30.5.15

A PONTE


A preparar o melhor ângulo para a foto. A pensar na história da ponte, das casas, das pessoas.
Outrora, ali houvera casas e, nas casas, gente que abria as janelas e olhava para o céu, onde os únicos passantes eram aves, talvez os pardais da cidade, as andorinhas primaveris, as gaivotas que procuram terra quando a borrasca se avizinha. Muitas dessas casas ainda lá estão, a abrigar outra gente que, para ver o céu, precisa de esticar o pescoço, de dirigir os olhos bem para cima, não vão eles esbarrar na estrada que depois apareceu, suspensa em altas pernas, longa, longa, caminhando sobre a terra, sobre o rio, sobre a terra de novo. Os que a atravessam, lá no alto, muito alto, olham para baixo, para os telhados das casas, para as pessoas pequeninas, para os barcos no rio. Olham, como olham os pardais, as andorinhas, as gaivotas, como eles passageiros do céu.
Em tudo isto ela pensou, embora depois na foto apenas aparecessem uns telhados, janelas fechadas, e uma nesga da ponte onde rodava um autocarro, talvez com gente dentro, que nem para fora olhava.

Licínia Quitério

28.5.15

O ESPELHO


É antigo, o espelho, mais antigo do que eu. Ganhou uma moldura nova, como se fosse antiga. Um espelho maculado pelos muitos anos, pelas muitas imagens que produziu. Mirei-me nele quando pequena, insistentemente, obsessivamente, intrigada com a falsa simetria que fazia esquerda a minha mão direita, aproximando-me até ver crescer a condensação da minha respiração, em círculo de minúsculas gotículas, em redor da imagem da minha boca em beijo. Olhei-me hoje, de novo, no espelho que reganhou lugar de dignidade. As suas margens, de aristocrático biselado, reproduziram imagens múltiplas de pedaços de mim, uma fantasia virtual, eu, como Alice, do outro lado, o meu braço esquerdo como se fosse direito, afinal só eu mudei, o espelho firme nas suas convicções.

Licínia Quitério

26.5.15

A FOLHA


Uma onda de calor, inconveniente, queimou-lhe as margens. Ferida de morte, a folha, em minha mão. Reparei, agora mais atentamente, na sua suavíssima beleza. Da nervura central, irradia, em pena, um matiz de verdes, como se pincel ali se tivera demorado, em afagos de pintor, leves, leves, finos. Contemplo-a há dias, enquanto se enruga, lentamente, os bordos enrolando, denunciando o avesso arroxeado. Tão belo este render de vida, um rasto de luz, ainda, uma demorada dádiva.

Licínia Quitério

23.5.15

SERRA D'ARGA


A Serra d'Arga era um nome que rolava nas minhas memórias do nunca verdadeiramente visto. Um daqueles lugares que eu conhecia de um estranho conhecer, como muito me acontece. Um nome, um lugar, que, no dia em que nos é apresentado, em quadro vivo, nos faz dizer,  muito baixinho, "que bom voltar a ver-te". Foi assim  quando me levaram à Serra d'Arga. Fiquei ali uns instantes, num bem-estar desusado, a olhar as pedras, os verdes, aquele manto ondulante a subir, a subir, lá fora, cá dentro de mim. Devo ter pronunciado, devagar, várias vezes, "Serra d'Arga, Serra d'Arga, Serra d'Arga", num mantra acabado de nascer. 

Licínia Quitério

19.5.15

A BUGANVÍLIA


Todos os anos a minha buganvília, depois de intensa floração, definha, seca, reduz-se a troncos lenhosos e aparentemente inertes. Por dentro de mim, sempre corre um leve gemido, que não é choro, é um lamento seco pela perda esperada da planta que vive há muitos anos de raízes apertadas no maior vaso que consigo dar-lhe. Resiste a minha esperança de que ainda não seja definitivo o abandono, a desistência, e por isso continuo regularmente a regá-la enquanto, em silêncio, lhe peço, não vás.
Não foi ainda desta vez. Ontem, alguém me chamou, venha ver, venha ver. Fui. Aí espreita já a nova vida da minha buganvília. Vai dar-me novos troncos, novas folhas, novas flores. Ano após ano, o desafio prolonga-se, nós as duas acrescentando o calendário, ainda não, ainda não, e a cores da vida a reflorirem. Ainda.

Licínia Quitério

8.5.15

O RACIONAMENTO


Eu era muito pequena quando a guerra acabou, mas lembro-me bem do "racionamento", essa palavra que andava de lar em lar, de boca em boca, e que para mim significava um divertimento diário. Era-me permitido recortar uns quadradinhos de papel azul claro onde estava inscrita uma data e um qualquer número que queria dizer "pão". A minha mãe dizia-me quantos quadradinhos naquele dia eu iria entregar ao padeiro que nos trazia o pão à porta. Lembro-me do boné dele, do chiar da verga do cesto, do sorriso dele a receber com a sua grande mão os quadradinhos da minha mão tão pequenina. Cada família recebia um determinado número de senhas que representavam a ração permitida para os géneros alimentícios. Eu só conhecia bem as senhas do pão, mas havia outras, as do açúcar, as da manteiga e não sei que mais. Aquilo para mim era a guerra e era um tanto divertido. Lembro-me, sim, até porque eu já sabia ler, de notícias que falavam de prisioneiros e de bombas e de ouvir pronunciar lá em casa "campos de concentração", coisas que eu não fazia a mínima ideia o que fossem, mas sei que disso se falava com ar muito triste. Lembro-me de virem para a minha terra umas meninas e os pais delas que tinham estado em Timor e lá tinham sofrido grandes males, como comer cobras, porque outra comida os japoneses não lhes davam, e disso nunca mais me esqueci, e durante algum tempo julguei que os habitantes de Timor se chamavam japoneses. Quando a guerra acabou, o meu pai foi a Lisboa, com amigos, a um almoço de festa na embaixada americana, e, quando voltou, vinha muito contente e até tinha fumado um charuto e a minha mãe dizia que pivete. Lembro-me muito bem de ele contar que um senhor lá da terra tinha querido ir ao almoço e os amigos do meu pai não deixaram, o que eu achei muito esquisito. Só alguns anos depois vim a saber que o senhor tinha sido "colaboracionista", e estava muito rico porque negociara sucata com os alemães, e o meu pai e os amigos não perdoavam essa sujeira. 
Faz hoje setenta anos que a guerra acabou. Eu ainda cá estou, e de verdade pouco mais aprendi sobre as razões do que aconteceu no mundo quando eu era tão pequena. Talvez só tenha percebido melhor quando um dia, muito mais tarde, visitei Auschwitz e li Paul Celan. Mesmo assim, por muitos filmes vistos, por muitos livros lidos, por muitas conversas havidas, nunca entenderei as guerras que são tão más e estão sempre à espera de renascer.

Licínia Quitério

foto da net

3.5.15

A MARCA DO WHISKY


E não é que, ao primeiro toque, a medo, a pensar, vai fazer-me mal, já não devo gostar, que ideia parva, a boca se encheu de um ardor intenso, de um picante a atacar despudoradamente as gengivas, a língua, o arco do palato, e logo logo a abordar a garganta, a descer pelo peito, por fora ou por dentro dele, era o mesmo, a desprender vapores de antigas destilações, de antigos amores. Um festejo inesperado, secretamente desejado, um retorno fugaz, palpável, à juventude, ao tempo da transgressão, do desafio, da atracção quase fatal pelo proibido, pelo desejo anunciado de plenitude e sofrimento. O tempo de pecado, diziam os beatos de vários deuses, que os ateus sorriam, sem aplaudir, sem se atrever. O sabor do whisky a trazer de volta, da arca dos segredos, intocada, a espessura do fumo dos cigarros, muitos cigarros, num acende apaga nervoso, maço atrás de maço, até à tosse, até ao beijo, só o beijo a interromper o fumo, a desfazer o nervosismo dos dedos, a refazer o poder anestésico da concha das mãos em rosto alheio. Entre um e outro beijo, a mão fechada sobre o bojo do copo de vidro grosso, as pedras de gelo a tilintarem, on the rocks, dizia-se, as borbulhas da água, de castelo, dizia-se, bolhinhas malandras a rebentarem no lábio superior, na flor das narinas, num festim de sensações que a levavam a fechar os olhos, a agitar o ar em frente ao rosto, com a mão de dedos curtos, de unhas cortadas rente, quase menina, quase. Pousados os copos, apagados os cigarros, dançava-se, de corpo e rosto ardendo, amando, amando-se, no embalo manso e húmido da música, cantarolando baixinho, respirando muito, fora do compasso da música, fora do compasso do mundo. Abraçavam-se, abraçavam a hora e sabiam já que nenhuma história havia de os acolher. De manhã, cansados do amor, um fastio a anunciar-se no tremor dos ombros, haviam de despedir-se, um beijo leve, depois telefono, sim, a rua com dois sentidos, o dia cinzento, talvez a noite com whisky. De outra marca.

Tão depressa não repete a cena do whisky ao serão. Acordou na manhã seguinte com a boca seca, amarga, um incómodo no estômago. Ao longo do dia, muitas vezes se interrogou sobre o nome da boîte, sobre a marca do whisky. Do nome dele ainda se lembra, sem grande certeza. José Manuel? Carlos Manuel?

Licínia Quitério

23.4.15

O SUICÍDIO DA CADEIRA


Há anos que ninguém lhe encontrava préstimo. Nem um leve roçar de corpo, no assento, nem um braço a rodear-lhe as costas, nada. Passavam sem a ver. Desciam a escada, apressados, como se vivessem o último dia.
Pensou: Já ninguém se senta, ninguém pára, ninguém olha o céu, ninguém conversa, ninguém descansa. Dantes, ao luar, no meu colo pousavam, e eu sentia-lhes as falas, os suspiros, e mesmo, quando o silêncio se fazia, o bater dos corações.
Tão sozinha a cadeira. Sozinha e invisível.
Foi numa tarde de calma que, sem ajuda, moveu as pernas, inclinou o dorso, rangeu os ossos e se atirou, sem temor do vazio. Um degrau a acolheu, deitada sobre um dos lados. Ali ficou.
Hoje, os que passam por ela dizem: Olha uma cadeira aqui deitada.
Ninguém a levanta. Ao menos, olham-na.

Licínia Quitério

19.4.15

O CERCO



A cerca moura que os cristãos cercaram e transpuseram. Cerco de que Raimundo Silva, o revisor, encontrou provas e que, segundo Saramago lhe segredou, só terminou com a degola do velho almuadem. Assim li em História do Cerco de Lisboa, assim vi as pedras da cerca sobre as quais hoje repousa o livro. Assim me ocorre o deleatur, em forma de cobra, arrependida no momento de morder a cauda, quase, quase fechando o círculo, ou o cerco, ou a cerca.

Licínia Quitério

9.4.15

GLICÍNIAS




Glicínias. De pequena aprendi a conhecê-las pelo nome, já que por menos um “g” fui chamada. No jardim grande da minha terra, o senhor “Le Nôtre”, que se chamava Marques, e usava as mangas da camisa arregaçadas, o peito à vela e um chapéu preto sempre na cabeça,  o magnífico jardineiro ensinava à minha mãe os nomes das flores e as suas preferências de trato,  saberes que ela procurava reproduzir no nosso pequeno quintal. Das glicínias, que o senhor Marques tão bem cuidava, além do nome fixei o odor doce exalado pelos enormes cachos azul-lilás pendentes dos grossos, idosos, torcidos caules. Ainda hoje, quando passo por glicínias em flor, me parece ver, na sua sombra, o chapéu preto que o senhor Marques fazia descair para trás, com um piparote na pequena aba, a arejar o suor da testa, da sua testa de jardineiro-chefe que me ensinou a conhecer glicínias.

Licínia Quitério

20.3.15

O ECLIPSE 2


Num jardim, numa praça da cidade, eu em cima de um banco, ele no chão, muita gente por ali, eram os anos em que as pessoas tinham curiosidades, havíamos saído há pouco de um eclipse social. Foi um eclipse total do Sol, daqueles que só vemos uma vez na vida, se ela não for demasiado longa. Foi breve a escuridão, um vento se levantou do chão da praça e fez redemoinhar as copas das árvores, a dar-me um arrepio, talvez nas costas, talvez no coração. Lembro-me de um curto silêncio, da estupefacção das pessoas, tudo muito breve, já passou, a minha mão ainda uns instantes no ombro dele, não fosse a terra cair, não fosse o mundo acabar, agora  que o mundo novo, a nova vida, apenas começavam para mim.

Licínia Quitério

O ECLIPSE


Naquele tempo, falava-se do eclipse como de algo misterioso, perigoso. Contava-se que as galinhas recolhiam ao seu poleiro de dormir à hora do eclipse, fosse qual  fosse a hora do relógio. Em minha casa, o pragmatismo de meu pai desmentia as lendas de desgraças, de anúncios de fim do mundo, a contrariar o que alguns amigos da escola me contavam, com as mãozitas a taparem metade da boca, que medo, foi a minha avó que disse, é deus que se zanga, o teu pai é que sabe, lá estás tu com as manias.
Naquele tempo, julgava-se que olhar o Sol através de um vidro fosco era protecção suficiente para os olhos e não se sabia de óculos especiais, nem sequer a televisão nos falava deles, até porque, naquele tempo, não havia televisão, mas havia, isso havia, eclipses que me entusiasmavam muito. 
Quando hoje despertei e a janela me devolveu um dia escurecido a situar-me em apogeu de eclipse, desviei os olhos do céu, e tudo o que vi foi o meu pai com um vidro numa mão, uma vela acesa na outra, a escurecer o vidro de negro de fumo, um vidro maior para ele, um mais pequeno para mim, não sujes as mãos, pega assim, e nós os dois no extremo do quintal, vês, vejo, pai, só há um bocadinho de Sol, foi a Lua que o escondeu. E havia de repente um friozinho, como se fosse anoitecer, e era mesmo, uma noite especial, antes da outra, depois da outra, isto dos astros intrigava-me muito. A minha mãe na cozinha, vejam vocês, eu agora não posso, e a voz dela era estranha, talvez pensasse no fim do mundo, as mães pensam mais nessas coisas.

Licínia Quitério

foto da net

17.3.15

IDOS DE MARÇO


É a roupa a corar
É o musgo no muro
A andorinha a ensaiar
O seu voo futuro

São as águas de Março
O Inverno acabado
São os idos de Março
É preciso cuidado

Licinia Quitério

16.3.15

PEIXE FRESCO



A bancada a abarrotar de peixe fresquíssimo, na loja do bairro onde supostamente habita gente de vidas desafogadas, talvez afortunadas. Fim de manhã, o mês ainda não chegou ao meio e zero de clientela. É assim invariavelmente naquela e nas outras lojas do mesmo bairro. Eu digo: Tanto peixe e tão bonito. Ela diz: E tão poucos clientes. Logo acrescenta: E dizem que as coisas estão melhores, mas não vejo nada. E continua: Nem me posso queixar, lá vai dando, mas as praças estão todas a fechar, é uma tristeza.
Comam peixe, comam, com ómegas um, dois ou três que ninguém sabe o que é, mas toda a gente repete, obedientemente.
Bendito mar que banhas esta costa imensa, belíssima, que nos dás peixe fresco, tão fresco que vai morrer de cansaço nas bancadas das lojas, das praças onde já ninguém vai. As "superfícies", grandes e médias, ah essas alimentam-se bem, que lá vão todos à procura das promoções, dos cartões, dos saldos, das linhas brancas, do que houver à medida dos desejos, à medida do cartão de crédito, generoso, a cobrar uns jurozitos de somenos, para alegria de quem o exibe, às vezes até gold, como os vistos.
Um país, muitos países de opereta em colectividade de bairro.

Licínia Quitério

11.3.15

"ADMIRÁVEL MUNDO NOVO"


Conhecemo-nos desde os anos do princípio do século em que os blogues abriram portas para outros mundos virtuais e se tornaram encontro de muita gente que se uniu por gostos comuns, que se atreveu a expor ideias, saberes, talentos até ali inéditos. Foi por aí que no meu blogue O Sítio do Poema me travei de simpatias e amizades com gente de que vagamente sabia um nome ou um "nome de guerra", uma fotografia ou um avatar. Com o correr dos anos, muitos desistiram, desapareceram, por uma razão ou por outra faltaram aos encontros que, na febre da novidade, chegavam a ser diários. Depois veio o Facebook e nos blogues, perdido o encanto inicial, persistiram os jornalistas, os escritores, os fotógrafos, e outros e outros e até eu que teimo em publicar o que vou escrevendo. 
Vem isto a propósito do almoço de hoje, do abraço de hoje, da conversa de hoje, interminável, a agendar novos capítulos, com uma amiga desses tempos, fiel leitora, amável comentadora, de comuns amigos, de idênticos gostos. 
Não paro de me espantar com este "admirável mundo novo" a que a vida ainda fez o favor de me indicar a porta de entrada e onde me encontrei com gente que do virtual se fez real, me tocou à porta e comigo riu e falou, falou, numa alegria quase infantil, de tu cá tu lá, há quanto tempo a gente se conhece.  
Estranho mundo para os mais cépticos, perigoso mundo para os mais temerosos, mundo de seres tão semelhantes, tão diferentes, tão gente afinal, para mim que não desisto da Humanidade.

Licínia Quitério

27.2.15

UM HOMEM TRANQUILO


Quem havia de dizer que o senhor Leocádio também existe fora do seu sítio de pacotes, latas, frascos, caixas, todos de variados feitios, tamanhos, cores, a cada um o seu rótulo, o seu logótipo, o seu apelo mudo ao cliente, ao potencial cliente, ao curioso visitante, na oferta das bolachas, dos cogumelos, do atum, da margarina, do fiambre. Há que referir ainda os produtos frescos, e os secos, avulsos nas caixas, nas tulhas, para o cliente, o potencial cliente, avaliar a cor, a frescura, o cheiro, apalpa aqui, apalpa acolá, num desdém, num franzir de nariz, num ó senhor Leocádio estas laranjas são boas, sim, minha senhora, muito docinhas, e, a senhora não pergunta, mas as clementinas também. É ali que o senhor Leocádio existe, de manhã à noite, por detrás do balcãozinho, com o seu pulover cinzento ou beige, a sua aliança de casamento, grossita, a rebrilhar na mão sapuda, aguardando os clientes, tão poucos que até dá pena, a sua loja é só para as faltas, hoje toda a gente vai aos super, hiper, mega mercados, sabe ele mas não o diz, que não é homem de lamentos, faz os dias como deus manda, melhores dias virão, sempre a socorrer-se de provérbios, de frases mais que feitas, atrás de tempo tempo vem, enquanto há vida há esperança, vamos dando o passo conforme a perna, para a frente é que é o caminho.
Pois hoje encontrei o senhor Leocádio na rua, a uns bons metros de distância da loja, olá minha senhora, eu nem queria acreditar na sobrevivência de um homem fora do seu sítio, viva senhor Leocádio, não o fazia por aqui, pois minha senhora às vezes também saio, apanhar um bocado de sol faz bem, pois claro, até logo, e lá se foi o senhor Leocádio, com o seu pulover cinzento, a sua aliança a rebrilhar desta vez ao sol da rua, e eu feita parva a olhá-lo, meio incrédula da existência dum homem fora do seu sítio de esperar quem já não vem, a esperança é a última a morrer, não se pode ter tudo, deus dá o frio conforme a roupa, já lá diziam os antigos.
Diria que o senhor Leocádio é a conformação em pessoa, não fossem aqueles suspiros cautelosos que o atravessam, enquanto faz a conta e olha a porta por onde cada dia entram menos clientes. Um dia atrás do outro, não é, senhor Leocádio?

Licínia Quitério

26.2.15

GRANDE É A CIDADE


Grande, grande é a cidade. Um colosso de casas e gentes, de histórias alegres e tristes das casas, das gentes. A cidade tem um coração, mais pequeno que a soma dos corações das gentes. A cidade é um polvo, é uma aranha, é um animal maior que a soma dos pequenos animais que a habitam. A vida da cidade não é a soma das vidas das gentes. É outra coisa, é o pulsar de uma mole gigantesca de madeira, betão, pedra, metal, que constantemente se corrói e se constrói. Vista de longe, do alto, é uma planura pontuada de pequenos e grandes cerros, um diamante aqui, outro acolá, a rebrilhar ao sol do dia. Vulnerável, a cidade grande, às intrusões dos que a desamam, aos desmandos dos que a amam. Pelos séculos permanece, mutante, enigmática, desejada.


Licínia Quitério

24.2.15

ALCOVITEIRAS


Abriram em flor as primeiras frésias no meu quintal. Tomaram lugar na taça onde escrevi "Tudo tão simples". São descendentes das que havia no quintal da minha avó, que depois passaram para o da minha mãe e agora moram no meu. Os pequenos bolbos multiplicam-se, pelos tempos, pelos lugares. O cheiro mantém-se, leve, doce. Muito antes de se chamarem frésias, a minha avó chamava-lhes "alcoviteiras da Primavera". É por esse nome que as trato e sorrio todos os anos quando penso "já abriram as alcoviteiras". Assim foi hoje.

Licínia Quitério

22.2.15

ARCAS


A revolver arcas, digitais e das outras, onde dormem textos, apontamentos, mais ou menos diarísticos, mais ou menos ficcionados, desabafos em tempos ruins, cartas que nunca seguiram, recados que não foram dados. Uma vida feita também de palavras escritas, que as ditas o vento as leva, apenas uma ou outra pousando, por um tempo mais ou menos escasso, no coração ou na memória de alguém.
Os computadores entraram na minha casa ainda se chamavam Texas Instrument ou Spectrum ZX e nunca mais de cá sairam, renovando-se. Até determinada ocasião, cada um maior que o anterior, e agora, na ordem inversa, cada vez mais pequenos, mais leves, um dia destes diáfanos, quem sabe não mais que hologramas.
E veio a propósito falar de computadores, porque sem o seu hábito e uso, muito provavelmente eu não estaria hoje a aceder, com facilidade e displicência, a toda a tralha produzida, em papéis vários, tempos vários, modos vários, descontando a que se foi perdendo por lugares vários.

Também este foi hoje um modo de me contar, se bem que de pequena monta o interesse desta contagem.

Licínia Quitério

16.2.15

A PEDRA



A pedra que El-Rei pisou
durou, durou e durou.
Alguém a trouxe da serra
e, achando-a desajeitada,
as arestas lhe adoçou,
a poliu, arredondou.
Depois, tratou de cravá-la
ao pé das muitas irmãs.
Todas juntas, alinhadas,
cores e desenhos casados,
a passadeira cresceu
e enfeitou os jardins
do Alcácer que El-Rei pisou.

Das fontes corriam águas
nascidas da mesma serra
de onde trouxeram a pedra
que El-Rei sem notar pisou.
De entre todas as pedrinhas
do tapete de passagem
de nobres, aios, trovadores,
aquela que veio da serra
de onde brotavam as águas
que as fontes regurgitavam
ganhou alma, mas, confusa,
em vez de asas inventar,
foi afundando, afundando,
a cada passo de El-Rei
que nunca para ela olhara
nem sentira a resguardar
as suas solas reais,
os seus fortes cabedais.

Ajeitada sob a areia,
e a cama de folhagem,
ali ficou muito quieta,
espreitando o tempo passar,
até que El-Rei não foi mais
e as trovas dos trovadores
se foram dali soando
mundo fora, tempo além.
Séculos amontoados,
guerras, tratados, desordens
e depois as novas ordens,
tudo a pedra viu passar.
Até que as fontes secaram,
o jardim desencantou
e as irmãs pedras, cansadas,
uma a uma se soltaram
da passadeira que El-Rei
com tanta pompa pisou.
Só a pedrinha azulada
persistiu e ali ficou
sozinha, mas sempre atenta
a quem por ela passou.

Foi numa tarde de calma
do Verão que tudo secou
(até a cama de folhas
que El-Rei em tempos pisou)
que a pedrinha muito velha,
enrijecida porém
por tudo o que viu passar,
se mostrou furtivamente
a uma dama perdida
que ali passou e poisou
suas sandálias tecidas
de trovas de amor antigas.
Mostrou-se e a dama a notou.
Curvou-se como se ouvisse
um chamamento da terra.
Pegou na pedra azulada,
brilhante de ser pisada,
da palma da mão fez leito,
nele a deitou e limpou
das sujidades do tempo.
E pedra e dama entoaram
na voz que os jograis deixaram:

“Há sempre um cantar de amigo
que nos conforta na dor,
seja ele em forma de pedra,
de dama, de fonte ou flor.

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou,
até que dama a encontrou
e pelos ares a levou
para contar sua história
de bela pedra azulada
que descobriu um lugar
em concha de mão cansada,
pronta a fazê-la chegar
até  seu berço natal,
seja uma estrela, um planeta
ou mesmo, talvez, quem sabe,
uma nave espacial."

Pedrinha que El-Rei pisou
durou, durou e durou.

Licínia Quitério

foto da net - Jardim do Paço, Alcáçovas

7.2.15

AS GUERRAS


Ninguém pode saber que feitio têm as guerras. Mesmo quem lá esteve tem sobre isso grandes dúvidas. Podem dizer que são planas como a terra dos planaltos depois das máquinas, uma vez enterrados os corpos, ou esféricas como os planetas negros onde todos os caminhos conduzem ao princípio. A cor das guerras é diversa como a dos mutantes, sépia de polvos, vermelha de sangue fresco, luzente de fogos-fátuos. Da duração das guerras pouco se sabe, que a contagem dos segundos não se faz com o tempo dos vivos. Cada um de nós tem o seu saber da guerra, a sua presunção, a sua lembrança ou a lembrança de um relato que lhe fizeram de outro relato de alguém que viu ou não viu. 
A Joana contou-me como sabe tudo do feitio, da cor, da duração e até do tamanho da guerra. Contou-me da pulseira de missangas azuis e vermelhas, com quinze centímetros de comprimento, que levou uma semana a chegar da guerra até às mãos da tia. Foi prenda de um namorado guerreiro que gostava muito dela e que, como prova de grande amor, lha mandou para que a desse à Joana, então menina de quem ele gostava muito e até dizia que ele e a tia haviam de ter uma filha assim loirinha e de grandes olhos. A acompanhar a pulseirinha vinha um bilhete que dizia “Da primeira menina pretinha que tive de matar, com pena, mas a guerra é assim.”. Compreende-se por que razão a Joana diz que a guerra tem quinze centímetros de comprimento, é azul e vermelha e dura dois meses a fazer, que é o tempo de chegar do pulso da menina preta ao da menina loira. 
A cada um o seu saber das guerras, que entendê-las não é possível.


Licínia Quitério

foto da net - imagem do filme O Pianista

27.1.15

O EMBRULHINHO


Subia a escada muito depressa, trazia um embrulhinho na mão, vinha excitada, os grandes olhos a brilharem e dizia, repetidas vezes, é uma prenda, é uma prenda para a L. E dizia desembrulhe, desembrulhe, e a L, surpreendida e divertida com o entusiasmo da cachopinha, desembrulhou os dois pequeninos castiçais  de metal doirado, a reluzir. Gosta, gosta? E a agarrar-se ao pescoço da L, um beijinho de cada lado, parabéns, parabéns.  Vinha a menina para a sua primeira aprendizagem de língua francesa, que o Pai dela, professor muito querido da L, assim quisera, para algum embaraço da L, também ainda menina, nos seus dezassete anos, nesse dia a chegarem, tão verdes, tão verdes ainda. A cachopinha de cabelo loiro aprendia a dizer bonjour, je m’appelle M, le chat est très joli, au revoir mademoiselle, por vezes sentada nos joelhos da L, numa meiguice, numa alegria dos seus sete aninhos, e a L aprendia a ensinar, com a sua primeira aluna, tão inteligente a miúda.
Cresceu a M, cresceu ainda a L, a vida separou-as, longe, longe, muito tempo, tanto tempo, até que um dia voltaram a encontrar-se, no Outono das suas caminhadas, a M ainda numa corrida, ambas num abraço enorme, a L a fazer anos, outra vez, e os grandes olhos da M de novo ali, e o sorriso, e os sorrisos, e as vidas tão longas já, tão lembradas do princípio.
Os castiçais pequeninos moraram em várias casas, em várias vitrinas, escureceram um pouco. Hoje foram de novo embrulhados e metidos numa mala. Vão voltar às mãos da M. As coisas devem conhecer os seus caminhos de regresso.

Licínia Quitério

19.1.15

FORMIGUINHA


Formiguinha, azinha, azinha, formiguinhas, formiguinhas, à cata nas prateleiras, pega aqui, larga acolá, não preciso, não preciso, sempre levo, sempre levo, posso vir a precisar, é assim, nunca se sabe, mais barato, tão barato, levo três, só de uma vez, larga isso, larga isso, olha que a mãe está zangada, e cansada, e cansada, anda lá que tenho pressa, e o almoço, quem o faz, novas marcas, marcas brancas, muitas, muitas, muitas marcas, eu sei lá se esta é melhor, leio, pois, aqui diz tudo, mas a letra é tão pequena, levo outra, e mais aquela, olha o Nunes mais a gaja, faz de conta que não vês, olha a conta, olha o carro que está cheio, empurra que eu vou ali, chocolate, tu nem penses, e as borbulhas, quais borbulhas, só faz bem, é o que dizem, olha as horas, não ouves o telemóvel, desligou, era o João, enganou-se de certeza, passa a vida ao telefone, deixa lá, não paga mais, já tem o novo pacote, e quem lhe paga o pacote, lá estás tu, deixa o rapaz, as cenouras, as cenouras, e as laranjas, as laranjas, já está tudo, acho que sim, anda lá que a mãe tem pressa, formiguinhas, formiguinhas, a caminho do celeiro, a encher o merceeiro, é Domingo e é Janeiro.

Licínia Quitério

14.1.15

O NOVO FADO DA DESGRAÇADINHA





Ai ai meu bem se pudesse 
Fazer o que me apetece
Não fugirias de mim
Dirias sempre que sim

A tudo o que te pedisse
E logo que eu descobrisse
As pegadas da mentira
Nas cordas da tua lira

Nas voltas da tua voz
A soar além de nós
Ai ai meu bem eu daria
O laço com que prendia

O teu ao meu coração
À tarde ao vento suão
Para que longe o levasse
E nunca mais regressasse

Ai ai meu bem se pudesse
Fazer o que me apetece
Eu voltaria a sofrer
Que o meu destino é não ter

Na força do teu abraço
Alívio deste cansaço
De não saber conjugar
Verbo ser com verbo amar

Licínia Quitério

8.1.15

PARIS


Penso nesta cidade onde me passeei no Verão e na alegria que tive de a rever. Penso em como ali, em redor do grande ícone, havia uma segurança visível, de polícias aos pares, num afã notório, procurando, a arma na mão, os olhos varrendo todos os recantos. Falámos disso e de como a cidade estava em alerta contra possíveis atentados. Falámos e continuámos andando, sorrindo, que a vida é também feita da esperança de que os alertas sejam só isso, uma prevenção, um cuidado, uma segurança.
Nem sempre é assim. Ontem aconteceu e Paris é já outra cidade, que o medo é a pior neblina, o veneno dos dias da inquietude. 
Quem sabe eu voltarei à cidade de que tanto gosto, depois do medo ter sido varrido, depois do pesadelo. 
Salut les copains!

Licínia Quitério

4.1.15

À RODA


É uma hora de mais,
é uma hora de menos,
é o sol que dura muito,
é o sol que dura pouco,
é o dia que nos sobra,
é o dia que nos falta,
à roda à roda é que vamos,
acima do que não queremos,
abaixo do que sonhamos,
muitas horas, tantas horas,
na roda à roda da vida,
no corre corre dos dias,
no relógio que parou,
no relógio que quebrou,
no tempo que nos faltou,
no tempo que nos sobrou,
no amor que se perdeu,
no amor que se encontrou,
da criança que cresceu,
do homem que envelheceu,
na roda a rodar a vida,
no minuto da chegada,
no minuto da partida.

Licínia Quitério

2.1.15

PAIS


Gosto de ver jovens pais a cuidar dos seus filhos com o mesmo carinho e eficiência que dantes eram cometidos só às mães. Têm os gestos suaves, certeiros, acarinhando, tratando, protegendo. Mudam a fralda, põem um pano ao ombro onde apoiam a cabeça do bebé, dão as palmadinhas ritmadas no rabinho, a acalmar o choro, beijam, andam na sala de um lado para o outro e cantam canções de ninar, fervem o biberão e fazem cair uma gota nas costas da mão, a avaliar a conveniência da temperatura. Levam o bebé ao médico, embalam-no enquanto esperam, vão corredor fora com o filho num braço e a cadeirinha no outro, voltam e vestem-lhe o casaquinho, cobrem-lhe a cabeça com o carapuço, deitam-no na cadeirinha, dizem baixinho, vamos, filho. Gosto de ver, dá-me confiança na humanidade que é capaz de, independentemente do género, se assumir criadora e cuidadora das suas crianças. Gosto de olhar por estas janelas de esperança, mau grado o tempo frio e acre que vivemos.

Licínia Quitério

30.12.14

ANO NOVO


De esperar se faz a vida. Ainda que digamos que nada esperamos, sempre uma gavetinha permanece, entreaberta, para algum átomo de novidade, algum passageiro furtivo, algum desejo inconfessado e finalmente satisfeito, algum dia mais, com mais cor, mais sabor. Habituámo-nos a ter dentro de nós um calendário que referimos com desdém, mas sem o qual nos sentiríamos perdidos do tempo único que é o da nossa estadia neste mundo, que dizemos real, já que da virtualidade só o nome, inventado, conhecemos. 
Assim chegámos ao fim do ano catorze do século vinte e um desta era por que se vem regendo grande parte da humanidade. Tudo convenções, não mais, fronteiras, direi, a assinalarem o curso das nossas vidas, tão curtas vidas se medidas pela enorme idade do universo, tão longas se apurarmos a soma das alegrias e das tristezas, dos encontros e desencontros, dos sonos e das vigílias.
De esperar, pois, se fará a nossa caminhada no novo ano que começa, um pé na infância que persiste, outro no amanhã que não sabemos, porque do hoje não se faz notícia, porque instante, porque breve, porque nada.

Licínia Quitério

28.12.14

UM CONTO DE NATAL



Ela sempre começava assim: 
“Pensava que fosses tu e foi por isso que não reagi mais depressa. A mala a fugir-me do ombro, eu a voltar-me e não eras tu”. 
Ele sempre replicava: 
“Porque é que havia de ser eu?” 
E enfastiado: 
“E se fosse por que raio ia puxar-te a mala?” 
Nesse ponto da conversa, ela continuava e ele ouvia, ou não ouvia, que era mais habitual abrir o jornal, por os óculos e limitar-se a pontuar o monólogo com ”hum hum”, “ham ham”, mais espaçados à medida que a fala avançava. Ela parecia não se importar, sentava-se, cruzava as pernas e entusiasmava-se a contar pela milésima vez o que lhe acontecera naquele ano, uns dias antes do Natal. Nessa altura, já não era ele que ali estava, molengão, desinteressado, a puxar por cigarro após cigarro. O outro olhava-a atentamente, seguia-lhe os gestos, bem expressiva a achava e ainda atraente, as rugas aos cantos dos olhos a darem-lhe um encanto de fruta madura. A expressão do outro, o interesse do outro, a graça com que o outro ajeitava a melena, inspiravam-lhe o conto que o Natal lhe trouxera, há uns anos, ao ser surpreendida pelo meliante que lhe sacou a mala e a deixou de mãos vazias, assustada, a gritar, sim, a gritar, a plenos pulmões, que o agarrassem, que era ladrão, que era ladrão, sem que ninguém se aproximasse. Nem imaginavam como se sentira só e desamparada, sem nada na mão, uma mulher sem uma mala na mão é como se estivesse despida. Aí ele costumava dizer “pois”, e virava a página do jornal. O outro tinha um sorriso maroto, ela fazia de conta que não notava e continuava. Quando conseguiu chegar à esquadra, muito afogueada, a contar em catadupa de palavras o que lhe acontecera, vítima de um assalto, ali, senhor guarda, agora mesmo, ninguém acudiu, ali, ao pé do jardim, senhor guarda. Ele interrompia-a, com enfado: 
“Sim, já contaste, o guarda disse para te calares e te sentares e só depois de acalmares começou a tomar nota da ocorrência, não foi?” 
E voltava ao jornal, agora de página dobrada ao meio, a apagar o cigarro. Ela sentia um friozinho no estômago, pensava em calar-se, levantar-se, sair, mas logo o outro a perguntar, já mais perto dela: 
“E então, como foi?” 
Era por isso que arranjava coragem para acabar o seu conto de Natal, a dizer que a mala tinha aparecido, sem dinheiro, claro, mas com os documentos todos, o que já não foi tão mau. Era por isso que não chorava quando ele resmungava:  
“Agora só para o ano é que voltas a contar essa treta, OK?” 
O outro lá estava, a dizer: 
“Tens de me contar tudo outra vez. Com mais pormenores”. 
Ajeitava a melena. O jornal continuava. Ela não saía.


Licínia Quitério

NATAL


O Natal ao Sul, ao Sol, espantosamente colorido e tranquilo. Os campos verdes semeados de flores, o rebanho em sossego, a gaiola esperando os pássaros, as árvores preparando em silêncio as folhas futuras. Que mais desejar depois da festa, dos risos, das longas mesas de muitos pratos? Que um dia assim se prolongasse, à beira das coisas simples, do que vale a pena.

Licínia Quitério

26.12.14

TÁ MAR


A protecção divina invocam, que os mares são férteis de peixe e de tempestade, por vezes só de tempestade, sem que o peixe se tenha oferecido. Se houve um Deus que lhes disse, “ganharás o pão com o suor do teu rosto”, outro não houve, ou o mesmo, que os avisasse, “nas voltas de mar, ganharás o peixe ou perderás a vida”. Dura a faina, feita de saber e arrojo. Em terra ficam as mulheres, esperando pela entrada dos barcos, muitas vezes roucas de tanto rezar, “Salvai-o, Senhor, meu Deus.”, de tanto praguejar, “Ah mar dum cão que me roubaste o meu homem.”.


Licínia Quitério

21.12.14

SOLSTÍCIO DEZEMBRO 2014


O dia de hoje é o mais curto do ano. Amanhã tudo começará de novo a crescer. Assim manda o grande Sol, nossa fonte de vida. Pese embora o frio neste hemisfério, o Sol lá está a comandar o ritmo do Inverno, na dormência das sementes, na ausência dos pássaros migrantes, na insegurança dos homens. Entretanto, convocamos o dia em que de novo diremos Primavera, com a eclosão das sementes, o retorno dos pássaros, a confiança dos homens. Avè, Sol!

Foi assim, eu e ele com a árvore de permeio. Únicas, mágicas, as cores deste tombar do dia.

Licínia Quitério

20.12.14

MANUEL VEIGA



NOTA DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO "POEMAS CATIVOS", DE MANUEL VEIGA

Aqui estou eu, convidada a dizer algumas palavras sobre o livro Poemas Cativos, do meu amigo Herético, que assim foi por mim nomeado durante largo tempo, conhecidos que fomos através do mundo dos blogues, eu no Sítio do Poema e ele com o seu acertadíssimo Relógio de Pêndulo.
Nos primeiros tempos, fui apreciando os seus belos textos em prosa, assertivos, entusiasmados, contundentes, irónicos, esclarecendo, informando, atento sempre não só à espuma dos dias, mas muito mais, à sua conformidade ou inconformidade com os caminhos e descaminhos da Humanidade, dos seus santos e pecadores, para usar expressão tão pouco herética.
Só mais tarde o fui descobrindo poeta que ia publicando, diria, a medo, ou melhor, com o pudor de quem sente a responsabilidade de fazer uso da palavra poética. Foi o seu Relógio de Pêndulo mostrando, mais regularmente, o poeta sensível, a par com o cidadão empenhado e lutador pelas causas que definem, traçam, consolidam o caminho dos homens rumo à Liberdade e à Alegria.
E assim foi crescendo a minha atenção ao Poeta, de seu nome Manuel Veiga, aqui presente hoje como autor do seu primeiro e excelente livro, Poemas Cativos, em boa hora editado pela Poética Editora, graças à Virgínia do Carmo, ela também poeta já publicada.
Tal como afirmei sobre o Eufrázio Filipe, são as palavras de um Poeta a sua mais exacta definição, a sua indelével marca no processo de comunicação mais perigoso, mais difícil, mais subversivo, mais libertador que é a Poesia.
Passo a dar a minha voz, com o maior gosto, a palavras do Manuel Veiga que tocam os domínios do terreal e do sagrado, do concreto e do intangível, e sempre, sempre, as razões do amor e da luta, com a destreza do verbo e o empenho incorrigível deste militante da vida.

Licínia Quitério

Seixal, 7 de Novembro de 2014


EUFRÁZIO FILIPE

NOTA DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO "PRESOS A UM SOPRO DE VENTO", DE EUFRÁZIO FILIPE 

Como dizer a obra de um Poeta, senão com as suas próprias palavras? Tarefa nada fácil para mim que me habituei a lê-lo e as tomei tantas vezes como se minhas fossem. Ponderadas as possíveis abordagens, decidi que o melhor seria pedir emprestados ao Poeta pelo menos alguns dos substantivos e verbos com que tece a malha inconfundível dos seus versos, para tentar explicar como sinto, porque sinto, a sua Poesia. 
Assim vos digo que uma pessoa se depara com um poema de barcos como viagens, e pássaros debicando romãs, e mulheres que são praia, e sabe logo que é do Mar Arável, melhor dito, do Eufrázio Filipe. O poeta deixa a sua marca original por onde passeia o verbo e o oferece generoso à nossa sede de marés vivas.
É uma doçura, uma leveza, que guarda, contra todas as aparências, o amargo dos dias dos homens e das mulheres que os habitam. Poemas de amor e de luta, os dois vectores indissociáveis do seu pensamento, pois que para ele são uma e a mesma coisa. Nos poemas de Eufrázio há aquela pincelada desgrenhada de azul com que marca o seu blog, com que se assinala a si próprio, numa constância de desejo, numa sensualidade que fica sempre um passo aquém do banal erotismo, numa notável contenção de palavras, pois bem sabe o poeta quão preciosa é a síntese, quão difícil de alcançar. Lê-se como se deslizássemos num chão sonhado, de onde se levantam nomes que podem querer dizer escarpa, ou pátria, ou mulher, porque as palavras para Eufrázio são também subversão, alegoria, grito, que só o leitor sensível e desperto pode perceber, pode receber. São de fogo os seus pássaros, são de loiça os seus cães, são de vento os seus barcos que constantemente partem e chegam, e chegam e partem, num rodopio de vida, numa busca inacabada de flores e de brisas, personagens de um drama poético que se desenvolve e envolve o leitor na aventura de sonhar. 
Lê-se Eufrázio como se navegássemos com ele nas tardes e madrugadas dos seus poemas, nos suaves acenos de uma pestana, de uma pena, de uma vírgula, como sinais, como marcos, da viagem dos seus livros que semeia ao ritmo do semeador, com a segurança do caminhante, com o pudor inconfessado do amante. Há silêncio e canto, desespero e esperança, dor e alegria nas suas praias infinitas, nas ondas de saliva ou de espuma, nas romãs que sangram, no alto das ramadas onde se hasteia o beijo.
Poemas que nos interpelam, com o tu que nos faz cúmplices da sua chamada, e nos deixa a pensar quem somos, se somos nós afinal que com o poeta devemos lançar os barcos, acender as escarpas, semear o pão, fazer calar os cães, desgrenhar as asas dos pássaros, soltar a âncora, rumo à praia onde nos espera, para além de todos relâmpagos, a mulher vestida de nudez com que o poeta se entende, se confunde, de seu nome Liberdade.
Obrigada pelas palavras que me emprestaste, Poeta. Aqui tas devolvo para continuares a caminhada, arando o mar como se terra fosse, sem amos nem amarras. 

Licínia Quitério

Seixal, 7 de Novembro de 2014

A NÊSPERA


Era uma vez
uma jovem nêspera,
nascida e crescida
por entre a folhagem
verdinha, fresquinha,
dos ramos ramudos
da grande nespereira,
plantada e criada
no velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
À custa da seiva
da sua mamã,
a nêspera engordou,
cresceu e corou.
Dava gosto vê-la.
Não, nenhuma irmã
tinha a pele assim
tão lisa e suave.
Parecia cetim.
De tanto crescer,
de tanto engordar,
conseguiu espreitar,
sem se debruçar,
por cima dos muros
do velho quintal
da nossa vizinha
chamada Belinha.
E que viu a nêspera
bonita, gordinha?
Do lado de lá,
pousada no chão,
juntinho ao portão,
redonda e amarela,
muito gorduchinha,
uma nêspera bela,
bem maior do que ela.
Uma prima, talvez.
Tamanha foi a surpresa
que se pôs logo a pensar,
a sonhar, a matutar.
O seu destino era lá
ao pé da prima gordinha,
tão forte, tão bonitinha.
Uma nêspera a valer!
Espiou pelo canto do olho
as irmãs enfezaditas,
escondidas, a bem dizer,
naquelas folhas folhudas,
naqueles ramos ramudos
da nespereira do quintal.
Não!
Não tinha nada que ver
com nêsperas descoradas,
talvez mesmo envergonhadas
por não saberem crescer,
encorpar, arredondar,
para que alguém desejasse
trepar os muros de pedra
do simpático quintal
da nossa amiga vizinha
e as poder admirar,
cheirar ou mesmo tocar.
Pensou, pensou, repensou
e chegou à conclusão:
Estava ali por engano.
Foi então que decidiu
mudar de vida de vez.
À custa de um bom esticão,
largou o ramo ramudo
da nespereira folhuda e
sem dizer nada a ninguém,
saltando o muro velhinho,
estatelou-se no chão,
(com a polpa amachucada,
por causa do trambolhão)
junto da prima gordinha
pousada atrás do portão.
Num instante percebeu
o engano em que caíra.
A abóbora gordinha
de nêspera nada tinha.
E o pior aconteceu
quando, num riso de troça,
a abóbora amarela,
muito maior do que ela,
disse, bem alto e bom som,
para que toda a gente ouvisse:
Volta para casa, maluca,
para o pé das tuas irmãs,
antes que se abra o portão,
por ele entre um camião,
trazendo um homenzarrão,
mais feio que muito bicho,
que a mim me transforme em doce
e a ti te jogue no lixo!


Licínia Quitério

18.12.14

A AULA DE MORAL



A aula de Religião e Moral, assim impropriamente chamada, que a religião tratada era só uma e moral era coisa não abordada, era uma das mais divertidas nos meus tempos de liceu, de classes mistas, de ensino privado que na terra não havia outro. O professor era padre católico, pois claro, boa pessoa, mas tremendamente inculto e incapaz de manter disciplina na aula onde, ao contrário do que muita gente hoje presume, já reinava uma balbúrdia colossal a infligir grandes tormentos ao pobre do padre que a eles respondia, regularmente, com chapadões da sua manápula bem fornecida, sem que isso resolvesse o clima anárquico da aula seguinte.
Eu gostava da aula, deliciei-me a ler a versão da Bíblia das Escolas, adorava as histórias do Velho Testamento, as do Novo nem tanto. De vez em quando, o padre projectava uns filmes, creio que em 16 mm, a preto e branco, com a fita sempre a encalhar e a imagem cheia de riscas e luzinhas.  Lembro-me de um deles, sobre o milagre de Fátima, e de outro sobre a Paixão de Cristo e o padre a fazer o relato das imagens, e ninguém a ouvir, que a sala ficava às escuras e a malta aproveitava para comer rebuçados e atirar com os papéis ao ar, os rapazes para apalparem as miúdas da fila da frente que guinchavam, tudo a fingir que ressonava, a darem gargalhadas quando Nosso Senhor era pregado na cruz, e o mais que a imaginação e as feromonas lhes sugeriam. Era uma alegria a aula de moral, como se chamava em abreviatura.
A parte complicada para mim é que, não sendo baptizada, o padre entendeu que era sua missão levar-me à pia baptismal, mas, como para isso tinha de ter autorização do meu Pai, eu passei a ser a mensageira entre o padre e o pai, entre o pai e o padre, o padre diz que, o meu pai diz que.  Convenhamos que para uma miúda de dez ou onze anos não era a tarefa mais conveniente.  Eu queria lá saber se era bom ou mau ser baptizada, eu queria é que os dois adultos me deixassem em paz com a questão. Venceu o meu pai que foi falar com o padre. Eu nunca soube bem como foi a conversa, mas o certo é que deixaram de me encomendar recados.
Ah e fui proibida pelo meu pai de beijar a mão ao padre o que me agradou muito, que aquela mão sapuda me dava alguma repulsa.  O padre, acalmado nos seus ímpetos missionários, deixou de me apoquentar e só de vez em quando passava a mão pela minha cabeça e murmurava: coitadinha, tão boa aluna e não é baptizada.  Lembro-o com alguma ternura e hoje compreendo a sua debilidade perante um homem de fortes convicções como era o meu Pai.


Licínia Quitério

foto da net

14.12.14

O BOLOR



O bolor, o bolor, a insinuar-se, nas máscaras, nos muros, nas falas. Um bolor antigo, travestido, ardiloso, amável, ordeiro, calcário, granítico, multiforme, multíparo. Um bolor consanguíneo, atávico, monstruoso, a avançar no território do sol, a devorar os insones, com suas capas negras, suas cruzes de mil braços, seu fumo de cera ardida, sua colossal mentira. Este é o inverno, o inferno, de vozes doces, de línguas bífidas. Ai dos humanos perdidos em suas dores.

Licínia Quitério

13.12.14

O SABOR DA GELATINA



Foi ao saborear a gelatina não sei de quê, nem perguntei, que me veio o sabor antigo de rebuçados de cinema, os que eram vendidos, antes do filme e nos intervalos, pelo rapaz de casaco branco de sarja, com um tabuleiro pendurado ao pescoço e amparado pelos braços.
Rebuçados de fruta, embrulhados em papel de várias cores conforme o paladar, que a gente desembrulhava durante a exibição do filme, com o ruído estaladiço do papel que depois era atirado ao chão ou, mais ou menos disfarçadamente, sobre a plateia, se calhava  estarmos no balcão. Era o tempo do cinema paraíso, em terra de província, um dos poucos divertimentos que havia. Estratificada que era a sociedade, o cinema era bem o mapa desses estratos, tudo previsto, nada de misturas. A plateia era toda de cadeiras de madeira, daquelas que, ao baixar o assento, e sobretudo ao levantar, faziam um estrépito dos diabos. Nas filas da frente, ficavam os soldados, a gente mais pobre e os rapazes que tinham conseguido um bilhete ou uma borla, ou se tinham aventurado a entrar por uma janela alta das traseiras, sem que os arrumadores, os fiscais, os polícias, os bombeiros, os donos da sala, os tivessem apanhado em prevaricação. Na segunda plateia, as famílias da terra, e um ou outro militar graduado, muito provavelmente sargento. O balcão, de cadeiras estofadas de veludo vermelho, era frequentado pelas famílias mais afortunadas e pelos oficiais de carreira. Na primeira fila, central, sentavam-se as pessoas mesmo muito importantes, mandantes, reverenciadas. 
Quando as luzes se apagavam, a agitação na primeira plateia continuava por minutos e era habitual ouvir assobiadelas, risadas nervosas, palavreado a meia voz, um desassossego de pernas a fazer matraquear os assentos de pau. Sempre alguém, cá de trás, mandava calar os mal educados  lá da frente, e não raro um dos franganotes atrevidos era expulso da sala pelos zeladores da ordem.
Mas o que interessava mesmo era o filme, para não falar dos desenhos animados, isso sim, as gargalhadas a explodirem na incontida alegria. Chato, chato, era o noticiário do país, com o reverendo chefe de estado a cortar fitas, a inaugurar uma barragem pela décima vez, as grandes obras do estado novo, as famílias do estado novo, a esposa do venerando a beijar criancinhas pobres coitadinhas mas protegidas pelo bom governo do senhor presidente do conselho, e a malta a assobiar, ó marreco olha o sonoro, olha a fronha daquele, e chiu, chiu, caluda, que não deixam ouvir nada.
Enfim o filme, o leão a rugir, vesgo, a cabeça para a direita, para a esquerda, oooommm, oooommm, e a malta caladinha. Ah grandes filmes,  com o Errol Flim, o Burte Lencastre, a boazona da Sarita Montiel. Quem não se lembra dos beijos da Sarita que vendia violetas, e a canalha a assobiar, com os mindinhos nos cantos da boca, uma barulheira e tanto. Grandes filmes aqueles, o Ivanhoé, o Tarzan, e os gritos à saída, a baterem no peito, a fazerem que trepavam às árvores da avenida.  E o Bucha e Estica, e o Tótó e o Cantinflas, ah aquilo é que era rir, da primeira à última fila, incluindo a gente muito séria do balcão. 
Nem dá para acreditar que tudo isto estava escrito no fundo da taça da gelatina que comi ao almoço. 

Licínia Quitério

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