Licínia Quitério
6.6.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 2
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:08 p.m.
17.5.10
CRÓNICAS DE AZEDUME 1
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:53 p.m.
24.8.09
A JANELA DA INFÂNCIA
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:00 p.m.
13.8.09
A CIDADE
Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora
Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.
Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas
Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.
O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.
Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.
Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.
Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.
José Saramago
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:16 a.m.
3.8.09
SONHAR, TRABALHAR...
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:16 a.m.
20.7.09
O CONVENTO
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:30 p.m.
3.7.09
DANÇAR E MORRER
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:46 p.m.
31.5.09
QUANDO A TERNURA

Meu querido filho,
Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
JOSÉ FANHA
Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
10:24 a.m.
25.5.09
A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:38 p.m.
19.5.09
Uma pista
http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:22 a.m.
7.5.09
TURISMO OCIDENTAL 2
É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:20 p.m.
4.4.09
UM CONCERTO A SOLO
Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:50 p.m.
25.3.09
O MEU AMIGO ANTÓNIO
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
6:44 p.m.
21.3.09
QUERER
Como disse Ruy Belo:
Entre mim e as coisas havia vizinhança
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:03 a.m.
27.2.09
ANA
Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.
Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:50 p.m.
9.2.09
TURISMO OCIDENTAL
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
7:05 p.m.
24.1.09
UM DIA DIFERENTE
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
9:20 p.m.
2.1.09
AN EYE FOR AN EYE

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.
Licínia Quitério
imagens Google
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:25 p.m.
26.12.08
UM APONTAMENTO
Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:56 p.m.
5.12.08
QUASE POLICIAL
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
6:26 p.m.
30.11.08
O PROGRESSO, DIZEM
Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.
Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:49 p.m.
19.11.08
PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:47 p.m.
7.11.08
A ALFACE
A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.
Licínia Quitério
P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:22 p.m.
15.10.08
UM LUGAR ESPECIAL
um diário que aconselho vivamente. É muito forte, mesmo doloroso, mas de uma humanidade e de uma poética extraordinárias. Tem dois personagens que são também dois tempos de cada um de nós. Não digo mais que há lugares que só devemos frequentar em silêncio, de olhos bem abertos e coração atento. Espero que gostem.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:29 p.m.
4.10.08
A FONTE
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:36 a.m.
27.9.08
"CURVA OBLÍQUA"
Gosta de poesia? Julguei que ouvira mal. Gosta de poesia? Quase um murmúrio. Franzina, jovem, vestida de negro. Com um monte de papeis mal contidos numa capa de plástico azul claro que agora entreabria. Quer ler um dos meus poemas? Eu disse, também em voz baixa, sem saber porquê: Gosto. Deixe-me ler. Ainda não tinha tempo de acabar, já novas perguntas: E este? Quantos quer? Parei de ler. Olhei-a bem nos olhos e disse: Escreve muito? Precisa de ajuda? Não sei se lha posso dar. Logo me arrependi da incoerência do discurso. Sem me dar conta da grande idade, as costas ainda aprumadas, o olhar demasiado brilhante, quase senti vergonha de ter ali defronte uma jovem embrulhada em negro, curvada ao peso de papéis desalinhados e de aflições com que dizia escrever poemas. Que vendia. O rendimento mínimo, a renda do quarto, a solidão que não era a falta de companhia, era sim um aperto por dentro da cabeça, a ameaçar estoirar. Disse-lhe que tinha um blog. Se me deixava publicar. Sim, sim, agradeço-lhe muito. Que nome devo citar? O meu nome literário é Cília Ramos. Depois tirou-me o papel da mão e escreveu no verso outro nome. O autêntico. Leonora. Ponha este. E por baixo, em letras de mão sinistra, Nair Leonora Correia. E o contacto: 91....... Tudo isto sem altear a voz. Às vezes a polícia causa-me problemas. E eu a passar-lhe uma nota, a olhar em volta, estranhamente com receio de ser apanhada em flagrante. Quer mais? Eu tenho cópias. Não tive coragem. Fiquei com este que abaixo transcrevo. Incomodada, sem saber traduzir o que me fora dado ouvir e ver, despedi-me. Escreva sempre. Um dia a claridade virá para a sua vida. Frase desajeitada, pedante. Ela deu um saltinho para se reaproximar. Obrigada. Dê-me um beijo. Curvei-me um pouco e dei-lhe dois e ela a mim outros dois. Nem me virei para a ver afastar-se. Subi a rua. Entrei no café e pedi uma bica ao balcão. Cá fora, no passeio, Fernando Pessoa continuava impávido, ouvindo o sino da sua igreja e pousando para a eternidade com um turista à bandoleira.
Licínia Quitério
CURVA OBLÍQUA
A noite descreve uma curva
Oblíqua sobre a cidade
Dentro ou fora desta
Milhares de corpos são lambidos
Pelo calor...
E há um cheiro a morte
Ruidosos os corpos e as bocas
Agitam-se
A noite estende-se como um lençol
Porém quando tornarmos a olhar
A madrugada chega e com ela
O canto das aves
E faz-se silêncio
Rasgado apenas aqui e ali
E a noite descansa para voltar a repetir-se
Na curva oblíqua que a descreve
Nair Leonora Correia
Lisboa, 27/09/08
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
6:52 p.m.
25.9.08
O UNIVERSO
Ela disse: Têm falta de cabeça. Não sabem orientar-se, gastam o que não podem, depois chegam a isto.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:02 p.m.
16.9.08
APONTAMENTO
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:10 p.m.
9.9.08
QUANDO EU FOR VELHA...
E pôr um chapéu vermelho que não combine nem me fique bem.
E hei-de gastar a minha pensão em brandy e luvas de verão
E sandálias de cetim, e hei-de dizer que não tenho dinheiro nem para manteiga.
Hei-de sentar-me no chão da rua quando estiver cansada
E mastigar com ruído amostras de rebuçados nas lojas e tocar campainhas de alarme
E fazer tilintar as grades dos jardins públicos com a ponta da bengala
E compensar a sobriedade da minha juventude.
Hei-de andar de chinelos à chuva
E apanhar flores nos jardins alheios
E aprender a cuspir.
Usar blusas horrorosas e engordar mais
E comer quilo e meio de salsichas de uma assentada
Ou passar uma semana só a pão e pickles
E guardar em caixas, com desvelos, canetas, lápis, bases para copos de cerveja e coisas assim.
Mas agora temos de vestir roupas que nos mantenham secos
E pagar a renda da casa e não andar na rua a praguejar
E ser um bom exemplo para as crianças.
Devemos receber amigos para jantar e ler jornais.
Mas não seria bom começar já a praticar um poucochinho?
É que assim as pessoas que me conhecem não ficarão demasiado chocadas e surpreendidas
Quando eu ficar velha de repente e começar a vestir-me de roxo.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:02 p.m.
22.8.08
O TREVO - 3.ª e última parte
Os anos passavam por Jesus Veredas Bicho ou, melhor dizendo, Jesus passava pelos anos, gastando-se neles. Os baldes de cal que transportava pareciam mais pesados, tornando-lhe os braços mais alongados, as mãos a roçar os joelhos. As costas encurvavam-se, os ombros estreitavam-se. As crateras das bexigas viraram casulos esbranquiçados, à força de abrigarem tanta cal. Começou a sentir tonturas que atribuía ao mau funcionamento da vesícula. Fazia chazinho de boldo. Três colheres de café para um púcaro de água. Deixava levantar fervura, moderava os ímpetos do lume e ficava a vigiar, não transbordasse, cinco minutos bem contados. Depois era só deixar arrefecer um pouco e coar por um pano linho que tem boa rede e não larga fios. Bebia um copo da infusão em jejum e outro ao deitar. Não havia melhor para livrar o interior dos maus humores que no fígado se albergam.
Aquele dia quente dos princípios do Verão, destinou Jesus a caiar uma casa bem bonita, piso térreo e primeiro andar, sita numa quintinha afável e rodeada por canteiros primorosamente ajardinados e orlados de buxo em devido tempo aparado. A casa era um bocadito alta e a velha escada-de-mão de Jesus Bicho um nadita baixa para chegar com desejado à vontade ao beiral de dupla telha, a indiciar desusada abastança do proprietário. Por isso, encostou a escada à parede da frente, experimentou a obliquidade consentida e verificou, com algum alívio, que era mesmo à conta para a pretendida missão. Teria apenas de esticar bem o braço e usar o pincel de cabo mais comprido. Tudo na vida tem remédio, pensou. E acrescentou: menos a morte. Sentiu um estranho formigueiro na cana do nariz que esfregou energicamente como a tentar expulsar algum agente intruso. Deitou uma olhadela em redor, aspirou com delícia o perfume dos goivos que nesse ano exibiam capitosas inflorescências e preparou-se para trepar a escada, lentamente, a mão direita nos degraus, um após o outro, a permitir os impulsos, a esquerda segurando o balde. A meio da subida, sentiu uma ligeira tontura. Esqueci-me de beber o chá esta manhã. Onde ando eu com a cabeça? Por um momento, sentiu-se apreensivo. Chegou ao topo, pendurou o balde com um gancho apropriado num dos extremos do último degrau, mirou de perto o beiral e aspergiu com o pincel embebido no leite de cal uma osga furtiva, ordenando em tom de esconjuro: Vai-te, peçonha! De novo o cheiro dos goivos, agora mais intenso, inebriante. De repente, sem querer acreditar, ouviu um chamamento que lhe pareceu nascido de um dos canteiros. Olhou para baixo, sentindo-se envolto numa nuvem de vozes ténues e de cheiros indecifráveis. Esforçou os seus pobres olhos a tentar focar o que quer que fosse que o atraía algures no meio dos goivos. O coração disparou numa batida célere e deixou de sentir o peso do corpo. Foi então que um estranho sorriso de pura felicidade lhe inundou o rosto. Sempre a sorrir, Jesus Veredas Bicho soltou a única mão apoiada na escada, abriu os braços feitos asas de gaivota e voou. Cá em baixo, rasteirinho, com os quatro corações de brinquedo, esperava-o o trevo dos seus sonhos. Jesus não se estatelou. Poisou, de mansinho, sobre as flores. A cabeça de lado, os olhos brilhantes como nunca, fitando com encantamento a folhinha da sorte que finalmente se mostrara. O sorriso de felicidade permaneceu mesmo depois de o levarem para um sítio muito branco, com gente vestida de verde onde lhe era perguntado: Aqui dói? Não. Nada lhe doía. Queria ir-se embora dali. Já não o podiam ouvir dizer: Ele está lá à minha espera. Curou-se e saiu do sítio branco e verde. Tanto quanto as forças lho permitiam, apressou-se até ao canteiro. Lá no fundo, temia ter tido uma visão. Como os santos cujas estampas colava no caderninho de folhas de papel grosso. Procurou, as mãos a tremer, os olhinhos a rolar. Viu-o. Lá estava, um pouquinho amachucado como ele, mas vivo. Deitou-se a seu lado, na cama macia de folhinhas. Deve ter dormitado. Quando despertou, tinha uma mão dormente. Abriu-a, a custo, e qual não foi o seu encanto quando viu que o trevo nela se guardara, numa oferta silenciosa àquele homem pequenino e míope, caiador de profissão e botânico por devoção, a quem puseram o nome de Jesus Veredas Bicho e que teve um sonho fechado na mão.
FIM
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:26 p.m.
15.8.08
O TREVO - 2ª. parte
Era um homem quase feliz. Respeitado pelos seus saberes, era amiúde visitado por pobres desesperados em busca de melhoras, porém a troco de nada. Recusava-se a comerciar conselhos, a vender virtudes. Dizia, invariavelmente, quando lhe perguntavam quanto era: Melhore vossemecê que eu ficarei pago.
Tinha Jesus um sonho inconfessado. Entre as plantinhas de sua estimação, figurava uma apreciável colecção de trevos, com folhas e flores de vários tamanhos e coloridos. Gostava profundamente das suas folhinhas quando abertas em leque, a fazer equilíbrios contra o vento na ponta dos pecíolos longos e delicados. Simpatizava com as flores falsamente campanuladas, amarelas umas, rosa outras, que se fechavam em tubo para dormir e se espreguiçavam triunfantes às primeiras luzes da manhã. As mãos de Jesus catavam diariamente, com suavidade, as inúmeras folhas de trevo, todas elas tripartidas em corações de brincar. Enquanto tirava um bichinho de conta aqui, uma sujidade acolá, por detrás das lentes grossas, as continhas de colar giravam, giravam, perscrutando com minúcia aquele estendal de frescuras. Pacientemente, Jesus espiava a sorte que, acreditava, um dia se revelaria em forma de trevo de quatro folhas. Sim, uma daquelas plantazinhas transcenderia a sua própria natureza e, subvertendo os códigos originais, dar-lhe-ia o sinal da raridade guardado só para eleitos.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:21 p.m.
6.8.08
O TREVO - 1ª. parte
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:06 p.m.
24.7.08
TEMPO DE CIGANOS
...Mais pobres do que todos os pobres, mais sujos do que todos os sujos, um dia chegaram ao Beco os ciganos. Vestiam andrajos cor de terra queimada, carregavam fardos informes nas ancas e nas costas. Eram uma família: o pai, de chapeirão com abas roídas, vinha ligeiramente adiantado, marcando o território com passos largos e pesados. A seguir, uma velha com cara de tartaruga, o lenço a escorregar-lhe da cabeça rapada, em sinal de viuvez inconsolável. Depois, a mãe, estranhamente elegante na saia rodada a que se agarravam dois rapazinhos de olhos brilhantes como brasas. Um deles, o mais franzino, segurava na mãozita uma corda onde amarrava um cão famélico, de traseiro descaído à maneira de lobo envergonhado.
Vinham ocupar um tugúrio que ficara vago, por morte do velho patriarca do Beco, de nome oficial desconhecido, mas a quem toda a gente chamava, sem ofensa, o Ti Capado. Não sei donde lhe viria tal alcunha, mas se alguma coisa significava, dificilmente se explicaria a prole que lhe era atribuída.
Vigiados pelos olhares apreensivos dos habitantes do Beco, instalaram-se sem grandes ruídos, trocando entre si palavras cantaroladas, em frases breves que ninguém entendia.
Ciosos dos seus não haveres, conhecedores da fama de ladrões que os ciganos transportam pelo mundo fora, nessa noite todos se recolheram mais cedo e fecharam as portas à chave.
No dia seguinte, a cigana mãe sentou-se à porta a pentear os cabelos longos e oleados, os filhos brincando com o lobinho-cão e a cada habitante que aparecia dirigindo um arrastado: Bom dia, viziiinho... Foi esta a senha para romper o círculo de temores e desconfianças. Bom dia, senhora. Como se chama? arriscou a lambisgóia da Fernanda Fininha. Preciosa, vizinha. E o seu homem? Antonho, vizinha.
Foi fácil. Já se dizia lá pelo Beco: Afinal são com’a gente.
De que viviam, pouco se sabia. Falava-se vagamente de negócios de burros pelas feiras, mas burro algum passou pelo Beco. Ao certo, só se sabia que a fome os apertava. Preciosa e os filhos aprenderam depressa a bater às portas das casas da rua grande, mendigando pelas alminhas de quem lá tem um bocadichinho de pão. Quando uma vez a Dona Celeste, impressionada pela sujidade que os recobria, lhes ofereceu um pedaço de sabão, a Preciosa indignou-se e desdenhosa atirou: Para que quero eu sabão? Ainda se fosse pão... Vá lá compreender esta gentinha. Uns ingratos. Uns porcos e uns ingratos, é o que são. - comentava a Dona Celeste com as amigas.
Como chegaram, assim partiram. Ninguém deu pela mudança totalmente imprevista. Quando o Beco acordou, bem cedinho, ouviu-se a voz sonante da Maria do Raul: Foram-se embora, foram-se embora! Quem? perguntou alguém ainda estremunhado. Os ciganos. Levaram tudo o que tinham. E o cão? O cão também. Os miúdos já se tinham habituado ao rafeiro. Que gente mais esquisita. Que vão para o diabo que os carregue. A gente a tratá-los tão bem e abalam assim, sem mais nem menos. A honra do Beco fora de certa maneira ofendida. Mas as novidades só duram três dias. E tudo voltou à miséria estabelecida, sem sobressaltos de estranhas gentes.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
9:38 a.m.
16.7.08
IMPORTA-SE DE REPETIR?!
- Qestás fazänd? – pergüntô ü fürom.
- Xtô apanhând çol, xtá bom dvér.
- Óra...- diçü cugmelänho.
Ü fürom continüô olhând parü cugmelänho i ficô pensând, pensând...
- Nom mcômas qeçô venenôze – foidizändü cugmelänho. Mazü fürom nom lhe deu ôvides i vádiu cumer tôde. Iali cefinô, xamüscândauçol.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:35 p.m.
19.6.08
PRECÁRIA
FIM
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:05 p.m.
11.6.08
O ROUPEIRO (3º. episódio)
Assim começou um caso que escaldou a vida morna do F. Dactilógrafo. Nem ele sabia explicar como é que, numa tarde de sol desmaiado de Outono, numa pensão baratucha de Almirante Reis, o F. se desforrou de tantos anos de abstinências forçadas, de sessões insípidas de sexo de sexta-feira à noite. A H. tinha ardores de trintona temperados com pudores de donzela. Embora dissessem que os prazeres da carne tinham a ver com o Inferno, F. achava que o corpo dadivoso de H. era uma bênção do Céu. Concluía, de bem para consigo próprio, que pecado seria recusar a felicidade na Terra. Acudia-lhe à ideia ingratidão de pobre rejeitando bife. E sorria, à boca pequena.
Para estupefacção dos colegas, F. abandonou o casaco verde seco e comprou farpela toda nova: um “blazer” azul escuro com botões prateados, calças beijes, sapatos de luva, pretos, reluzentes. A pasta de aluno de escola foi substituída por maleta de executivo, porém suficientemente espaçosa para transportar o almoço. Não havia dúvidas, o F. remoçara. Parecia até menos gordo e pesadão. Cantarolava baixinho, enquanto teclava. Usava água-de-colónia a inundar o escritório de frescura barata. Às piadas brejeiras, repontava: “Vocês não me digam nada. Eu ainda sou um homem novo, caramba! Onde é que está o problema?”. Não acedia a contar pormenores. Da vida lá em casa, nem uma palavra. “A minha mulher, coitadita, é uma santa”. Dava o assunto por encerrado, mão aberta a rasoirar os ares.
Com o decorrer das semanas, a H. tomara-se de atrevimentos. Vinha esperá-lo à saída, saltitante, cumprimentando com sorriso dengoso alguns colegas do F. a quem ele apresentara como “A minha amiga H”.
Comentava-se que ele ia deixar a mulher. Como iria descalçar aquela bota? Oxalá não se arrependesse. É que a H., bem vistas as coisas, não tinha lá muito boa pinta. Dizia-se por aí que tinha uma rodagem que Deus nos livre. Enfim, ele lá saberia as linhas com que se cosia.
Chegou o dia em que o F., com um ar misterioso, previamente ensaiado, confessou aos colegas mais chegados que pensava ir viver a tempo inteiro com a H. Era assim a vida. Tinham já tudo organizado. Uma casinha pequena, arrendada nos arredores, coisa muito modesta, quarto, salinha e pouco mais. Quase um amor e uma cabana, pois. Só faltava resolver o problema do roupeiro. A H. prezava o seu grande armário em que guardava a numerosa fatiota. Tinha lá aquele fraquinho pelos trapos. Gostava de se apresentar bem. Mas o roupeiro quase de certeza não caberia no novo ninho.
Preocupado com este pormenor de instalação, o F. passou a andar munido de régua, esquadro e até de um transferidor dos tempos angulosos da escola. Demorava-se a rabiscar desenhos, a anotar medidas, a fazer contas complicadas de cabeça, olhando o tecto com os olhos semi-cerrados. Ouviram-no mesmo telefonar a um amigo desenhador de máquinas. Andava com um pequenino problema. Talvez ele pudesse dar-lhe uma ajuda. Até se sentia envergonhado por ter de o incomodar por aquela ninharia. Quando desligou, uma ruga exibiu-se ondulante no sobrolho. “C’os diabos! Uma pessoa rebaixa-se a fazer um pedido de nada e é a resposta que leva. Qual? Ó homem, isso é querer meter o Rossio na Rua da Betesga. Um pateta, armado em engraçado”.
O tempo foi passando e alguém mais observador comentou que o F. andava soturno. Deixara de cantarolar e agastava-se quando tentavam puxar a conversa dos amores. Ali havia coisa. Algo não corria bem. Até que, num dia baço de Inverno, olhando a chuva miudinha que escorria pelas vidraças, riscando distraidamente com a unha o tampo da secretária, falando não se sabe se para si próprio se para os circunstantes, deixou cair num desalento: “Está tudo acabado. O roupeiro não cabe.”
Foi essa a razão por que a vida voltou à mansidão de outros tempos. As peças do xadrez retomaram no tabuleiro as suas casas de origem. Só o casaco verde seco não voltou a ser vestido. E, verdade, verdadinha, o olhar do F. não reganhou a moleza de antigamente. Bem lá no fundo, ficou uma faulhazita de lume mal apagado, denunciando a esperança num outro roupeiro, desta vez mais maneirinho.
Ainda ontem escreveu em maiúsculas, numa folha A4 que depois amarrotou e deitou, descuidado, para o cesto dos papéis: SOU UM HOMEM MUITO NOVO, CARAMBA!
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
9:00 a.m.
3.6.08
O ROUPEIRO (2º. episódio)
Corriam assim as semanas, os meses, os anos. Todo o tempo arrastado num bocejo de felino, a vida num tabuleiro de xadrez arrumado, cada peça imóvel na sua casa originária, à espera dos jogadores.
Na rua do escritório que dava trabalho ao F., havia outros escritórios onde seres seus semelhantes se ocupavam de tarefas igualmente monótonas, sublinhadas por gestos sempre iguais, repetidos até à sonolência, como se de digestão de almoço desmesurado se tratasse. F. conhecia os seus homólogos, de se cruzar com eles diariamente, nos mesmos quarteirões, às mesmas horas.
Depois do almocinho de lancheira, num desvão do escritório, pomposamente chamado de bar, ia tomar uma biquinha à Pastelaria Mèlita, ao balcão exíguo, mas onde, com boa vontade, cabia ainda muita gente. Do lado de lá do balcão, moviam-se, com grande incómodo, os donos, dois irmãos que obviamente se odiavam, e um pobre empregadito que ambos maltratavam, descarregando sobre ele os rancores espartilhados por um pacto social firmado nos tempos em que decidiram juntar os magros pés-de-meia e tomar de trespasse o pequeno café. Acreditavam que uma sociedade entre irmãos seria coisa para prosperar e durar. Os laços de sangue para alguma coisa haveriam de servir. Enganaram-se. A exiguidade do espaço e dos afectos vinham corroendo as bases da sociedade e hoje dificilmente disfarçavam semblantes carregados e congestionados, pragas inaudíveis arranhando-lhes as gargantas. Mas a clientela não tinha de sofrer por isso. Era indispensável segurá-la, tratando-a com mimos. Um dos irmãos, um celta puro, de Arcos-de-Valdevez, arrepanhava os lábios finos e desbotados e ordenava: sai uma bica para o Senhor Doutor X, ou para o Senhor Engenheiro Y, ou para o Senhor Major Z, ou para a Menina Alicinha. Identificavam meticulosamente os clientes. Quem lá fosse mais do que uma vez seria de pronto investigado, de molde a poder ser tratado pelo nome, oportunamente precedido do título académico, se fosse esse o caso. Era um ponto de honra da casa. Na Mèlita não podia haver anónimos.
A Menina H. também tomava bicas na Mèlita. De tantas vezes se encontrarem ao balcão, o F. começou a esboçar um cumprimento. Bons Dias, Menina. Seguiram-se os sorrisos, as frases curtinhas, até que o diálogo se deixou desatar. Tímido, o F. falava do tempo que fazia, deste calor abafado que nos faz transpirar, e deitava um olhar brilhante às pequeníssimas pérolas de suor no buço discreto da Menina H. Acabavam por sair juntos, a despedirem-se por alturas do escritório dela, com um até amanhã de olhos nos olhos. Dias passados, já se apertavam as mãos, sem grandes delongas, tudo muito respeitosamente.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
10:34 a.m.



