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27.11.10

O BANCO

Que faz ali aquele banco? Por detrás tem uma bonita sebe e pela frente, mesmo à beirinha, uma rua antiga e estreita onde passam carros. Que se pode fazer sentado naquele banco novinho em folha? Ler? E o barulho dos carros zz zzz! Conversar com alguém? Porquê ali, de cabecinha ao sol, mesmo rente à rua zzz zz? Um banco destes tem de fazer parte da história da terra. Tem de receber os velhos a procurarem a sombra, tem de sentir os pés das crianças traquinas a empoleirarem-se-lhe nas costas, tem de ouvir segredos de namorados à noitinha e conversas banais dos que a ele se encostam porque não têm tempo de se sentarem. Um banco em lugar público tem de ser a extensão da cadeira de lona do nosso alpendre, um cúmplice do nosso olhar sobre a pele dos dias. Verdade, verdadinha, nunca vi ninguém sentado neste banco. Foi por isso que não tive pudor em fotografá-lo.

Licínia Quitério




31.8.10

CRÓNICA DO CALOR

Vem a propósito do calor. Não um qualquer calor de Verão. Um calor perturbador, ameaçador, persistente, viscoso, que pede líquidos e os bebe de um trago e de retorno dá mais sede e mais seca e uma moleza de mistura com uma raiva que escalda a mente e a pele desnuda. As mulheres, na esplanada frente ao rio, sonhando com mares distantes e muito azuis que lhes tinham contado serem lugar de férias de afortunados e de nativos desafortunados. O calor prende as falas, fazem-se frases curtas e truncadas de finais a adivinhar. Mesmo com a tarde a mais de meio, o casario da outra margem tremelicava, desfocado no retrato. Tempo perigoso este. Todo o cuidado é pouco com os velhos. E com as crianças. Mais uma imperial? Não me nego. É o que apetece. Os pardais, gorditos, não se alimentavam de sestas, mas das migalhas caídas por aqui e por ali. No paredão, mesmo em frente, um homem magro e tisnado de muitas estações quentes, pescava. Tinha as calças arregaçadas até aos joelhos, uma t-shirt desbotada onde ainda se podia ler o nome de uma marca sabida em todo o mundo, um boné com a pala virada para a nuca, lembrando jovens rebeldias. A seu lado, a parafrenália de baldes, de caixas de engodos, de anzóis, e até uma geleira. Pescador, paciente, esperançado e precavido. As mulheres das imperiais bem geladinhas, de copo embaciado, a escorrer condensações com que refrescavam as palmas de ambas as mãos, num abraço de breve alívio a seus ardores, olhavam repetidamente o pescador. Espiavam-lhe os gestos exactos, certeiros, o lançar da linha, o rodar do carreto, o acerto da inclinação da cana. Arte de gente solitária, diz-se. Também de gente que procura uma ceia a preço módico para a família. Peixe de babugem, muitas vezes, mas, bem amanhado e escalado, daria um petisco de truz. Que peixe fresco não tem preço para homem assim tisnado e de t-shirt de marca, desbotada. Nunca falaram dele, as mulheres das imperiais.  Era um homem fora do contexto, silencioso, contido, exposto à ardência da tarde, afrontando o mal-estar dos homens e mulheres que se abrigavam da calmaria, numa esplanada em frente ao rio, maldizendo o verão tórrido que ameaçava gentes, e florestas, e casas, e gado, e ajudava os criminosos na sua acção devastadora. Ali não cabia a tranquilidade de um homem que, ignorando o sol, tinha os olhos no rio que lhe daria uma ceia de fartura. Quando ele se retirou, com a geleira atestada de peixes grossos e miúdos, cana ao ombro e um sorriso fresco que  mais ninguém ali podia ter, houve um suspiro que perpassou a esplanada e fez fugir os pardais. Uma das mulheres, disse então, para quem quis ouvir. Isto devia ser proibido. Assim, sem mais explicações. A palavra proibido é sempre um refrigério para quem a pronuncia. Não obstante, o ar continuava denso, opaco, terroso, amargo. Se fosse possível proibir um calor assim...

Licínia Quitério

18.7.10

CRÓNICA DE DESVARIOS

Era nas tardes de calor que a podiam ver sentada na beira do lago, um chapéu de palha a cobrir-lhe a cabeça, uma perna pendente a baloiçar devagarinho, as mãos sobre o colo, num abandono de sesta. Indiferente a quem passava, atenta aos peixes, nos seus movimentos rápidos, de sentidos imprevisíveis, provocando pequenas turbulências, remoinhos, ondulações, desassossegos na mansidão da água. Um movimento contínuo, silencioso, fresco. Via-os crescer, encorpar nas suas peles esverdeadadas, ou douradas, ou negras, ou vermelhas, ou feitas de muitas cores. Ninguém a conhecia. Passaram a chamar-lhe a senhora dos peixes. Nunca lhe ouviram uma palavra. Talvez fosse muda, como os peixes, e se entendessem na comum mudez. No fim do verão deixou de aparecer. O lago parecia mais triste sem a senhora dos peixes com o seu chapéu de palha e a perna baloiçando devagar. Ninguém soube explicar como no meio do lago nasceram duas hastes de bambu que cresceram muito segundo a sua condição de elegância e resistência. Uma delas, apenas uma, a meio da tarde, houvesse vento grosso ou aragem fina, bamboleava-se por uns instantes, devagar, para cá, para lá, enquanto os peixes descreviam círculos como danças em redor das torres finas, verdes, silenciosas. Ao crepúsculo, um olhar mais atento podia ver uma sombra projectada na fundura do lago, cuja forma, dizia-se, se assemelhava a um pequeno chapéu. Só os peixes poderiam desvendar os mistérios do lago, mas eles não falam e, se é verdade que não dormem, não têm sonhos, os peixes. Deixam essa tarefa para as senhoras que aparecem e se sentam e balançam uma perna e depois desaparecem quando crescem novas hastes de bambu.

Licínia Quitério

11.7.10

CRONICA DO QUOTIDIANO 2

Gosto de lá ir. Não é como no supermercado. A porta está sempre escancarada ao vento áspero da minha terra. Também não é a feira em campo aberto. Tem telhado e paredes sólidas. Não há azáfamas. Só umas pequenas pressas de um “pexinho” para cozer ainda para o almoço, dos pimentos para a sardinhada de domingo, de dois parrameiros para matar as saudades da amiga que virá passar a tarde connosco.

Vai-se à praça dar uma espreitadela. Da entrada, abarca-se com o olhar os tabuleiros mais distantes, semi-cerrando o olhar, aconchegando o casaco a afastar um súbito arrepio. O ar da praça, àquela hora da manhã, é lavado e fresco. “Ó senhora Estrudes, estas nabiças são de hoje?”. “Atão não haveram de ser, valha-a Deus. E olhe! Trazia quarenta mãos delas e só há o que vê”. “E quanto custa isso?”.“Por ser para si, e só para não dizer que as levo para casa, faço-lhe os dois molhos por trazentos escudos”. “Duzentos?” .“Traazentos”!, confirma, enquanto remexe os trocos no bolso fundo da bata e faz vaguear o olhar matreiro pelos ares, fingindo ignorar que ainda ali estou. Divirto-me com este toca-e-foge. “Não, não quero.”. Retiro-me devagar, dando-lhe o tempo preciso para me chamar. “Psst! Ó menina!” (Só aqui me chamam ainda de menina.). ”Leve lá por duzento xinquenta. Ai, isto não tá p’ra ninguém.”. Cumpriu-se o ritual do negócio. Na minha terra, como em qualquer Marrocos deste mundo.

Na praça está o Senhor Paulo que só tem um dente. Os outros foram ficando pela côdea do cascudo, pela coxa dura de roer da poedeira que deixou de cumprir. Faz contas de cabeça, com rapidez, sonorizadas por uma imperceptível ladainha. Acabado o exercício, afasta o boné para trás, coça o alto da cabeça com a unha negrita do dedo médio e atira o resultado com ar falsamente envergonhado: “Não sará assim?”. “É, claro. O senhor é uma máquina.”. Um sorrisinho de orgulho indisfarçado, os olhos em baixo. “Como um comportador?”. E o sorriso explode em gargalhada rouca e breve.

Na praça conversa-se, de lugar para lugar. É preciso enganar o tempo. “Ó priga, qué feito da tu mãe? Há canto tempo ná a vejo!”. “Tá rija e tesa. Tomara você e eu chegar à idade dela com aquela genica toda. Ah mulher dum sacana! Vai a caminho dos satenta e nove. Faz em Dezembro se lá chegar, se Deus Nosso Senhor quiser. Só lhe digo que inda onte mondou umas leiras de nabiças que só queria que você visse.”.

Na praça as freguesas encostam-se aos tabuleiros. Primeiro ao de leve, só a redondeza da barriga a roçar a moldura. Depois, perante o aproximar de uma conhecida, apoiam o braço, com firmeza. Ficam um bocadinho por ali, a falar. Dos achaques. “Com este tempo húmido, tenho andado à rasquinha aqui deste artelho. Atão na cama, mulher, nem queira saber, parece formigas a subir pela canela da perna. Os anos não perdoam. Isto tem andado mesmo bera.” Dos mortos. “Coitado, parece que vendia saúde, sempre com uma graça, inda a semana passada tive com ele nas Finanças.” .Dos pequenos escândalos. Aqui, a mão em concha encobre meia boca e da outra metade a fala jorra mansa, a prenunciar confidências, a fazer a outra aproximar discretamente o ouvido, a olhar para o chão e a desviar com o pé um recorte de folha de couve… “Isto é um perigo. Não é preciso mais para partir uma perna. Lagarto, lagarto, lagarto!” .Feito o esconjuro certo, não vá o Diabo tecê-las, vão ao que interessa: “Disseram-me há bocadichinho que a Nela… Sim, a Nela, a filha da Ti Canetas. Não conhece você outra coisa. Aquela que morava por cima do Xico da Jula. Ó mulher, como é que lhe hei-de explicar? Aquela que andou metida com o marido da Marimelinda. Pronto. Já tá a ver quem é? Tava a ver que não era para hoje. ”A curiosidade bem espicaçada. A conversa promete. A outra ajeita o travessão que lhe prende o cabelo já grisalho. “Quando era rapariga, tinha uma trança de cabelo a meter inveja a qualquer uma. Da grossura deste punho. Agora, é estas farripas que tão à vista. Ó mulher, vamos ali mais para aquele lado que a gente tamos a estorvar.”. Vão. Para ficarem. Longamente.

A praça é assim. Não é como o supermercado. Ainda há tempo para dois dedos de má língua. “Ora, tudo faz parte da vida! E, a bem dizer, isto não é dizer mal de ninguém. Se não for verdade, estou a vender pelo mesmo preço que comprei.”.

Na praça não há artigos empacotados. O senhor Joaquim tem o tabuleiro tão desarrumado que a rama das cenouras espreita por entre os nabos e os limões. Mas, se procurarmos bem,( “Prècure a senhora à su vontade!”), por baixo de toda aquele emaranhado, encontramos umas beterrabas gorduchas. “Já me têm dito que faz bem ao saingue. Dizem, que eu cá disso não sei nada. E não quer também um pipino? Olhe que lindo!”.

Na praça não há cogumelos, nem rebentos de soja, nem papaias, nem tarambolas. Nomes e cheiros que nos chegam de longe. Mas, no tempo certo, na praça aparece planta de tomateiro e cebolo. Para dispor, claro. E flores! Não, não são as das floristas. Segadas com a foice da erva para os coelhos. “Sim, senhora, dou erva aos meus. Tá visto que comem reção, mas só p’ra variar. E a carne fica logo com outro sabor.” Ah, sim, as flores. Todas juntas, à laia de natureza morta em quadrinho de feira. Um ramalhete de rosas, de mistura com uns agapantos, uns malmequeres. “Quer uma pernadinha de zipsofila? Fica muita bonito com as rosas. Pronto, a senhora só leva o que quer”. Tudo borrifado. Foram apanhadas bem cedinho e metidas em garrafas de plástico cortadas a meio. “Dálias? Nã senhora. Tenho-as lá em botão. E é cada um! Lá p’ra semana, ou p’ra outra, já as tenho abertas. Sim, daquelas dobradas. Lindas!”.

No supermercado não há fruta com bicho. Na praça ainda há. É sinal que não levou produto. “Palavra. Coisíssima nenhuma. Disto pode a senhora levar à confiança. Até se dá às criencinhas. Os meus netos não querem outra coisa. Tadinhos. Lá em Lisboa na apanham disto. Olhe este pêro vermelhinho. Feio? Doce comó mel. É o que lhe digo. P’ra qué queu tava a enganar a senhora? Já não quer os limões? Prontos, eu desarrisco. Todos os males fossem esse.”.

Na praça há sempre falta de sacos de plástico. Bastas vezes, são as freguesas que os juntam em casa e os levam aos fornecedores do costume. “Obrigadinha! Que Deus lhe dê saúde e a mim que não me falte.”.E assim se sai da praça com as compras em sacos exibindo logotipos das grandes superfícies de venda. O mesmo para os ovos. “Quando a senhora tiver lá caixinhas, não as deite p’ro lixo. Se se alembrar traga, que a gente tem sempre precisão.”. A praça vai assim promovendo a reutilização. Não protesta contra os gigantes da concorrência. Aceita-os com conformismo e aproveita-lhes os despojos.

Na praça não se compram ervas aromáticas. A salsa, os coentros, a hortelã, muitos pés com raízes e terra húmida agarrada, são dados, como brinde, aos fregueses bem comportados. Talvez por isso, quase nunca estão à vista. Debaixo ou por detrás dos tabuleiros, meio tapados. Só para quem merece. “Que ele há para aí umas madamas com ares de que todos lhes devem e ninguém lhes paga. Coitadas. Umas cagonas, desculpe a senhora. Vai-se a ver, umas pelintras que não têm onde cair mortas. E a porem defeitos em tudo, com ar de enjoadas. Para essas, não há nada. Nadinha. Prefiro migar tudo e dar aos animais. Isto que a senhora aqui vê é cebola para aturar uns tempos. Qual da Espanha! Essa, a senhora pode pagar menos, mas não vale nada. É o que eu lhe digo. É reles, reles a valer. Esta é da nha horta, quer dizer, da horta do mê filho. Não, na é ele que amanha. Ele tem outras vidas. A gente nova hoje já não quer saber da terra pra nada. Agora é tudo dòtores. Também tou de acordo, sim senhora. Saber mais nunca fez mal a ninguém. Eu cá sou um estúpedo. Não conheço uma letra do tamanho do convento.” O Convento é inevitavelmente o padrão de medida para quem lhe conheceu a sombra. “Cá me tenho governado. Claro, também sei muita coisa que os mais novos não sabem. Mas isso é a senhora que pensa assim. Adiente. Faço a continha ou leva mais alguma coisa?”.

Na praça as conversas são sonoras, sincopadas, metafóricas, vivas. Têm o cheiro agridoce dos coentros e alguma mordacidade das malaguetas. Nascem do pó da antiga linguagem camponesa. Denunciam amiúde a sedução pelas telenovelas brasileiras. É quando as línguas se soltam e os gestos ganham algum nervosismo. “ Aquilo é tudo uma fantochice, mas distrai a gente. É melhor que tar a ver desgraças. Era escusado era mostrarem tanta desavergonhice. Se eu alguma vez na nha vida pensei ver coisas daquelas. Ó Joana, na viste onte aqueles na cama? É pessoal, até fazia faísca!”. Dura pouco o desvario. “Isto é o fim do mundo, é o que eu te digo.”.

Na praça percorrem-se velhos caminhos que nos trazem à memória a espessura do caldo de grandezas e misérias que incorpora a nossa mais profunda ruralidade.

A praça é bem diferente do supermercado. Gosto de lá ir. E de a ouvir.


Licínia Quitério

Nota: Esta crónica foi escrita há uns anitos, antes da criação da ASAE. Muita coisa já mudou. Fica o registo.

9.7.10

CRÓNICA DO QUOTIDIANO

Assomou ao patamar dos degraus de mármore que davam acesso ao piso inferior. Deteve-se por instantes.

Havia um número considerável de fregueses na zona do peixe fresco. Um vozear de mulherio percorrendo as bancadas, avaliando tamanhos, preços, grau de frescura. Pareciam muito zangadas as mulheres, não encontravam o que queriam e já iam na segunda volta. Poucos os homens, esses calados, dando só uma volta. Os vendedores gritavam, uns para os outros, com vozeirões de sotaque de mar, arrastado. O chefe dos vendedores, tinha de ser o chefe, distribuia ordens a torto e a direito e respondia de vez em quando, só de vez em quando, a perguntas dos fregueses. Era um chefe que trabalhava muito, tanto que nunca parava de arranjar peixes grandes, médios, pequenos. Tinha uma faca enorme com que os cortava, batendo-lhes com a lâmina, sem olhar, com desprezo, acertando quase sempre. Antes do corte, era a escamação feita igualmente sem olhar o peixe, como quem os sabe todos de cor. Arrepiadas pela ferramenta de longos bicos, como pregos, as escamas saltavam, espalhavam-se, polvilhavam tudo em redor como vidrinhos baços. E subiam bem alto algumas delas, a avaliar pela quantidade que forrava o boné do chefe, um tanto descaído para trás de modo a que as melenas dianteiras também fossem ocupadas pelos vidrinhos. Escamados e cortados, os peixes eram atirados para um tanque de água, ligeiramente afastado do chefe que nunca saía do seu lugar. De vez em quando a água saltava, transbordava, salpicava a freguesia que dizia em coro: “Eh lá!” e dava um pequeno salto à rectaguarda.

Era esse o momento de acalmia por que esperava para descer a escada. Certeiro. O chefe viu-o, abriu os braços, sem largar a escamadeira, o peixe descansando sobre a bancada, e atirou no seu tom mais alto: “Olha o senhor Alcides. Olha o senhor Alcides. Já tínhamos sentido a sua falta.”

O senhor Alcides trazia dois sacos enormes e o chefe arregalou os olhos para eles. Parado a meio da escada, bem olhado agora por quase todos os compradores. “Estou de volta, amigo”.” E bem, a ver pelo aspecto, senhor Alcides”.

Terminou a descida, sorridente. “Aquilo é outro mundo, Amigo! Outro Mundo!” “Não leva a mal se perguntar aonde?” “Na República, na República.” Os olhos do chefe, por entre as escamas, eram duas interrogações. E o Senhor Alcides, perante a ignorância óbvia, explicitou: “Dominicana, Amigo. Há outra?” “Claro”, disse o chefe. “E peixinho há por lá muito?” “Se há! O Amigo pode não acreditar, mas falámos  em si muitas vezes por causa disso.” “Então valeu a pena?” “Se valeu. Aquilo é outro mundo, outro mundo, digo-lhe eu.” “E então o que é que vai hoje, Senhor Alcides?” E passou à frente de todos os outros fregueses portadores de sacos pequenitos.

Um homem viajado, o senhor Alcides. Tinha estado na República. Fregueses daqueles contavam-se pelos dedos de uma mão. Tudo o resto, uma pelintragem, voltas e mais voltas para levarem pouco e baratinho. Forrado de escamas, o chefe aviava o senhor Alcides do bom e do melhor e ia pensando: “Raios me partam se um dia não vou também à República. Quando voltar nem me conhecem”. Com o antebraço tirou uma escama que lhe saltou mesmo para o olho direito. “E hei-de dizer bem alto: Aquilo é outro mundo, outro mundo.”

Mesmo por entre as escamas, um homem pode ter sonhos de viagens.


Licínia Quitério

30.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 3


A senhora chegou com a cadela muito grande e muito velha. Disse-lhe Senta, Santa! Senta, Santa! e depois para quem estava nas outras mesas da esplanada Está surda, coitadinha. E gritou Senta, Santa! A Santa sentou-se. Depois a senhora disse para a empregada Que bolos tem? A empregada ficou calada, a pensar. E a senhora disse Tem bolos de arroz? E a empregada disse Não! mais com a cabeça do que com a fala. A senhora continuou Tem queques? A empregada disse Sim! com a voz. A senhora disse Então traga. E um chá. Tem chá de quê? A empregada disse dois ou três nomes, em voz baixa. E a senhora disse Esse mesmo. Traga. A Santa continuava sentada. Antes da empregada chegar à mesa, a senhora gritou Nunca mais cá venho. Chá numa caneca. Não. E preta. Isso é que nunca. Que horror! A empregada parou com a caneca preta na bandeja. A senhora disse Ponha aí. Eu vou beber, mas fique sabendo que não volto cá. Um chá deve vir em cafeteira. A empregada disse Eu trago outro chá. A senhora disse Não. Hoje bebo assim. Segundos depois gritou Que horror. A água está morna. Não sabe a nada. E disse para a mesa do lado Não ferveram a água. Eu tenho de dizer. Para aprenderem. A empregada ouviu, foi lá dentro e quando voltou trazia um chá a ferver num bule de metal. A senhora arreganhou um sorriso e disse Pronto. Está bem. Assim é que é. Quando começou a vazar o segundo chá na nova chávena, disse Apre! Assim também não. Desviou a perna para não ser queimada pela água que escorria antes da chávena. A Santa deu um grito de cadela com dor, levantou-se e correu até ao fim da trela. A senhora gritou Nem oito nem oitenta. Santa, meu amor, senta! Nunca mais cá venho.

Licínia Quitério

7.6.10

CRÓNICA DE DESPERTAR 2


Acordei tarde e o dia fez-se parco e o desatino das horas foi a tontura do quarto em desalinho, do sol já alto cravando uma lança de oiro no soalho.  No silêncio da casa uma censura pela ausência do matinal concerto do chiar dos gonzos das portadas, do arrastar dos passos na rotina dos lugares onde mora o aroma do café, a garridice dos amores-perfeitos, o prato do comer da gata miando pela fome prolongada.
Ligar o computador e dar uma vista de olhos ao correio, ao resumo das notícias que pela tarde chegarão, com os seus pormenores bastas vezes devassos e sórdidos.
Preparar um dia não é tarefa fácil, tanto mais quanto o sono o encurtou. Viver a vida não é tarefa fácil, tanto mais quanto o tempo a encurtou. O que nos vale é ter havido um poeta que nos disse do sol, da poesia, das danças e os outros que, mesmo sem o dizerem, alimentam seus versos do riso ou do choro das crianças.

Vou viver tudo o que tenho até ser noite. E é muito ainda. Amanhã falaremos melhor.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE DESPERTAR

Em que estou a pensar? Perguntam-me ao despertar. Poderia responder: em nada, como se nada fosse nome de coisa em que se pense. Melhor dizer: em muitas coisas, tantas que se apresentam como uma massa informe, parecida, lembrei-me agora, com um pão de sementes antes de ser cozido. É isso. Estão a ver? Uma mole de farinha e água, a tomar jeito, pespontada aqui e ali por grãozinhos de cereais. Farinha foi a noite e os sonhos muitos, incoerentes, difusos, como se querem os sonhos. A noite ainda aqui mora, mas os grãos de ideias multiplicam-se, colidem, atrapalham-se, procuram os seus lugares no dia.
No páteo, um leve zumbido de insectos para a colheita do néctar divino. Há um diálogo de cães, na vizinhança. Que dirão? Fome, sede, amor pela cadelinha branca que os provoca? Tomo o meu café, negro, quente, amargo e só então dou os bons dias a mim mesma. Como quem diz: A moleza por hoje acabou. O dia espera-te.

O céu está azul, imaculado, mas, vinda dos lados do mar, anuncia-se uma neblina que talvez à tarde se diga frescura. Como é costume neste mês de rosas, mas também de caprichos e incertezas.

Licínia Quitério

CRÓNICA DE PERMANÊNCIA


Havia um relógio na parede, com um cavalinho a encimá-lo. Talvez tivesse uma patinha dianteira erguida, já não sei bem. O balançar do pêndulo hipnotizava-me. Não conseguia desviar os olhos daquele disco dourado, lavrado de arabescos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. E a menina que eu era entristecia, como entristecem as meninas, levemente, sem demoras. Logo, logo, se abria uma luzinha nos meus olhos. Na mesma parede, um de cada lado do relógio tic-tac, um azulejo de loiça branca, com uma cara de gato preto. Cara, sim, que os gatos sorriem e só sorri quem tem cara. Ao pescoço uma coleirinha amarela, com um guizo pendente, da mesma cor. Por detrás do gato havia umas folhas verdes que eu imaginava serem de couve e que nunca entendi muito bem para que quer um gato a companhia de uma couve. Iguaizinhos, nos seus baixos relevos brilhantes, lá estavam eles, um de cada lado do tic-tac. Sempre esperei que um dia virassem ao de leve as cabecitas e se olhassem, como se um deles fosse apenas espelho, o que nunca aconteceu. Muitos anos passados, já sem a avó nem o relógio tic-tac, um deles continua comigo. O outro seguiu caminho diferente, vive noutra casa. Por isso deixei de esperar que voltasse a cabeça para olhar o outro como se fosse um espelho.
O certo é que, ainda hoje, quando sinto que a tristeza quer chegar porque algum tic-tac soou no meu coração, olho o meu gato preto, com seu guizinho dourado e sorrimos, frente a frente, como mulher e gato que se conhecem, se adivinham.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 2


Foi uma pequena semente, espalmada como uma minúscula folhinha. Deitaram-na em cama de terra fofa e com a mesma terra a ocultaram. Precisava de um sono tranquilo, prolongado, com sonhos de álacre grandeza.
Da pequena semente foi saindo um corpito decidido a enfrentar o que quer que houvesse do lado de cima, do lado de lá da cama de terra.
Quase cegou quando chegou à luz que tudo banhava em seu redor. Deitou-se a medo no chão que sentiu firme e húmido e logo decidiu crescer e alongar-se em viagem, numa profusão de corpos verdes e de grandes folhas, cada dia maiores. O sol escaldava e pedia vida, muita vida. Respondeu ao pedido e, ao abrigo das grandes folhas, fez-se também flor, tomando a cor do ar quente em seu redor. Flor que nasceu para ser mãe.
E enquanto os seus braços cor de ar quente se encolhiam, se anulavam, um filho lhe crescia, de verde pequenino à ousadia da cor do próprio sol que lhe sorria. Os filhos crescem para ganhar o longe e assim ele partiu, esplendoroso, ganhando mundo para um dia o perder.
Quando o vemos, na madureza da idade, não recordaremos a sementinha que foi, mas aplaudiremos o triunfo do sol, redondo como ele, ardente assim na sua cor de fogo.

Licínia Quitério

CRÓNICA VEGETAL 1


Os jardins públicos de hoje são diferentes dos de outros tempos em que a floricultura era mais amor e suor de jardineiro e menos cultura intensiva, pronto a plantar, pronto a arrancar e a substituir. Hoje, nos jardins públicos, as plantas, em regra, não cumprem os seus ciclos de vida. Num dia é a profusão das petúnias, no outro a dos amores- perfeitos. As begónias duram mais, muito certinhas, calibradas. As sálvias só lá estão enquanto as florações vermelhas não se atreverem à esperança de frutificarem. No dia seguinte vem o carro grande, com as ferramentas luzidias e arranca-as todas. Logo se segue outro carro, quem sabe com sempre-verdes, gémeos todos de forma e volume. São outros os tempos e a indústria das flores (como me incomoda a expressão) tem as suas regras, os seus objectivos a cumprir para que se mantenha "viável".
Pois os jardins andam bonitos, sim senhores, e eu vou-me habituando a que as flores também passaram a ser objectos descartáveis.
Feliz fico quando encontro um jardim à antiga, com espécies diferentes em convivialidade, nos seus diferentes tamanhos, nas suas diferentes idades. E as canas! As canas na sua função de esteios a assegurar aprumos. Como podem as dálias crescer sem encurvar se não forem as canas? Jardins anárquicos, com tempos de vida e morte natural. Não geométricos, não assépticos, não formatados, também eles, como outros seres viventes que conhecemos.

Licínia Quitério

CRÓNICA DAS LONJURAS

Não tardaria aí o minuto de comer as passas, de beber o espumante, de subir para a cadeira, de beijar os amigos, de apitar as gaitas, de bater latas.
A mulher afastou-se discretamente do ruído da sala de festa e foi à varanda. A noite fria, húmida, serena. Iluminações festivas nas ruas ao longe, que aquela ainda guardava o nome de azinhaga e luzes só as das janelas. Na antecipação da explosão, faz-se um silêncio. Breve, ansioso, quase dorido.
Foi esse tempo que o homem aproveitou para se passear pela azinhaga deserta de gentes e de carros. Era só um homem no escuro da rua, que a claridade começava à altura de dois pisos. Com andar desengonçado, sinuoso, falava alto para o telemóvel bem encostado ao ouvido direito. O sotaque de africano falando português, de vogais bem abertas. “Que saudades, maninho. Tou bem. Tou bem. Beijo na Jessica, mano. Tudo bem. Tudo bem.”
Na TV da sala ouvia-se a contagem decrescente: “…cinco…quatro…três…dois…uuum!!”
O homem deu uma gargalhada e desapareceu ao virar da esquina. Dobrara o cabo do ano. A rir, ao telefone, com o maninho num outro continente.
A mulher continuou à varanda e viu o fogo de artifício romper o céu. Novelos de luz, flores de cor, lágrimas descendentes. Uma delas reflectiu-se-lhe no rosto. Como se pedisse guarida. “Tudo bem, maninha. Tudo bem.”


Licínia Quitério

6.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 2

Pelo modo como ela disse Posso? e puxava já uma cadeira, deviam ser conhecidas, mas não muito íntimas, que a outra respondeu Faça favor. A conversa das mulheres desenvolve-se com maior fluidez do que a dos homens.

Eles precisam de ter um jornal aberto, de preferência desportivo, para que o assunto se apresente e ganhe cor. Se a televisão estiver ligada, comentarão o programa a que ambos não ligam nenhuma. Lá a patroa é que sabe disto, nomes dos actores, quem anda com quem, vem tudo naquelas revistas cheias de mulheres boas na capa e outras, diga-se, umas carcaças cheias de cremes ou gel, ou lá o que é. Tudo gente fina e cheia de grana, o que lá vai por trás é que não dizem. Isto é tudo uma falsidade, é o que é. E aquele gatuno do árbitro do jogo de ontem? Gatuno, não é bem assim. Não? Então não estava à vista de toda a gente que foi mão do Nequinho? Não? É porque você não viu o replay. Está lá, clarinho como água. Gatuno e vendido. Espere pela pancada. Um dia destes alguém perde a paciência, mete a boca no trombone e você vai ver. Sim, não me admirava. Há jornais que vivem dessas fofoquices. Depois não dá em nada, mas entretanto vão fazendo esticar o assunto e é ver as vendas a subirem. Não variam muito as conversas dos homens que se encontram por detrás duns jornais e que não têm nada para dizer um ao outro. Ter até tinham, mas pieguices dessas são para mulheres. Sempre a queixarem-se, da saúde, dos preços, dos filhos, deles, maridos, que não as ouvem. Mas quem é que tem paciência para aquela lenga-lenga? Quando a minha está virada para aí, ala que se faz tarde. E agora por isso, estou no ir que o almocinho já deve estar a chamar por mim. Até amanhã. E, olhe, não tenha dúvida que foi mão. Estou a gozar consigo, homem. Bom apetite.

Com as mulheres é mais fácil, mais variado. O que é que toma? Um abatanado. Para mim é bica normal. Já sei que anda à procura de emprego. Não está fácil, pois não? Nem me diga. Na minha idade ninguém me dá trabalho. Ainda sou nova, diz a Alda? Já passei dos quarenta, pois. Olham para mim e perguntam: O que foi o seu último emprego? Quando lhes falo do instituto de massagens, franzem logo o nariz. Terapeuta ou dessas de estética? Como se as de estética não tivessem a categoria das outras. Diploma não tenho. Também nos sítios por onde andei ninguém mo pediu. O melhor diploma tenho-o aqui nas costas que isto de passar horas a fazer assim. E arqueava as costas e esticava os braços sobre a mesa, em flexões síncrones dos pulsos. A outra olhou em volta e disse, a fazê-la parar a demonstração. Pronto. Já percebi. Agora tinha uma promessa vaga de tomar conta de crianças nessas coisas dos tempos livres. Seria bem bom, seria. O meu marido? Esse está em grande. O que ganha é para ele e eu que me vire. Foi, foi sempre assim. Só pensa nele. Tem um trabalhito leve, desses com computadores, que ele de parvo não tem nada. E uma saúde de ferro. Ainda agora foi fazer exames de rotina, que ele tem um medo de morrer que deus me livre, e não quer saber a Alda os resultados? Não, muito pelo contrário. Tem tudo bom. Nem uma pontinha de colesterol, a tensão é óptima, até a próstata está como deve ser. Bom, uma ova! Isto anda tudo muito mal distribuído, é o que lhe digo. Mais nova uns anitos sou eu e já tenho uma data de mazelas. Elas não matam, mas moem. Bom, tenho que ir andando que se ele chega e o almoço não está na mesa, está bem, está, temos trombil para o resto do dia. Senta-se a ver o jogo na televisão e conversa nem eu. A porcaria do jogo é que interessa para amanhã ter que falar com os amigos. E desculpe lá estes desabafos, Alda, mas nós mulheres temos de ser umas para as outras. Até amanhã se Deus quiser.


Licínia Quitério

17.5.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 1

Reformados já há um bom par de anos, a vida os juntou naquelas mesas de café onde, diariamente, salvo à segunda-feira que era dia de fecho, tomavam os seus lugares cativos, tacitamente aceites. Parecia que se davam bem, se atendermos à convergência de opiniões sobre o rol de assuntos que desfiavam, ao mesmo tempo que, jornais abertos sobre a mesa, iam comentando “as gordas”. A maior parte deles tinham sido militares de carreira, com postos a meio da tabela, que as habilitações literárias mais não permitiram. Tinham feito a guerra que lhes dera a conhecer várias Áfricas. Ao mais velho de todos, o Silvino, até outros continentes. Da guerra, propriamente dita, raramente falavam e, mesmo assim, em frases curtas, sem lugar a prosa continuada. Eram unânimes em achar que os jornais mentiam, que a televisão era uma vergonha, que “Da maneira que isto está, já nada me admira”. Mas admiravam-se quando a mocinha que os servia, loira, com rosto de loiça, vinda lá detrás da cortina de ferro, lhes falava da história de Portugal, a antiga e a recente, com a mesma naturalidade com que perguntava: “Para o senhor é mal cheia, como de costume?” Não a contradiziam, apenas apuravam os ouvidos, uma interrogação nos olhos, uma ligeira subida dos ombros. E gostavam muito da maneira delicada com que os tratava. Incomodados ficavam quando um casal jovem, ela de pele branca, a dele de cetim negro, de mãos dadas, tomavam um breve pequeno almoço, de pé, ao balcão. Só retomavam a conversa depois deles sairem. O mais falador dizia: “Sem comentários”. E as falas prosseguiam, os tons das vozes elevando-se. De verdade, ninguém estava interessado em ouvir. Achavam todos, muito secretamente, que tinha chegado o tempo de serem ouvidos. Falavam pouco dos achaques, daquele joelho a pedir canadiana, daquela vesícula preguiçosa, mas tudo rápido, com uma graçola, do género “Coisas da juventude. É o que é.” Quando algum faltava, avisava os outros: “O Custódio telefonou a dizer que não vem. Passou mal a noite.” Sobejamente informados, ninguém perguntava pormenores. “No tempo da minha mulher”, referia amiúde o viúvo, sem sombra de emoção na voz, a expressão servindo apenas para localizar no tempo devido a acção a desenrolar. Houve mais dias em que o Custódio faltou. Estava internado. “Não tarda está cá fora. Esta cambada quer é despachá-los”. A cambada eram os médicos, os enfermeiros, os porteiros, os taxistas, os dos partidos, todos iguais, os do governo, uns gulosos. Só o Artur uma vez se atreveu a dizer que tinha conhecido um político honesto. “Quem? Quem?” E os olhares eram ameaçadores. Arrependeu-se logo e inventou um argumento esfarrapado. “Propriamente eu não o conheci. Foi o meu cunhado que me disse.” “Ah e tu acreditaste? Não venhas agora armar em ingénuo. Qualquer dia acreditas que o Sporting vai ser campeão.” Eram todos do Benfica, excepto o Custódio que, por sorte ou azar, não estava presente. O Inverno já ia a meio, o reumático fazia-se sentir, “heranças de quem andou por esse mundo a dar o corpo pela Pátria”, como bem dizia o Silvino. Inesperadamente, numa manhã de sol envergonhado, o Custódio apareceu. “Então homem? Já estás rijo?” Senta aí. Queria saber novidades. “Tudo velho, tudo velho. A não ser a minha neta que arranjou novo emprego. A cambada lá achou que a rapariga é competente.” O Custódio saiu mais cedo, tinha que ir levar uma injecção. O Silvino disse. “Está mais magro.” “Magro e verde”, explicitou o Artur. A Primavera anunciou-se e encontrou-os nas mesmas mesas, com os mesmos jornais, a mesma bica mal cheia para o Silvino. Faltava o Custódio. Chegou novo conviva, acabadinho de se aposentar das Finanças, um homem exuberante, de voz aflautada que também odiava a cambada. “Sente-se aí, homem. Era o lugar do Custódio. Foi-se.”

Licínia Quitério

24.8.09

A JANELA DA INFÂNCIA


Pela janela da infância o mundo entrava. O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste,com um carrapito preso por ganchos de tartaruga. O bater sola,cadenciado,do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca. O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois. Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava. E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas, Meu vadio, meu malandro, Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer. O piar dos pardais, à boquinha da noite, disputando um abrigo nos braços enormes do velho plátano solitário. Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância. Estranhos pássaros a chiar como ratos. E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares. Chiiu, chiiu, chiiu… E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava o mundo, em nova ordem, bizarro e encantatório. Era então que o canário da vizinha Celeste,liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem qualquer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais. E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua. Depois, num clarão deslumbrante,as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia,deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz, quem sabe o nada. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério-2002

13.8.09

A CIDADE

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer um pequeno título de glória. Mas não podia evitar (isso não podia) que nos olhos lhe pairasse a névoa melancólica que envolve todo o ser desterrado.

Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.

Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas muralhas, tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.

Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.

O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.

Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.

Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.


José Saramago

3.8.09

SONHAR, TRABALHAR...

Uma biblioteca duma escola, muitos meninos, papéis com palavras escritas e uma conversa animada acerca de livros e de poesia e de tantas outras coisas que iam nascendo, em grupo, em cumplicidade.
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.

Licínia Quitério

20.7.09

O CONVENTO


Ter nascido e crescido à vista e à sombra de um monumento destes alguma influência há-de ter na pessoa que sou e no modo como vejo a vida. Eu já sabia muita coisa sobre a história do colosso, tal como a aprendi na escola, nos velhos, nos livros. Sabia que tinha sido construído por capricho ou vontade de um rei que eu considerava ser da minha terra. Sabia das histórias de fantasmas como a do capitão-sem-cabeça e das ratazanas gigantescas nos esgotos, ameaçando invadir a vila. Sabia chamar "musaninhos" às salas com janelas ovaladas lá no alto. Sabia o que eram escadas de caracol quando subia até à torre para ver um amigo tocar os carrilhões. Sabia histórias dos santos de pedra, com pés enormes para os meus olhos de menina de metro e pouco. Havia os amigos que moravam "lá dentro" e os que eram cá "de fora". Conhecia cantos escusos que não eram dados a conhecer a visitantes. Ficaria horas a falar do tempo em que eu e o convento nos entendíamos, como menina e casa grande que lhe escuta os segredos.
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".

Licínia Quitério

3.7.09

DANÇAR E MORRER



Nada sei de dança. Não sei, mas gosto. Gosto do voo breve dos corpos, do seu sofrimento rente ao solo, da sensualidade, do suor, das contorsões, da fala, do grito, do encontro e da fuga. Passei a gostar mais, desde que vi pela primeira vez, no pequeno écran, um bailado de Pina Bausch. Nunca a vi ao vivo e agora sei que nunca a verei. Era uma mulher do meu tempo. Pode dizer-se que morreu dançando. Quando passei há dias em Loulé, fixei este par desafiando o azul. Quase liberto, quase. Pronunciei baixinho: Pina Bausch. Foi a homenagem possível, em passeio acidental.


Licínia Quitério

31.5.09

QUANDO A TERNURA



Meu querido filho,

Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
Eu tremi. E é irónico um poeta a tremer, a temer, quando o filho lhe diz que também, à sua maneira, quer ser poeta. Eu tremi, meu filho. E sei porque é que tremi.
Percebi desde logo que tinhas escolhido o caminho mais belo e, se calhar, por isso mesmo, o mais difícil. Aquele que está mais afastado do mundo mecanicista em que vivemos. Aquele que te vai fazer voar até alturas impensáveis e mergulhar no mais fundo de ti e dos homens teus irmãos.
Vais trabalhar com as mais complexas matérias que habitam desde sempre o coração dos homens: os símbolos. Tu sabes, já sabes hoje, que os símbolos são as palavras e as formas que desde sempre nos permitiram dialogar com as nossas angústias e os nossos medos mais fundos. São as chaves que te permitirão entrar em terríveis e complexos labirintos cuja saída só tu poderás encontrar.
Mesmo assim, sabendo tudo isto, escolheste o caminho mais difícil, aquele que te vai trazer muito mais dúvidas que certezas, muito mais infinito que descontos para a reforma.
Vais trabalhar sem repartição nem horário. Levarás o teu ofício colado à pele para todo o lado. Não poderás fugir a essa febre. Tudo, a lágrima e a dor, a revolta e o júbilo, o pão e o vinho, a tua juventude e o teu envelhecimento, um corpo de mulher e um riso de criança, tudo te vai servir de matéria prima. Estás condenado a uma fantástica doença.
Tem sido um pouco assim a minha vida e, pelos vistos, à tua própria maneira, assim será a tua. Os teus passos vão levar-te a andar sempre e sempre à volta dessa fome de tudo ao mesmo tempo a que se chama Arte. Arte das palavras, das formas e das cores, da música, da dança. Arte. Tão incompreendida nesta sociedade que tudo quer reduzir ao pacote de margarina, ás pobres vedetas da televisão ou às modas que ainda mal o são e já deixaram de ser.
Não há dúvida de que escolheste o caminho mais difícil. Aquele que ninguém trilhou. Porque é o teu, só teu, e como dizia o poeta espanhol António Machado: “Caminhante, não há caminho/ faz-se o caminho ao andar.”
Vais esbarrar com muitas dificuldades e mais incompreensões. Vais sofrer na pele o ferrete de assistir ao êxito ribombante das vedetas descartáveis, dos opinosos iníquos, dos comerciantes de influências, dos fabricantes de “facas sem lâmina a que lhes falta o cabo”, como dizia o Alexandre O’Neill. Tudo isso vai acontecer enquanto tu atravessas as noites lutando contigo em busca de uma cor azul, de um perfil exacto, de uma grande harmonia ou de um imenso desacato.
Julgo que já não podes voltar atrás. Escolheste o caminho mais difícil. E, por isso, meu filho, estou cheio de orgulho em ti.

JOSÉ FANHA


Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog
Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.


Licínia Quitério

25.5.09

A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES

Mutuamente se observam, as suricatas e os humanos. Disseram-lhes que pertencem ao mesmo maravilhoso mundo dos episodicamente vivos. Como as palmeiras anãs ou as iguanas ou a mosca da fruta ou as amibas. Passam os milénios que os homens tomam por medida e toda esta massa pulsante de viventes se transforma e adapta e evolui e continua em sucessivos estádios de comunhão com os glaciares e as estrelas. Nós, os não cientistas, nem teólogos, nem filósofos, nem poetas de alta estirpe, raras vezes nos olhamos interrogativamente e, quando o fazemos, brevemente desistimos de obter respostas que relegamos para o lugar confortável dos "insondáveis mistérios".
Vem isto a propósito duma excelente exposição sobre o pensamento e acção de Darwin e suas implicações no mundo de hoje. E a propósito também de dois jovens que encontrei numa paragem de transporte público. Não me viram. Não se viram. O rapaz exercitava freneticamente os polegares em dois telemóveis que constantemente produziam sons breves e desencontrados. Quando os sons se detinham, o rapaz continuava a agitar os polegares sem tocar os aparelhos e mordia o lábio inferior, num sinal que intrepretei como angústia perante a momentânea quebra de contacto. A rapariga trajava de negro, tinha ao peito um pin branco com uma caveira e duas tíbias a negro e lia contos de Allan Poe. Quando interrompia a leitura, os olhos eram de um lindo azul translúcido, parados como os olhos parados dos velhos.
Que sei eu daqueles humanos com que me cruzei senão o que Darwin afirmou? Eu, as suricatas, o rapaz teclante, a rapariga de negro, somos partes de um mesmo todo. Uma universal solidão nos agrega, colmatando a diversidade das espécies.


Licínia Quitério

19.5.09

Uma pista

http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/

Se me permitem, um conselho: entrem neste link, vejam, oiçam e fiquem felizes. Já agora, não deixem de dar uns passeios pelo blog do Tiago - Geométricas - que é um belo campo de olhares e sentires. A net também tem destas coisas bonitas, de gente com nervos e coração.


Licínia Quitério

7.5.09

TURISMO OCIDENTAL 2

"O meu avô contava de um homem que era tão pobre, tão pobre, que a única coisa que possuia era dinheiro."

É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Antes do furacão há um vento quente que despenteia os palmares e rola os corais mortos no areal. A exuberância vegetal é um grito de espanto perante a invasão das construções que abrigam "souvenirs", como se a memória não fosse mais do que um cartaz a cores berrantes.
É o vergar do trópico cansado da sua guerra elementar há muito perdida na voragem fundacional do novo mundo.
A obesidade mórbida dos turistas ameaça a resistência da lona das cadeiras. A pele cor de azeviche dos indígenas forra-lhes a magreza e faz sobressair as dentaduras arruinadas e aparentemente muito brancas.
O reggae põe-me doida, digo. Um slogan, como qualquer outro, que inventei para meu conforto na passagem por lugares que não consigo adjectivar.
Não fora aquela história que um guia contou, floresta adentro, e que acima registo, talvez a solidão dos homens me tivesse sido insuportável.

Licínia Quitério

4.4.09

UM CONCERTO A SOLO

Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.


Licínia Quitério

Foto retirada da net

25.3.09

O MEU AMIGO ANTÓNIO

São tantas as portas que se fecham, diariamente, neste país onde nasci. Como se vai fechar mais uma sobre o esforço e a dedicação do meu amigo António. O negócio está mal, não há sucessores à altura. É o que consta. É preciso reduzir o pessoal. Ele já é velho. Daqui a um par de anos será sexagenário. No meu país, sexagenário só patrão ou administrador ou banqueiro ou...
Desde puto que acumula saberes aprendidos nos braços e nos livros. Sabe fazer, sabe como se faz, procura saber mais, de tudo. Da metalurgia pesada, da agricultura, da mecânica, da razão das coisas da nação, do mundo, do amor da família, dos amigos que sempre chegam e a quem dá o que tem e o que sabe. Gosta de se pôr à prova em problemas novos e quando lhes descobre a solução solta um riso gaiato porque ganhou mais um tesouro.
O magro salário do António chegou ao fim. O país não pode dar-se ao luxo de pagar a homens como ele. Não foram estes Antónios que saquearam o trabalho dos outros, a inteligência dos outros, a honestidade dos outros e inventaram dinheiro para depois o roubarem. Mas são estes Antónios que hoje são expulsos do trabalho, da casa, da dignidade com que respira um Homem.
O meu amigo António não é digno de pena. A sabedoria que acumulou ninguém lha poderá roubar, porque a toda a hora a acrescenta e a reparte. Por muitas portas que neste país se vão fechando.


Licínia Quitério

21.3.09

QUERER


Um dia em que se fala de Primavera, de Florestas, de Poesia. Palavras bonitas que nos põem no coração esperanças e frescuras e cantigas. Assim fossem todos os dias, em todos os lugares do mundo que sabemos.

Como disse Ruy Belo:
...

Entre mim e as coisas havia vizinhança
E tudo era possível
Era só querer


Licínia Quitério

27.2.09

ANA


Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.

Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec

Licínia Quitério

9.2.09

TURISMO OCIDENTAL

Abdul conduziu-nos a um chá num oásis no limiar do deserto. Talvez lhe chame oásis porque havia árvores e tanques com água e pássaros cantadores. Porque no limiar dos desertos tem de haver um chá e a tenda em que ele fumega. Na tenda tem de haver tapetes e almofadas e cheiro de menta. Por todo o lado a simetria dos desenhos e a cor escandalosa do açafrão só acalmada pelo verde negro das palmeiras do anoitecer. Ah e a música e os requebros do ventre e o choro-cante a ecoar nas nossas antigas oliveiras. Por toda a parte os belíssimos olhos negros de Ali-Babá e de Moriana. Ou de Abdul, com um joelho avariado a por-lhe um pequeno soluço na voz a cada degrau transposto. Breve passagem por um cenário de faz-de-conta em que tudo nos é dado como certo excepto o soluço escondido na voz de Abdul, o nosso guia.

Licínia Quitério

24.1.09

UM DIA DIFERENTE


Uma avaria grande, disseram na rua. Tem de ir um camião buscar uma peça. Previsões não dão. Como não? O que é que eu vou fazer sem electricidade? Um lamento comum ao pessoal da rua.

Foi esse o dia em que falaram a dois, a três, a quantos iam chegando. Os que passavam falavam a quem se encostava às ombreiras. Do lado de fora da porta, como nunca se vira. As casas iam arrefecendo e felizmente cá fora havia sol. Melhor ficar por ali, num remanso forçado, a desatar as falas tão guardadas que nem se sabia que existiam. Quem havia de dizer que se foram descobrindo amigos comuns? O mundo é bem pequeno, já todos tinham ouvido dizer. Mas a senhora sabe de artes gráficas? É que muita gente me pergunta: Que é isso em que trabalhas? E foram falando da feitura de livros. A máquina em que agora opera tem vinte e três metros de comprimento. Um orgulho no cerrar dos lábios, no arquear das sobrancelhas.

Claro que o Senhor Joaquim conhece a vizinha. Não, como ela supunha, por lhe dar o calçado a arranjar, por lhe conceder os bons dias, as boas tardes, a que ele responde sem levantar os olhos da obra. Conhece-a desde sempre, o pai, a mãe, o marido, alguns amigos. Foram, a bem dizer, colegas na mesma grande empresa já lá vai muito tempo. Agora porta com porta. Quem diria?

E a luz que não vem. Isto está para durar. Mais vale fechar a loja por um instantinho que a freguesia também anda perdida. E vão as duas, as três, tomar um café na outra rua, onde a avaria não fez estragos. Extravagâncias a que nunca se permitem, a não ser hoje, que esta arrelia não deixa fazer nada. Já passava das cinco quando a luz apareceu. Houve uns gritinhos de alegria. Depois disseram: Bom, vamos andando que tenho tudo atrasado. Talvez amanhã voltem a falar de coisas que nem sonhavam que sabiam.

Em casa, a velha senhora, depois de passada a hora de desacerto em que todos os gestos de autómato não produziram efeito, sentou-se. Simplesmente sentou-se. Pegou num livro, pegou noutro, mas não conseguia concentrar-se na leitura. Só mais tarde entendeu que na casa havia um silêncio desconhecido. Todos os aparelhos desligados, recordou a orquestra de ruídos, de zumbidos, de estalidos que fazia parte dos seus dias. Passou a tarde a escutar os passos, as vozes na rua, os miados dos gatos nos quintais das traseiras, a tosse do vizinho do lado. A inoperância das máquinas deu-lhe a percepção de mais vida. Soube-lhe bem a imobilidade. Nem deu pelo frio da casa. Pensou, como sempre, nos seus mortos, mas não ficou com olhos húmidos. Achou que talvez estivesse próximo do silêncio deles. Fazia já escuro quando a luz voltou. Estremeceu, levantou-se e não parou até acertar todos os autómatos. Há muito que não tinha um dia como este. Avariado. Diferente.


Licínia Quitério

2.1.09

AN EYE FOR AN EYE




Fiquei a escutá-la. Tem um nome de que desconheço a pronúncia. Tzipi Livni. A pele é branca e o cabelo mostra-se loiro. É uma mulher do meu mundo a que chamam ocidental. A terra dela fica na linha fronteiriça de muitos ódios. Terras vizinhas de deuses e de profetas e de disputas sangrentas por água e terra e pastagens e camelos e oleodutos e mísseis. Berço de civilizações, diz-se. A mulher tem filhos crescidos. A mulher notabilizou-se na perseguição e aniquilação de inimigos. São inimigos dela, dos pais, dos avós e de todos os avós de toda a sua gente. A mulher tem uma inteligência aferida em 150 não sei que unidades. A mulher chefia, praticamente, a sua nação que está desde sempre em guerra. Com todo o interesse aguardei a sua comunicação sobre a guerra desta semana. Foi quando me apercebi de que tem dificuldade em articular certos sons. A língua avança demasiado e os dentes demoram em descerrar. O som produzido é semelhante a um silvo. Nesse preciso instante, há um estremecimento no rosto de maxilas largas. Só os olhos não denunciam a dificuldade, a imperfeição. São olhos parados, secos, esquecidos das pálpebras. A mulher acabou de afirmar que a guerra continuará e se intensificará até à destruição do inimigo. É ela quem ordena. Avisa que morrerão inocentes. Como em todas as guerras, explica. Retira-se, com o olhar sem pálpebras.

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.


Mahatma Gandhi disse, na língua dos seus inimigos: An eye for an eye makes us blind. Não sei em que unidades se poderá aferir a inteligência do seu coração.


Licínia Quitério

imagens Google

26.12.08

UM APONTAMENTO

imagem obtida na net

Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny

Quando Cesariny escreve ou diz ou desenha um texto sobre o par Vieira/Szennes é como se ele próprio nos conduzisse pelos caminhos insondáveis do labirinto amoroso. E os mitos se apoderam de nós. Nós, mitificados, nós, as duas pontas do fio, nós, homem ou mulher, Helena ou Ariane, Arpad ou Teseu, nós tão frágeis e tão poderosos, no limite do desejo, no princípio da morte.

Licínia Quitério

5.12.08

QUASE POLICIAL



Eu nunca tinha ouvido falar em Harrogate, mas aconteceu achar-me por lá. Desde então o lugar passou a existir. Bem enquadrado nas brumas de suas majestades reinantes, rodeada de prados encharcados por águas de todo o ano, a povoação deixa que nos aproximemos e oferece-nos, a nós, transeuntes de fim de tarde, a disponibilidade de um jardim, a solidez da frontaria de um belo edifício vitoriano. Eram ali os Banhos, luxos de tempos não muito distantes, lugar de veraneio e descanso de aristocratas de sangue e de pensamento. Hoje, um hotel de gama média, confortavelmente estrelado. Um dos sítios eleitos para sossegos e deambulações de Agatha Christie, a senhora de imaginação prodigiosa, construtora de histórias de crimes imperfeitos desvendados por detectives astutos, de mentes necessariamente mais perversas do que as dos criminosos praticantes.

May I? A inesperada voz de falsete do empregado fez-me soltar um riso desordenado e, em lastimável convulsão, sem conseguir articular um Yes, afastei o tronco para que retirasse o prato. Ainda lhe vi o olhinho seco, traverso, como uma praga. Junto à janela, Miss Marple tamborilava os dedos na mesa e olhava alternadamente para mim e para o empregado. Encontrei-a de novo no dia seguinte, no check-in do hotel. Segurava um manuscrito de poucas páginas. Pude ver o título: "The Murder of the Laughing Guest". A voz aflautada soou por detrás do meu ombro: Good morning! Não me ri. Sou uma senhora de boas maneiras.

Licínia Quitério

30.11.08

O PROGRESSO, DIZEM


Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.

Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.


Licínia Quitério

19.11.08

PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA

"A linguagem conhece dois trabalhos: um como escrava, outro como soberana. No primeiro serve, no segundo oferece. Se um gesto aponta alguma direcção, então o gesto é só um instrumento e vê-se, à transparência, através dele. Se um gesto é feito por um bailarino, ninguém procura o seu significado. A história da dança não foi mais do que o anseio para passar de classe, para deixar de estar em nome de outra coisa e impor a intensidade do momento.
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
(excerto do prefácio, da autoria de Hélia Correia, ao meu livro de poemas "De Pé sobre o Silêncio")

7.11.08

A ALFACE













A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.

Licínia Quitério

P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.

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