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6.6.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 2

Pelo modo como ela disse Posso? e puxava já uma cadeira, deviam ser conhecidas, mas não muito íntimas, que a outra respondeu Faça favor. A conversa das mulheres desenvolve-se com maior fluidez do que a dos homens.

Eles precisam de ter um jornal aberto, de preferência desportivo, para que o assunto se apresente e ganhe cor. Se a televisão estiver ligada, comentarão o programa a que ambos não ligam nenhuma. Lá a patroa é que sabe disto, nomes dos actores, quem anda com quem, vem tudo naquelas revistas cheias de mulheres boas na capa e outras, diga-se, umas carcaças cheias de cremes ou gel, ou lá o que é. Tudo gente fina e cheia de grana, o que lá vai por trás é que não dizem. Isto é tudo uma falsidade, é o que é. E aquele gatuno do árbitro do jogo de ontem? Gatuno, não é bem assim. Não? Então não estava à vista de toda a gente que foi mão do Nequinho? Não? É porque você não viu o replay. Está lá, clarinho como água. Gatuno e vendido. Espere pela pancada. Um dia destes alguém perde a paciência, mete a boca no trombone e você vai ver. Sim, não me admirava. Há jornais que vivem dessas fofoquices. Depois não dá em nada, mas entretanto vão fazendo esticar o assunto e é ver as vendas a subirem. Não variam muito as conversas dos homens que se encontram por detrás duns jornais e que não têm nada para dizer um ao outro. Ter até tinham, mas pieguices dessas são para mulheres. Sempre a queixarem-se, da saúde, dos preços, dos filhos, deles, maridos, que não as ouvem. Mas quem é que tem paciência para aquela lenga-lenga? Quando a minha está virada para aí, ala que se faz tarde. E agora por isso, estou no ir que o almocinho já deve estar a chamar por mim. Até amanhã. E, olhe, não tenha dúvida que foi mão. Estou a gozar consigo, homem. Bom apetite.

Com as mulheres é mais fácil, mais variado. O que é que toma? Um abatanado. Para mim é bica normal. Já sei que anda à procura de emprego. Não está fácil, pois não? Nem me diga. Na minha idade ninguém me dá trabalho. Ainda sou nova, diz a Alda? Já passei dos quarenta, pois. Olham para mim e perguntam: O que foi o seu último emprego? Quando lhes falo do instituto de massagens, franzem logo o nariz. Terapeuta ou dessas de estética? Como se as de estética não tivessem a categoria das outras. Diploma não tenho. Também nos sítios por onde andei ninguém mo pediu. O melhor diploma tenho-o aqui nas costas que isto de passar horas a fazer assim. E arqueava as costas e esticava os braços sobre a mesa, em flexões síncrones dos pulsos. A outra olhou em volta e disse, a fazê-la parar a demonstração. Pronto. Já percebi. Agora tinha uma promessa vaga de tomar conta de crianças nessas coisas dos tempos livres. Seria bem bom, seria. O meu marido? Esse está em grande. O que ganha é para ele e eu que me vire. Foi, foi sempre assim. Só pensa nele. Tem um trabalhito leve, desses com computadores, que ele de parvo não tem nada. E uma saúde de ferro. Ainda agora foi fazer exames de rotina, que ele tem um medo de morrer que deus me livre, e não quer saber a Alda os resultados? Não, muito pelo contrário. Tem tudo bom. Nem uma pontinha de colesterol, a tensão é óptima, até a próstata está como deve ser. Bom, uma ova! Isto anda tudo muito mal distribuído, é o que lhe digo. Mais nova uns anitos sou eu e já tenho uma data de mazelas. Elas não matam, mas moem. Bom, tenho que ir andando que se ele chega e o almoço não está na mesa, está bem, está, temos trombil para o resto do dia. Senta-se a ver o jogo na televisão e conversa nem eu. A porcaria do jogo é que interessa para amanhã ter que falar com os amigos. E desculpe lá estes desabafos, Alda, mas nós mulheres temos de ser umas para as outras. Até amanhã se Deus quiser.


Licínia Quitério

17.5.10

CRÓNICAS DE AZEDUME 1

Reformados já há um bom par de anos, a vida os juntou naquelas mesas de café onde, diariamente, salvo à segunda-feira que era dia de fecho, tomavam os seus lugares cativos, tacitamente aceites. Parecia que se davam bem, se atendermos à convergência de opiniões sobre o rol de assuntos que desfiavam, ao mesmo tempo que, jornais abertos sobre a mesa, iam comentando “as gordas”. A maior parte deles tinham sido militares de carreira, com postos a meio da tabela, que as habilitações literárias mais não permitiram. Tinham feito a guerra que lhes dera a conhecer várias Áfricas. Ao mais velho de todos, o Silvino, até outros continentes. Da guerra, propriamente dita, raramente falavam e, mesmo assim, em frases curtas, sem lugar a prosa continuada. Eram unânimes em achar que os jornais mentiam, que a televisão era uma vergonha, que “Da maneira que isto está, já nada me admira”. Mas admiravam-se quando a mocinha que os servia, loira, com rosto de loiça, vinda lá detrás da cortina de ferro, lhes falava da história de Portugal, a antiga e a recente, com a mesma naturalidade com que perguntava: “Para o senhor é mal cheia, como de costume?” Não a contradiziam, apenas apuravam os ouvidos, uma interrogação nos olhos, uma ligeira subida dos ombros. E gostavam muito da maneira delicada com que os tratava. Incomodados ficavam quando um casal jovem, ela de pele branca, a dele de cetim negro, de mãos dadas, tomavam um breve pequeno almoço, de pé, ao balcão. Só retomavam a conversa depois deles sairem. O mais falador dizia: “Sem comentários”. E as falas prosseguiam, os tons das vozes elevando-se. De verdade, ninguém estava interessado em ouvir. Achavam todos, muito secretamente, que tinha chegado o tempo de serem ouvidos. Falavam pouco dos achaques, daquele joelho a pedir canadiana, daquela vesícula preguiçosa, mas tudo rápido, com uma graçola, do género “Coisas da juventude. É o que é.” Quando algum faltava, avisava os outros: “O Custódio telefonou a dizer que não vem. Passou mal a noite.” Sobejamente informados, ninguém perguntava pormenores. “No tempo da minha mulher”, referia amiúde o viúvo, sem sombra de emoção na voz, a expressão servindo apenas para localizar no tempo devido a acção a desenrolar. Houve mais dias em que o Custódio faltou. Estava internado. “Não tarda está cá fora. Esta cambada quer é despachá-los”. A cambada eram os médicos, os enfermeiros, os porteiros, os taxistas, os dos partidos, todos iguais, os do governo, uns gulosos. Só o Artur uma vez se atreveu a dizer que tinha conhecido um político honesto. “Quem? Quem?” E os olhares eram ameaçadores. Arrependeu-se logo e inventou um argumento esfarrapado. “Propriamente eu não o conheci. Foi o meu cunhado que me disse.” “Ah e tu acreditaste? Não venhas agora armar em ingénuo. Qualquer dia acreditas que o Sporting vai ser campeão.” Eram todos do Benfica, excepto o Custódio que, por sorte ou azar, não estava presente. O Inverno já ia a meio, o reumático fazia-se sentir, “heranças de quem andou por esse mundo a dar o corpo pela Pátria”, como bem dizia o Silvino. Inesperadamente, numa manhã de sol envergonhado, o Custódio apareceu. “Então homem? Já estás rijo?” Senta aí. Queria saber novidades. “Tudo velho, tudo velho. A não ser a minha neta que arranjou novo emprego. A cambada lá achou que a rapariga é competente.” O Custódio saiu mais cedo, tinha que ir levar uma injecção. O Silvino disse. “Está mais magro.” “Magro e verde”, explicitou o Artur. A Primavera anunciou-se e encontrou-os nas mesmas mesas, com os mesmos jornais, a mesma bica mal cheia para o Silvino. Faltava o Custódio. Chegou novo conviva, acabadinho de se aposentar das Finanças, um homem exuberante, de voz aflautada que também odiava a cambada. “Sente-se aí, homem. Era o lugar do Custódio. Foi-se.”

Licínia Quitério

24.8.09

A JANELA DA INFÂNCIA


Pela janela da infância o mundo entrava. O mundo, quero dizer, o canto estridente do canário da vizinha Celeste,com um carrapito preso por ganchos de tartaruga. O bater sola,cadenciado,do Júlio sapateiro, de beata apagada ao canto da boca. O chiar do rodado do carro de bois, pachorrentos como se usa dizer dos bois. Os gritos, sobretudo os gritos dos meninos da rua que brincavam e lutavam e se insultavam, a enganar a fome da côdea que tardava. E os gritos, os gritos das mães, a filarem-lhes as orelhas, Meu vadio, meu malandro, Ah nha mãe na me bata qu’eu na torno a fazer. O piar dos pardais, à boquinha da noite, disputando um abrigo nos braços enormes do velho plátano solitário. Noite feita, os morcegos rasando a janela da infância. Estranhos pássaros a chiar como ratos. E as corujas das torres a mandarem calar o murmúrio dos ares. Chiiu, chiiu, chiiu… E os pirilampos, na magia dormente das noites de Verão. Pequeninas estrelas ao alcance das pequeninas mãos.

Quando a janela da infância se fechava, começava o sono. E nele entrava o mundo, em nova ordem, bizarro e encantatório. Era então que o canário da vizinha Celeste,liberto da prisão, voava como um louco em redor da cabeça do Júlio sapateiro, a bater sola sem qualquer ruído, empoleirado no carro de bois que, vendo bem, nem era um carro, mas uma gaiola a abarrotar de pardais. E havia os gritos, os gritos das corujas das torres, procurando as orelhas dos meninos da rua. Depois, num clarão deslumbrante,as corujas, transformadas em pirilampos, pousavam, brandamente, no carrapito da vizinha Celeste.

Também os mundos se cansam.Talvez por isso, chegava o tempo em que tudo parava. E aquele mundo subia, subia, subia,deixando cá em baixo, ao rés do sono, a quietude, a grande paz, quem sabe o nada. Até que, despertado pelo sol madrugador, o canário da vizinha Celeste cantava de novo, em estridências de amarelo oiro, a pedir-me que abrisse, inda por mais um dia, a janela da infância por onde entrava o mundo.


Licínia Quitério-2002

13.8.09

A CIDADE

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. Se cometera algum crime, se pagava culpas de antepassados, ou se apenas se retirara por indiferença ou vergonha - não se sabe. Talvez um pouco de tudo isto, tão certo é que do belo e do feio, da verdade e da mentira, do que se confessa e do que se esconde, fazemos todos nós a nossa casual existência. Vivia o homem fora dos muros da cidade, e dessa segregação deliberada ou imposta acabou por fazer um pequeno título de glória. Mas não podia evitar (isso não podia) que nos olhos lhe pairasse a névoa melancólica que envolve todo o ser desterrado.

Algumas vezes tentou entrar na cidade. Fê-lo não por um irreprimível desejo, nem mesmo por cansaço da situação, mas por mero instinto de mudança ou desconforto inconsciente. Escolheu sempre as portas erradas, se portas havia. E se lhe aconteceu julgar que entrara na cidade, talvez sim, mas era como se a par da cidade real houvesse imagens dela, inconsistentes como a sombra que nos olhos se tornava mais e mais densa. E quando essas imagens se desvaneciam, como o nevoeiro que das águas se desprende ao toque luminoso do sol, era o deserto que o rodeava, e ao longe brancos e altos, com árvores plantadas nas torres e jardins suspensos nas varandas, os muros da cidade brilhavam outra vez inacessíveis.

Da cidade vinham rumores de festa. Assim lho dizia, mais do que os sentidos, a imaginação. Rumores de vida seriam, pelo menos. Não essa morte solitária que é a contemplação obstinada da própriasombra. Não o desespero surdo da palavra definitiva que se escapa no momento em que seria, melhor que uma palavra, uma chave. E então o homem rodeava as longas muralhas, tacteando, à procura da porta que obscuramente lhe estaria prometida.

Porque o homem acreditava na predestinação. Estar fora da cidade (se disso tinha real consciência) era para ele uma situação acidental e provisória. Um dia, no dia exacto, nem antes nem depois, entraria na cidade. Melhor dizendo: entraria em qualquer parte, que a isto se resumia o seu esperar. Que a névoa da melancolia se tornasse noite, seria um mal necessário, mas também provisório, porque o dia predestinado traria uma explicação. Ou nem isso, sequer. Um fim, um simples fim. Uma abdicação já serviria.

O homem não sabia que as cidades que se rodeiam de muros (ainda que brancos e com árvores) não se tomam sem luta. Não sabia o homem que antes da batalha pela conquista da cidade outro combate teria de lutar consigo próprio. Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.

Veio a batalha. Como nos poemas de Homero, os deuses entraram nela. Combateram a favor e contra, algumas vezes uns contra os outros. O homem que lutava para viver dentro das muralhas da cidade mesmo assim cruzou espada e palavras com os deuses que estavam do seu lado. Feriu e foi ferido. E a luta durou longos e longos dias, semanas, meses, sem tréguas nem repouso, ora junto às muralhas, ora tão longe delas que nem a cidade se via, nem se sabia bem já que prémio estaria no fim do combate. Foi outra forma de desespero.

Até que um dia o terreno de luta ficou livre e desimpedido, como um estuário onde as águas descansam. Sangrando, o homem e o deus que lhe ficara olharam de frente as portas, abertas de par em par. Havia um grande silêncio na cidade. Ainda amedrontado, o homem avançou. A seu lado, o deus. Entraram - e foi só depois que entraram que a cidade se tornou habitada.

Era uma vez um homem que vivia fora dos muros da cidade. E a cidade era ele próprio. Josephville, se lhe quisermos dar um nome.


José Saramago

3.8.09

SONHAR, TRABALHAR...

Uma biblioteca duma escola, muitos meninos, papéis com palavras escritas e uma conversa animada acerca de livros e de poesia e de tantas outras coisas que iam nascendo, em grupo, em cumplicidade.
Falava-se de circo e da vontade de conhecer esse mundo de magia e encanto.
Um dos meninos, sentadinho no chão, como os outros, disse: Gostava de ter um circo, mas não tenho. Arrisquei: Talvez, se quiseres com muita força, o consigas ter. Ele disse: Pois é. Preciso é de sonhar, trabalhar, imaginar. Disse e ficou muito quieto, com os olhos fechados, por instantes.
Vestia uma t-shirt vemelha e tinha um bracito engessado. Se voltar a cruzar-me com ele não o reconhecerei, mas as palavras que me deu ficarão muito tempo a ressoar-me nos ouvidos: sonhar, trabalhar, imaginar.

Licínia Quitério

20.7.09

O CONVENTO


Ter nascido e crescido à vista e à sombra de um monumento destes alguma influência há-de ter na pessoa que sou e no modo como vejo a vida. Eu já sabia muita coisa sobre a história do colosso, tal como a aprendi na escola, nos velhos, nos livros. Sabia que tinha sido construído por capricho ou vontade de um rei que eu considerava ser da minha terra. Sabia das histórias de fantasmas como a do capitão-sem-cabeça e das ratazanas gigantescas nos esgotos, ameaçando invadir a vila. Sabia chamar "musaninhos" às salas com janelas ovaladas lá no alto. Sabia o que eram escadas de caracol quando subia até à torre para ver um amigo tocar os carrilhões. Sabia histórias dos santos de pedra, com pés enormes para os meus olhos de menina de metro e pouco. Havia os amigos que moravam "lá dentro" e os que eram cá "de fora". Conhecia cantos escusos que não eram dados a conhecer a visitantes. Ficaria horas a falar do tempo em que eu e o convento nos entendíamos, como menina e casa grande que lhe escuta os segredos.
Um dia apareceu um livro que pôs lá dentro o meu convento e o levou a correr mundo. Fiquei tão orgulhosa. Li o livro com encantamento, com pressa. Eu sabia que a minha casa grande um dia havia de ser falada. Corri ao encontro do autor. Precisava de lhe dizer: "Gostei que me tivesse ensinado a ver Mafra sem o convento. Agora olho para o monte antes dele e consigo pensar-me doutro modo". Saramago sorriu, fixou-me por um segundo e deu-me um autógrafo: "À Licínia que é de Mafra".

Licínia Quitério

3.7.09

DANÇAR E MORRER



Nada sei de dança. Não sei, mas gosto. Gosto do voo breve dos corpos, do seu sofrimento rente ao solo, da sensualidade, do suor, das contorsões, da fala, do grito, do encontro e da fuga. Passei a gostar mais, desde que vi pela primeira vez, no pequeno écran, um bailado de Pina Bausch. Nunca a vi ao vivo e agora sei que nunca a verei. Era uma mulher do meu tempo. Pode dizer-se que morreu dançando. Quando passei há dias em Loulé, fixei este par desafiando o azul. Quase liberto, quase. Pronunciei baixinho: Pina Bausch. Foi a homenagem possível, em passeio acidental.


Licínia Quitério

31.5.09

QUANDO A TERNURA



Meu querido filho,

Um dia, quando eu te fiz a pergunta sacramental, o que é que queres ser quando fores grande?, tu respondeste-me muito tranquilamente que querias ser pintor.
Eu tremi. E é irónico um poeta a tremer, a temer, quando o filho lhe diz que também, à sua maneira, quer ser poeta. Eu tremi, meu filho. E sei porque é que tremi.
Percebi desde logo que tinhas escolhido o caminho mais belo e, se calhar, por isso mesmo, o mais difícil. Aquele que está mais afastado do mundo mecanicista em que vivemos. Aquele que te vai fazer voar até alturas impensáveis e mergulhar no mais fundo de ti e dos homens teus irmãos.
Vais trabalhar com as mais complexas matérias que habitam desde sempre o coração dos homens: os símbolos. Tu sabes, já sabes hoje, que os símbolos são as palavras e as formas que desde sempre nos permitiram dialogar com as nossas angústias e os nossos medos mais fundos. São as chaves que te permitirão entrar em terríveis e complexos labirintos cuja saída só tu poderás encontrar.
Mesmo assim, sabendo tudo isto, escolheste o caminho mais difícil, aquele que te vai trazer muito mais dúvidas que certezas, muito mais infinito que descontos para a reforma.
Vais trabalhar sem repartição nem horário. Levarás o teu ofício colado à pele para todo o lado. Não poderás fugir a essa febre. Tudo, a lágrima e a dor, a revolta e o júbilo, o pão e o vinho, a tua juventude e o teu envelhecimento, um corpo de mulher e um riso de criança, tudo te vai servir de matéria prima. Estás condenado a uma fantástica doença.
Tem sido um pouco assim a minha vida e, pelos vistos, à tua própria maneira, assim será a tua. Os teus passos vão levar-te a andar sempre e sempre à volta dessa fome de tudo ao mesmo tempo a que se chama Arte. Arte das palavras, das formas e das cores, da música, da dança. Arte. Tão incompreendida nesta sociedade que tudo quer reduzir ao pacote de margarina, ás pobres vedetas da televisão ou às modas que ainda mal o são e já deixaram de ser.
Não há dúvida de que escolheste o caminho mais difícil. Aquele que ninguém trilhou. Porque é o teu, só teu, e como dizia o poeta espanhol António Machado: “Caminhante, não há caminho/ faz-se o caminho ao andar.”
Vais esbarrar com muitas dificuldades e mais incompreensões. Vais sofrer na pele o ferrete de assistir ao êxito ribombante das vedetas descartáveis, dos opinosos iníquos, dos comerciantes de influências, dos fabricantes de “facas sem lâmina a que lhes falta o cabo”, como dizia o Alexandre O’Neill. Tudo isso vai acontecer enquanto tu atravessas as noites lutando contigo em busca de uma cor azul, de um perfil exacto, de uma grande harmonia ou de um imenso desacato.
Julgo que já não podes voltar atrás. Escolheste o caminho mais difícil. E, por isso, meu filho, estou cheio de orgulho em ti.

JOSÉ FANHA


Com a devida vénia, transcrevo um texto e foto retirados do blog
Queridas Bibliotecas. É um lugar de saberes e afectos onde o escritor/poeta/professor/declamador/amigo, José Fanha, nos dá conta da sua aventura diária pelos caminhos da divulgação da leitura e nos fornece pistas para os prazeres que as letras e as artes sempre nos reservam.


Licínia Quitério

25.5.09

A DIVERSIDADE DAS ESPÉCIES

Mutuamente se observam, as suricatas e os humanos. Disseram-lhes que pertencem ao mesmo maravilhoso mundo dos episodicamente vivos. Como as palmeiras anãs ou as iguanas ou a mosca da fruta ou as amibas. Passam os milénios que os homens tomam por medida e toda esta massa pulsante de viventes se transforma e adapta e evolui e continua em sucessivos estádios de comunhão com os glaciares e as estrelas. Nós, os não cientistas, nem teólogos, nem filósofos, nem poetas de alta estirpe, raras vezes nos olhamos interrogativamente e, quando o fazemos, brevemente desistimos de obter respostas que relegamos para o lugar confortável dos "insondáveis mistérios".
Vem isto a propósito duma excelente exposição sobre o pensamento e acção de Darwin e suas implicações no mundo de hoje. E a propósito também de dois jovens que encontrei numa paragem de transporte público. Não me viram. Não se viram. O rapaz exercitava freneticamente os polegares em dois telemóveis que constantemente produziam sons breves e desencontrados. Quando os sons se detinham, o rapaz continuava a agitar os polegares sem tocar os aparelhos e mordia o lábio inferior, num sinal que intrepretei como angústia perante a momentânea quebra de contacto. A rapariga trajava de negro, tinha ao peito um pin branco com uma caveira e duas tíbias a negro e lia contos de Allan Poe. Quando interrompia a leitura, os olhos eram de um lindo azul translúcido, parados como os olhos parados dos velhos.
Que sei eu daqueles humanos com que me cruzei senão o que Darwin afirmou? Eu, as suricatas, o rapaz teclante, a rapariga de negro, somos partes de um mesmo todo. Uma universal solidão nos agrega, colmatando a diversidade das espécies.


Licínia Quitério

19.5.09

Uma pista

http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/15/resarte/

Se me permitem, um conselho: entrem neste link, vejam, oiçam e fiquem felizes. Já agora, não deixem de dar uns passeios pelo blog do Tiago - Geométricas - que é um belo campo de olhares e sentires. A net também tem destas coisas bonitas, de gente com nervos e coração.


Licínia Quitério

7.5.09

TURISMO OCIDENTAL 2

"O meu avô contava de um homem que era tão pobre, tão pobre, que a única coisa que possuia era dinheiro."

É possível e fácil. Compra-se uma pequena península no extremo da ínsula e faz-se dela um composto vendável de praia, floresta e nativos cantando e tocando ritmos trepidantes com letras de ocasião e fraco gosto.
Antes do furacão há um vento quente que despenteia os palmares e rola os corais mortos no areal. A exuberância vegetal é um grito de espanto perante a invasão das construções que abrigam "souvenirs", como se a memória não fosse mais do que um cartaz a cores berrantes.
É o vergar do trópico cansado da sua guerra elementar há muito perdida na voragem fundacional do novo mundo.
A obesidade mórbida dos turistas ameaça a resistência da lona das cadeiras. A pele cor de azeviche dos indígenas forra-lhes a magreza e faz sobressair as dentaduras arruinadas e aparentemente muito brancas.
O reggae põe-me doida, digo. Um slogan, como qualquer outro, que inventei para meu conforto na passagem por lugares que não consigo adjectivar.
Não fora aquela história que um guia contou, floresta adentro, e que acima registo, talvez a solidão dos homens me tivesse sido insuportável.

Licínia Quitério

4.4.09

UM CONCERTO A SOLO

Reformado de muitos teclados, este será talvez o seu último amante. As teclas sob os dedos, contra os dedos, em leves corridas e arrastados andamentos. O brilho da aliança de casamento de décadas dizendo que alguma coisa ainda perdurava do rescaldo de todos os combates. Sobre o piano um caderninho, manuscrito a azul e vermelho, em letra média, desenhada. Os títulos, apenas. As notas, não. Essas estavam todas na cabeça, orgulhosamente adornada pela cabeleira branca, suficientemente volumosa para arriscar uma poupa à Tony Bennett. Um piano pequeno, new wave, um pianista discreto e baixinho, numa loja modernaça com requintes de decoração fin-de-siècle. Ficava ali bem o piano, na amplidão da sala. Não estorvava ninguém, era apenas um ponto no centro do espaço que as gentes rodeavam, sem o tocar, sem dar sequer por ele. Ninguém o olhava, ninguém o ouvia. Era um buraco negro com um assomo de teclado. Indiferente aos manequins de plástico e aos de carne e osso, uma velha senhora sentou-se numa poltrona, afagou discretamente a imitação de Gobelin, abriu uma revista de moda, traçou a perna e aquietou-se. Nunca virou uma página da revista. Olhou sempre o pianista, ou o piano, ou a música dolente e vulgar. Ao fim de longos minutos, ela apareceu-me como um espelho de moldura rocaille e nele juro que vi reflectido, não uma risca de teclas num buraco negro, mas o concerto a solo que um pianista sempre desejara travar perante a requintada assistência do palácio dos concertos da sua Viena imaginada.


Licínia Quitério

Foto retirada da net

25.3.09

O MEU AMIGO ANTÓNIO

São tantas as portas que se fecham, diariamente, neste país onde nasci. Como se vai fechar mais uma sobre o esforço e a dedicação do meu amigo António. O negócio está mal, não há sucessores à altura. É o que consta. É preciso reduzir o pessoal. Ele já é velho. Daqui a um par de anos será sexagenário. No meu país, sexagenário só patrão ou administrador ou banqueiro ou...
Desde puto que acumula saberes aprendidos nos braços e nos livros. Sabe fazer, sabe como se faz, procura saber mais, de tudo. Da metalurgia pesada, da agricultura, da mecânica, da razão das coisas da nação, do mundo, do amor da família, dos amigos que sempre chegam e a quem dá o que tem e o que sabe. Gosta de se pôr à prova em problemas novos e quando lhes descobre a solução solta um riso gaiato porque ganhou mais um tesouro.
O magro salário do António chegou ao fim. O país não pode dar-se ao luxo de pagar a homens como ele. Não foram estes Antónios que saquearam o trabalho dos outros, a inteligência dos outros, a honestidade dos outros e inventaram dinheiro para depois o roubarem. Mas são estes Antónios que hoje são expulsos do trabalho, da casa, da dignidade com que respira um Homem.
O meu amigo António não é digno de pena. A sabedoria que acumulou ninguém lha poderá roubar, porque a toda a hora a acrescenta e a reparte. Por muitas portas que neste país se vão fechando.


Licínia Quitério

21.3.09

QUERER


Um dia em que se fala de Primavera, de Florestas, de Poesia. Palavras bonitas que nos põem no coração esperanças e frescuras e cantigas. Assim fossem todos os dias, em todos os lugares do mundo que sabemos.

Como disse Ruy Belo:
...

Entre mim e as coisas havia vizinhança
E tudo era possível
Era só querer


Licínia Quitério

27.2.09

ANA


Gostarei que vejam um vídeo que um amigo me fez chegar. Está lá tudo. Nada a acrescentar. Julgo saber apenas que se chama Ana e tem três anos. Fala em francês e dá uma lição enorme a qualquer adulto de qualquer língua viva deste mundo.

Fica o link: http://vimeo.com/2113477?pg=embed&sec

Licínia Quitério

9.2.09

TURISMO OCIDENTAL

Abdul conduziu-nos a um chá num oásis no limiar do deserto. Talvez lhe chame oásis porque havia árvores e tanques com água e pássaros cantadores. Porque no limiar dos desertos tem de haver um chá e a tenda em que ele fumega. Na tenda tem de haver tapetes e almofadas e cheiro de menta. Por todo o lado a simetria dos desenhos e a cor escandalosa do açafrão só acalmada pelo verde negro das palmeiras do anoitecer. Ah e a música e os requebros do ventre e o choro-cante a ecoar nas nossas antigas oliveiras. Por toda a parte os belíssimos olhos negros de Ali-Babá e de Moriana. Ou de Abdul, com um joelho avariado a por-lhe um pequeno soluço na voz a cada degrau transposto. Breve passagem por um cenário de faz-de-conta em que tudo nos é dado como certo excepto o soluço escondido na voz de Abdul, o nosso guia.

Licínia Quitério

24.1.09

UM DIA DIFERENTE


Uma avaria grande, disseram na rua. Tem de ir um camião buscar uma peça. Previsões não dão. Como não? O que é que eu vou fazer sem electricidade? Um lamento comum ao pessoal da rua.

Foi esse o dia em que falaram a dois, a três, a quantos iam chegando. Os que passavam falavam a quem se encostava às ombreiras. Do lado de fora da porta, como nunca se vira. As casas iam arrefecendo e felizmente cá fora havia sol. Melhor ficar por ali, num remanso forçado, a desatar as falas tão guardadas que nem se sabia que existiam. Quem havia de dizer que se foram descobrindo amigos comuns? O mundo é bem pequeno, já todos tinham ouvido dizer. Mas a senhora sabe de artes gráficas? É que muita gente me pergunta: Que é isso em que trabalhas? E foram falando da feitura de livros. A máquina em que agora opera tem vinte e três metros de comprimento. Um orgulho no cerrar dos lábios, no arquear das sobrancelhas.

Claro que o Senhor Joaquim conhece a vizinha. Não, como ela supunha, por lhe dar o calçado a arranjar, por lhe conceder os bons dias, as boas tardes, a que ele responde sem levantar os olhos da obra. Conhece-a desde sempre, o pai, a mãe, o marido, alguns amigos. Foram, a bem dizer, colegas na mesma grande empresa já lá vai muito tempo. Agora porta com porta. Quem diria?

E a luz que não vem. Isto está para durar. Mais vale fechar a loja por um instantinho que a freguesia também anda perdida. E vão as duas, as três, tomar um café na outra rua, onde a avaria não fez estragos. Extravagâncias a que nunca se permitem, a não ser hoje, que esta arrelia não deixa fazer nada. Já passava das cinco quando a luz apareceu. Houve uns gritinhos de alegria. Depois disseram: Bom, vamos andando que tenho tudo atrasado. Talvez amanhã voltem a falar de coisas que nem sonhavam que sabiam.

Em casa, a velha senhora, depois de passada a hora de desacerto em que todos os gestos de autómato não produziram efeito, sentou-se. Simplesmente sentou-se. Pegou num livro, pegou noutro, mas não conseguia concentrar-se na leitura. Só mais tarde entendeu que na casa havia um silêncio desconhecido. Todos os aparelhos desligados, recordou a orquestra de ruídos, de zumbidos, de estalidos que fazia parte dos seus dias. Passou a tarde a escutar os passos, as vozes na rua, os miados dos gatos nos quintais das traseiras, a tosse do vizinho do lado. A inoperância das máquinas deu-lhe a percepção de mais vida. Soube-lhe bem a imobilidade. Nem deu pelo frio da casa. Pensou, como sempre, nos seus mortos, mas não ficou com olhos húmidos. Achou que talvez estivesse próximo do silêncio deles. Fazia já escuro quando a luz voltou. Estremeceu, levantou-se e não parou até acertar todos os autómatos. Há muito que não tinha um dia como este. Avariado. Diferente.


Licínia Quitério

2.1.09

AN EYE FOR AN EYE




Fiquei a escutá-la. Tem um nome de que desconheço a pronúncia. Tzipi Livni. A pele é branca e o cabelo mostra-se loiro. É uma mulher do meu mundo a que chamam ocidental. A terra dela fica na linha fronteiriça de muitos ódios. Terras vizinhas de deuses e de profetas e de disputas sangrentas por água e terra e pastagens e camelos e oleodutos e mísseis. Berço de civilizações, diz-se. A mulher tem filhos crescidos. A mulher notabilizou-se na perseguição e aniquilação de inimigos. São inimigos dela, dos pais, dos avós e de todos os avós de toda a sua gente. A mulher tem uma inteligência aferida em 150 não sei que unidades. A mulher chefia, praticamente, a sua nação que está desde sempre em guerra. Com todo o interesse aguardei a sua comunicação sobre a guerra desta semana. Foi quando me apercebi de que tem dificuldade em articular certos sons. A língua avança demasiado e os dentes demoram em descerrar. O som produzido é semelhante a um silvo. Nesse preciso instante, há um estremecimento no rosto de maxilas largas. Só os olhos não denunciam a dificuldade, a imperfeição. São olhos parados, secos, esquecidos das pálpebras. A mulher acabou de afirmar que a guerra continuará e se intensificará até à destruição do inimigo. É ela quem ordena. Avisa que morrerão inocentes. Como em todas as guerras, explica. Retira-se, com o olhar sem pálpebras.

É uma mulher do meu tempo, do meu mundo chamado ocidental. O seu destino é a vingança.


Mahatma Gandhi disse, na língua dos seus inimigos: An eye for an eye makes us blind. Não sei em que unidades se poderá aferir a inteligência do seu coração.


Licínia Quitério

imagens Google

26.12.08

UM APONTAMENTO

imagem obtida na net

Vieira no labirinto é ao mesmo tempo Ariane e Teseu, e o fio da meada é dela em sua frente, é segregado dela, de Ariane, e os seus olhos são os seus de Teseu, e a mão que segura o fio é a sua, de Vieira. O fio que Szennes obsessivamente recobre e desdobra, ilumina e escurece.
...
Mário Cesariny

Quando Cesariny escreve ou diz ou desenha um texto sobre o par Vieira/Szennes é como se ele próprio nos conduzisse pelos caminhos insondáveis do labirinto amoroso. E os mitos se apoderam de nós. Nós, mitificados, nós, as duas pontas do fio, nós, homem ou mulher, Helena ou Ariane, Arpad ou Teseu, nós tão frágeis e tão poderosos, no limite do desejo, no princípio da morte.

Licínia Quitério

5.12.08

QUASE POLICIAL



Eu nunca tinha ouvido falar em Harrogate, mas aconteceu achar-me por lá. Desde então o lugar passou a existir. Bem enquadrado nas brumas de suas majestades reinantes, rodeada de prados encharcados por águas de todo o ano, a povoação deixa que nos aproximemos e oferece-nos, a nós, transeuntes de fim de tarde, a disponibilidade de um jardim, a solidez da frontaria de um belo edifício vitoriano. Eram ali os Banhos, luxos de tempos não muito distantes, lugar de veraneio e descanso de aristocratas de sangue e de pensamento. Hoje, um hotel de gama média, confortavelmente estrelado. Um dos sítios eleitos para sossegos e deambulações de Agatha Christie, a senhora de imaginação prodigiosa, construtora de histórias de crimes imperfeitos desvendados por detectives astutos, de mentes necessariamente mais perversas do que as dos criminosos praticantes.

May I? A inesperada voz de falsete do empregado fez-me soltar um riso desordenado e, em lastimável convulsão, sem conseguir articular um Yes, afastei o tronco para que retirasse o prato. Ainda lhe vi o olhinho seco, traverso, como uma praga. Junto à janela, Miss Marple tamborilava os dedos na mesa e olhava alternadamente para mim e para o empregado. Encontrei-a de novo no dia seguinte, no check-in do hotel. Segurava um manuscrito de poucas páginas. Pude ver o título: "The Murder of the Laughing Guest". A voz aflautada soou por detrás do meu ombro: Good morning! Não me ri. Sou uma senhora de boas maneiras.

Licínia Quitério

30.11.08

O PROGRESSO, DIZEM


Há muito tempo que não se atrevia a subir a rua. Os anos pesam e dias há em que o peso se concentra todo nas pernas. Subir é arrastar uma massa desmedida, amálgama de lembranças e anseios e estremecimentos vários. O Sol, menino atrevido, chamou-o, com aquele calorzinho bom que afaga e promete. Ao sair a porta, disse para dentro para a companheira: Se eu me demorar, não te preocupes. É que me apetece sentar-me um bocado no meu banco do costume. Uma saudade dos velhos plátanos da praça agitou-lhe as mãos que recolheu nos bolsos do blusão. Sentia-se bem. De tão pouco se pode fazer o contentamento de um homem. Na súbita pressa de chegar, nem deu pela aproximação do outro. Um aperto de mão, confirmado por outro aperto no cheio do braço. Há quanto tempo, homem? Temos sentido a tua falta. E agora que andamos todos perdidos, ainda nos lembramos mais das nossas discussões. Perdidos? Sim, desde que começaram as obras. Nem te conto. Anda ver. As árvores estavam velhas, doentes, dizem. E as raízes davam cabo da rua. E davam cabo dos prédios. Já não há árvores. Houve quem chorasse quando as máquinas avançaram. E depois eram os pardais. Aquela gritaria à tardinha. E a sujidade que se juntava. E os gatos à noite por ali a rondar. Já não há pardais. Nem gatos. Agora vieram os ratos. Hão-de dar cabo deles, dizem. O empedrado novo está bonito. Tudo muito limpinho, muito certinho. Era uma pena haver folhas de árvores a sujá-lo, dizem. Os bancos foram retirados. Aqueles velhos por ali sentados, às vezes soltando palavrões, de bengala e beata ao canto da boca, davam mau aspecto. A quem? Às pessoas que vêm de fora. Já os viram sentados nos degraus da estátua. Teimosos. Parece que a estátua também vai mudar de sítio. É o progresso, dizem.

Quando voltou a casa, a companheira admirou-se. Já? Resmungou: A seguir vão levar os velhos, dizem. E bem alto: Tão cedo não volto à praça. Arranja-me um café bem quente.


Licínia Quitério

19.11.08

PALAVRAS DE HÉLIA CORREIA

"A linguagem conhece dois trabalhos: um como escrava, outro como soberana. No primeiro serve, no segundo oferece. Se um gesto aponta alguma direcção, então o gesto é só um instrumento e vê-se, à transparência, através dele. Se um gesto é feito por um bailarino, ninguém procura o seu significado. A história da dança não foi mais do que o anseio para passar de classe, para deixar de estar em nome de outra coisa e impor a intensidade do momento.
Do mesmo modo, aquilo que nos parece produzido num mesmo material que é o enunciado de palavras, o acto de fala comunicativa e o acto poético, não têm muito em comum. Num deles usamos e deitamos fora, noutro tocamos o absoluto como quem toca um gato: com amor, mas entendendo que não há lugar para relações de posse; com prazer, mas pressentindo, um pouco mais além, o brilho de um olhar indecifrável.
Aqueles que se atrevem à poesia não têm por desígnio domar nada. São, no entanto, gente poderosa cujo convívio há-de inspirar cautelas. Não me refiro apenas aos que a escrevem mas também aos que a lêem. Todos eles se separaram já da multidão, da grande gritaria utilitária, para entrarem no agrado da palavra que recompensa o seu adorador. Existe realmente uma passagem, quase uma entrada física. Atravessa-se. E até mesmo um distraído se apercebe da radical alteração na sua vida."
...
(excerto do prefácio, da autoria de Hélia Correia, ao meu livro de poemas "De Pé sobre o Silêncio")

7.11.08

A ALFACE













A horta é lugar de desvelos. Afagos de mãos calosas, cuidados maternais.
Uma alface é, antes do mais, o esplendor do verde. Depois, a redondeza, o primor do recorte, a promessa de frescura.
A terra é o suporte de tudo. Dos passos do homem em volta e do aprumo da jovem rosa-verde.
Não fora a gula dos bichos, a navalha da geada, o homem teria deixado crescer a alface, nuazinha, o verde encorpando entre a terra e o céu.
Palavras como berço, tecto, véu, luziam e bailavam no calor do olhar do homem, no tremor das mãos do homem.
Acolheu-as, amassou-as com um fio de água, pronunciou sem saber uma fórmula de magos e fez nascer o abrigo, o casulo. Ficou uma abertura para o ar, para o suor do crescimento e para a fala do homem. Não tarda o dia em que o berço a deixará e afrontará, de folha ao léu, os bichos, a geada, enquanto aguarda, serena, o tempo anunciado da colheita.

Licínia Quitério

P.S. Escrevi este texto para o lugar onde semanalmente palavras puxam imagens, imagens puxam palavras e pedaços de vida se oferecem e se agradecem. A visitar.

15.10.08

UM LUGAR ESPECIAL

Ao lançar a rede neste mar imenso de lugares virtuais, encontrei na morada


um diário que aconselho vivamente. É muito forte, mesmo doloroso, mas de uma humanidade e de uma poética extraordinárias. Tem dois personagens que são também dois tempos de cada um de nós. Não digo mais que há lugares que só devemos frequentar em silêncio, de olhos bem abertos e coração atento. Espero que gostem.

4.10.08

A FONTE

Há frases que nos atravessam recorrentemente como se quisessem falar por nós. "Nadie escribe al General", o título de um livro de Gabriel Garcia Marquez, muitas vezes se me cola ao pensamento, impertinente, assim mesmo em castelhano, como o li. A tal ponto se impõe que já o tenho repetido a alguém, em voz alta, a sublinhar lamentos de desamparo, decepções por eternas esperas. Vem isto a propósito do pormenor de foto que aqui reproduzo, sem licença prévia do autor que também é o construtor da pequenina fonte. Chegou ontem, ao fim da noite, triunfante, acompanhada de uma breve carta electrónica. Explicava que memórias persistentes da infância lhe exigiam uma fonte. Andou a fazê-la, devotadamente. Já a tem. Só faltam uns pequenos arranjos a darem mais consistência ao quadro. Agora sorri ao ouvir a voz do fiozinho de água a correr para os fundos. Ali perto, o maior bicho é o gato da casa que compõe o seu ar falsamente desinteressado da novidade. Mas o dono pode ouvir os chocalhos dos grandes animais que se vão dessedentar, à tardinha, como dantes. Aposto que um dia destes contará ao neto uma história de encantar: Era uma vez uma fonte, era uma vez...
Se todos soubéssemos assim reconstruir os nossos lugares, bem poderia eu afastar as palavras de "Gabo" e prendê-las na capa do livro que fala do General que esperava uma carta que tardava. O meu amigo não ficou à espera. Escreveu-a.

Licínia Quitério

27.9.08

"CURVA OBLÍQUA"


Gosta de poesia? Julguei que ouvira mal. Gosta de poesia? Quase um murmúrio. Franzina, jovem, vestida de negro. Com um monte de papeis mal contidos numa capa de plástico azul claro que agora entreabria. Quer ler um dos meus poemas? Eu disse, também em voz baixa, sem saber porquê: Gosto. Deixe-me ler. Ainda não tinha tempo de acabar, já novas perguntas: E este? Quantos quer? Parei de ler. Olhei-a bem nos olhos e disse: Escreve muito? Precisa de ajuda? Não sei se lha posso dar. Logo me arrependi da incoerência do discurso. Sem me dar conta da grande idade, as costas ainda aprumadas, o olhar demasiado brilhante, quase senti vergonha de ter ali defronte uma jovem embrulhada em negro, curvada ao peso de papéis desalinhados e de aflições com que dizia escrever poemas. Que vendia. O rendimento mínimo, a renda do quarto, a solidão que não era a falta de companhia, era sim um aperto por dentro da cabeça, a ameaçar estoirar. Disse-lhe que tinha um blog. Se me deixava publicar. Sim, sim, agradeço-lhe muito. Que nome devo citar? O meu nome literário é Cília Ramos. Depois tirou-me o papel da mão e escreveu no verso outro nome. O autêntico. Leonora. Ponha este. E por baixo, em letras de mão sinistra, Nair Leonora Correia. E o contacto: 91....... Tudo isto sem altear a voz. Às vezes a polícia causa-me problemas. E eu a passar-lhe uma nota, a olhar em volta, estranhamente com receio de ser apanhada em flagrante. Quer mais? Eu tenho cópias. Não tive coragem. Fiquei com este que abaixo transcrevo. Incomodada, sem saber traduzir o que me fora dado ouvir e ver, despedi-me. Escreva sempre. Um dia a claridade virá para a sua vida. Frase desajeitada, pedante. Ela deu um saltinho para se reaproximar. Obrigada. Dê-me um beijo. Curvei-me um pouco e dei-lhe dois e ela a mim outros dois. Nem me virei para a ver afastar-se. Subi a rua. Entrei no café e pedi uma bica ao balcão. Cá fora, no passeio, Fernando Pessoa continuava impávido, ouvindo o sino da sua igreja e pousando para a eternidade com um turista à bandoleira.

Licínia Quitério

CURVA OBLÍQUA

A noite descreve uma curva
Oblíqua sobre a cidade
Dentro ou fora desta
Milhares de corpos são lambidos
Pelo calor...
E há um cheiro a morte
Ruidosos os corpos e as bocas
Agitam-se
A noite estende-se como um lençol
Porém quando tornarmos a olhar
A madrugada chega e com ela
O canto das aves
E faz-se silêncio
Rasgado apenas aqui e ali
E a noite descansa para voltar a repetir-se
Na curva oblíqua que a descreve

Nair Leonora Correia
Lisboa, 27/09/08

25.9.08

O UNIVERSO




Ela disse: Têm falta de cabeça. Não sabem orientar-se, gastam o que não podem, depois chegam a isto.
A outra disse: Não sabemos. Pode acontecer. Um dia estamos tão sós como o universo. E só nele encontramos amparo.
Ela disse: Lá estás tu a brincar com as palavras. Nunca se sabe quando falas a sério.
A outra encolheu os ombros e disse: Se um dia tiver um barco há-de ter o nome deste.


Licínia Quitério

16.9.08

APONTAMENTO



Ocupado a reconstruir um cigarro. Boa colheita de matéria-prima num lugar de viajantes, num tempo antes da limpeza. Meticulosamente, esbrugava as pontas velhas e, com os farrapos de tabaco enrolado em folhinhas de papel branco, sedoso, ganhava os seus cigarros do dia. Ali, rente ao chão, senhor do degrau de porta para o passado. Havia o tapete usado que me intrigou. Quero pensar que lhe pertence. Um homem tem de ter os pertences que lhe dêem a diferença dos outros da mesma rua.

Licínia Quitério

9.9.08

QUANDO EU FOR VELHA...


AVISO


Quando eu for velha hei-de vestir-me de roxo
E pôr um chapéu vermelho que não combine nem me fique bem.
E hei-de gastar a minha pensão em brandy e luvas de verão
E sandálias de cetim, e hei-de dizer que não tenho dinheiro nem para manteiga.
Hei-de sentar-me no chão da rua quando estiver cansada
E mastigar com ruído amostras de rebuçados nas lojas e tocar campainhas de alarme
E fazer tilintar as grades dos jardins públicos com a ponta da bengala
E compensar a sobriedade da minha juventude.
Hei-de andar de chinelos à chuva
E apanhar flores nos jardins alheios
E aprender a cuspir.
Usar blusas horrorosas e engordar mais
E comer quilo e meio de salsichas de uma assentada
Ou passar uma semana só a pão e pickles
E guardar em caixas, com desvelos, canetas, lápis, bases para copos de cerveja e coisas assim.
Mas agora temos de vestir roupas que nos mantenham secos
E pagar a renda da casa e não andar na rua a praguejar
E ser um bom exemplo para as crianças.
Devemos receber amigos para jantar e ler jornais.
Mas não seria bom começar já a praticar um poucochinho?
É que assim as pessoas que me conhecem não ficarão demasiado chocadas e surpreendidas
Quando eu ficar velha de repente e começar a vestir-me de roxo.


JENNY JOSEPH


Uma tradução caseira de um poema que acho uma delícia. Espero que também gostem.

Licínia Quitério

22.8.08

O TREVO - 3.ª e última parte


Naturalmente, Jesus não vivia somente de botânicas e de sonhos. Tinha o ofício de caiador de casas e de muros que lhe assegurava o sustento e o mais que permitisse vidinha humilde, mas tranquila. Trajava sempre de branco, a cabeça protegida dos pingos da cal por um lenço a que quatro nós nos cantos conferiam forma achapelada. Era meticuloso nas suas caiações. Revia-se com orgulho nas faixas de azul berrante com que enfeitava os rodapés e as molduras das janelas das casas branquinhas. Subia devagar a escada-de-mão, a fazer lembrar lagartixa sonolenta amarinhando em tronco de árvore encharcada de sol. Esgueirava-se assim até aos beirais de telha vermelha, belamente recortados, para os forrar de branco, não sem antes os ter raspado das sujidades da passarada e dos velhos líquenes verde-amarelados.

Os anos passavam por Jesus Veredas Bicho ou, melhor dizendo, Jesus passava pelos anos, gastando-se neles. Os baldes de cal que transportava pareciam mais pesados, tornando-lhe os braços mais alongados, as mãos a roçar os joelhos. As costas encurvavam-se, os ombros estreitavam-se. As crateras das bexigas viraram casulos esbranquiçados, à força de abrigarem tanta cal. Começou a sentir tonturas que atribuía ao mau funcionamento da vesícula. Fazia chazinho de boldo. Três colheres de café para um púcaro de água. Deixava levantar fervura, moderava os ímpetos do lume e ficava a vigiar, não transbordasse, cinco minutos bem contados. Depois era só deixar arrefecer um pouco e coar por um pano linho que tem boa rede e não larga fios. Bebia um copo da infusão em jejum e outro ao deitar. Não havia melhor para livrar o interior dos maus humores que no fígado se albergam.

Aquele dia quente dos princípios do Verão, destinou Jesus a caiar uma casa bem bonita, piso térreo e primeiro andar, sita numa quintinha afável e rodeada por canteiros primorosamente ajardinados e orlados de buxo em devido tempo aparado. A casa era um bocadito alta e a velha escada-de-mão de Jesus Bicho um nadita baixa para chegar com desejado à vontade ao beiral de dupla telha, a indiciar desusada abastança do proprietário. Por isso, encostou a escada à parede da frente, experimentou a obliquidade consentida e verificou, com algum alívio, que era mesmo à conta para a pretendida missão. Teria apenas de esticar bem o braço e usar o pincel de cabo mais comprido. Tudo na vida tem remédio, pensou. E acrescentou: menos a morte. Sentiu um estranho formigueiro na cana do nariz que esfregou energicamente como a tentar expulsar algum agente intruso. Deitou uma olhadela em redor, aspirou com delícia o perfume dos goivos que nesse ano exibiam capitosas inflorescências e preparou-se para trepar a escada, lentamente, a mão direita nos degraus, um após o outro, a permitir os impulsos, a esquerda segurando o balde. A meio da subida, sentiu uma ligeira tontura. Esqueci-me de beber o chá esta manhã. Onde ando eu com a cabeça? Por um momento, sentiu-se apreensivo. Chegou ao topo, pendurou o balde com um gancho apropriado num dos extremos do último degrau, mirou de perto o beiral e aspergiu com o pincel embebido no leite de cal uma osga furtiva, ordenando em tom de esconjuro: Vai-te, peçonha! De novo o cheiro dos goivos, agora mais intenso, inebriante. De repente, sem querer acreditar, ouviu um chamamento que lhe pareceu nascido de um dos canteiros. Olhou para baixo, sentindo-se envolto numa nuvem de vozes ténues e de cheiros indecifráveis. Esforçou os seus pobres olhos a tentar focar o que quer que fosse que o atraía algures no meio dos goivos. O coração disparou numa batida célere e deixou de sentir o peso do corpo. Foi então que um estranho sorriso de pura felicidade lhe inundou o rosto. Sempre a sorrir, Jesus Veredas Bicho soltou a única mão apoiada na escada, abriu os braços feitos asas de gaivota e voou. Cá em baixo, rasteirinho, com os quatro corações de brinquedo, esperava-o o trevo dos seus sonhos. Jesus não se estatelou. Poisou, de mansinho, sobre as flores. A cabeça de lado, os olhos brilhantes como nunca, fitando com encantamento a folhinha da sorte que finalmente se mostrara. O sorriso de felicidade permaneceu mesmo depois de o levarem para um sítio muito branco, com gente vestida de verde onde lhe era perguntado: Aqui dói? Não. Nada lhe doía. Queria ir-se embora dali. Já não o podiam ouvir dizer: Ele está lá à minha espera. Curou-se e saiu do sítio branco e verde. Tanto quanto as forças lho permitiam, apressou-se até ao canteiro. Lá no fundo, temia ter tido uma visão. Como os santos cujas estampas colava no caderninho de folhas de papel grosso. Procurou, as mãos a tremer, os olhinhos a rolar. Viu-o. Lá estava, um pouquinho amachucado como ele, mas vivo. Deitou-se a seu lado, na cama macia de folhinhas. Deve ter dormitado. Quando despertou, tinha uma mão dormente. Abriu-a, a custo, e qual não foi o seu encanto quando viu que o trevo nela se guardara, numa oferta silenciosa àquele homem pequenino e míope, caiador de profissão e botânico por devoção, a quem puseram o nome de Jesus Veredas Bicho e que teve um sonho fechado na mão.

FIM


Licínia Quitério

15.8.08

O TREVO - 2ª. parte



Jesus Bicho gostava muito de plantas. Ainda na escola primária, dedicava largas horas a cuidar dos seus pequeninos canteiros onde coleccionava ervinhas que tratava com desvelos maternais. A pouco e pouco, foi-lhes conhecendo os nomes, as formas, os cheiros, as fragilidades ou as insuspeitadas forças com que enfrentavam os tratos dos homens e dos elementos. Alegrava-se com o cheirinho doce da cidreira, com a frescura lavada da alfazema, com a estridência da cor da macela. Aprendera a conhecer-lhes as preferências por humidades ou securas, por asperezas de rocha ou molezas de aluvião. Tinha Jesus Bicho uma particular preferência pelas plantas baixinhas, discretas, como que a pedirem licença às grandes para as deixarem afirmar a presença. Regalava-se com as violetas que floriam às ocultas, na sombra fresca; com a simetria das formas galantes do polipódio, com as belas cabeleiras volantes do dente-de-leão, com o verde aveludado dos musgos natalícios. Para ele, não existiam ervas daninhas. Todas eram criaturas inocentes e benfazejas. Estudou-lhes as virtudes, entendeu as dádivas que propunham. Assim se tornou mestre em receituários, famoso pelos seus conhecimentos e pelos alívios que era capaz de proporcionar com tisanas e mezinhas. Tinha conseguido obter remédios para a espinhela caída, para o bucho virado, para as sezões, para os sapinhos e para o ermo dos bebés, para o flato, para a erisipela, para os panarícios, para o quebranto, para as frieiras e até para as mais teimosas pieiras do peito.

Era um homem quase feliz. Respeitado pelos seus saberes, era amiúde visitado por pobres desesperados em busca de melhoras, porém a troco de nada. Recusava-se a comerciar conselhos, a vender virtudes. Dizia, invariavelmente, quando lhe perguntavam quanto era: Melhore vossemecê que eu ficarei pago.

Tinha Jesus um sonho inconfessado. Entre as plantinhas de sua estimação, figurava uma apreciável colecção de trevos, com folhas e flores de vários tamanhos e coloridos. Gostava profundamente das suas folhinhas quando abertas em leque, a fazer equilíbrios contra o vento na ponta dos pecíolos longos e delicados. Simpatizava com as flores falsamente campanuladas, amarelas umas, rosa outras, que se fechavam em tubo para dormir e se espreguiçavam triunfantes às primeiras luzes da manhã. As mãos de Jesus catavam diariamente, com suavidade, as inúmeras folhas de trevo, todas elas tripartidas em corações de brincar. Enquanto tirava um bichinho de conta aqui, uma sujidade acolá, por detrás das lentes grossas, as continhas de colar giravam, giravam, perscrutando com minúcia aquele estendal de frescuras. Pacientemente, Jesus espiava a sorte que, acreditava, um dia se revelaria em forma de trevo de quatro folhas. Sim, uma daquelas plantazinhas transcenderia a sua própria natureza e, subvertendo os códigos originais, dar-lhe-ia o sinal da raridade guardado só para eleitos.


continua...


Licínia Quitério

6.8.08

O TREVO - 1ª. parte



Jesus Veredas Bicho foi sempre enfezadito. Padeceu de todas as doenças que dizem ser próprias da idade primeira, mas nunca o seu sangue se viu livre dos maus humores que deveriam ter sido expurgados pelo sarampo, sarampelo que sete vezes vem ao pelo. Até as danadas das bexigas doidas acorreram a esculpir-lhe o rosto de pequeninas crateras lunares. Quanto aos olhos, nem é bom falar. Jesus sempre fora um cachopo de vistas curtas. Perguntava amiúde: onde é que está isso? E os olhos, cansados do esforço infrutífero, viravam pequenas frestas, alongadas por rugazitas precoces. Os adultos impacientavam-se: Se fosse bicho, mordia-te. O rapaz parece que é cego. Tanto não seria, mas quando chegou à escola e a professora reparou que Jesus encostava o livro à ponta do nariz para poder relatar o que nele encontrava, chamou o pai e sentenciou: Trate de arranjar depressa uns óculos para o seu filho, que tem uma miopia enorme. Faltava mais esta. O raio do rapaz só dá é despesa. O médico receitou-lhe uns óculos de lentes grossas como fundos de garrafa. Por detrás delas, passaram a rolar os olhos redondos e brilhantes como contas desenfiadas de um colar de fraco préstimo.




continua...

24.7.08

TEMPO DE CIGANOS

Este é um excerto de um texto meu escrito há muito sobre memórias de infância. Porque hoje e neste meu país se fala muito de ciganos, lembrei-me de relê-lo e, já agora, de o publicar. Eram assim os ciganos que os meus olhos de menina retrataram. Como são hoje os ciganos? Melhores, piores, outros? E nós, os não ciganos, como somos? Melhores, piores, outros?


...Mais pobres do que todos os pobres, mais sujos do que todos os sujos, um dia chegaram ao Beco os ciganos. Vestiam andrajos cor de terra queimada, carregavam fardos informes nas ancas e nas costas. Eram uma família: o pai, de chapeirão com abas roídas, vinha ligeiramente adiantado, marcando o território com passos largos e pesados. A seguir, uma velha com cara de tartaruga, o lenço a escorregar-lhe da cabeça rapada, em sinal de viuvez inconsolável. Depois, a mãe, estranhamente elegante na saia rodada a que se agarravam dois rapazinhos de olhos brilhantes como brasas. Um deles, o mais franzino, segurava na mãozita uma corda onde amarrava um cão famélico, de traseiro descaído à maneira de lobo envergonhado.
Vinham ocupar um tugúrio que ficara vago, por morte do velho patriarca do Beco, de nome oficial desconhecido, mas a quem toda a gente chamava, sem ofensa, o Ti Capado. Não sei donde lhe viria tal alcunha, mas se alguma coisa significava, dificilmente se explicaria a prole que lhe era atribuída.
Vigiados pelos olhares apreensivos dos habitantes do Beco, instalaram-se sem grandes ruídos, trocando entre si palavras cantaroladas, em frases breves que ninguém entendia.
Ciosos dos seus não haveres, conhecedores da fama de ladrões que os ciganos transportam pelo mundo fora, nessa noite todos se recolheram mais cedo e fecharam as portas à chave.
No dia seguinte, a cigana mãe sentou-se à porta a pentear os cabelos longos e oleados, os filhos brincando com o lobinho-cão e a cada habitante que aparecia dirigindo um arrastado: Bom dia, viziiinho... Foi esta a senha para romper o círculo de temores e desconfianças. Bom dia, senhora. Como se chama? arriscou a lambisgóia da Fernanda Fininha. Preciosa, vizinha. E o seu homem? Antonho, vizinha.
Foi fácil. Já se dizia lá pelo Beco: Afinal são com’a gente.
De que viviam, pouco se sabia. Falava-se vagamente de negócios de burros pelas feiras, mas burro algum passou pelo Beco. Ao certo, só se sabia que a fome os apertava. Preciosa e os filhos aprenderam depressa a bater às portas das casas da rua grande, mendigando pelas alminhas de quem lá tem um bocadichinho de pão. Quando uma vez a Dona Celeste, impressionada pela sujidade que os recobria, lhes ofereceu um pedaço de sabão, a Preciosa indignou-se e desdenhosa atirou: Para que quero eu sabão? Ainda se fosse pão... Vá lá compreender esta gentinha. Uns ingratos. Uns porcos e uns ingratos, é o que são. - comentava a Dona Celeste com as amigas.
Como chegaram, assim partiram. Ninguém deu pela mudança totalmente imprevista. Quando o Beco acordou, bem cedinho, ouviu-se a voz sonante da Maria do Raul: Foram-se embora, foram-se embora! Quem? perguntou alguém ainda estremunhado. Os ciganos. Levaram tudo o que tinham. E o cão? O cão também. Os miúdos já se tinham habituado ao rafeiro. Que gente mais esquisita. Que vão para o diabo que os carregue. A gente a tratá-los tão bem e abalam assim, sem mais nem menos. A honra do Beco fora de certa maneira ofendida. Mas as novidades só duram três dias. E tudo voltou à miséria estabelecida, sem sobressaltos de estranhas gentes.


Licínia Quitério

16.7.08

IMPORTA-SE DE REPETIR?!

Erüma vés um cugmelänho tom minüscul qmás parcia üm peqén céche. Üm dia, chtavü cugmelänho ceconselândau çol, quând prâli paçô üm fürom.
- Qestás fazänd? – pergüntô ü fürom.
- Xtô apanhând çol, xtá bom dvér.
- Óra...- diçü cugmelänho.
Ü fürom continüô olhând parü cugmelänho i ficô pensând, pensând...
- Nom mcômas qeçô venenôze – foidizändü cugmelänho. Mazü fürom nom lhe deu ôvides i vádiu cumer tôde. Iali cefinô, xamüscândauçol.
De autor desconhecido

19.6.08

PRECÁRIA

Aquele habitual erro de cálculo. Mais curta do que o previsto a distância entre o bordo exterior do dedo mínimo e o bojo do copo na beira da mesa. Foi por isso que o homem pegou na pá e na vassoura e lhe disse que não havia azar, não se preocupasse. A incomodidade dela em evidência no apertar das mãos, no olhar em círculos pela sala. Ele a varrer os cacos, alguns em viagem desmedida até outras mesas. Acontece. A maçada que eu lhe fui dar. Maçada nenhuma. Até gosto de limpar chão. Ela não percebeu o sorriso de lábios apertados. Era o meu trabalho antes de sair em precária. Batida pela palavra mal conhecida, refeita do recente desassossego, voltou a sentar-se. Farejando história de contar baixinho, ajeitou a cadeira ao corpo e aguardou. Os sólidos a caminho do contentor. O homem desaparecido por instantes por detrás da porta encimada por tabuleta de madeira que dizia ARRUMOS. Sabia que ele voltaria, para os líquidos derramados, com balde e esfregona. O sorriso fininho permanecia. Pareceu-lhe mais novo. Repegou o discurso, junto à mesa dela. A cela andava sempre um brinquinho. Caí nas graças do chefe. Não tenho dele a mínima razão de queixa. Fiz lá amigos. Quando voltei da precária foi uma festa. Havia de tudo, está visto, mas é como em todo o lado. Há bom e mau. Curiosa e ligeiramente sobressaltada, procurando frases para a troca, mas nada. Um homem a contar-lhe a sua história negra sem largar o sorriso fininho. Finalmente, arrancou Tem saudades? E logo se arrependeu. O homem parou de enxugar o chão, sorriu mais largo e disse, baixinho, com orgulho, cara a cara Tenho. Posso dizer. Já em direcção aos ARRUMOS, alteando a voz Fiz bem em não querer casar. Paguei. Ela fez a vidinha dela. Eu a minha. Foi no tempo em que éramos vivos...

FIM

Licínia Quitério

11.6.08

O ROUPEIRO (3º. episódio)

F. sobressaltou-se quando deu consigo a desejar com alvoroço a hora da bica. Em casa, ao serão, em frente ao televisor, não parava de pensar nos decotes em V pronunciado da Menina H., nem nas ancas reboludas, de movimentos largos a que os saltos altos marcavam a cadência. Era pequenina.”Mignone”, tinha ele aprendido a dizer. E nos balões de banda desenhada dos seus pensamentos mais íntimos já só a tratava por H., sem Menina.
Assim começou um caso que escaldou a vida morna do F. Dactilógrafo. Nem ele sabia explicar como é que, numa tarde de sol desmaiado de Outono, numa pensão baratucha de Almirante Reis, o F. se desforrou de tantos anos de abstinências forçadas, de sessões insípidas de sexo de sexta-feira à noite. A H. tinha ardores de trintona temperados com pudores de donzela. Embora dissessem que os prazeres da carne tinham a ver com o Inferno, F. achava que o corpo dadivoso de H. era uma bênção do Céu. Concluía, de bem para consigo próprio, que pecado seria recusar a felicidade na Terra. Acudia-lhe à ideia ingratidão de pobre rejeitando bife. E sorria, à boca pequena.
Para estupefacção dos colegas, F. abandonou o casaco verde seco e comprou farpela toda nova: um “blazer” azul escuro com botões prateados, calças beijes, sapatos de luva, pretos, reluzentes. A pasta de aluno de escola foi substituída por maleta de executivo, porém suficientemente espaçosa para transportar o almoço. Não havia dúvidas, o F. remoçara. Parecia até menos gordo e pesadão. Cantarolava baixinho, enquanto teclava. Usava água-de-colónia a inundar o escritório de frescura barata. Às piadas brejeiras, repontava: “Vocês não me digam nada. Eu ainda sou um homem novo, caramba! Onde é que está o problema?”. Não acedia a contar pormenores. Da vida lá em casa, nem uma palavra. “A minha mulher, coitadita, é uma santa”. Dava o assunto por encerrado, mão aberta a rasoirar os ares.
Com o decorrer das semanas, a H. tomara-se de atrevimentos. Vinha esperá-lo à saída, saltitante, cumprimentando com sorriso dengoso alguns colegas do F. a quem ele apresentara como “A minha amiga H”.
Comentava-se que ele ia deixar a mulher. Como iria descalçar aquela bota? Oxalá não se arrependesse. É que a H., bem vistas as coisas, não tinha lá muito boa pinta. Dizia-se por aí que tinha uma rodagem que Deus nos livre. Enfim, ele lá saberia as linhas com que se cosia.
Chegou o dia em que o F., com um ar misterioso, previamente ensaiado, confessou aos colegas mais chegados que pensava ir viver a tempo inteiro com a H. Era assim a vida. Tinham já tudo organizado. Uma casinha pequena, arrendada nos arredores, coisa muito modesta, quarto, salinha e pouco mais. Quase um amor e uma cabana, pois. Só faltava resolver o problema do roupeiro. A H. prezava o seu grande armário em que guardava a numerosa fatiota. Tinha lá aquele fraquinho pelos trapos. Gostava de se apresentar bem. Mas o roupeiro quase de certeza não caberia no novo ninho.
Preocupado com este pormenor de instalação, o F. passou a andar munido de régua, esquadro e até de um transferidor dos tempos angulosos da escola. Demorava-se a rabiscar desenhos, a anotar medidas, a fazer contas complicadas de cabeça, olhando o tecto com os olhos semi-cerrados. Ouviram-no mesmo telefonar a um amigo desenhador de máquinas. Andava com um pequenino problema. Talvez ele pudesse dar-lhe uma ajuda. Até se sentia envergonhado por ter de o incomodar por aquela ninharia. Quando desligou, uma ruga exibiu-se ondulante no sobrolho. “C’os diabos! Uma pessoa rebaixa-se a fazer um pedido de nada e é a resposta que leva. Qual? Ó homem, isso é querer meter o Rossio na Rua da Betesga. Um pateta, armado em engraçado”.
O tempo foi passando e alguém mais observador comentou que o F. andava soturno. Deixara de cantarolar e agastava-se quando tentavam puxar a conversa dos amores. Ali havia coisa. Algo não corria bem. Até que, num dia baço de Inverno, olhando a chuva miudinha que escorria pelas vidraças, riscando distraidamente com a unha o tampo da secretária, falando não se sabe se para si próprio se para os circunstantes, deixou cair num desalento: “Está tudo acabado. O roupeiro não cabe.”
Foi essa a razão por que a vida voltou à mansidão de outros tempos. As peças do xadrez retomaram no tabuleiro as suas casas de origem. Só o casaco verde seco não voltou a ser vestido. E, verdade, verdadinha, o olhar do F. não reganhou a moleza de antigamente. Bem lá no fundo, ficou uma faulhazita de lume mal apagado, denunciando a esperança num outro roupeiro, desta vez mais maneirinho.
Ainda ontem escreveu em maiúsculas, numa folha A4 que depois amarrotou e deitou, descuidado, para o cesto dos papéis: SOU UM HOMEM MUITO NOVO, CARAMBA!


FIM


Licínia Quitério

3.6.08

O ROUPEIRO (2º. episódio)

Davam depois um passeiozinho à beira-mar, o braço dele oblíquo, a enfiar no dela. Não há melhor que este sol e este cheirinho a maresia. Saía-lhe um arroto que ameaçava sonoridades inconvenientes, logo travadas por um apertar de maxilares e uma pressão forte dos três dedos maiores da mão apressada. Com licença! E o olhar dela, de través, reprovador. Desculpa, filha, não pude evitar. Regressavam a casa cedinho, para evitar as bichas, essa praga que dá cabo dos nervos a um homem e obriga a um despesão em gasolina. Já para não falar no desgaste da “embriage”, com aquele para-arranca, para-arranca… Resumia o quadro, queirosianamente: Uma seca, menina!
Corriam assim as semanas, os meses, os anos. Todo o tempo arrastado num bocejo de felino, a vida num tabuleiro de xadrez arrumado, cada peça imóvel na sua casa originária, à espera dos jogadores.
Na rua do escritório que dava trabalho ao F., havia outros escritórios onde seres seus semelhantes se ocupavam de tarefas igualmente monótonas, sublinhadas por gestos sempre iguais, repetidos até à sonolência, como se de digestão de almoço desmesurado se tratasse. F. conhecia os seus homólogos, de se cruzar com eles diariamente, nos mesmos quarteirões, às mesmas horas.
Depois do almocinho de lancheira, num desvão do escritório, pomposamente chamado de bar, ia tomar uma biquinha à Pastelaria Mèlita, ao balcão exíguo, mas onde, com boa vontade, cabia ainda muita gente. Do lado de lá do balcão, moviam-se, com grande incómodo, os donos, dois irmãos que obviamente se odiavam, e um pobre empregadito que ambos maltratavam, descarregando sobre ele os rancores espartilhados por um pacto social firmado nos tempos em que decidiram juntar os magros pés-de-meia e tomar de trespasse o pequeno café. Acreditavam que uma sociedade entre irmãos seria coisa para prosperar e durar. Os laços de sangue para alguma coisa haveriam de servir. Enganaram-se. A exiguidade do espaço e dos afectos vinham corroendo as bases da sociedade e hoje dificilmente disfarçavam semblantes carregados e congestionados, pragas inaudíveis arranhando-lhes as gargantas. Mas a clientela não tinha de sofrer por isso. Era indispensável segurá-la, tratando-a com mimos. Um dos irmãos, um celta puro, de Arcos-de-Valdevez, arrepanhava os lábios finos e desbotados e ordenava: sai uma bica para o Senhor Doutor X, ou para o Senhor Engenheiro Y, ou para o Senhor Major Z, ou para a Menina Alicinha. Identificavam meticulosamente os clientes. Quem lá fosse mais do que uma vez seria de pronto investigado, de molde a poder ser tratado pelo nome, oportunamente precedido do título académico, se fosse esse o caso. Era um ponto de honra da casa. Na Mèlita não podia haver anónimos.
A Menina H. também tomava bicas na Mèlita. De tantas vezes se encontrarem ao balcão, o F. começou a esboçar um cumprimento. Bons Dias, Menina. Seguiram-se os sorrisos, as frases curtinhas, até que o diálogo se deixou desatar. Tímido, o F. falava do tempo que fazia, deste calor abafado que nos faz transpirar, e deitava um olhar brilhante às pequeníssimas pérolas de suor no buço discreto da Menina H. Acabavam por sair juntos, a despedirem-se por alturas do escritório dela, com um até amanhã de olhos nos olhos. Dias passados, já se apertavam as mãos, sem grandes delongas, tudo muito respeitosamente.

(continua)

Licínia Quitério

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