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28.7.14

NEUTRO



Neutro é o cinzento que sujou o branco e despreza o preto.
Neutra é a Suíça que lava mais branco o que já nasceu sujo.
Neutro é o que tem opinião, mas a esconde.
Neutro é o que deseja entrar no campo do vencedor.
Neutro é o que espera lucrar com os dois lados da guerra.
Neutra é a morte que não escolhe, por profissão.


Licínia Quitério

A VIDA PASSA


A vida passa, a gente vai andando, vai sendo outra, ganhando, perdendo, deixando para trás tempos, lugares, histórias, pessoas que vamos esquecendo, enquanto outras entram no nosso patamar, na nossa mesa, nas nossas preocupações, para outras chegarem e se sentarem connosco nos mesmos livros, nas mesmas salas, com as mesmas vozes. A vida passa e de repente aparece-nos um rosto que não reconhecemos, que nos chama pelo nome, que nos trata por tu como se fosse ontem que tivéssemos deixado a carteira da escola em que fomos meninas, ela morenita, eu branquinha, como ela diz, ela que se lembra de tanta coisa que eu esqueci na voragem dos anos. Pouco a pouco, revejo-a, vou dizendo nomes que julgava perdidos, vamos, a duas vozes, refazendo o quadro que vivemos, há tantos anos, há tantos sonhos. Certificados de vida estes encontros, nascidos numa idade em que nada sabíamos das mulheres que haveríamos de ser, ainda assim de pé, num abraço, sem porquê a não ser o desejo dela de vir ao encontro do meu nome que nunca esqueceu.


Licínia Quitério

19.7.14

DANÇAS


Na penumbra da sala, veio-lhe à memória o primeiro nome dele. E logo os apelidos, três. O rosto magro, os olhos a trespassarem-lhe o corpo, os dedos esguios num toque suave na cintura, a fazerem-na estremecer, a voz ao ouvido, enquanto dançavam, numa saborosa clandestinidade. Foi há tanto tempo. Passaram décadas, cada um seguiu a sua vida, raras vezes tornaram a ver-se, um telefonema por uma morte, outro por outra morte. Foram somando mortes e filhos e netos. Da última vez que se viram, numa festa do liceu, ele tinha engordado, deixara de fumar porque as artérias tinham entupido e ameaçado o indesejável. Os olhos ainda lhe trespassaram o corpo, os dedos tocaram-lhe a cintura ao de leve, amável, a indicar-lhe o caminho, mas ela já não estremeceu. 
Foi no dia em que voltou a casa e a encontrou invulgarmente fria que recordou o nome dele. Foi às agendas antigas, amarelecidas, guardadas na gaveta dos papéis inúteis, e procurou, procurou. O nome lá estava, o apelido em primeiro lugar, que ela sempre fora metódica nos seus apontamentos, um pouco esborratada a tinta pelas humidades do tempo, da casa, dos corpos. Um número  de telefone à frente, esse bem legível, de poucos algarismos, que já teria sido mudado, acrescentado, decerto. Pediu ao neto que tentasse na internet saber o número actualizado. Ele ainda refilou, a afirmar a rebeldia, mas na mesma tarde telefonou-lhe. Tinham sido adicionados três algarismos, no princípio. O nome do assinante era o mesmo, sim senhora. 
Hesitou bastante em ligar, achou-se velha tonta, julgou a ideia uma indignidade para com a memória do seu homem  que partira há muito, pensou no que diria se fosse a mulher dele que atendesse, sentiu-se corada e menina, em clandestinidades de outrora.
Foi breve o diálogo, entrecortado por breves silêncios, de uma e de outra parte:
- Desculpe, é de casa do senhor J G M T?
Uma voz jovem de mulher perguntou:
- É, sim. Quem fala?
- Uma velha amiga. Ele está?
- Não, o avô não está. 
- Ah! Gostava de lhe falar. Fomos amigos há muitos anos.
- Pois. O avô está agora num Lar. Se quiser, digo-lhe onde é. Tem visitas da parte da tarde.
Disse Ah! e desligou. 

Com certeza os olhos dele já não lhe trespassariam o corpo, agora tão desajeitado, nem os dedos lhe guiariam a cintura que engrossara.  Nunca as danças se repetem. Só as dores.

Licínia Quitério

16.7.14

A OUTRA COISA


O que eu penso, o que eu sinto, o que eu sei ou não sei, o que eu digo ou não digo, não se encerra naquele corpo que me coube na lotaria dos genes. A outra coisa, a inviolável, a única, a que não tem dimensão, a que voa sem asas, a que chora sem lágrimas, a que vai e sempre fica, a que é e não é, a que ainda está mas já não está, essa coisa que, dizem, fala e ri com aquele corpo, que resiste, que luta, que envelhece, essa coisa, fantasma de mim, é o que procuro naquela foto, e na outra e na outra que teimo em olhar, em olhar, até ao esquecimento.

Licínia Quitério

10.7.14

A PERGUNTA


A cozinha tinha uma porta que dava para o quintal e na porta havia um postigo, um quadro de quatro vidros. Naquele tempo havia muitas moscas que poisavam e caminhavam nos vidros, vagarosas. De tarde, ela observava as moscas que não faltavam ao seu passeio ao sol, nos vidros virados ao sul. Chegava-se mais à porta até elas debandarem. Deixavam marcas redondinhas, pequeninas, nos vidros, que limpava com os dedos, quando a mãe não estava a olhar. Lembra-se de encostar a cabeça ao vidro quente e ficar assim, apoiada, olhando o quintal e não o vendo. Nesse tempo, não sabe precisar quando, nesse exacto lugar e circunstância, entrou, sem se aperceber, no mundo misterioso e inquietante dos que  colocam questões que nunca chegarão a ter solução. Encostada assim ao vidro, muito quieta, formulava, interiormente, as perguntas fatais: Porque é que Eu sou Eu? Porque é que não sou outra pessoa? Porque é que tenho este corpo e não aquele? E desfiava, num mantra silencioso, uma afirmativa-dubitativa: Eu sou Eu, Eu sou Eu, Eu sou Eu… Caía numa espécie de torpor, perdida de si, até que, ao chamamento da mãe, um estremecimento lhe percorria o corpo, a anunciar o regresso de uma viagem por outra dimensão, talvez por um outro Eu, num outro corpo. As miúdas da sua idade gostavam de tagarelar sobre a pergunta quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Ela ria-se, encolhia os ombros e, depois de incitada a responder, atirava um sei lá, a mostrar indiferença pelo assunto que lhe parecia pouco interessante. Só uma vez se atreveu a dizer que o que lhe interessava mesmo era ter resposta à pergunta porque é que Eu sou Eu. As outras olharam-na com surpresa que logo se transformou em troça, de riso forçado. Não regulas bem, é o que é, e com o indicador davam pequenos toques no meio da testa.

Ainda hoje repete a pergunta, na certeza de que não obterá resposta. Conformou-se a habitar aquele corpo, a ter aquele nome, aquela vida com um Eu por dentro. O Eu que lhe coube, há já muitos anos, que bem podia ter cabido noutro corpo, noutro tempo, ou que nunca tivesse sido senão uma pergunta a pairar, um passageiro a vogar eternamente, sem origem nem destino. 

Licínia Quitério

7.7.14

PORTUGAL


Portugal dos que foram, dos que voltaram, dos que por lá ficaram. Portugal belíssimo, das casas abertas uma vez por ano, dos que ainda constroem, dos que ainda cultivam, dos que de novo partem, do temor dos incêndios, dos falares antigos casados com falares alheios. Portugal que um dia se despejou em Hendaye e em Austerlitz, de sagas intermináveis, de brava gente que resistiu ao pior, que diz "a casa feita" como quem diz "o corpo erguido", que ombreia com os melhores de cá e de lá, que está hoje num eido duma aldeia serrana com o mesmo orgulho com que se mede nas capitais do mundo. Percebi que está muito ainda por contar da história da emigração a salto, a medo, na fuga do frio, da fome, na busca de trabalho, de comer, de um mundo para os filhos. País tão lindo, de amor madrasto.


Licínia Quitério

29.6.14

SERENATA À CHUVA


A mulher  pediu ajuda para elevar a mala pesada até ao lugar que a esperava, acima dos bancos. Eram uma mulher ainda jovem, com um farto cabelo negro enrolado sobre a nuca. Devia ser viajante habitual, sabedora de comboios e do que eles podem oferecer. Tirou os sapatos  e colocou os pés já um tanto deformados sobre o pedal de descanso. Armou o tabuleiro que o banco da frente lhe oferecia e nele colocou o tablet em posição adequada para leitura. O dedo indicador direito a afagar as células invisíveis do aparelho, as imagens a descerem, a subirem, a correrem, de cá para lá, a fecharem, a abrirem textos e imagens. Fixou-se por fim no fac-simile duma página de um livro sobre direito de qualquer coisa, um daqueles textos para quem estuda ciências jurídicas, se assim as posso nomear. Uma, duas, três páginas e desistiu do estudo. Deu uma volta pelo Facebook, o dela e os de alguns amigos, não fez comentário algum e mudou de rumo. Colocou os minúsculos auscultadores nos ouvidos, ligou os fios ao tablet, procurou um filme, só uma passagem, a mais famosa. Gene Kelly cantava, só para ela, a Serenata à Chuva e dançava, dançava. Just walking in the rain, dizia a boca dele,  a mulher a meu lado movimentava a cabeça, levemente, a compasso, e os pulsos também rodavam com o guarda-chuva de Gene. Tão antigo o filme, tão nova ainda a mulher que, em vez de estudar, se decidiu pela magia do cinema, da música, agora aprisionada no seu tablet, a dar-lhe um sopro de felicidade naquela viagem de comboio descendente.  Saiu antes de mim, sorriu-me, como que a dizer que percebera o meu interesse em lhe espreitar o tablet, a música que só ela ouvia e eu também sabia. Somos todos assim, com uma música em comum. Pode é acontecer que nunca nos sentemos lado a lado no mesmo comboio descendente.

Licínia Quitério


21.6.14

O TELEMÓVEL



O meu telemóvel é um telefone que telefona e é telefonado, manda uns recados teclados e recebe outros. Ah desperta-me à hora aprazada, tem uma lanterninha  que dá um jeitão quando o quadro eléctrico faz pum!. E ainda tem para lá mais umas coisitas que não uso, que não me fazem jeito nem falta. Dir-me-ão: mas isso é um aparelho do paleolítico. Não tens um Hi qualquer coisa, pad, pod, inteligente, ou outro com outros nomes, curtos, estranhos, estranjeiros? Não, não tenho, nem preciso, nem quero. O mais complicado será quando o meu flintstone morrer e eu tiver que ir a uma loja da especialidade comprar um sucessor. Antes, compro uns manuais, consulto especialistas, se for preciso frequento mesmo um curso de formação para utilizadores. Depois, porque já tenho antecedentes nestas andanças, chego à loja e digo: quero um telefone que telefone, não tire fotografias, não cozinhe, não faça ponto-cruz e seja, de preferência, a preto e branco. O mais provável será eu sair da loja com uma cafeteira eléctrica que isso é que anda mesmo a fazer-me falta. Não sou assim tão avessa às modernices. 


Licínia Quitério

18.6.14

A OUVIDORA


Acho que sou uma boa ouvidora. Deve ser por isso que amiúde pessoas me procuram para que as oiça. Chegam e ficam, durante horas, a falar, a contarem-me histórias, verdadeiras ou inventadas, tristes ou alegres, vulgares ou inacreditáveis. Vidas que parecem banais, lineares, no desfiar da voz desenrolam-se, desdobram-se, alimentam-se, excedem-se ou apaziguam-se. Não sei quantas histórias já ouvi, quantos relatos de amores, de dores, de perdas, de carências, de desditas, também de comicidades, de curiosidades, de extravagâncias. O ouvidor concede quase sempre um intervalo na solidão, um tempo de inclusão no relacionamento humano, um pequenino aceno de concordância ou discordância, mas sempre de presença, uma presença viva, atenta, paciente, disponível. Nem sempre volta, o falador. Há quem se arrependa de ter falado a quem nada perguntou, de recear a quebra do sigilo que a conversa impõe. É assim com os menos confiantes em si próprios e nos outros, com os tímidos, com os orgulhosos. Voltam quase sempre os que se entregam, os que dão, os que procuram sem vergonha o outro extremo da própria voz. Ouvir quem quer ser ouvido não é uma ciência, é uma arte que involuntariamente aperfeiçoo e com os falantes me enriqueço, me entristeço, me percebo um pouco mais. A fala é dos maiores dons da Humanidade. Oiçamo-la.

Licínia Quitério


RONALDO


SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

O rapaz é apolíneo, hercúleo, herdeiro de dons olímpicos. O rapaz tem a elegância de um discóbulo e a ligeireza de Hermes. É expressiva a face do rapaz, com o sorriso de menino, ou o esgar das fúrias, ou o grito retumbante dos vencedores. O corpo elástico fá-lo gazela ou lince ou arco ou flecha. Certeiro, o rapaz. Perfeito. As multidões adoram-no, incensam-no, incitam-no. As multidões precisam de deuses assim, solares, como o rapaz que acende verões com o seu esplendor, a sua sugestão de vitória para sempre. Quando falhar, será um deus apeado, esquecido, como os outros. Chama-se Ronaldo, o Cristiano.

Licínia Quitério

foto da net

6.6.14

SERÁ TALVEZ...


Será talvez o efeito da usura do tempo que me atraiu nesta porta que já foi sinal de riqueza de gosto e de meios dos seus proprietários. Nova se chamou a arte que nasceu na época, com os seus novos conceitos de socialização e de apreço pelos elementos naturais. Vinha aí um novo tempo e deles a casa foi testemunho. Hoje deixa-se violar pelo tecido da aranha, pela pedra afiada. Bela ainda, na velhice, a casa, a porta, em que pousei o olhar.
 
Licínia Quitério

30.5.14

A PALIDEZ


Estava tão pálido que as manchas da idade sobressaíam no rosto como um arquipélago de ilhas desertas.  As mãos afadigavam-se a amarrotar um boné que há pouco o protegera da chuva miúda. A televisão transmitia, sem som, um programa vulgarmente designado de entretenimento. Sentou-se mesmo por baixo dela, desinteressado, alheado. A seu lado, um suporte de revistas antigas com retratos de figuras conhecidas  do espectáculo. Nem as olhou. Possivelmente nem reparou nas únicas duas outras pessoas na sala de espera da clínica. A mulher obesa, de ligaduras na perna inchada, que suspirava abundantemente, e o jovem absorto a passar as polpas dos indicadores no écran do seu telemóvel inteligente. O homem era mais pálido por causa da luz artificial da sala, instalada há décadas na cave húmida e escura da clínica privada. Reparando melhor, também a mulher gorda e o rapaz do telemóvel se apresentavam descorados, baços, e a napa que revestia os assentos era de um rosa pálido, desbotado. Nos painéis  de madeira que faziam de paredes, alguns cartazes a anunciarem especialidades médicas, a avisarem que os exames devem ser levantados dentro de xis meses, a pedirem silêncio no corredor muito estreito onde se cruzam pacientes, médicos, funcionários administrativos, dizendo “desculpe”, “com licença”, uns numa pressa, outros penosamente ajudados por  bengalas mecânicas ou, com alguma sorte, humanas. Dos vários gabinetes saíam vozes, quase sempre femininas, fazendo a chamada do paciente seguinte. O homem pálido foi o último a ser chamado para um gabinete por detrás de uma das paredes de madeira e que tinha uma tosca tabuleta que dizia RADIOLOGIA.  Quando desapareceu e a porta se fechou, a sala ficou vazia, pálida, húmida, triste, sem ao menos um vasinho de flores que, pensando bem, depressa murchariam na luz fraca da cave.  Há lugares assim, neste mundo de vivos, longe, muito longe da provável alegria.

Licínia Quitério



13.5.14

N S F



No treze de Maio, lembro-me sempre dum outro treze, do fim dos anos quarenta, em que tivemos de colocar nas janelas umas luminárias com as iniciais N.S.F., abrir as janelas e acender as luzes da casa. Sabido que era não sermos uma família religiosa, foi meu Pai avisado de que correria perigos se não colaborasse colocando a iluminação, distribuída de casa em casa, à passagem da procissão. Eu fiquei à janela, encantada com as luzes das velas e os cânticos do padre ou seus acólitos. No chamado "carro de som" alguém gritava: "Nossa Senhora de Fátima livrai-nos do comunismo. Nossa Senhora de Fátima rogai por nós. Afastem-se do carro". E a multidão, maioritariamente mulheres, de véus ou lenços na cabeça, conforme a classe social, rezava em coro. Minha mãe punha um lenço e ficava à janela também. Tinha muito medo. Meu pai deitava-se ainda mais cedo. Eu gostava daquela festa e não entendia lá muito bem a zanga do meu Pai. Não tardei muito a perceber. Era a guerra fria que passava na rua e nós tínhamos que ser dos bons. Dos maus a Senhora de Fátima nos livraria se rezássemos muito. Nessa altura eu já era bastante desobediente e assim continuei até hoje.

Licínia Quitério

foto da net

11.5.14

AS AUSTRÍACAS


Eram conhecidas pelas Senhoras  Nunes e nenhuma delas se casou. Dedicavam-se a ensinar crianças pobres a ler, a escrever, a contar, a rezar. Não eram ricas, mas herdeiras de um ar distinto e senhorial que as fazia respeitadas. Generosas, cultas, católicas convictas, praticantes assíduas, mas sem nunca serem referidas como beatas, que delas se distinguiam por alguma altivez e finura de maneiras. Veio a guerra que tingiu de sangue a Europa. Salazar mantinha uma neutralidade complacente com o nazi-fascismo, naquela muito sua manha de estar bem com Deus e com o Diabo. Em plena guerra, anos quarenta, apareceram em casa das Senhoras Nunes duas meninas estrangeiras que, soube-se, se tinham disposto a acolher, fugidas que vinham do seu país, a Áustria, esmagada por Hitler. Eram as refugiadas, assim chamadas nas terras de acolhimento, sem que alguma vez se pronunciasse a palavra judias.  Vi-as aos domingos, a caminho da missa, ou em fins de tarde de novenas muito praticadas na altura. Eram bonitas, mais loiras e mais brancas do que eu, bem mais corpulentas, tendo aproximadamente a mesma idade que eu. Davam as mãos às Senhoras Nunes, caminhavam muito sossegadas e quase não falavam. Eram para mim motivo de curiosidade, que delas apenas sabia que tinham nomes estranhos e um dia voltariam para o seu país, o que aconteceu anos mais tarde. Uma delas voltou em visita às Senhoras Nunes, já mulher, grande, loira e bonita. Eu não soube mais da saga das meninas austríacas que passavam na minha rua aos domingos ou de semana em fins de tarde. Sei hoje que enquanto estiveram ao abrigo das bondosas senhoras praticaram a religião que não seria a delas, certamente. Que contarão as meninas, se ainda viverem, tão ou mais velhas do que eu, daqueles anos em que rezaram o terço, numa língua que não era a delas, num país que não era o delas, sem as famílias que por certo não voltaram a ver? Para mim foram a notícia mais próxima de uma guerra que eu não conhecia.

Licínia Quitério

10.5.14

CARTAGENA DAS ÍNDIAS


Ao ler no Público, no seu suplemento FUGAS, um artigo de Andreia Marques Pereira, sobre Cartagena das Índias, relembrei o lugar onde, por graça da vida, me encontrei vagueando durante um dia de não muitas horas. De tudo o que vi e ouvi, senti Gabriel García Marquez e os seus personagens, especialmente os de Amor em Tempo de Cólera. Procurei avidamente o balcão de Fermina Daza e o trote do cavalo de Florentino Ariza. Apesar da avalancha de turistas e vendedores ambulantes, não me foi difícil perceber a paixão de Gabo por aquele lugar, a cidade violenta e vitoriosa como lhe chamou. Das arcadas do antigo mercado de escravos ao palácio-museu da Inquisição, às cúpulas renascentistas, da mansidão do grande relógio à pressa do guia, foi quase uma tontura que me permitiu pensar no escritor que nos ofereceu o deslumbramento do realismo mágico, com as cores vivas dos muros, a quentura das brisas, a lentidão suada das gentes assoladas por piratas de tempos vários. Voltei lá hoje, lendo. Não preciso de voltar. Não devo. Seria já outra coisa.

Licínia Quitério

4.5.14

CHOCOLATE


Era uma loja pequena, envolta naquele cheiro quente e doce do chocolate. Em toda a loja havia chocolates e os chocolates eram de todos os feitios, cores, texturas, recheios. Para todas as ocasiões, como se notava pelos anjinhos prontos para a comunhão solene. Sentei-me na cadeira rococó,  enquanto as amigas escolhiam por entre aquela girândola de bombons, correndo o balcão em L de uma ponta à outra, numa indecisão de quem escolhe quando a oferta é exorbitante. Enquanto olhava em redor, catando os movimentos, eu pensava que tudo naquela casa era feito de chocolate. As paredes, o tecto, o chão, os móveis, tudo como num conto germânico de infância.  Mas o mais espantoso era a senhora de idade, como se diz de quem passou alguns "entas", magrinha, pequena, as costas já curvadas de tanto se dobrar sobre o balcão, de pinça e caixinha, a escolher, este, este não, aquele, mais um, com rapidez, de passinhos miúdos e deslizantes, a cabeleira impecavelmente penteada, os brincos, o colar com um pendantif, os óculos de aro dourado. Falava a senhora dos chocolates, enquanto escolhia, mais um destes, mais uma caixinha, das pequenas. Falava do seu desejo de viajar, de sair dali, de deixar o cheiro quente do chocolate e partir, por uns dias que fosse, para um país de sol e mar. Não podia. O marido não gostava de viajar, o filho também não, as amigas abastadas faziam viagens caras demais para ela, as amigas menos afortunadas não tinham dinheiro que chegasse. Deu um suspiro, endireitou quanto pôde o arco das costas e disse: É tão difícil, uma mulher sozinha.
Levantei-me, as amigas já tinham as suas caixinhas de delícias, olhei mais de perto para a senhora de olhinho triste.  Pensei: se ela fosse também de chocolate não havia de querer trocar a loja por uns dias de sol e companhia. Isto de ser de carne e osso, e mulher e sozinha tem que se lhe diga. Não é doce, não, pensa a senhora da loja dos chocolates.
Licínia Quitério

7.4.14

HAVIAS DE GOSTAR


Havias de gostar. Das memórias, das histórias. Havias de gostar. Dos que vieram do longe e do perto e dos abraços que deram. Da força ainda sobre os vidros, da alegria ainda sobre as dores. Havias de gostar que não estivessem os que se perderam, os que trairam, os que nunca foram. Havias de gostar que eu não vacilasse ao dizer o que foi, com quem foi.  Havias de gostar de saber que tudo percebeste e ensinaste e, diria eu,  adivinhaste.  De tal maneira havias de gostar, que lá estiveste e desfizeste o nó que eu tinha na garganta. Depois cantei.

Licínia Quitério

2.4.14

A PRIMAVERA


Sabemos que a Primavera é menina de caprichos, instável, imprevisível, de humores vários, temperaturas várias, de alto a baixo da escala, de roupas frescas e abafos, de neve na serra,  de chuva de manhã, de sol à tarde, de arco-íris e de nevoeiros. Também de alergias e gripes tardias, de neuras e depressões, de súbitas paixões, de súbitas separações, de desejos inconsequentes. Dou por mim a perguntar como será viver num país de outros meridianos, de outros paralelos, sem Primavera, sem Outono, sem estas estações de classe média, responsáveis, assim dizemos, por toda a nossa inquietude, pelos espirros e pelos desamores, pela vida mediana e mesmo assim esperançosa que nos faz acreditar em florações perenes, como se as árvores as pudessem suportar.

Licínia Quitério

30.3.14

PICO, PICO, SERENICO


Pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, dizia a avó, as mãos pousadas na saia preta de viúva de muitos anos, e a menina tentava acompanhar o ritmo da lenga-lenga  com os deditos minúsculos beliscando, entre o indicador e o polegar, as pregas da mão velhinha, com manchas castanhas e estradas azuis sob o véu da pele. Gostava a menina daquela mão, diferente da sua, diferente da da mãe, com as  pregas que os seus deditos iam pegando, aumentando, desfazendo, pico-pico serenico. Ficou-lhe o retrato da mão da avó, tão bonita, tão disponível, sossegada no colo, na cadeira baixinha, e a voz macia a repetir, pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, e o resto que esqueceu. Não pode lembrar-se de tudo, mas as mãos da avó permanecem com ela, como se fossem as suas.

Licínia Quitério


23.3.14

MUITOS FILMES


Ai a minha cabeça, ai a minha cabeça, voz de mulher num banco mais atrás. Imagino-a ao telefone com alguém lá de casa que lhe diz que se esqueceu de apagar o gás do fogão, ou que deixou o gato fechado no roupeiro, ou que se esqueceu da sogra no supermercado. Isto imagino eu porque de facto nada sei de toda aquela gente que entra e se apeia e se senta, se houver lugar, ou fica de pé, aguentando solavancos e calores condicionados. Eu só posso imaginar que o rapaz de cabelo em repuxo deseja que morra já ali a mulher volumosa que insistiu em ocupar o lugar onde ele sentava a mala grande e pesada. Levou-a ao colo, pois, o resto da viagem, que a mulher assim mandou, de voz forte e redondo corpo. Os outros rapazes e raparigas, que têm mais ou menos fios ligados aos ouvidos, à cintura, às mãos, arrumo-os numa qualquer história batida de seres extraterrestres, extra mesmo galácticos, a espiarem, sempre a espiarem, que é isso que fazem todos os visitantes do longe muito longe. Na diversidade de passageiros, imagino que entre um árabe com uma terrina nos braços ou uma mulher velada com uma galinha morta num saco de palha. Imagino, mas quem aparece na paragem seguinte é um vulgar ser terrestre, vestido de luto carregado, com fitas e caricas coloridas e na mão uma pandeireta pequena que tilinta muito levemente corredor fora, agarra aqui, agarra ali. No final da curta viagem, desaguamos num cais de pressas e sujidades, igual a todos os cais deste mundo, onde se roçam respirações várias, alimento de muitos filmes, muitos livros, muita ficção do real ou irreal de que se fazem as viagens, mesmo as interurbanas de vou ali e já volto.

Licínia Quitério

15.3.14

LER O JORNAL


Nunca encontrei lugar melhor para ler um jornal do que uma mesa de café, de preferência com tampo quadrado, com sessenta por sessenta.  Em casa, nunca tive uma mesa dessas e duvido que, se a tivesse, fosse a mesa de ler o jornal, sem que logo se atafulhasse de papéis, livros, esferográficas, corta-unhas, um pacote de açúcar, o comando electrónico de qualquer geringonça. O certo é que a leitura de um jornal em casa me obriga a esforços que me põem mal disposta . Pode ser a mesa da sala, que tem mais de sessenta numa das dimensões, mas é baixota e não está tão perto do sofá que não me obrigue a debruçar-me, as costas em desamparo, a barriga a dizer que agora é maior e já não admite dobragens como antigamente. Há a mesa de trabalho, vulgo secretária, com o extenso tampo e a cadeira ergonómica, confortável. Apenas um inconveniente, ou melhor, um somatório deles: o tampo está literalmente cheio, de teclados, ratos, monitores, parafrenálias dos novos tempos, e mais as dos antigos que coexistem: os vasinhos cheios de canetas, a tacinha dos clips, os papéis e os pisa-papéis que não pisam mas são pisados pelas várias pilhas de livros prontos a colapsar. Pode-se abrir um espacinho, a custo, clareira em densa floresta, mas não dá. O espaço é sempre menor do que o tablóide aberto e lá ficam os cantos do papel dobrados, presos, amarrotados, a não deixar continuar, sem sobressalto,  a leitura do texto  que continua duas páginas mais tarde. Há a cama, claro, da leitura antes de dormir, mas aquele esticar de braços, as almofadas a escorregarem, o corpo a afundar, o ajeitar permanente dos óculos, a letra de tipo minúsculo que não se conforma com o foco de luz do candeeiro. Resta a mesa da cozinha, mas há sempre o pecado das nódoas, das migalhas que se insinuam por debaixo do papel  e picam ao de leve o cotovelo que em má hora resolvemos apoiar sobre a página dos anúncios. Mais soluções sempre terá a casa, por muito pequena que seja, mas nunca me servirão. Tive há pouco a minha hora de luxo, no café a ler um jornal, muito mal escrito quase na sua totalidade, mas à medida da mesa onde até cabe a chávena da bica e mais o pratinho do bolo e o copo de água, tudo em devido lugar, sem incómodo para o folhear deleitoso do jornal, para trás, para diante, até ao fecho e dobragem em canudo que se instala pacificamente debaixo braço. Um mundo perfeito assim não cabe nas casas onde tenho vivido. Ainda melhor do que isto era aquela mesa onde o jornal dava para dois, muitas vezes para três, e a mesa devia ser extensível, porque o jornal era à nossa medida, à medida dos nossos silêncios, só interrompidos porque uma notícia nos provocava para uma conversa sem fim, o jornal já debaixo do braço, e a conversa a continuar, já sem a mesa, mas nós ainda presos à hora perfeita do encontro. Acho que só se ama verdadeiramente quando se lê o mesmo jornal, na mesma mesa, no mesmo café, e nada disto é monótono e tudo é irrepetível, até o silêncio profundo em redor da mesa que parecia ser única naquele café cheio de gente ruidosa. Hoje, a tal mesa com sessenta por sessenta  é o quadrado perfeito da imperfeição dos meus dias.

Licínia Quitério

14.3.14

MANIFESTO


Eu sou tua mãe. Eu sou teu pai. Somos tuas mães. Somos teus pais. Tu sabes quem te ama e dizes mãe ou pai antes de saberes dizer amor. Tu sabes que não te abandonaremos, não te magoaremos, não te violentaremos, não te negaremos a felicidade de seres a criança que quisemos criar, no respeito, na liberdade, na alegria, no sol. Eu sou tua mãe e tu és o meu filho. Eu sou tua mãe e tu também és o meu filho. Eu sou o teu pai ou mãe, como quiseres dizer, e tu és a minha filha. Temos a responsabilidade de te dar o pão, a saúde, a educação, o sorriso. Respeitamos-te como tu nos respeitas, nas asas imensas do amor que partilhamos. Tu sabes, filho, filha, que mãe ou pai, ou mães ou pais, são as palavras que tens para viveres e cresceres, são a árvore, o rio, a flor, que serão o leito, o colo, o riso que farão de ti o homem, a mulher, o pai ou a mãe que quiseres ser, com quem quiseres ser, na imensa humanidade a que pertences e de onde não deixaremos que te expulsem ou te façam filho menor.

Licínia Quitério

10.3.14

A LOJA DA MATILDE 2


A loja da Matilde continua a ser um lugar de espantos. Agora já tem uma maquineta para as senhas de chegada, que há dias em que a freguesia é muito maior que o espaço onde possa caber. Assim se chega, se tira a senha, se dá uma olhadela lá para dentro a avaliar o número de cabeças, outra ao relógio, e se decide se ainda há tempo de ir ali ao sapateiro ver dos atacadores para as botas. Eu fico, aguardando o meu número de chamada e aproveitando bem o tempo para ver e ouvir tudo o que há para ser visto e ouvido. Nesta espera de boa vontade, lá deito mão a um vasinho de petúnias, floridas de carmesim, a regalarem-me os olhos. Não estava na minha lista de compras, mas vai e, porque não, há quanto tempo eu disse que havia de plantar, uns pezinhos de morangueiro, já com um arremedo de botão de flor. Devo ter um ar suspeito, no meio daquela gente que sabe de terras e de sementes e de trabalhos árduos, tantas vezes sem o sucesso pretendido. Vale-me o conhecimento da Matilde, na sua azáfama, a perguntar tá boazinha, não tem aparecido, a atestar que também ali pertenço. Na loja da Matilde há sempre fenómenos vegetais que no balcão são exibidos até definharem ou apodrecerem. Procuro-os e lá estão. Uma beterraba com cinco quilos trezentos e cinquenta, segundo o rótulo, com sessenta centímetros de comprimento, segundo a medi em palmos. Mas o mais curioso era o nabo, com três quilos duzentos e cinquenta, conforme o rótulo, acompanhado da foto, em papel de brilho, do seu produtor, ali de pé, de corpo inteiro, bem nutrido, orgulhoso, com o troféu seguro em taça numa das mãos possantes. Um lugar de espantos esta loja do meu bairro. Saí, com um saco em cada mão, dois para a senhora ir mais aconchegada. Uma maravilha.

Licínia Quitério

9.3.14

OS TURISTAS


Os turistas de massas, presumíveis sucessores dos viajantes aventureiros, deslocam-se em autênticas hordas, mundo fora, obedientes à bandeirinha, ao guia que os faz correr, suar, rápido, rápido, atenção às bolsas, não podem fotografar, entra em igreja, sai de igreja, sobe à torre, não sobe à torre, atenção à hora, quem não estiver não embarca, habla español, english, português no, Bolivar you know, mind the step, signora, nice eyes madam, vamonos, vamonos, time is money, you know, o museu, numa corrida, um quadro, dois quadros, trezentos quadros, uma angústia, quero lá saber de mais quadros, depois vejo na net, os pés, os pés, o calor, o suor, a bandeirinha do guia, não o podemos perder, Garcia Marquez, o tempo de cólera, a varanda de Fermina Daza, o trote do cavalo, pude ouvi-lo, vim de livro aberto, até o violino, sim, uma foto do balcão, e seguir, seguir sempre, a horda, as hordas, só assim eu poderia ver a rua, a varanda, ouvir o violino, sentir a asma da mulher do general, o restolhar das folhas, melhor, a hojarasca, fingir que percebi melhor, que fui mais longe dentro dos livros, da mágica de Gabo, com a horda, graças à horda, colorida, suada, ululante, em movimento, sempre, mundo fora, mundo dentro.


Licínia Quitério

7.3.14

O MEU TESTEMUNHO




Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
O meu pai nunca faltou, mas eu e a minha mãe nunca dissemos uma à outra porque é que a janela nos prendia todos os dias àquela hora, nos longos meses daquele verão de chumbo. 
Por detrás da porta do quarto eu ouvia-os falar, a minha mãe quase num soluço, o meu pai a dizer não te rales, eles estão a prender os da primeira página da lista e eu estou na terceira. 
Foi assim no verão em que o banquinho ficou desengonçado, em que o meu tio foi preso, em que os amigos do meu pai foram presos, em que a minha avó foi a Lisboa falar com uns senhores para lhe soltarem o filho, em que a minha mãe chorou muito, em que o meu pai queimou papéis dentro da pia e a minha mãe quase gritou não quero essa porcaria cá em casa e o meu pai ficou triste e saiu sem jantar.
Há quem diga que o fascismo não existiu. Se eu ainda tivesse o banquinho, havia de explicar melhor o que aqui vos disse. Ou então, mesmo diante dos banquinhos desengonçados, haverá sempre quem negue que ele viveu entre nós, sobre nós, dentro dos nossos medos e dos nossos sonhos. Felizmente houve gente como o meu tio, os amigos do meu pai, e o meu pai que estava na terceira página da lista e por isso nunca faltou lá no cimo da rua às sete da tarde do verão de 1948. Graças a eles e a muitos outros como eles, há hoje quem diga que o fascismo nunca existiu. Eu até os percebo. Custa mesmo a acreditar que tanto mal por tanto tempo nos tenha acontecido.


Licínia Quitério


Foto da net

3.3.14

À MANEIRA DE REQUIEM



A gente habitua-se a saber que a vida que levam, que os leva, não os serve, não lhes cabe, não se encaixa. A gente sabe que um dia, mais do que tropeçar, caem, que a vida que levam, que os leva, não perdoa, não se  dobra, só lhes pega quando os verga. A gente entende que são a outra parte de nós que não cuspimos no prato porque é feio, que não rasgamos a virgindade dos devassos porque é inútil, que não respiramos fundo, nem roubamos, nem nadamos para longe, nem dizemos aos filhos passem sem mim porque estou farto. Eles são o depósito a prazo da nossa adiada liberdade. Um dia sabemos que a morte os pegou, essa sim, com a franqueza que a vida não lhes deu, e nós ficamos órfãos daquele sonho de nós outros, livres da tal liberdade que só os loucos conhecem, só os loucos nos escondem.


Licínia Quitério

22.2.14

O CORPO


O corpo nasceu da pedra fria. Um homem  o sentiu e o despiu de todo o excesso, de toda a fealdade. Descobridor de estátuas, humilde ofício é o do artista.

Licínia Quitério 

13.2.14

FLORESTA



Era um caminho ao sol, a olhar os montes, perto e longe, que a distância se mede entre a vista e o coração. Quem nos seguia, ou seguíamos, era a mancha de floresta, a rasar-nos a sombra, a desdobrar-se em verdes e dourados, persistente e prometedora de flores e de frutos. Podia adivinhar-se um restolhar de bichos rente à terra, um adejar por entre as copas. Íamos.
Licínia Quitério

AS PESSOAS MUDAM



Hoje bateu-me à porta alguém chegado de um tempo em que todos eram velhos, uns mais do que outros, a não ser o Herlânder e a Neuza e os que eram novos como eu. Só os velhos, uns mais do que outros, é que não pulavam todo o dia e alguns ficavam muito sossegados nas cadeiras, com ou sem mesa, calados ou a conversarem.
Hoje bateu-me à porta uma mulher daquelas mais velhas que já devia ser velha quando eu, o Herlânder e a Neuza corríamos, rua abaixo, rua acima, e gritávamos, porque só os velhos é que falavam baixo e devia ser por isso que nós não os ouvíamos.
A mulher que hoje me bateu à porta tinha um lenço preto a tapar os cabelos brancos que eu bem os vi a espreitarem por cima da testa. No outro tempo, havia muitas mulheres com cabelos brancos escondidos em lenços pretos. Eu, o Herlânder e a Neuza até nos ríamos delas que pareciam as bruxas das histórias, mas não tinham vassouras. Algumas tinham só os cabos e não sabiam montar-se neles, por isso andavam muito mal e nunca voavam.
A mulher velha que hoje me bateu à porta trazia um ramo de flores parecidas com as que havia no quintal da minha avó e que agora já não se usam. Disse-me se as queria comprar e eu fiquei admirada porque as flores do quintal da minha avó não eram para comprar. Também não eram para roubar, mas era o que eu fazia, sem ela saber, para dar à Neuza, que o Herlânder dizia que flores eram coisas de menina e ele não era maricas.
Nem todos os dias aparecem a bater-nos à porta velhos de outros tempos e eu até pensei em contar isto à Neuza e ao Herlânder, mas depois é que me lembrei que eles já cá não estão e quem sabe se a Neuza já não corre tanto rua abaixo rua acima e o Herlânder gosta de flores, sem medo que lhe chamem maricas. 
As pessoas mudam muito.

Licínia Quitério

26.1.14

SALAMANCA



Sólida a cidade, Salamanca chamada, maciço de conventos,  igrejas,  colégios pontifícios, realíssimos, catolicíssimos, de saberes seculares. Os tempos atravessados, novos saberes chegados, multidões curiosas, cansadas, estouvadas, variadas, transbordando da exiguidade das ruas, comprimidas por fachadas solenes, de pedra bordada, profusamente exibindo poderes reais, temporais, santidades, severidades, clausuras, pecados, castigos, sonhos também de sinos e alturas. Hei-de voltar.

Licínia Quitério

16.1.14

PRONTO


Pronto para as batalhas, o general guardou os medos na gola do capote e avançou. Perdeu, ganhou, sofreu e voltou. Partiu ainda jovem, perdida a última batalha com a senhora-do-medo. Vemo-lo hoje, na branca pedra, o susto no olhar, a gola de general impecavelmente erguida.

Licínia Quitério

Nota: resposta a desafio em http://outrostemas.blogspot.com

14.1.14

PENÉLOPE


Era dia e Penélope tecia. Esperava e tecia e a idade crescia. E a raiva crescia e a cama vazia e a cidade vazia. Quando a noite chegava, a teia minguava, Penélope chorava, na cidade chovia. Ulisses navegava, Ulisses naufragava, Ulisses não cuidava, Ulisses não sabia, Ulisses não voltava e a teia não crescia. Outro esposo Penélope não queria, outro rei, outra lei a cidade não queria. Ainda ela tecia e Ulisses voltou e ninguém reparou como Ulisses mudou, como Ulisses sofria, como Ulisses chorou. Só o cão o cheirou, só o cão se deitou na velhice de Ulisses. Era noite e a teia encolhia, e outro dia haveria de a teia terminar, de Ulisses regressar ao seu trono vazio, às mãos da tecelã, sem tecer, sem tecer,  a mirar, a mirar, a velhice de Ulisses, o cansaço de Ulisses, o cão fiel de Ulisses. Na cidade chovia.

Licínia Quitério

12.1.14

EUSÉBIO




Só uma vez, dois anos atrás, vi Eusébio pessoalmente. Eu estava num restaurante, e olhava a rua através da montra. Vi-o sair de um automóvel, com enorme dificuldade, ajudado por um amigo. Atravessou a estrada, em direcção ao restaurante, apoiado no outro homem, com uma debilidade imensa, as pernas frouxas como papel ao vento. Foi nas pernas que fixei o olhar e o pensamento. Com aquelas pernas ele tinha conquistado o mundo, as mesmas pernas que agora se recusavam a deixá-lo avançar senão arrastando-se. É nesse momento em que vi Eusébio que penso hoje, sem me admirar, sem me entristecer. Um homem, por muito grande que tenha sido, começa a morrer muito antes da sua morte. Nós é que nos recusamos a pensar nisso.

Licínia Quitério

28.12.13

A CIDADE DE LUME



Era no Inverno que ela floria. No Inverno, quando o frio empurrava as mulheres  para dentro das casas, para dentro das vidas, a juntarem pedacinhos de lã, pedacinhos de lembranças. No tempo em que o vento se esgueirava pelas frinchas das portas, pelo buraco da chaminé, e a chuva alagava o pátio, alagava as meias dos caminhantes. No tempo em que a chama do candeeiro se apagava quando a porta do quintal se escancarava. O tempo das grandes noites, dos dias escuros e das frieiras a magoarem os dedos. Era esse o tempo em que a menina vivia de lume, vivia no lume, era o lume. No banquinho de madeira, esperava pelos carvões que haveriam de se deitar na braseira de cobre. Vermelhos os do centro, negros os que em redor se amontoavam, aguardando a sua vez de serem incêndio. Ali ficava a menina, o queixo nas mãozitas, os cotovelos nos joelhos, em encaixe perfeito,  equilíbrio e conforto. Era o seu tempo de florir, os olhitos presos no mundo ardente dos carvões.  Na cabecita nasciam histórias da cidade de lume, com as suas ruas povoadas de pequeninos seres de lume que se moviam atarefados, num sem-fim de subidas, descidas, avanços, recuos, como quem vive, mesmo sem lume. Ali ficava, presa nas histórias dos seus homenzinhos de lume, ou mulherzinhas, que eram iguais, de tanta luz, de tanto brilho. Quando os olhos se cansavam de serem  flores de lume, o brilho da cidade esmorecia, acalmava, abrandava, desmaiava, e os olhos fechavam-se, docemente, como se fecham as flores. Amanhã voltaria, o queixo nas mãozitas, os carvões acesos, os homenzinhos na cidade, numa azáfama, as histórias a começarem na cabecita da menina da cidade de lume. Era assim, no Inverno.

Licínia Quitério

foto da net

26.12.13

UM PEDAÇO DE MAR


Um pedaço de mar é o que nos fica no olhar, abandonada a praia, quando nos chama a terra firme, a alta montanha que nos promete o céu. Um pedaço de mar é o que trazemos no olhar, na viagem de regresso, sabida a montanha que não nos deu o céu. Um pedaço de mar viaja connosco, mesmo quando a viagem não é mais longa do que a praia.

Licínia Quitério

17.11.13

NEVE




Caiu neve na serra. É o que ela diz, acrescentando açúcar no café, com a lentidão da manhã enfiada nos dedos. Queria dizer mais coisas, outras coisas, mas a frase saiu com um ponto final e ele não é homem de continuar um texto, de o ajudar a não morrer assim, seco, impertinente. Tem o jornal para ler e, na sua importância de leitor, fecha-se ao mundo, fecha-se à voz dela, que outra atenção não merece, que ela costuma demorar-se em oratórias, enquanto bebe o café, enquanto toma duche, enquanto faz amor. São assim as mulheres, é o que ele afirma, passado o viço, passado o vício. Falam e só para elas falam, no desfiar de lamentos, de  toadas dos tempos de embalar, dos tempos de dançar, dos tempos do viço, do vício.
Se caiu neve na serra, se o filho não apareceu, se a outra não fala, só sorri, se o outro acrescenta frases às frases dela e sorri, se tudo há-de ter seu caminho e foz, é porque a hora virá de a neve derreter, de se querer lago e afogar.

Licínia Quitério

6.11.13

TEJO



Dos Pirinéus não se vê o Tejo. Digo eu que não subi ao alto mais alto dos altos montes. Tão pouco se vê quando tão baixo se vive. O mundo fica todo muito pequeno, inteirinho ao alcance da mão, do olhar. Dizem-me: os Pirinéus ficam ao fundo da rua, mas da minha mão ao fundo da rua é tão longe que eu fico a acreditar no que me dizem e não vou até lá ver os Pirinéus. Dizem-me: dos Pirinéus não se vê o Tejo e eu acredito. Acredito porque nunca subi ao monte mais alto entre os mais altos donde provavelmente se vê o Tejo. Nem sequer irei ao fundo da rua olhar os Pirinéus que, acredito, lá estão esperando por mim, sabendo que não irei. Bem melhor é ficar aqui, no nascer da rua, a ver a chuva cair e um rio a crescer, envergonhado, com vontade, esse sim, de chegar ao fundo da rua e dizer aos Pirinéus que lá do alto mais alto poderão avistar um riozinho seu irmão, a correr à procura de um país onde lhe chamem Tejo. Os Pirinéus vão acreditar no riozinho nascido na minha rua porque pensarão que ele sou eu nos meus tempos líquidos de correr montes e vales e me deitar no Tejo como em cama de nuvens de cidade muito amada. Dela me lembro agora, no meu tempo opaco de ficar e de olhar e de dizer Tejo como quem diz Vida. 

Licínia Quitério

3.11.13

IR E VOLTAR



   A gente às vezes vai e procura e encontra ou encontra o que não procurou ou desiste de procurar, tudo sempre sem saber porque procura. Andamos mundos, conhecemos gente, esperamos sempre mais, mais respostas, mais um passo, mais um minúsculo passo que nos ponha defronte da montanha mais alta, do pico mais aguçado, do ar mais rarefeito, da respiração da criança no sono, do claro-escuro da matinée de outrora, do silêncio branco da partida. 
   A gente às vezes volta, acrescentada de perguntas, de gente, de caminhos antiquíssimos, de coisas feitas, já rotas, já desfeitas, e de outras a nascer, que saberão dizer que ali nos viram, caminhando nas sombras de um sol a pique, com o espanto a crescer por ali estarmos, defronte dos montes, nomeando o pico mais alto dos picos que nunca subiremos.

Licínia Quitério

23.10.13

APARIÇÕES





    A ler um artigo de Alexandra Lucas Coelho, no Público, e a sua descrição de um tal teatrinho perdido no caminho para Death Valley, em cenários que atravessam a nossa memória de filmes de Antonioni, a ler este excelente artigo, dizia, e o pensamento a fugir-me para outro cenário retro em que entrei recentemente. 
    A propósito de colher um papelinho a que se chama vulgarmente atestado médico, acompanhei uma amiga a um prédio bonitinho, fim de século dezanove, rés-do-chão e primeiro andar, porta verde só encostada, dois degraus de pedra bem gasta. Empurra-se a porta e ficamos numa salinha chamada de espera, com um terno de sofás de madeira e napa, uma mesinha para revistas, tudo muito retro de baixo preço. Nas paredes, quadros com fotos da vila, num tom geral azulado que o tempo lhes conferiu. Um deles, tendo como moldura uma fita adesiva verde escura,  pendente do prego na parede por um cordão sedoso, não consegue horizontalidade e espera um ligeiro toque que o endireite. Na mesa, o Borda d' Água, o jornal da região, umas revistas de um laboratório de análises, um lápis e um bloco de apontamentos por estrear. Ninguém na sala, até que, num arrastar de pantufas pelo corredor, chega uma velha senhora que diz "o senhor doutor já vem". Informação dada, senta-se e  começa, em silêncio, a fazer o naperon de crochet que tira do bolso do avental. Esperamos uns longos minutos até que o senhor doutor aparece, diz "boa-tarde, venha",  e volta para o interior da casa, enquanto a senhora de crochet e pantufas ordena "ainda temos de ir a casa da tia Mila". O senhor doutor responde um "sim, mãe" e ainda o oiço dizer para a minha amiga "venha buscar para a semana". 
    Apenas dois degraus e o filme desenrola-se e rebobina-se, oitenta anos para trás, oitenta anos para a frente. Em Death Valley ou em Aboboreira do Mar, as aparições do passado não param de nos surpreender.

Licínia Quitério

14.9.13

SETEMBRO



O meu plátano não falha no seu cuidado de me anunciar o Outono. Todos os anos manda as primeiras folhas perdidas roçarem a minha porta, num vozear vegetal, feito de estalidos e sussurros arrastados. Foi assim hoje. Reconheci o toque, abri a porta e recolhi a folha maior, enorme, lindíssima no seu ainda verde mesclado de anúncios de dourado. Vai ser guardada até para o ano, se eu e o plátano mantivermos a nossa relação.


Licínia Quitério



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