31.8.15

MINEIROS



Era o comboio que levava
a pedra que reluzia.
Era o homem que arrancava
o que da terra nascia.

Era o comboio que apitava,
era o homem que tossia,
era o suor que voltava,
mais um dia, mais um dia.

Até que a mina fechou.
A pedra mais ninguém quis.
O comboio enferrujou.
Do homem pouco se diz.

Licínia Quitério

Para os netos dos mineiros do Lousal

24.8.15

PALMIRA



Eu nunca estive em Palmira que viu passar os séculos, os povos, os artistas, os demónios. Palmira para mim é uma fotografia, muitas fotografias, algumas leituras, relatos em directo nenhuns. Palmira, portanto,  era como se não existisse. Uma cidade lá longe, numa encruzilhada de caminhos, muitas colunas, ruínas do que algum dia terá sido. Palmira, para mim que nunca lá estive, era uma cidade mítica. Falarem-me da sua existência era como falarem-me da Atlântida, ou de Ítaca, ou dos Jardins das Hespérides. Vivemos mais de paisagens inventadas que de lugares reais. Era assim que eu pensava em Palmira, ou não pensava, como penso, ou não penso, na muralha da China onde também não estive. 
Alguma coisa mudou para eu ter acordado a pensar na cidade de Palmira onde nunca estive. Dizem que apareceu um corpo de um homem pendurado numa das inúmeras colunas que restam de Palmira. Um corpo assassinado, exposto à turba das notícias, ávida de corpos assassinados, expostos. É um corpo de homem de que eu nunca tinha ouvido falar e cujo nome não sei pronunciar. É um corpo de um homem que estudava a cidade, o que foi a cidade, como foi a cidade. São precisos homens assim que estudam as cidades sobrevivas, os seus ossos enterrados, os seus muros esfacelados. Homens que me fazem pensar em cidades onde nunca estive e que as tornam minhas. Mataram o homem, ameaçam destruir o que resta da cidade, agitam a bandeira do medo, fazem-nos pensar no fim das cidades, dos homens que as habitam. Não sabem que há sempre uma cidade por debaixo da outra, e mais outra, e ainda mais abaixo uma pedra onde um homem há-de ler o princípio da cidade. Assim continuará Palmira, uma cidade onde nunca estive e em que pensei ao acordar.

Licínia Quitério

foto da net 

17.8.15

OS LOUCOS




Perturbavam-na, os loucos. Assediavam-na, dizia. Caíam-lhe na casa, na mesa, no outro lado da linha. Uma frase de Gabriela Llansol – “Perder a memória, pensei, é absorver o presente, numa constante iniciação, - encontrar-se num estado de nudez.” –  alertou-a. Seria isso. Os loucos perderam a memória. No seu tempo repetitivo, falam e falam, riem e riem, choram e choram. Ouvia-os, por curiosidade, por compaixão, até chegar o dia de os despedir, de lhes dizer, sem dizer, vai, não voltes ao meu mundo em construção, ainda. Dos cenários dos loucos, quase palpáveis, absurdamente nítidos, ela temia as paredes viscosas, por onde eles escorregavam, sozinhos, tão sozinhos, vestidos de antigas vozes. Sabia que os loucos haviam de voltar, outros, os mesmos, não a fitando nos olhos, vagueando pela casa como se fora a deles, suplicando-lhe, ajuda-me, e ela a afastar-lhes as mãos, os braços, chamando-lhes o olhar, que não vinha. Procuravam-na, porque nela viam a tal memória de que estavam nus, desconjuntados os corpos, falsamente frágeis, falsamente robustos. Chegava o dia em que não abria a porta, quando os sabia ali, do lado de fora, à espera de lhe contarem tudo o que os afligia, com que a afligiriam. Em silêncio, por detrás da porta fechada, ouvia-lhes os passos, a afastarem-se, a retrocederem, até deixar de os ouvir. Sentia um alívio momentâneo, uma picada no peito, talvez eu pudesse, talvez. Porque haviam de a procurar, a ela, de memória longa, enredada em contínuas revisitações? Quem lhe dera perdê-la, “absorver o presente, numa constante iniciação”, esperando o tempo em que os loucos não desviariam os olhos dos dela, e não a perturbasse o visco que lhes cobria as paredes.

Licínia Quitério

15.8.15

VENDER A CASA


Tinha umas calças largas, brancas, com bolinhas pretas. É tudo o que lembro dela, além do olhar. Vago, fixo numa qualquer distância, fora da esplanada de praia onde me encontrou, fora do dia ventoso a agitar-lhe as pernas das calças que, nesse ondular, fixei. Vi-a rondar o chapéu-de-sol, observar a base de metal, tocá-la com a ponta do pé, depois virar-se, endireitar o pescoço e dirigir-se a mim. Parou, junto à mesa, e começou a falar. Disse, não tarda este está cheio de ferrugem, como aquele, e apontava para o chapéu no outro extremo da esplanada. Continuou, o mar estraga tudo, fiz eu bem em vender a casa, a despesa em manutenção era um horror, todos os anos pinturas, a limpeza do telhado, até os vidros das janelas, tudo estragado, o sal dá cabo de tudo, bem fiz eu em vender, só o que eu pagava todos os meses ao jardineiro, e as plantas nunca ficavam nada de jeito, o mar é muito bonito, mas uma casa à beira mar é um problema, muito dinheiro, fiz bem, obras e mais obras, e roubam-nos sempre, dizem que custa tanto e depois levam tanto, e os materiais, a gente manda pôr uma coisa e eles põem outra, fartei-me, fiz muito bem, mesmo com a crise ainda fiz um negócio jeitoso, não sei bem o que fazer ao dinheiro, pô-lo a render, mas onde, os bancos estão como se vê, talvez umas acções, não sei, o que sei é que fiz bem em vender a casa, agora já não estou presa a ela, farta de ir passar férias ao mesmo sítio, e os problemas das obras, o ar do mar estraga tudo, até os fechos das portas, agora estou aqui, tenho cá família, logo vou até ao Algarve, a gente num hotel não se preocupa com nada, sai mais barato do que fazer obras na casa, as raparigas gostam do Algarve, têm lá divertimentos, fiz bem em me livrar da casa.
Não me deu tempo a dizer fosse o que fosse. No seu andar um pouco titubeante, com as calças de bolinhas a ondear, dirigiu-se para o outro lado da esplanada e sentou-se a uma mesa onde uma jovem, que se empenhava em tactear um telefone inteligente, nem sequer a olhou.
Terá ela feito bem em vender a casa? Estará agora menos sozinha, ora num hotel, ora noutro, a mudar de praia, a mudar de vida? Sabia que eu não tinha respostas para lhe dar. Foi por isso que, como chegou, assim partiu.

Licínia Quitério

12.8.15

A TASCA DO DELFIM


De passagem por Arcos-de-Valdevez, alargando a curiosidade por ruas antigas e estreitas, de belas varandas de ferro forjado, engalanadas de vasos de gerânios e petúnias, despertou-nos a curiosidade a porta aberta, por cima da qual um papel dizia ser ali A Tasca do Delfim e Museu do Acordeão. Franqueámos o degrau, lá de dentro veio um fresquinho a calhar no dia tórrido, e perguntámos se podíamos ver. A voz de mulher, no seu inconfundível sotaque minhoto, a afirmar que sim, façam o favor, vejam, vejam, sentem-se, tomem uma bebida, a ginja é uma delícia. Ficámos e percebemos que estávamos rodeados e encimados por uma profusão impensável de objectos, a cobrirem as paredes, a penderem do tecto. Um sem número de acordeãos, ao longo das prateleiras, testemunhas de lugares e tempos vários, por onde e quando o senhor Delfim tinha tocado. Muitos oferecidos, outros comprados, assim foi nascendo o Museu. Pessoa muito conhecida, o Senhor Delfim, marido da Dona Maria, já não toca por aí. Agora quem toca é o filho que lá está numa foto com o Senhor Malato, pois foi há pouco à televisão, sim, como a senhora pode ver. Por entre postais, flores de plástico, maçarocas de milho, miniaturas de alfaias, cabaças, santinhos, e tudo e tudo que se possa imaginar, deparo com fotos do Senhor Delfim, ali mesmo em sua Tasca/Museu, com Dona Amália Rodrigues e o Senhor Eusébio. Por mero acaso, fui eu então parar a um lugar de culto, uma riqueza de história de como vivem e tocam e cantam as gentes do Minho. A Dona Maria é uma Senhora linda, no seu traje garrido, a sua cabeleira ondulada, do genuíno loiro do Norte, a sua pele branca, o seu oiro galhardo, o seu sorriso de puro contentamento, ali sentada, a responder a perguntas formuladas à pressa por quem aparece sem saber o que encontra. Perguntei-lhe se a podia fotografar, pode sim, senhora, à sua vontade, com muito gosto, tire as fotos que queira, a tudo, e a mim, e endireitou-se mais e encarou a máquina. 
Aqui fica o que registei da minha visita improvável à Tasca do Delfim/Museu do Acordeão, ali ao Norte, nos Arcos.  Se passarem por lá, não percam.

Licínia Quitério

8.8.15

ESPIGUEIROS


“Nous sommes un pays de bâtisseurs», diz ela. «Hei-de pensar nisso», digo. “Somos construtores”, penso, e não penso em antas, menhirs, penso agora em espigueiros, engenhosos celeiros, esculpidos com método, cuidado, sabedoria. Os grãos guardados em suas casas de pedra, arejadas e defendidas dos roedores, dos intrusos, com suas pedras talhadas a preceito, a lembrarem estranhas capelas, suas cruzes no vértice do triângulo cimeiro, a afastarem demónios, a rogarem protecção divina. Laje sobre laje, ancestrais saberes de geómetras, de magos, de camponeses de terra dura, desfeita a pedra, bebida a água que das fragas se desprende, murmurante em seus caminhos, tantas vezes levada por onde e para onde o homem a chamou.

“Nous sommes des bâtisseurs”, disse ela. “Casa quanto caibas, terra quanto vejas”, penso. Entre o que ela diz e o que eu penso, ergue-se um homem, uma mulher, um país. Também as palavras, que são casa, antes e depois de as proferirmos. Sair de casa e voltar, sair do país e não voltar, a terra sempre tornar. Palavras presas num fio de aranha infatigável, obsessiva. Constrói-se no centro da teia. A geometria é obsessão. Não se constrói o caos, nem se destrói. É preciso achar o centro para irradiar, sair. Há quem diga fugir. Direi apenas ir, aller, go, gehen…Não há gramática que limite o construtor. Irradiar é arte de tecelão. Da pedra, do ferro, da madeira, do linho, da linha, do barro que aperta nas mãos e entrega ao Sol. 
Porque ela me disse “bâtisseurs”, pensei em casa, ou antes, na ideia de casa. E logo nos espigueiros e  nos gigantes que os ergueram. A montanha rejeita as coisas menores, as ideias menores. Grandes as mãos dos construtores, grande a fome dos lobos pela noitinha. País o nosso de tão grande achamento, de tamanha perdição.

“Nous sommes des bâtisseurs, tu sais”, disse ela.

Lcínia Quitério

6.8.15

O HOMEM DO ACORDEÃO


O homem do acordeão toca e do seu corpo brota uma dança que lhe põe na cintura requebros de juventude. Enquanto toca, anda para cá, para lá, os pés a marcarem compassos de antigas músicas. Abrindo e fechando os braços, abrindo e fechando o acordeão, abrindo e fechando o coração, a grande alegria a inundar-lhe o sorriso, os olhos vestidos de doçura, o homem do acordeão ressuscita rituais de sedução guardados na memória, que o corpo insiste em ofertar. 
É belo de verdade, o homem do acordeão, que já foi de outros mundos, que já aprendeu outras falas, que já regressou da dança de roda que a vida lhe deu, que a vida lhe tirou. Foi com a força dos braços, com a lembrança intacta do cheiro da terra, do sopro da montanha, das vozes dos animais, que o homem voltou, agora pronta a Casa, os filhos grandes, os netos nascidos.
Toca na festa e as mulheres cantam, os pares dançam. Todos sabem de cor as letras das desgarradas, nascidas para amenizar a dureza dos trabalhos da enxada, da foice, do malho. Todos sabem a vida de cor, a vida antes da Casa, a vida com a Casa. Foi com as músicas que seguraram as paredes da Casa, das casas que refizeram a aldeia a que nunca deixaram de voltar, com que nunca deixaram de sonhar, nas noites frias que o som das músicas, “là-bas”, embalava, aquecia.

Licínia Quitério

24.7.15

ESCADAS


Cansava-se, só de vê-las, só de pensá-las. Dizia “escadas” como quem soluça e explicava: “Se levassem ao céu...” 
Levavam ao salão bonito, de madeiras bonitas, cheiroso à gente bonita que ali dançara. Vermelhas, as escadas, como o seu sangue, como as faces das moças bonitas que outrora dançaram na sala bonita. 
Ficou cansada, pesada, dormente, só de pensá-las. Chegada ao cimo, chegada à sala, dobrou-se nas pernas, mirou-se num vidro e disse: “Como peixes de luz a nadar nos meus olhos.”.
“Está louca!”, exclamaram. 
Já não estava cansada. Fumou um cigarro e sorriu.

Licínia Quitério

21.7.15

LÁ ISSO...

Era uma vez um senhor doutor advogado, assim por extenso chamado, que nessa altura os causídicos eram poucos, respeitados, afamados, e supinamente necessários, já que a eles recorriam pobres e ricos, por mor de frequentes demandas. As razões dos pleitos, as mais vulgares, eram a má vizinhança de terras, a disputada serventia de águas, a questionada partilha de heranças, enfim, aquelas razões que, desde o princípio dos tempos, levaram os homens a guerrear e a mostrar a ferocidade maior de que são capazes, em nome dos “bens” a que julgam ter direito, sendo transitória a sua posse, mas disso não querendo saber. 
Era uma vez, como ia dizendo, um senhor doutor advogado, pequenino, de chapelinho um pouco à banda, ligeiro, mordaz, decidido, um fura-vidas. Tinha fama e proveito de ganhar muitas causas, de ser, na barra dos tribunais, fluente, loquaz, brilhante. Muito “prático”, o senhor doutor, como diziam, deslocava-se a casa dos pretensos clientes, a lugares escusos e de mau acesso, sempre esforçado na verificação dos teres e haveres do dito cujo, disparando, para abreviar razões, em veemente interrogação, a casinha é tua, esta terra é tua, e aquela também, o chapelinho à banda, a oscilar de gozo, se as respostas fossem afirmativas. Entregavam-se os desavindos em suas mãos e palavras, pagavam custas e mais custas, honorários e mais honorários, mas, se de bastante maquia não dispunham, o senhor doutor sossegava-os, não tens umas librazitas, não tens umas librazitas, não, então fazes-me uma hipoteca da casita que não vale nada, mas já agora juntas-lhe a terra de semeadura, que o meu trabalho é para ser pago, é para ser pago, repetia. Mas ó senhor doutor, gemia o espoliado, não há mas nem meio mas, se não fosse eu não ganhavas a causa, se não fosse eu não ganhavas a causa e ficavas sem o olival, lá isso, senhor doutor, muito lhe agradeço, mas a casa, senhor doutor. Já o outro, com a mão na porta, o olhar em volta, a avaliar o valor do espaço, e a dizer, amanhã passas lá pelo cartório, para a hipoteca.
Morreu há muito, o senhor doutor advogado, mas ainda hoje os herdeiros e os herdeiros dos herdeiros se digladiam pela posse de terras e prédios, que meia vila chegou a ser dele, o ilustre causídico, pessoa muito trabalhadora e inteligente. Lá isso…

Licínia Quitério

20.7.15

O CÓLEO



As plantas ornamentais também têm os seus tempos de serem moda. Em casa de amigos, deparei com um cóleo. Foi, muitos anos atrás, planta vulgar, nas suas variedades de cores fortes e contrastantes. Quando convenientemente cuidados, amigos que são de sol e água, cresciam e arredondavam, alegrando marquises, cozinhas, salas soalheiras. Durante muito tempo, deixei de vê-los, em casas ou nas floristas, e acabei por esquecê-los. Em seu lugar, vieram as orquídeas, aristocratas que perderam o título, e que hoje fazem parte do "mobiliário" vegetal de qualquer casa que se preze. Talvez a moda, no seu movimento circular, tenha agora recuperado os cóleos, de que poucos já saberão o nome. 
Fotografei-lhe um dos andares de cima, trouxe-o comigo, para me lembrar que hei-de procurar um para mim, para o ver crescer e arredondar, no seu festival de folhas garridas.


Licínia Quitério

15.7.15

O FUMO


Sempre triste, a rapariga. Sempre igual nos seus dias sempre iguais. Chega, em passos de uma única medida, a mesma de todos os dias, no seu caminho sempre o mesmo. Elegeu a mesa, a cadeira onde fica, à mesma hora, até à mesma hora de todos os dias. Não se pode afirmar que vista sempre as mesmas calças, a mesma blusa, mas nela tudo parece o mesmo dos dias anteriores, a fita com que prende o cabelo, a cor do cabelo, o penteado. Também iguais a mala a tiracolo, as sandálias com que marca a precisão dos passos lentos. Fuma, a rapariga, vagarosamente, enquanto bebe o café, o copo de água, enquanto folheia o jornal de sempre. Nesta monotonia, o que chama mais a atenção é o mistério no olhar da rapariga, parado, vazio, com que olha o mundo, ou não olha. Um olhar daqueles é igual a um desgosto persistente, a uma espera de nada, a um hiato no tempo da rapariga, a um buraco negro que ninguém sabe o que seja, nem sequer que exista. Tão triste, esta rapariga sempre igual, a sua figura ensaiando a transparência, até que um dia se esvaia com o fumo do cigarro.

Licínia Quitério
foto da net

9.7.15

AS RAPARIGAS



São bonitas estas raparigas de longos, largos vestidos, de ombros nus, mais morenas do que brancas, de cabelos compridos, soltos. Diria que são presenças de luz irradiante por detrás dos óculos escuros. Caminham devagar, arrastando um pouco os passos, com uma sensualidade antiga de fêmeas ainda jovens. Muitas trajam de negro, desprezando o calor com que o escuro lhes abusa os corpos. 
Enquanto caminham, ou se sentam, ou aguardam a sua vez numa fila, dedilham com obstinação os pequenos aparelhos com que ouvem, falam, escrevem, observam. As notícias que lhes chegam do outro lado do mundo, do outro lado do éter, do outro lado da vida, não parecem interessantes, surpreendentes, reconfortantes, ou assustadoras, tristes, desconfortantes. Digo isto porque, no seu afã de procurarem o outro lado, o outro no outro lado, os seus rostos permanecem lisos, sem marcas do tempo, sem vestígios de emoções. 
Enquanto caminham e se sentam e esperam, estas bonitas raparigas de longas vestes não sorriem, não choram, não se lhes adivinha traço de alegria, de espanto, de comiseração, de desgosto. Pensando melhor, nos seus rostos, aparentemente tranquilos, desenha-se por vezes uma leve decepção, os cantos da boca precocemente descaídos, um esboço de vinco entre os sobrolhos. 
São as novas mulheres, lendo e escrevendo cartas de amor e despedida, tal e qual suas avós, como elas dedilhando os dias, no desconhecimento dos anos, neste seu tempo ardente de procurar e encontrar.

Licínia Quitério

foto de Les Demoiselles d'Avignon, de Pablo Picasso - recolhida na net

28.6.15

OS BONECOS


Chegam em bando as memórias do que foi ou não, do que houve ou não houve, envoltas na névoa do caminho longo. Assim me fui recordar de meu Pai e da sua fina ironia, de suas causas, no seu discreto passar pela vida, nas marcas que em mim imprimiu, pela genética e, muito mais, pela convivência.
Coevo da Guerra Civil de Espanha, que ele referia abreviadamente como a “Guerra Civil”, terá vivido de longe, intensamente, essa luta e tragédia, junto com os seus amigos republicanos, reunidos em café, ou melhor, na sala das traseiras, ouvindo notícias pela rádio, com as “galenas” de que falava e que para mim foram mistério durante muito tempo. 
Meu Pai era abstémio radical e não suportava, fisicamente, qualquer tipo de bebida alcoólica.“Nem o cheiro”, dizia. Ao longo da sua vida, abriu uma excepção, que relatava com um misto de orgulho e repugnância, ao prometer aos amigos beber um cálice de vinho do Porto no dia em que fosse proclamada a República em Espanha. Nesse dia de júbilo, em festa de alma e de sentidos, na tal sala do café, assim o fez. Bebeu, foi aplaudido e logo vomitou, que a natureza das suas células não permitiu o abuso do trago. Também a República foi breve, dorida, regurgitada pelo terror dos dias em que nasceu. 
Tendo crescido, portanto, a ouvir falar de Espanha e de seus heróis e suas tragédias, não me admirava quando meu Pai decidia dar nomes espanhóis aos meus bonecos, que aceitava com naturalidade. Quem não achava natural e fazia cara de espanto eram as pessoas que passavam na rua e me viam à janela com os bonecos, quando à pergunta pouco original de “como se chama o teu menino?”, “como se chama a tua menina?”, eu respondia, muito despachada e séria: Jeremias e Mirita. Do outro lado, havia habitualmente um eco em interrogação e estupefacção: Jeremias?! Mirita?! E eu arrasava, ao explicar: Sim, Jeremias de la Féria Alonso e Mirita Soto del Rio.

Foi há tantos anos que já nem sei se foi assim, tal qual vos digo. 

Licínia Quitério

22.6.15

OS MIÚDOS


Os miúdos crescem, crescem. A gente nunca sabe que tamanho de fatiota lhes deve comprar. Os miúdos têm gostos próprios. Gostam do que gostam, ou não gostam. 
A menina é airosa, nas suas perninhas de bailarina. Gosta de vestidinhos rodados, coloridos, a condizer com os ganchos que põe no cabelo, com as pulseiras. É uma mulherzinha bem disposta, delicada, faladora. 
O menino é mais velho, bem crescido, sóbrio de gostos, indiferente a modas e feitios, de poucas e acertadas falas, atento à mana e dela protector.
Assim começa uma mulher, assim começa um homem. Na diversidade de gostos, de atitudes, na consciência da sua pertença a lugares, na constância dos afectos, trilhando já os seus caminhos invisíveis, inesperados. 
Podemos saber o tamanho dos seus fatos; nunca saberemos os segredos que vão aprendendo a guardar nos seus corações pequeninos.

Licínia Quitério

21.6.15

ERA UMA VEZ UM INGLÊS


Era uma vez um inglês, súbdito de Sua Majestade a Rainha Isabel, a primeira do seu trono, senhora de grande pudor e maior religiosidade. Grande era a urgência de Sua Majestade em combater os católicos, derrotá-los, custasse o que custasse, que bastava de heresias, mordomias e ousadias, com anglicanos disputadas. 
Foi nesse tempo de feroz guerrear que Dom Francis Trezian, desapossado de títulos e propriedades, meteu pernas a navio e ala que se faz tarde, em derradeira tentativa de salvar a pele da fúria dos inimigos. 
Quis o destino, como se costuma dizer, que aportasse a terras lusas, exactamente ao porto de Lisboa, cidade que sempre acolheu estranhas gentes vindas dos mais estranhos mundos, o que não era o caso, dado tratar-se de um cidadão de país aliado, por razões de casórios e domínios. A Lisboa chegou, em Lisboa ficou e, segundo não rezam as crónicas, bem se acostumou a estas gentes morenas e versejadoras, tanto melhor ainda quanto se travou de conhecimentos e amizades com conterrâneos seus, por boa ou má sorte também ali chegados. 
Por feitos ou virtudes, foi Dom Francis Trezian ganhando fama de santidade. Vá-se lá saber quando e porquê é um povo tocado por palavras ou actos incomuns na humanidade de seu tempo. A parca chegou, no ano de 1608, pondo fim à sua viagem de danos e venturas. 
Dezassete anos decorridos após a sua morte, no dia 25 de Abril de 1625, quis a comunidade inglesa de Lisboa, a católica, bem entendido, prestar-lhe homenagem devida, tratando para tal de lhe arranjar sepultura condigna. Milagre foi dito quando, ao exumarem o corpo, o encontraram inteiro e incorrupto. De santidade se trataria, sem dúvida, o que a Igreja não confirmou, mas os homens acharam, e, para afirmarem a incorrupção do corpo e o seu triunfo na terra, lhe quiseram dar túmulo vertical onde repousasse, em posição bem apropriada para uma ascensão celeste. Com tal desígnio, precisamente um ano depois, no dia 25 de Abril de 1626, foi colocado no mármore, como se de pé estivesse, Dom Francis Trezian, conforme atesta lápide evocativa, na Igreja de São Roque de Lisboa.

Licínia Quitério

foto da net

30.5.15

A PONTE


A preparar o melhor ângulo para a foto. A pensar na história da ponte, das casas, das pessoas.
Outrora, ali houvera casas e, nas casas, gente que abria as janelas e olhava para o céu, onde os únicos passantes eram aves, talvez os pardais da cidade, as andorinhas primaveris, as gaivotas que procuram terra quando a borrasca se avizinha. Muitas dessas casas ainda lá estão, a abrigar outra gente que, para ver o céu, precisa de esticar o pescoço, de dirigir os olhos bem para cima, não vão eles esbarrar na estrada que depois apareceu, suspensa em altas pernas, longa, longa, caminhando sobre a terra, sobre o rio, sobre a terra de novo. Os que a atravessam, lá no alto, muito alto, olham para baixo, para os telhados das casas, para as pessoas pequeninas, para os barcos no rio. Olham, como olham os pardais, as andorinhas, as gaivotas, como eles passageiros do céu.
Em tudo isto ela pensou, embora depois na foto apenas aparecessem uns telhados, janelas fechadas, e uma nesga da ponte onde rodava um autocarro, talvez com gente dentro, que nem para fora olhava.

Licínia Quitério

28.5.15

O ESPELHO


É antigo, o espelho, mais antigo do que eu. Ganhou uma moldura nova, como se fosse antiga. Um espelho maculado pelos muitos anos, pelas muitas imagens que produziu. Mirei-me nele quando pequena, insistentemente, obsessivamente, intrigada com a falsa simetria que fazia esquerda a minha mão direita, aproximando-me até ver crescer a condensação da minha respiração, em círculo de minúsculas gotículas, em redor da imagem da minha boca em beijo. Olhei-me hoje, de novo, no espelho que reganhou lugar de dignidade. As suas margens, de aristocrático biselado, reproduziram imagens múltiplas de pedaços de mim, uma fantasia virtual, eu, como Alice, do outro lado, o meu braço esquerdo como se fosse direito, afinal só eu mudei, o espelho firme nas suas convicções.

Licínia Quitério

26.5.15

A FOLHA


Uma onda de calor, inconveniente, queimou-lhe as margens. Ferida de morte, a folha, em minha mão. Reparei, agora mais atentamente, na sua suavíssima beleza. Da nervura central, irradia, em pena, um matiz de verdes, como se pincel ali se tivera demorado, em afagos de pintor, leves, leves, finos. Contemplo-a há dias, enquanto se enruga, lentamente, os bordos enrolando, denunciando o avesso arroxeado. Tão belo este render de vida, um rasto de luz, ainda, uma demorada dádiva.

Licínia Quitério

23.5.15

SERRA D'ARGA


A Serra d'Arga era um nome que rolava nas minhas memórias do nunca verdadeiramente visto. Um daqueles lugares que eu conhecia de um estranho conhecer, como muito me acontece. Um nome, um lugar, que, no dia em que nos é apresentado, em quadro vivo, nos faz dizer,  muito baixinho, "que bom voltar a ver-te". Foi assim  quando me levaram à Serra d'Arga. Fiquei ali uns instantes, num bem-estar desusado, a olhar as pedras, os verdes, aquele manto ondulante a subir, a subir, lá fora, cá dentro de mim. Devo ter pronunciado, devagar, várias vezes, "Serra d'Arga, Serra d'Arga, Serra d'Arga", num mantra acabado de nascer. 

Licínia Quitério

19.5.15

A BUGANVÍLIA


Todos os anos a minha buganvília, depois de intensa floração, definha, seca, reduz-se a troncos lenhosos e aparentemente inertes. Por dentro de mim, sempre corre um leve gemido, que não é choro, é um lamento seco pela perda esperada da planta que vive há muitos anos de raízes apertadas no maior vaso que consigo dar-lhe. Resiste a minha esperança de que ainda não seja definitivo o abandono, a desistência, e por isso continuo regularmente a regá-la enquanto, em silêncio, lhe peço, não vás.
Não foi ainda desta vez. Ontem, alguém me chamou, venha ver, venha ver. Fui. Aí espreita já a nova vida da minha buganvília. Vai dar-me novos troncos, novas folhas, novas flores. Ano após ano, o desafio prolonga-se, nós as duas acrescentando o calendário, ainda não, ainda não, e a cores da vida a reflorirem. Ainda.

Licínia Quitério

8.5.15

O RACIONAMENTO


Eu era muito pequena quando a guerra acabou, mas lembro-me bem do "racionamento", essa palavra que andava de lar em lar, de boca em boca, e que para mim significava um divertimento diário. Era-me permitido recortar uns quadradinhos de papel azul claro onde estava inscrita uma data e um qualquer número que queria dizer "pão". A minha mãe dizia-me quantos quadradinhos naquele dia eu iria entregar ao padeiro que nos trazia o pão à porta. Lembro-me do boné dele, do chiar da verga do cesto, do sorriso dele a receber com a sua grande mão os quadradinhos da minha mão tão pequenina. Cada família recebia um determinado número de senhas que representavam a ração permitida para os géneros alimentícios. Eu só conhecia bem as senhas do pão, mas havia outras, as do açúcar, as da manteiga e não sei que mais. Aquilo para mim era a guerra e era um tanto divertido. Lembro-me, sim, até porque eu já sabia ler, de notícias que falavam de prisioneiros e de bombas e de ouvir pronunciar lá em casa "campos de concentração", coisas que eu não fazia a mínima ideia o que fossem, mas sei que disso se falava com ar muito triste. Lembro-me de virem para a minha terra umas meninas e os pais delas que tinham estado em Timor e lá tinham sofrido grandes males, como comer cobras, porque outra comida os japoneses não lhes davam, e disso nunca mais me esqueci, e durante algum tempo julguei que os habitantes de Timor se chamavam japoneses. Quando a guerra acabou, o meu pai foi a Lisboa, com amigos, a um almoço de festa na embaixada americana, e, quando voltou, vinha muito contente e até tinha fumado um charuto e a minha mãe dizia que pivete. Lembro-me muito bem de ele contar que um senhor lá da terra tinha querido ir ao almoço e os amigos do meu pai não deixaram, o que eu achei muito esquisito. Só alguns anos depois vim a saber que o senhor tinha sido "colaboracionista", e estava muito rico porque negociara sucata com os alemães, e o meu pai e os amigos não perdoavam essa sujeira. 
Faz hoje setenta anos que a guerra acabou. Eu ainda cá estou, e de verdade pouco mais aprendi sobre as razões do que aconteceu no mundo quando eu era tão pequena. Talvez só tenha percebido melhor quando um dia, muito mais tarde, visitei Auschwitz e li Paul Celan. Mesmo assim, por muitos filmes vistos, por muitos livros lidos, por muitas conversas havidas, nunca entenderei as guerras que são tão más e estão sempre à espera de renascer.

Licínia Quitério

foto da net

3.5.15

A MARCA DO WHISKY


E não é que, ao primeiro toque, a medo, a pensar, vai fazer-me mal, já não devo gostar, que ideia parva, a boca se encheu de um ardor intenso, de um picante a atacar despudoradamente as gengivas, a língua, o arco do palato, e logo logo a abordar a garganta, a descer pelo peito, por fora ou por dentro dele, era o mesmo, a desprender vapores de antigas destilações, de antigos amores. Um festejo inesperado, secretamente desejado, um retorno fugaz, palpável, à juventude, ao tempo da transgressão, do desafio, da atracção quase fatal pelo proibido, pelo desejo anunciado de plenitude e sofrimento. O tempo de pecado, diziam os beatos de vários deuses, que os ateus sorriam, sem aplaudir, sem se atrever. O sabor do whisky a trazer de volta, da arca dos segredos, intocada, a espessura do fumo dos cigarros, muitos cigarros, num acende apaga nervoso, maço atrás de maço, até à tosse, até ao beijo, só o beijo a interromper o fumo, a desfazer o nervosismo dos dedos, a refazer o poder anestésico da concha das mãos em rosto alheio. Entre um e outro beijo, a mão fechada sobre o bojo do copo de vidro grosso, as pedras de gelo a tilintarem, on the rocks, dizia-se, as borbulhas da água, de castelo, dizia-se, bolhinhas malandras a rebentarem no lábio superior, na flor das narinas, num festim de sensações que a levavam a fechar os olhos, a agitar o ar em frente ao rosto, com a mão de dedos curtos, de unhas cortadas rente, quase menina, quase. Pousados os copos, apagados os cigarros, dançava-se, de corpo e rosto ardendo, amando, amando-se, no embalo manso e húmido da música, cantarolando baixinho, respirando muito, fora do compasso da música, fora do compasso do mundo. Abraçavam-se, abraçavam a hora e sabiam já que nenhuma história havia de os acolher. De manhã, cansados do amor, um fastio a anunciar-se no tremor dos ombros, haviam de despedir-se, um beijo leve, depois telefono, sim, a rua com dois sentidos, o dia cinzento, talvez a noite com whisky. De outra marca.

Tão depressa não repete a cena do whisky ao serão. Acordou na manhã seguinte com a boca seca, amarga, um incómodo no estômago. Ao longo do dia, muitas vezes se interrogou sobre o nome da boîte, sobre a marca do whisky. Do nome dele ainda se lembra, sem grande certeza. José Manuel? Carlos Manuel?

Licínia Quitério

23.4.15

O SUICÍDIO DA CADEIRA


Há anos que ninguém lhe encontrava préstimo. Nem um leve roçar de corpo, no assento, nem um braço a rodear-lhe as costas, nada. Passavam sem a ver. Desciam a escada, apressados, como se vivessem o último dia.
Pensou: Já ninguém se senta, ninguém pára, ninguém olha o céu, ninguém conversa, ninguém descansa. Dantes, ao luar, no meu colo pousavam, e eu sentia-lhes as falas, os suspiros, e mesmo, quando o silêncio se fazia, o bater dos corações.
Tão sozinha a cadeira. Sozinha e invisível.
Foi numa tarde de calma que, sem ajuda, moveu as pernas, inclinou o dorso, rangeu os ossos e se atirou, sem temor do vazio. Um degrau a acolheu, deitada sobre um dos lados. Ali ficou.
Hoje, os que passam por ela dizem: Olha uma cadeira aqui deitada.
Ninguém a levanta. Ao menos, olham-na.

Licínia Quitério

19.4.15

O CERCO



A cerca moura que os cristãos cercaram e transpuseram. Cerco de que Raimundo Silva, o revisor, encontrou provas e que, segundo Saramago lhe segredou, só terminou com a degola do velho almuadem. Assim li em História do Cerco de Lisboa, assim vi as pedras da cerca sobre as quais hoje repousa o livro. Assim me ocorre o deleatur, em forma de cobra, arrependida no momento de morder a cauda, quase, quase fechando o círculo, ou o cerco, ou a cerca.

Licínia Quitério

9.4.15

GLICÍNIAS




Glicínias. De pequena aprendi a conhecê-las pelo nome, já que por menos um “g” fui chamada. No jardim grande da minha terra, o senhor “Le Nôtre”, que se chamava Marques, e usava as mangas da camisa arregaçadas, o peito à vela e um chapéu preto sempre na cabeça,  o magnífico jardineiro ensinava à minha mãe os nomes das flores e as suas preferências de trato,  saberes que ela procurava reproduzir no nosso pequeno quintal. Das glicínias, que o senhor Marques tão bem cuidava, além do nome fixei o odor doce exalado pelos enormes cachos azul-lilás pendentes dos grossos, idosos, torcidos caules. Ainda hoje, quando passo por glicínias em flor, me parece ver, na sua sombra, o chapéu preto que o senhor Marques fazia descair para trás, com um piparote na pequena aba, a arejar o suor da testa, da sua testa de jardineiro-chefe que me ensinou a conhecer glicínias.

Licínia Quitério

20.3.15

O ECLIPSE 2


Num jardim, numa praça da cidade, eu em cima de um banco, ele no chão, muita gente por ali, eram os anos em que as pessoas tinham curiosidades, havíamos saído há pouco de um eclipse social. Foi um eclipse total do Sol, daqueles que só vemos uma vez na vida, se ela não for demasiado longa. Foi breve a escuridão, um vento se levantou do chão da praça e fez redemoinhar as copas das árvores, a dar-me um arrepio, talvez nas costas, talvez no coração. Lembro-me de um curto silêncio, da estupefacção das pessoas, tudo muito breve, já passou, a minha mão ainda uns instantes no ombro dele, não fosse a terra cair, não fosse o mundo acabar, agora  que o mundo novo, a nova vida, apenas começavam para mim.

Licínia Quitério

O ECLIPSE


Naquele tempo, falava-se do eclipse como de algo misterioso, perigoso. Contava-se que as galinhas recolhiam ao seu poleiro de dormir à hora do eclipse, fosse qual  fosse a hora do relógio. Em minha casa, o pragmatismo de meu pai desmentia as lendas de desgraças, de anúncios de fim do mundo, a contrariar o que alguns amigos da escola me contavam, com as mãozitas a taparem metade da boca, que medo, foi a minha avó que disse, é deus que se zanga, o teu pai é que sabe, lá estás tu com as manias.
Naquele tempo, julgava-se que olhar o Sol através de um vidro fosco era protecção suficiente para os olhos e não se sabia de óculos especiais, nem sequer a televisão nos falava deles, até porque, naquele tempo, não havia televisão, mas havia, isso havia, eclipses que me entusiasmavam muito. 
Quando hoje despertei e a janela me devolveu um dia escurecido a situar-me em apogeu de eclipse, desviei os olhos do céu, e tudo o que vi foi o meu pai com um vidro numa mão, uma vela acesa na outra, a escurecer o vidro de negro de fumo, um vidro maior para ele, um mais pequeno para mim, não sujes as mãos, pega assim, e nós os dois no extremo do quintal, vês, vejo, pai, só há um bocadinho de Sol, foi a Lua que o escondeu. E havia de repente um friozinho, como se fosse anoitecer, e era mesmo, uma noite especial, antes da outra, depois da outra, isto dos astros intrigava-me muito. A minha mãe na cozinha, vejam vocês, eu agora não posso, e a voz dela era estranha, talvez pensasse no fim do mundo, as mães pensam mais nessas coisas.

Licínia Quitério

foto da net

17.3.15

IDOS DE MARÇO


É a roupa a corar
É o musgo no muro
A andorinha a ensaiar
O seu voo futuro

São as águas de Março
O Inverno acabado
São os idos de Março
É preciso cuidado

Licinia Quitério

16.3.15

PEIXE FRESCO



A bancada a abarrotar de peixe fresquíssimo, na loja do bairro onde supostamente habita gente de vidas desafogadas, talvez afortunadas. Fim de manhã, o mês ainda não chegou ao meio e zero de clientela. É assim invariavelmente naquela e nas outras lojas do mesmo bairro. Eu digo: Tanto peixe e tão bonito. Ela diz: E tão poucos clientes. Logo acrescenta: E dizem que as coisas estão melhores, mas não vejo nada. E continua: Nem me posso queixar, lá vai dando, mas as praças estão todas a fechar, é uma tristeza.
Comam peixe, comam, com ómegas um, dois ou três que ninguém sabe o que é, mas toda a gente repete, obedientemente.
Bendito mar que banhas esta costa imensa, belíssima, que nos dás peixe fresco, tão fresco que vai morrer de cansaço nas bancadas das lojas, das praças onde já ninguém vai. As "superfícies", grandes e médias, ah essas alimentam-se bem, que lá vão todos à procura das promoções, dos cartões, dos saldos, das linhas brancas, do que houver à medida dos desejos, à medida do cartão de crédito, generoso, a cobrar uns jurozitos de somenos, para alegria de quem o exibe, às vezes até gold, como os vistos.
Um país, muitos países de opereta em colectividade de bairro.

Licínia Quitério

11.3.15

"ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"


Conhecemo-nos desde os anos do princípio do século em que os blogues abriram portas para outros mundos virtuais e se tornaram encontro de muita gente que se uniu por gostos comuns, que se atreveu a expor ideias, saberes, talentos até ali inéditos. Foi por aí que no meu blogue O Sítio do Poema me travei de simpatias e amizades com gente de que vagamente sabia um nome ou um "nome de guerra", uma fotografia ou um avatar. Com o correr dos anos, muitos desistiram, desapareceram, por uma razão ou por outra faltaram aos encontros que, na febre da novidade, chegavam a ser diários. Depois veio o Facebook e nos blogues, perdido o encanto inicial, persistiram os jornalistas, os escritores, os fotógrafos, e outros e outros e até eu que teimo em publicar o que vou escrevendo. 
Vem isto a propósito do almoço de hoje, do abraço de hoje, da conversa de hoje, interminável, a agendar novos capítulos, com uma amiga desses tempos, fiel leitora, amável comentadora, de comuns amigos, de idênticos gostos. 
Não paro de me espantar com este "admirável mundo novo" a que a vida ainda fez o favor de me indicar a porta de entrada e onde me encontrei com gente que do virtual se fez real, me tocou à porta e comigo riu e falou, falou, numa alegria quase infantil, de tu cá tu lá, há quanto tempo a gente se conhece.  
Estranho mundo para os mais cépticos, perigoso mundo para os mais temerosos, mundo de seres tão semelhantes, tão diferentes, tão gente afinal, para mim que não desisto da Humanidade.

Licínia Quitério

27.2.15

UM HOMEM TRANQUILO


Quem havia de dizer que o senhor Leocádio também existe fora do seu sítio de pacotes, latas, frascos, caixas, todos de variados feitios, tamanhos, cores, a cada um o seu rótulo, o seu logótipo, o seu apelo mudo ao cliente, ao potencial cliente, ao curioso visitante, na oferta das bolachas, dos cogumelos, do atum, da margarina, do fiambre. Há que referir ainda os produtos frescos, e os secos, avulsos nas caixas, nas tulhas, para o cliente, o potencial cliente, avaliar a cor, a frescura, o cheiro, apalpa aqui, apalpa acolá, num desdém, num franzir de nariz, num ó senhor Leocádio estas laranjas são boas, sim, minha senhora, muito docinhas, e, a senhora não pergunta, mas as clementinas também. É ali que o senhor Leocádio existe, de manhã à noite, por detrás do balcãozinho, com o seu pulover cinzento ou beige, a sua aliança de casamento, grossita, a rebrilhar na mão sapuda, aguardando os clientes, tão poucos que até dá pena, a sua loja é só para as faltas, hoje toda a gente vai aos super, hiper, mega mercados, sabe ele mas não o diz, que não é homem de lamentos, faz os dias como deus manda, melhores dias virão, sempre a socorrer-se de provérbios, de frases mais que feitas, atrás de tempo tempo vem, enquanto há vida há esperança, vamos dando o passo conforme a perna, para a frente é que é o caminho.
Pois hoje encontrei o senhor Leocádio na rua, a uns bons metros de distância da loja, olá minha senhora, eu nem queria acreditar na sobrevivência de um homem fora do seu sítio, viva senhor Leocádio, não o fazia por aqui, pois minha senhora às vezes também saio, apanhar um bocado de sol faz bem, pois claro, até logo, e lá se foi o senhor Leocádio, com o seu pulover cinzento, a sua aliança a rebrilhar desta vez ao sol da rua, e eu feita parva a olhá-lo, meio incrédula da existência dum homem fora do seu sítio de esperar quem já não vem, a esperança é a última a morrer, não se pode ter tudo, deus dá o frio conforme a roupa, já lá diziam os antigos.
Diria que o senhor Leocádio é a conformação em pessoa, não fossem aqueles suspiros cautelosos que o atravessam, enquanto faz a conta e olha a porta por onde cada dia entram menos clientes. Um dia atrás do outro, não é, senhor Leocádio?

Licínia Quitério

26.2.15

GRANDE É A CIDADE


Grande, grande é a cidade. Um colosso de casas e gentes, de histórias alegres e tristes das casas, das gentes. A cidade tem um coração, mais pequeno que a soma dos corações das gentes. A cidade é um polvo, é uma aranha, é um animal maior que a soma dos pequenos animais que a habitam. A vida da cidade não é a soma das vidas das gentes. É outra coisa, é o pulsar de uma mole gigantesca de madeira, betão, pedra, metal, que constantemente se corrói e se constrói. Vista de longe, do alto, é uma planura pontuada de pequenos e grandes cerros, um diamante aqui, outro acolá, a rebrilhar ao sol do dia. Vulnerável, a cidade grande, às intrusões dos que a desamam, aos desmandos dos que a amam. Pelos séculos permanece, mutante, enigmática, desejada.


Licínia Quitério

24.2.15

ALCOVITEIRAS


Abriram em flor as primeiras frésias no meu quintal. Tomaram lugar na taça onde escrevi "Tudo tão simples". São descendentes das que havia no quintal da minha avó, que depois passaram para o da minha mãe e agora moram no meu. Os pequenos bolbos multiplicam-se, pelos tempos, pelos lugares. O cheiro mantém-se, leve, doce. Muito antes de se chamarem frésias, a minha avó chamava-lhes "alcoviteiras da Primavera". É por esse nome que as trato e sorrio todos os anos quando penso "já abriram as alcoviteiras". Assim foi hoje.

Licínia Quitério

22.2.15

ARCAS


A revolver arcas, digitais e das outras, onde dormem textos, apontamentos, mais ou menos diarísticos, mais ou menos ficcionados, desabafos em tempos ruins, cartas que nunca seguiram, recados que não foram dados. Uma vida feita também de palavras escritas, que as ditas o vento as leva, apenas uma ou outra pousando, por um tempo mais ou menos escasso, no coração ou na memória de alguém.
Os computadores entraram na minha casa ainda se chamavam Texas Instrument ou Spectrum ZX e nunca mais de cá sairam, renovando-se. Até determinada ocasião, cada um maior que o anterior, e agora, na ordem inversa, cada vez mais pequenos, mais leves, um dia destes diáfanos, quem sabe não mais que hologramas.
E veio a propósito falar de computadores, porque sem o seu hábito e uso, muito provavelmente eu não estaria hoje a aceder, com facilidade e displicência, a toda a tralha produzida, em papéis vários, tempos vários, modos vários, descontando a que se foi perdendo por lugares vários.

Também este foi hoje um modo de me contar, se bem que de pequena monta o interesse desta contagem.

Licínia Quitério

16.2.15

A PEDRA



A pedra que El-Rei pisou
durou, durou e durou.
Alguém a trouxe da serra
e, achando-a desajeitada,
as arestas lhe adoçou,
a poliu, arredondou.
Depois, tratou de cravá-la
ao pé das muitas irmãs.
Todas juntas, alinhadas,
cores e desenhos casados,
a passadeira cresceu
e enfeitou os jardins
do Alcácer que El-Rei pisou.

Das fontes corriam águas
nascidas da mesma serra
de onde trouxeram a pedra
que El-Rei sem notar pisou.
De entre todas as pedrinhas
do tapete de passagem
de nobres, aios, trovadores,
aquela que veio da serra
de onde brotavam as águas
que as fontes regurgitavam
ganhou alma, mas, confusa,
em vez de asas inventar,
foi afundando, afundando,
a cada passo de El-Rei
que nunca para ela olhara
nem sentira a resguardar
as suas solas reais,
os seus fortes cabedais.

Ajeitada sob a areia,
e a cama de folhagem,
ali ficou muito quieta,
espreitando o tempo passar,
até que El-Rei não foi mais
e as trovas dos trovadores
se foram dali soando
mundo fora, tempo além.
Séculos amontoados,
guerras, tratados, desordens
e depois as novas ordens,
tudo a pedra viu passar.
Até que as fontes secaram,
o jardim desencantou
e as irmãs pedras, cansadas,
uma a uma se soltaram
da passadeira que El-Rei
com tanta pompa pisou.
Só a pedrinha azulada
persistiu e ali ficou
sozinha, mas sempre atenta
a quem por ela passou.

Foi numa tarde de calma
do Verão que tudo secou
(até a cama de folhas
que El-Rei em tempos pisou)
que a pedrinha muito velha,
enrijecida porém
por tudo o que viu passar,
se mostrou furtivamente
a uma dama perdida
que ali passou e poisou
suas sandálias tecidas
de trovas de amor antigas.
Mostrou-se e a dama a notou.
Curvou-se como se ouvisse
um chamamento da terra.
Pegou na pedra azulada,
brilhante de ser pisada,
da palma da mão fez leito,
nele a deitou e limpou
das sujidades do tempo.
E pedra e dama entoaram
na voz que os jograis deixaram:

“Há sempre um cantar de amigo
que nos conforta na dor,
seja ele em forma de pedra,
de dama, de fonte ou flor.

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou,
até que dama a encontrou
e pelos ares a levou
para contar sua história
de bela pedra azulada
que descobriu um lugar
em concha de mão cansada,
pronta a fazê-la chegar
até  seu berço natal,
seja uma estrela, um planeta
ou mesmo, talvez, quem sabe,
uma nave espacial."

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou.

Licínia Quitério

foto da net - Jardim do Paço, Alcáçovas

7.2.15

AS GUERRAS


Ninguém pode saber que feitio têm as guerras. Mesmo quem lá esteve tem sobre isso grandes dúvidas. Podem dizer que são planas como a terra dos planaltos depois das máquinas, uma vez enterrados os corpos, ou esféricas como os planetas negros onde todos os caminhos conduzem ao princípio. A cor das guerras é diversa como a dos mutantes, sépia de polvos, vermelha de sangue fresco, luzente de fogos-fátuos. Da duração das guerras pouco se sabe, que a contagem dos segundos não se faz com o tempo dos vivos. Cada um de nós tem o seu saber da guerra, a sua presunção, a sua lembrança ou a lembrança de um relato que lhe fizeram de outro relato de alguém que viu ou não viu. 
A Joana contou-me como sabe tudo do feitio, da cor, da duração e até do tamanho da guerra. Contou-me da pulseira de missangas azuis e vermelhas, com quinze centímetros de comprimento, que levou uma semana a chegar da guerra até às mãos da tia. Foi prenda de um namorado guerreiro que gostava muito dela e que, como prova de grande amor, lha mandou para que a desse à Joana, então menina de quem ele gostava muito e até dizia que ele e a tia haviam de ter uma filha assim loirinha e de grandes olhos. A acompanhar a pulseirinha vinha um bilhete que dizia “Da primeira menina pretinha que tive de matar, com pena, mas a guerra é assim.”. Compreende-se por que razão a Joana diz que a guerra tem quinze centímetros de comprimento, é azul e vermelha e dura dois meses a fazer, que é o tempo de chegar do pulso da menina preta ao da menina loira. 
A cada um o seu saber das guerras, que entendê-las não é possível.


Licínia Quitério

foto da net - imagem do filme O Pianista

27.1.15

O EMBRULHINHO


Subia a escada muito depressa, trazia um embrulhinho na mão, vinha excitada, os grandes olhos a brilharem e dizia, repetidas vezes, é uma prenda, é uma prenda para a L. E dizia desembrulhe, desembrulhe, e a L, surpreendida e divertida com o entusiasmo da cachopinha, desembrulhou os dois pequeninos castiçais  de metal doirado, a reluzir. Gosta, gosta? E a agarrar-se ao pescoço da L, um beijinho de cada lado, parabéns, parabéns.  Vinha a menina para a sua primeira aprendizagem de língua francesa, que o Pai dela, professor muito querido da L, assim quisera, para algum embaraço da L, também ainda menina, nos seus dezassete anos, nesse dia a chegarem, tão verdes, tão verdes ainda. A cachopinha de cabelo loiro aprendia a dizer bonjour, je m’appelle M, le chat est très joli, au revoir mademoiselle, por vezes sentada nos joelhos da L, numa meiguice, numa alegria dos seus sete aninhos, e a L aprendia a ensinar, com a sua primeira aluna, tão inteligente a miúda.
Cresceu a M, cresceu ainda a L, a vida separou-as, longe, longe, muito tempo, tanto tempo, até que um dia voltaram a encontrar-se, no Outono das suas caminhadas, a M ainda numa corrida, ambas num abraço enorme, a L a fazer anos, outra vez, e os grandes olhos da M de novo ali, e o sorriso, e os sorrisos, e as vidas tão longas já, tão lembradas do princípio.
Os castiçais pequeninos moraram em várias casas, em várias vitrinas, escureceram um pouco. Hoje foram de novo embrulhados e metidos numa mala. Vão voltar às mãos da M. As coisas devem conhecer os seus caminhos de regresso.

Licínia Quitério

19.1.15

FORMIGUINHA


Formiguinha, azinha, azinha, formiguinhas, formiguinhas, à cata nas prateleiras, pega aqui, larga acolá, não preciso, não preciso, sempre levo, sempre levo, posso vir a precisar, é assim, nunca se sabe, mais barato, tão barato, levo três, só de uma vez, larga isso, larga isso, olha que a mãe está zangada, e cansada, e cansada, anda lá que tenho pressa, e o almoço, quem o faz, novas marcas, marcas brancas, muitas, muitas, muitas marcas, eu sei lá se esta é melhor, leio, pois, aqui diz tudo, mas a letra é tão pequena, levo outra, e mais aquela, olha o Nunes mais a gaja, faz de conta que não vês, olha a conta, olha o carro que está cheio, empurra que eu vou ali, chocolate, tu nem penses, e as borbulhas, quais borbulhas, só faz bem, é o que dizem, olha as horas, não ouves o telemóvel, desligou, era o João, enganou-se de certeza, passa a vida ao telefone, deixa lá, não paga mais, já tem o novo pacote, e quem lhe paga o pacote, lá estás tu, deixa o rapaz, as cenouras, as cenouras, e as laranjas, as laranjas, já está tudo, acho que sim, anda lá que a mãe tem pressa, formiguinhas, formiguinhas, a caminho do celeiro, a encher o merceeiro, é Domingo e é Janeiro.

Licínia Quitério

14.1.15

O NOVO FADO DA DESGRAÇADINHA





Ai ai meu bem se pudesse 
Fazer o que me apetece
Não fugirias de mim
Dirias sempre que sim

A tudo o que te pedisse
E logo que eu descobrisse
As pegadas da mentira
Nas cordas da tua lira

Nas voltas da tua voz
A soar além de nós
Ai ai meu bem eu daria
O laço com que prendia

O teu ao meu coração
À tarde ao vento suão
Para que longe o levasse
E nunca mais regressasse

Ai ai meu bem se pudesse
Fazer o que me apetece
Eu voltaria a sofrer
Que o meu destino é não ter

Na força do teu abraço
Alívio deste cansaço
De não saber conjugar
Verbo ser com verbo amar

Licínia Quitério

8.1.15

PARIS


Penso nesta cidade onde me passeei no Verão e na alegria que tive de a rever. Penso em como ali, em redor do grande ícone, havia uma segurança visível, de polícias aos pares, num afã notório, procurando, a arma na mão, os olhos varrendo todos os recantos. Falámos disso e de como a cidade estava em alerta contra possíveis atentados. Falámos e continuámos andando, sorrindo, que a vida é também feita da esperança de que os alertas sejam só isso, uma prevenção, um cuidado, uma segurança.
Nem sempre é assim. Ontem aconteceu e Paris é já outra cidade, que o medo é a pior neblina, o veneno dos dias da inquietude. 
Quem sabe eu voltarei à cidade de que tanto gosto, depois do medo ter sido varrido, depois do pesadelo. 
Salut les copains!

Licínia Quitério

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