Que faz ali aquele banco? Por detrás tem uma bonita sebe e pela frente, mesmo à beirinha, uma rua antiga e estreita onde passam carros. Que se pode fazer sentado naquele banco novinho em folha? Ler? E o barulho dos carros zz zzz! Conversar com alguém? Porquê ali, de cabecinha ao sol, mesmo rente à rua zzz zz? Um banco destes tem de fazer parte da história da terra. Tem de receber os velhos a procurarem a sombra, tem de sentir os pés das crianças traquinas a empoleirarem-se-lhe nas costas, tem de ouvir segredos de namorados à noitinha e conversas banais dos que a ele se encostam porque não têm tempo de se sentarem. Um banco em lugar público tem de ser a extensão da cadeira de lona do nosso alpendre, um cúmplice do nosso olhar sobre a pele dos dias. Verdade, verdadinha, nunca vi ninguém sentado neste banco. Foi por isso que não tive pudor em fotografá-lo.
Licínia Quitério
27.11.10
O BANCO
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31.8.10
CRÓNICA DO CALOR
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18.7.10
CRÓNICA DE DESVARIOS
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11.7.10
CRONICA DO QUOTIDIANO 2
Vai-se à praça dar uma espreitadela. Da entrada, abarca-se com o olhar os tabuleiros mais distantes, semi-cerrando o olhar, aconchegando o casaco a afastar um súbito arrepio. O ar da praça, àquela hora da manhã, é lavado e fresco. “Ó senhora Estrudes, estas nabiças são de hoje?”. “Atão não haveram de ser, valha-a Deus. E olhe! Trazia quarenta mãos delas e só há o que vê”. “E quanto custa isso?”.“Por ser para si, e só para não dizer que as levo para casa, faço-lhe os dois molhos por trazentos escudos”. “Duzentos?” .“Traazentos”!, confirma, enquanto remexe os trocos no bolso fundo da bata e faz vaguear o olhar matreiro pelos ares, fingindo ignorar que ainda ali estou. Divirto-me com este toca-e-foge. “Não, não quero.”. Retiro-me devagar, dando-lhe o tempo preciso para me chamar. “Psst! Ó menina!” (Só aqui me chamam ainda de menina.). ”Leve lá por duzento xinquenta. Ai, isto não tá p’ra ninguém.”. Cumpriu-se o ritual do negócio. Na minha terra, como em qualquer Marrocos deste mundo.
Na praça está o Senhor Paulo que só tem um dente. Os outros foram ficando pela côdea do cascudo, pela coxa dura de roer da poedeira que deixou de cumprir. Faz contas de cabeça, com rapidez, sonorizadas por uma imperceptível ladainha. Acabado o exercício, afasta o boné para trás, coça o alto da cabeça com a unha negrita do dedo médio e atira o resultado com ar falsamente envergonhado: “Não sará assim?”. “É, claro. O senhor é uma máquina.”. Um sorrisinho de orgulho indisfarçado, os olhos em baixo. “Como um comportador?”. E o sorriso explode em gargalhada rouca e breve.
Na praça conversa-se, de lugar para lugar. É preciso enganar o tempo. “Ó priga, qué feito da tu mãe? Há canto tempo ná a vejo!”. “Tá rija e tesa. Tomara você e eu chegar à idade dela com aquela genica toda. Ah mulher dum sacana! Vai a caminho dos satenta e nove. Faz em Dezembro se lá chegar, se Deus Nosso Senhor quiser. Só lhe digo que inda onte mondou umas leiras de nabiças que só queria que você visse.”.
Na praça as freguesas encostam-se aos tabuleiros. Primeiro ao de leve, só a redondeza da barriga a roçar a moldura. Depois, perante o aproximar de uma conhecida, apoiam o braço, com firmeza. Ficam um bocadinho por ali, a falar. Dos achaques. “Com este tempo húmido, tenho andado à rasquinha aqui deste artelho. Atão na cama, mulher, nem queira saber, parece formigas a subir pela canela da perna. Os anos não perdoam. Isto tem andado mesmo bera.” Dos mortos. “Coitado, parece que vendia saúde, sempre com uma graça, inda a semana passada tive com ele nas Finanças.” .Dos pequenos escândalos. Aqui, a mão em concha encobre meia boca e da outra metade a fala jorra mansa, a prenunciar confidências, a fazer a outra aproximar discretamente o ouvido, a olhar para o chão e a desviar com o pé um recorte de folha de couve… “Isto é um perigo. Não é preciso mais para partir uma perna. Lagarto, lagarto, lagarto!” .Feito o esconjuro certo, não vá o Diabo tecê-las, vão ao que interessa: “Disseram-me há bocadichinho que a Nela… Sim, a Nela, a filha da Ti Canetas. Não conhece você outra coisa. Aquela que morava por cima do Xico da Jula. Ó mulher, como é que lhe hei-de explicar? Aquela que andou metida com o marido da Marimelinda. Pronto. Já tá a ver quem é? Tava a ver que não era para hoje. ”A curiosidade bem espicaçada. A conversa promete. A outra ajeita o travessão que lhe prende o cabelo já grisalho. “Quando era rapariga, tinha uma trança de cabelo a meter inveja a qualquer uma. Da grossura deste punho. Agora, é estas farripas que tão à vista. Ó mulher, vamos ali mais para aquele lado que a gente tamos a estorvar.”. Vão. Para ficarem. Longamente.
A praça é assim. Não é como o supermercado. Ainda há tempo para dois dedos de má língua. “Ora, tudo faz parte da vida! E, a bem dizer, isto não é dizer mal de ninguém. Se não for verdade, estou a vender pelo mesmo preço que comprei.”.
Na praça não há artigos empacotados. O senhor Joaquim tem o tabuleiro tão desarrumado que a rama das cenouras espreita por entre os nabos e os limões. Mas, se procurarmos bem,( “Prècure a senhora à su vontade!”), por baixo de toda aquele emaranhado, encontramos umas beterrabas gorduchas. “Já me têm dito que faz bem ao saingue. Dizem, que eu cá disso não sei nada. E não quer também um pipino? Olhe que lindo!”.
Na praça não há cogumelos, nem rebentos de soja, nem papaias, nem tarambolas. Nomes e cheiros que nos chegam de longe. Mas, no tempo certo, na praça aparece planta de tomateiro e cebolo. Para dispor, claro. E flores! Não, não são as das floristas. Segadas com a foice da erva para os coelhos. “Sim, senhora, dou erva aos meus. Tá visto que comem reção, mas só p’ra variar. E a carne fica logo com outro sabor.” Ah, sim, as flores. Todas juntas, à laia de natureza morta em quadrinho de feira. Um ramalhete de rosas, de mistura com uns agapantos, uns malmequeres. “Quer uma pernadinha de zipsofila? Fica muita bonito com as rosas. Pronto, a senhora só leva o que quer”. Tudo borrifado. Foram apanhadas bem cedinho e metidas em garrafas de plástico cortadas a meio. “Dálias? Nã senhora. Tenho-as lá em botão. E é cada um! Lá p’ra semana, ou p’ra outra, já as tenho abertas. Sim, daquelas dobradas. Lindas!”.
No supermercado não há fruta com bicho. Na praça ainda há. É sinal que não levou produto. “Palavra. Coisíssima nenhuma. Disto pode a senhora levar à confiança. Até se dá às criencinhas. Os meus netos não querem outra coisa. Tadinhos. Lá em Lisboa na apanham disto. Olhe este pêro vermelhinho. Feio? Doce comó mel. É o que lhe digo. P’ra qué queu tava a enganar a senhora? Já não quer os limões? Prontos, eu desarrisco. Todos os males fossem esse.”.
Na praça há sempre falta de sacos de plástico. Bastas vezes, são as freguesas que os juntam em casa e os levam aos fornecedores do costume. “Obrigadinha! Que Deus lhe dê saúde e a mim que não me falte.”.E assim se sai da praça com as compras em sacos exibindo logotipos das grandes superfícies de venda. O mesmo para os ovos. “Quando a senhora tiver lá caixinhas, não as deite p’ro lixo. Se se alembrar traga, que a gente tem sempre precisão.”. A praça vai assim promovendo a reutilização. Não protesta contra os gigantes da concorrência. Aceita-os com conformismo e aproveita-lhes os despojos.
Na praça não se compram ervas aromáticas. A salsa, os coentros, a hortelã, muitos pés com raízes e terra húmida agarrada, são dados, como brinde, aos fregueses bem comportados. Talvez por isso, quase nunca estão à vista. Debaixo ou por detrás dos tabuleiros, meio tapados. Só para quem merece. “Que ele há para aí umas madamas com ares de que todos lhes devem e ninguém lhes paga. Coitadas. Umas cagonas, desculpe a senhora. Vai-se a ver, umas pelintras que não têm onde cair mortas. E a porem defeitos em tudo, com ar de enjoadas. Para essas, não há nada. Nadinha. Prefiro migar tudo e dar aos animais. Isto que a senhora aqui vê é cebola para aturar uns tempos. Qual da Espanha! Essa, a senhora pode pagar menos, mas não vale nada. É o que eu lhe digo. É reles, reles a valer. Esta é da nha horta, quer dizer, da horta do mê filho. Não, na é ele que amanha. Ele tem outras vidas. A gente nova hoje já não quer saber da terra pra nada. Agora é tudo dòtores. Também tou de acordo, sim senhora. Saber mais nunca fez mal a ninguém. Eu cá sou um estúpedo. Não conheço uma letra do tamanho do convento.” O Convento é inevitavelmente o padrão de medida para quem lhe conheceu a sombra. “Cá me tenho governado. Claro, também sei muita coisa que os mais novos não sabem. Mas isso é a senhora que pensa assim. Adiente. Faço a continha ou leva mais alguma coisa?”.
Na praça as conversas são sonoras, sincopadas, metafóricas, vivas. Têm o cheiro agridoce dos coentros e alguma mordacidade das malaguetas. Nascem do pó da antiga linguagem camponesa. Denunciam amiúde a sedução pelas telenovelas brasileiras. É quando as línguas se soltam e os gestos ganham algum nervosismo. “ Aquilo é tudo uma fantochice, mas distrai a gente. É melhor que tar a ver desgraças. Era escusado era mostrarem tanta desavergonhice. Se eu alguma vez na nha vida pensei ver coisas daquelas. Ó Joana, na viste onte aqueles na cama? É pessoal, até fazia faísca!”. Dura pouco o desvario. “Isto é o fim do mundo, é o que eu te digo.”.
Na praça percorrem-se velhos caminhos que nos trazem à memória a espessura do caldo de grandezas e misérias que incorpora a nossa mais profunda ruralidade.
A praça é bem diferente do supermercado. Gosto de lá ir. E de a ouvir.
Licínia Quitério
Nota: Esta crónica foi escrita há uns anitos, antes da criação da ASAE. Muita coisa já mudou. Fica o registo.
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4:24 p.m.
9.7.10
CRÓNICA DO QUOTIDIANO
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7:25 p.m.
30.6.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 3
Licínia Quitério
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5:48 p.m.
7.6.10
CRÓNICA DE DESPERTAR 2
Acordei tarde e o dia fez-se parco e o desatino das horas foi a tontura do quarto em desalinho, do sol já alto cravando uma lança de oiro no soalho. No silêncio da casa uma censura pela ausência do matinal concerto do chiar dos gonzos das portadas, do arrastar dos passos na rotina dos lugares onde mora o aroma do café, a garridice dos amores-perfeitos, o prato do comer da gata miando pela fome prolongada.
Ligar o computador e dar uma vista de olhos ao correio, ao resumo das notícias que pela tarde chegarão, com os seus pormenores bastas vezes devassos e sórdidos.
Preparar um dia não é tarefa fácil, tanto mais quanto o sono o encurtou. Viver a vida não é tarefa fácil, tanto mais quanto o tempo a encurtou. O que nos vale é ter havido um poeta que nos disse do sol, da poesia, das danças e os outros que, mesmo sem o dizerem, alimentam seus versos do riso ou do choro das crianças.
Vou viver tudo o que tenho até ser noite. E é muito ainda. Amanhã falaremos melhor.
Licínia Quitério
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12:02 p.m.
CRÓNICA DE DESPERTAR
No páteo, um leve zumbido de insectos para a colheita do néctar divino. Há um diálogo de cães, na vizinhança. Que dirão? Fome, sede, amor pela cadelinha branca que os provoca? Tomo o meu café, negro, quente, amargo e só então dou os bons dias a mim mesma. Como quem diz: A moleza por hoje acabou. O dia espera-te.
O céu está azul, imaculado, mas, vinda dos lados do mar, anuncia-se uma neblina que talvez à tarde se diga frescura. Como é costume neste mês de rosas, mas também de caprichos e incertezas.
Licínia Quitério
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11:53 a.m.
CRÓNICA DE PERMANÊNCIA
Havia um relógio na parede, com um cavalinho a encimá-lo. Talvez tivesse uma patinha dianteira erguida, já não sei bem. O balançar do pêndulo hipnotizava-me. Não conseguia desviar os olhos daquele disco dourado, lavrado de arabescos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E a menina que eu era entristecia, como entristecem as meninas, levemente, sem demoras. Logo, logo, se abria uma luzinha nos meus olhos. Na mesma parede, um de cada lado do relógio tic-tac, um azulejo de loiça branca, com uma cara de gato preto. Cara, sim, que os gatos sorriem e só sorri quem tem cara. Ao pescoço uma coleirinha amarela, com um guizo pendente, da mesma cor. Por detrás do gato havia umas folhas verdes que eu imaginava serem de couve e que nunca entendi muito bem para que quer um gato a companhia de uma couve. Iguaizinhos, nos seus baixos relevos brilhantes, lá estavam eles, um de cada lado do tic-tac. Sempre esperei que um dia virassem ao de leve as cabecitas e se olhassem, como se um deles fosse apenas espelho, o que nunca aconteceu. Muitos anos passados, já sem a avó nem o relógio tic-tac, um deles continua comigo. O outro seguiu caminho diferente, vive noutra casa. Por isso deixei de esperar que voltasse a cabeça para olhar o outro como se fosse um espelho.
O certo é que, ainda hoje, quando sinto que a tristeza quer chegar porque algum tic-tac soou no meu coração, olho o meu gato preto, com seu guizinho dourado e sorrimos, frente a frente, como mulher e gato que se conhecem, se adivinham.
Licínia Quitério
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11:12 a.m.
CRÓNICA VEGETAL 2
Foi uma pequena semente, espalmada como uma minúscula folhinha. Deitaram-na em cama de terra fofa e com a mesma terra a ocultaram. Precisava de um sono tranquilo, prolongado, com sonhos de álacre grandeza.
Da pequena semente foi saindo um corpito decidido a enfrentar o que quer que houvesse do lado de cima, do lado de lá da cama de terra.
Quase cegou quando chegou à luz que tudo banhava em seu redor. Deitou-se a medo no chão que sentiu firme e húmido e logo decidiu crescer e alongar-se em viagem, numa profusão de corpos verdes e de grandes folhas, cada dia maiores. O sol escaldava e pedia vida, muita vida. Respondeu ao pedido e, ao abrigo das grandes folhas, fez-se também flor, tomando a cor do ar quente em seu redor. Flor que nasceu para ser mãe.
E enquanto os seus braços cor de ar quente se encolhiam, se anulavam, um filho lhe crescia, de verde pequenino à ousadia da cor do próprio sol que lhe sorria. Os filhos crescem para ganhar o longe e assim ele partiu, esplendoroso, ganhando mundo para um dia o perder.
Quando o vemos, na madureza da idade, não recordaremos a sementinha que foi, mas aplaudiremos o triunfo do sol, redondo como ele, ardente assim na sua cor de fogo.
Licínia Quitério
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11:04 a.m.
CRÓNICA VEGETAL 1
Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.
Licínia Quitério
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11:00 a.m.
CRÓNICA DAS LONJURAS
A mulher afastou-se discretamente do ruído da sala de festa e foi à varanda. A noite fria, húmida, serena. Iluminações festivas nas ruas ao longe, que aquela ainda guardava o nome de azinhaga e luzes só as das janelas. Na antecipação da explosão, faz-se um silêncio. Breve, ansioso, quase dorido.
Foi esse tempo que o homem aproveitou para se passear pela azinhaga deserta de gentes e de carros. Era só um homem no escuro da rua, que a claridade começava à altura de dois pisos. Com andar desengonçado, sinuoso, falava alto para o telemóvel bem encostado ao ouvido direito. O sotaque de africano falando português, de vogais bem abertas. “Que saudades, maninho. Tou bem. Tou bem. Beijo na Jessica, mano. Tudo bem. Tudo bem.”
Na TV da sala ouvia-se a contagem decrescente: “…cinco…quatro…três…dois…uuum!!”
O homem deu uma gargalhada e desapareceu ao virar da esquina. Dobrara o cabo do ano. A rir, ao telefone, com o maninho num outro continente.
A mulher continuou à varanda e viu o fogo de artifício romper o céu. Novelos de luz, flores de cor, lágrimas descendentes. Uma delas reflectiu-se-lhe no rosto. Como se pedisse guarida. “Tudo bem, maninha. Tudo bem.”
Licínia Quitério
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10:52 a.m.
6.6.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 2
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3:08 p.m.
17.5.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 1
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3:53 p.m.
24.8.09
A JANELA DA INFÂNCIA
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1:00 p.m.
13.8.09
A CIDADE
Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora
Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.
Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas
Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.
O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.
Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.
Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.
Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.
José Saramago
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8:16 a.m.
3.8.09
SONHAR, TRABALHAR...
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.
Licínia Quitério
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20.7.09
O CONVENTO
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".
Licínia Quitério
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12:30 p.m.
3.7.09
DANÇAR E MORRER
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8:46 p.m.
31.5.09
QUANDO A TERNURA

Meu querido filho,
Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
JOSÉ FANHA
Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.
Licínia Quitério
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25.5.09
A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES
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3:38 p.m.
19.5.09
Uma pista
http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/
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11:22 a.m.
7.5.09
TURISMO OCIDENTAL 2
É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Licínia Quitério
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4:20 p.m.
4.4.09
UM CONCERTO A SOLO
Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.
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1:50 p.m.
25.3.09
O MEU AMIGO ANTÓNIO
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6:44 p.m.
21.3.09
QUERER
Como disse Ruy Belo:
Entre mim e as coisas havia vizinhança
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27.2.09
ANA
Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.
Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec
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9.2.09
TURISMO OCIDENTAL
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24.1.09
UM DIA DIFERENTE
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9:20 p.m.
2.1.09
AN EYE FOR AN EYE

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.
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26.12.08
UM APONTAMENTO
Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny
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5.12.08
QUASE POLICIAL
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30.11.08
O PROGRESSO, DIZEM
Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.
Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.
Licínia Quitério
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19.11.08
PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
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7.11.08
A ALFACE
A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.
Licínia Quitério
P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.
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Licínia Quitério
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