesa devia ser extensível, porque o jornal era à nossa medida, à medida dos nossos silêncios, só interrompidos porque uma notícia nos provocava para uma conversa sem fim, o jornal já debaixo do braço, e a conversa a continuar, já sem a mesa, mas nós ainda presos à hora perfeita do encontro. Acho que só se ama verdadeiramente quando se lê o mesmo jornal, na mesma mesa, no mesmo café, e nada disto é monótono e tudo é irrepetível, até o silêncio profundo em redor da mesa que parecia ser única naquele café cheio de gente ruidosa. Hoje, a tal mesa com sessenta por sessenta é o quadrado perfeito da imperfeição dos meus dias.
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14.3.14
MANIFESTO
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10.3.14
A LOJA DA MATILDE 2
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9.3.14
OS TURISTAS
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7.3.14
O MEU TESTEMUNHO
![]() |
Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
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1:59 p.m.
3.3.14
À MANEIRA DE REQUIEM
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22.2.14
13.2.14
FLORESTA
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4:46 p.m.
AS PESSOAS MUDAM
Hoje bateu-me à porta alguém chegado de um tempo em que todos eram velhos, uns mais do que outros, a não ser o Herlânder e a Neuza e os que eram novos como eu. Só os velhos, uns mais do que outros, é que não pulavam todo o dia e alguns ficavam muito sossegados nas cadeiras, com ou sem mesa, calados ou a conversarem. Hoje bateu-me à porta uma mulher daquelas mais velhas que já devia ser velha quando eu, o Herlânder e a Neuza corríamos, rua abaixo, rua acima, e gritávamos, porque só os velhos é que falavam baixo e devia ser por isso que nós não os ouvíamos.
A mulher que hoje me bateu à porta tinha um lenço preto a
tapar os cabelos brancos que eu bem os vi a espreitarem por cima da testa. No outro
tempo, havia muitas mulheres com cabelos brancos escondidos em lenços pretos.
Eu, o Herlânder e a Neuza até nos ríamos delas que pareciam as bruxas das
histórias, mas não tinham vassouras. Algumas tinham só os cabos e não sabiam montar-se
neles, por isso andavam muito mal e nunca voavam.
A mulher velha que hoje me bateu à porta trazia um ramo de
flores parecidas com as que havia no quintal da minha avó e que agora já não se
usam. Disse-me se as queria comprar e eu fiquei admirada porque as flores do
quintal da minha avó não eram para comprar. Também não eram para roubar, mas
era o que eu fazia, sem ela saber, para dar à Neuza, que o Herlânder dizia que
flores eram coisas de menina e ele não era maricas.
Nem todos os dias aparecem a bater-nos à porta velhos de
outros tempos e eu até pensei em contar isto à Neuza e ao Herlânder, mas depois
é que me lembrei que eles já cá não estão e quem sabe se a Neuza já não corre
tanto rua abaixo rua acima e o Herlânder gosta de flores, sem medo que lhe
chamem maricas.
As pessoas mudam muito.
Licínia Quitério
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12:48 p.m.
26.1.14
SALAMANCA
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2:12 p.m.
16.1.14
PRONTO
Pronto para as batalhas, o general guardou os medos na gola do capote e avançou. Perdeu, ganhou, sofreu e voltou. Partiu ainda jovem, perdida a última batalha com a senhora-do-medo. Vemo-lo hoje, na branca pedra, o susto no olhar, a gola de general impecavelmente erguida. Licínia Quitério Nota: resposta a desafio em http://outrostemas.blogspot.com |
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12:35 p.m.
14.1.14
PENÉLOPE
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Era dia e Penélope tecia. Esperava e tecia e a idade crescia. E a raiva crescia e a cama vazia e a cidade vazia. Quando a noite chegava, a teia minguava, Penélope chorava, na cidade chovia. Ulisses navegava, Ulisses naufragava, Ulisses não cuidava, Ulisses não sabia, Ulisses não voltava e a teia não crescia. Outro esposo Penélope não queria, outro rei, outra lei a cidade não queria. Ainda ela tecia e Ulisses voltou e ninguém reparou como Ulisses mudou, como Ulisses sofria, como Ulisses chorou. Só o cão o cheirou, só o cão se deitou na velhice de Ulisses. Era noite e a teia encolhia, e outro dia haveria de a teia terminar, de Ulisses regressar ao seu trono vazio, às mãos da tecelã, sem tecer, sem tecer, a mirar, a mirar, a velhice de Ulisses, o cansaço de Ulisses, o cão fiel de Ulisses. Na cidade chovia. Licínia Quitério |
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5:00 p.m.
12.1.14
EUSÉBIO
Só uma vez, dois anos atrás, vi Eusébio pessoalmente. Eu estava num restaurante, e olhava a rua através da montra. Vi-o sair de um automóvel, com enorme dificuldade, ajudado por um amigo. Atravessou a estrada, em direcção ao restaurante, apoiado no outro homem, com uma debilidade imensa, as pernas frouxas como papel ao vento. Foi nas pernas que fixei o olhar e o pensamento. Com aquelas pernas ele tinha conquistado o mundo, as mesmas pernas que agora se recusavam a deixá-lo avançar senão arrastando-se. É nesse momento em que vi Eusébio que penso hoje, sem me admirar, sem me entristecer. Um homem, por muito grande que tenha sido, começa a morrer muito antes da sua morte. Nós é que nos recusamos a pensar nisso.
Licínia Quitério
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7:04 p.m.
28.12.13
A CIDADE DE LUME
![]() |
Era no Inverno que ela floria. No Inverno, quando o frio
empurrava as mulheres para dentro das
casas, para dentro das vidas, a juntarem pedacinhos de lã, pedacinhos de
lembranças. No tempo em que o vento se esgueirava pelas frinchas das portas,
pelo buraco da chaminé, e a chuva alagava o pátio, alagava as meias dos
caminhantes. No tempo em que a chama do candeeiro se apagava quando a porta do
quintal se escancarava. O tempo das grandes noites, dos dias escuros e das
frieiras a magoarem os dedos. Era esse o tempo em que a menina vivia de lume,
vivia no lume, era o lume. No banquinho de madeira, esperava pelos carvões que haveriam
de se deitar na braseira de cobre. Vermelhos os do centro, negros os que em
redor se amontoavam, aguardando a sua vez de serem incêndio. Ali ficava a
menina, o queixo nas mãozitas, os cotovelos nos joelhos, em encaixe perfeito, equilíbrio e conforto. Era o seu tempo de
florir, os olhitos presos no mundo ardente dos carvões. Na cabecita nasciam histórias da cidade de
lume, com as suas ruas povoadas de pequeninos seres de lume que se moviam
atarefados, num sem-fim de subidas, descidas, avanços, recuos, como quem vive,
mesmo sem lume. Ali ficava, presa nas histórias dos seus homenzinhos de lume,
ou mulherzinhas, que eram iguais, de tanta luz, de tanto brilho. Quando os
olhos se cansavam de serem flores de
lume, o brilho da cidade esmorecia, acalmava, abrandava, desmaiava, e os olhos
fechavam-se, docemente, como se fecham as flores. Amanhã voltaria, o queixo nas
mãozitas, os carvões acesos, os homenzinhos na cidade, numa azáfama, as
histórias a começarem na cabecita da menina da cidade de lume. Era assim, no
Inverno.
foto da net |
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4:19 p.m.
26.12.13
UM PEDAÇO DE MAR
Um pedaço de mar é o que nos fica no olhar, abandonada a praia, quando nos chama a terra firme, a alta montanha que nos promete o céu. Um pedaço de mar é o que trazemos no olhar, na viagem de regresso, sabida a montanha que não nos deu o céu. Um pedaço de mar viaja connosco, mesmo quando a viagem não é mais longa do que a praia.
Licínia Quitério
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11:57 a.m.
17.11.13
NEVE
Caiu neve na serra. É o que ela
diz, acrescentando açúcar no café, com a lentidão da manhã enfiada nos dedos.
Queria dizer mais coisas, outras coisas, mas a frase saiu com um ponto final e
ele não é homem de continuar um texto, de o ajudar a não morrer assim, seco,
impertinente. Tem o jornal para ler e, na sua importância de leitor, fecha-se
ao mundo, fecha-se à voz dela, que outra atenção não merece, que ela costuma demorar-se em oratórias, enquanto
bebe o café, enquanto toma duche, enquanto faz amor. São assim as mulheres, é o
que ele afirma, passado o viço, passado o vício. Falam e só para elas falam, no
desfiar de lamentos, de toadas dos
tempos de embalar, dos tempos de dançar, dos tempos do viço, do vício.
Se caiu neve na serra, se o filho
não apareceu, se a outra não fala, só sorri, se o outro acrescenta frases às
frases dela e sorri, se tudo há-de ter seu caminho e foz, é porque a hora virá de
a neve derreter, de se querer lago e afogar.
Licínia Quitério
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1:09 p.m.
6.11.13
TEJO
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8:53 a.m.
3.11.13
IR E VOLTAR
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9:22 a.m.








