19.11.14

TRAGÉDIA NO AEROPORTO




Abriu a mala para retocar o batom, num gesto quase maquinal, a quebrar o fastio da espera na sala pouco movimentada. Ao procurar na bolsa, sentiu na mão um objecto com o frio de metal e não o tubo esperado. Espreitou. Mal podia acreditar no que via. Ali, na sua mão direita, um canivete suíço, vermelho, tão longo como a sua mão aberta. Estremeceu, olhou em volta, tornou a fechar a mala. Ninguém podia ver o objecto proibido num lugar daqueles, altamente vigiado, no coração de um continente em crise, com sensores presumivelmente  implacáveis. Certificou-se de que nenhum alarme soava, que nenhum vigilante se lhe dirigia. Continuou fingindo a maior calma, a mala aconchegada no colo, a pensar no que fazer ao canivete. Deixá-lo ali caído, deitá-lo num recipiente de lixo, enfiá-lo no bolso do casaco do passageiro adormecido a seu lado. Nenhuma das hipóteses lhe agradou,  o habitual poder de imaginação a falhar redondamente. Foi quando se fez luz na sua cabeça aturdida pela insólita situação. Para que serve uma arma daquelas? Para cortar. Cortar o quê? Começou então, metodicamente, a cortar em pedaços os poucos passageiros em espera. Cabeça de um que já prometia pendências, pernas de outro, ali convenientemente esticadas, a mão de outro, abandonada no banco,  e mais um pé descalço, e uma orelha do outro a pedir misericórdia, e ainda… “Senhores passageiros do voo XYZ com destino a KKKK queiram dirigir-se à porta 000”.
Desistiu da degola seguinte, agarrou a mala, olhou em volta, nada de alarmes, dirigiu-se à porta indicada. Atrás dela, uma fila de zombies que reconheceu claramente. Um deles chegará a presidente de uma qualquer república, pensou. Já no avião, voltou a procurar o canivete na mala. Lá estava. Achou estranho que agora as lâminas também fossem vermelhas. Agarrou-se aos braços do assento. Tinha sempre medo nas descolagens. Para acalmar, pensou em contos de terror.

Licínia Quitério

16.11.14

ISTO


Já passou tanto tempo desde o dia em que disseste “Vou, estou farto disto”, sem mais nada, a despires o blusão e a atirá-lo para cima do sofá. Voltaste a vesti-lo já estava escuro lá fora, a mala pequena a pesar-te no braço, um casaco no outro braço. Ainda hoje repito “disto, disto, disto”, sem conseguir decifrar de que é que te fartaste. 

 "Isto” não sou eu, sempre tão presente, tão meiga, tão zelosa da tua saúde. “Isto” não é o nosso filho, bonito rapaz, cheio de namoradas, de alguns defeitos, ou melhor, de problemas, que a droga não é defeito, é uma fase má, vai passar, vais ver, não roubou, não matou, não é o único, precisa do nosso apoio, não, não lhe grites, não, não lhe batas, foge, filho, foge. “Isto” não pode ser o dia em que desapareceu o dinheiro, não, não foi ele, foge, filho, foge que ele dá cabo de ti. Ele andou na rua, um bocado perdido, mas voltava sempre para comer, o nosso filho, magrito, não é “isto”, não é dele que te fartaste, nem da casa, sempre tão limpa, arejada e agora nem aquele cheiro mau no quarto dele. A gente não se farta assim do que nos rodeia, de quem nos ama, que ele gostava de ti, não te odiava, mesmo quando dizia que morresses, que eras tu que não prestavas, não era ele a falar, era a malvada que o agarrou.

 Gostava de poder dizer-te tudo, agora que ele não voltou, os mortos não voltam, agora que eu fiquei, não sei bem se fiquei, se fui com ele, não sinto frio, nem fome, nem sede, nem sono, parece que os mortos não sentem. Só gostava de saber o que querias dizer com” estou farto disto”, ou talvez não queira, parece que os mortos não querem, talvez eu não esteja morta, estou como tu, farta disto.

Licínia Quitério

3.11.14

O POETA



De vez em quando, gosto de tomar café numa mesa junto ao Poeta, aquele que em bronze e de perna traçada permanece impávido perante a turba que lhe vem polindo a aba do chapéu, o joelho, o ombro, o sapato. Diz que não é nada, nunca será nada, e não entende o entusiasmo pelo boneco que uns dias é Fernando, outros Álvaro, outros Alberto, outros Ricardo, e até Bernardo, e outros, e outros, que do fundo da arca só ele sabe. Gosta de ouvir a rapariga que canta na rua e depois pede uma moeda no chapéu revirado. Adivinho-lhe um trejeito de comiseração, pobre pequena, cansou-se de comer chocolates. Um par muito jovem dança, ali em frente dele, em frente de toda a gente, corpo contra corpo, ao ritmo da música da viola do rapaz que toca para a rapariga que canta e que depois estende o chapéu e que sorri, sorri sempre. Dançam, apaixonadamente, sem darem por ninguém e sem que ninguém dê pela felicidade que vão desenhando no mover das ancas, na clara luz dos rostos. Só o Poeta pensa, quem lhe dera no tempo em que escrevia sem dar por isso cartas de amor. 
Por instantes, lembro o seu amigo Mário que nos cafés esperava a vida. Não fico à espera, vou ali mais abaixo, entregar saudades do Poeta ao rio que corre na minha aldeia.

Licínia Quitério

29.10.14

O PINHEIRO


A Casa Grande e as Pequenas Casas. As grandes histórias e as pequenas histórias. Aquele pinheiro grande foi uma pequena árvore de Natal que alguém resolveu plantar depois da festa acabada. Isto foi há muitos anos, tantos que muitas pessoas das casas pequenas já partiram e chegará o dia em que ninguém saberá da história do pinheiro que é hoje a maior árvore da rua. 

Licínia Quitério

28.10.14

MORTES ANUNCIADAS



Eles matam-nas e matam também os filhos.
Elas calaram-se, esperaram que eles mudassem, não fugiram porque têm os filhos e não sabiam para onde ir.
Elas fugiram e pediram abrigo e continuaram com medo deles.
Elas voltaram um dia para eles que prometeram não tornar a bater-lhes, mas bateram, cada vez com mais força.
Elas não suportaram, pediram o divórcio, eles sairam de casa, elas julgaram-se a salvo, mas eles apanharam-nas na rua e mataram-nas e também mataram os filhos que tentaram protegê-las.
Elas têm vergonha que a família saiba, que os vizinhos saibam, elas gostam deles, elas sentem-se culpadas porque falaram com outro homem, elas sentem-se culpadas porque pensaram em fugir.
Eles têm ciúmes, eles não aceitam perder o processo de divórcio, eles vivem com outras mulheres, mas querem matar aquela.
Os políticos sabem, os vizinhos sabem, as famílias sabem, na polícia sabem, no hospital sabem.
Todos esperam a tragédia, todos sabem que um dia eles as matarão. Todos esperam as mortes anunciadas.

Licínia Quitério

26.10.14

O RELÓGIO


É uma hora de mais, é uma hora de menos, é o sol que dura muito, é o sol que dura pouco, é o dia que nos sobra, é o dia que nos falta, à roda à roda é que vamos, acima do que não queremos, abaixo do que sonhamos, muitas horas, tantas horas, na roda à roda da vida, no corre corre dos dias, no relógio que parou, no relógio que quebrou, no tempo que nos faltou, no tempo que nos sobrou, no amor que se perdeu, no amor que se encontrou, da criança que cresceu, do homem que envelheceu, na roda a rodar a vida, no minuto da chegada, no minuto da partida.

Licínia Quitério

25.10.14

REVELAÇÕES




Projectando capa para O Livro dos Cansaços, vencendo dificuldades de quem muito pouco ainda sabe de laboratórios fotográficos digitais. 
Vai longe o tempo da câmara escura no que deveria ser a despensa, do pano preto no vidro da bandeira da porta, da lâmpada vermelha, do amplificador que rangia na subida da haste, da novidade que foi o pequeno tanque de revelação, das foto-montagens de corte e recorte, do papel tão caro ao abrigo de humidades, das provas de contacto, do estendal das películas com corda e molas de roupa, da alegria de obtermos um alto contraste quase quase artístico. Por amor à arte, como tudo o que se fazia naquela casa, pelo prazer genuíno de conseguir fazer, de perceber o como e o porquê das coisas, tantas vezes com recurso a livros, a manuais, que ajudavam aos saberes, às descobertas, às invenções. Aprendia-se que na vida tudo está feito e tudo está ainda por fazer. A casa era um universo, onde as maiores e mais saborosas viagens aconteciam. 
Isto a propósito da capa que já está pensada, feita, e que talvez se mude que eu continuo a ser muito de mudança, até ao limite que fica sempre distante, tão distante, da perfeição. E ainda bem que assim é.

Licínia Quitério

21.10.14

SÃO ROSAS



São rosas, senhor, meu bem
Rosas verde, rosas carne
Flores de pão, flores de chão
Serão rosas se eu quiser
Serão pão, serão poema
Que diga o que eu não souber
Da vida que me couber
São amor, senhor, meu bem

Licínia Quitério

18.10.14

CONHEÇO-A

     

       Conheço-a desde sempre, desde que eu era criança e ela uma jovem mulher, de gargalhadas frequentes e sonoras, loira, pobre, muito pobre, no tempo de muitos pobres, de vários e pesados trabalhos, de alguns filhos, minha vizinha, que o beco dela abria na minha rua. Décadas me levaram para outra terra e ela para outro beco a dar para outra rua.
Voltei e encontrei-a, ficámos ambas contentes, rimos ambas, ela com a sua sonora gargalhada, a tratar-me por menina, eu já não loirita, ela ainda, na sua matriz celta, persistente. Gostei de a ver, já sem a moda da penúria que dantes lhe coubera. Estava bem, os filhos criados, na sua casinha modesta, com o conforto que nunca tivera. Passei a vê-la quase diariamente, na sua bica e bolinho, ambas no mesmo café, como está a menina, como está a senhora C. Vamos envelhecendo as duas, ela mais adiantada do que eu, sabe-se lá quem chegará primeiro.
Ultimamente não a encontro de boa saúde. A senhora C tornou-se uma velha em banco de jardim, perdido o garbo que nem a pobreza lhe tirou, os cabelos loiros desalinhados, o olhar perdido sabe-se lá em que becos. Respondeu-me ontem apenas com um aceno, sem menina, sem a gargalhada que sempre lhe nascia na garganta.

Licínia Quitério 

8.10.14

LEITURA




Nunca fui o que se chama leitora compulsiva. Sei ler desde os quatro anos e comecei a ser leitora por volta dos oito. Livros passaram a ser as minhas prendas de anos que eu devorava, e relia, relia, até as historias ficarem dentro de mim para sempre. Não eram muitos os livros, que o orçamento caseiro era bem fraco. Na primeira adolescência, coincidente com primeiros anos do liceu, li tudo o que me aprecia à mão, desde o Cavaleiro Andante, aos livrinhos de cowboys que os meus amigos rapazes me emprestavam.
Quando comecei a ter autorização para ir à biblioteca municipal, à noite, pude devorar desde a Condessa de Ségur, aos Três Mosqueteiros, depois à Pearl Buck e, a todos os que na época eram considerados leitura para meninas e que não eram nem de longe os meus favoritos. Por obrigação escolar, com prazer, conheci os clássicos, Júlio Dinis, Alexandre Herculano (todo), Eça (todo), Camilo (pouco). Descobri então Victor Hugo e, em tempo roubado a estudos obrigatórios, apaixonei-me por Paris, pela Esmeralda, pelo Jean Valjean.
Da Biblioteca Municipal, passei para a carrinha da Gulbenkian que me deu tudo, os neorrealistas, e Pratolini e Sartre, e Camus e Malaparte, e sempre um livro de poesia. E havia uma prateleira fechada com livros que o funcionário me dava, disfarçadamente, e dizia baixinho "vai gostar".
Curado Ribeiro tinha um programa de rádio, "Leituras" que passou a ser o meu guia espiritual na busca do que julgava o melhor. Cedo passei a trabalhadora estudante, e as livrarias de Lisboa passaram a ser lugar de culto, para ler e comprar, um ou dois livritos por mês, que para mais não dava o meu ganho em explicações.
Não sei bem quando comecei a ler menos, a deixar a meio livros que não me satisfaziam. Começou o meu poder de crítica, de discernir o bom, o menos bom, o execrável. Findou o tempo do endeusamento da leitura pela leitura. A Poesia, essa, foi a minha grande descoberta e tudo procurava, e me extasiava, e me irritava porque não compreendia, e só alguma filosofia dos compêndios me ajudava naquela linguagem que de humanos não seria, pelo menos de outro tipo de humanos que não faziam parte dos meus amigos, dos meus conhecidos.
Veio o tempo da angústia de tudo querer ler e não poder, de quão pouca era a minha vida para a torrente de saberes que os homens produziam, incessantemente, ao longo dos milénios, muito antes da escrita em livros, muito antes de toda a escrita.
Houve até um tempo de pouco ler, de muito fazer, de beber a vida em longos tragos, de saber do mel e do fel, de incitar os outros à leitura, de dar livros, num proselitismo de uma nova época, mais de canto que de leitura.
Hoje, que dei em escrever, leio, sim, leio, regularmente, sem pressas, sem a angústia do livro por ler, tantas vezes em diagonal, em complacência pelo que julgo menos bom. Há muitos autores que devia ter lido e ainda não li. Não li Proust, de Joyce não li o Ulisses. Imperdoável, devia ter vergonha de o dizer, mas não tenho. Sei que uma "madalena" me dará o tempo que perdi, que Lisboa me segreda a viagem nunca feita.

Tenho diante de mim um livro de poesia de Luís Quintais que ontem comprei, O Vidro. Vou demorar umas horas a lê-lo. Há sempre uma novidade que me espera de que saberei gostar, ou não. Sem remorsos, que a liberdade não tem culpas.

LICÍNIA QUITÉRIO

4.10.14

GATOS


A minha relação estreita com os gatos vem desde há muito, já que quando nasci havia um gato lá em casa e eu fui crescendo a brincar com ele.  Houve gatos nas minhas várias casas, assim como houve plantas vivas, em pequenos espaços abertos. Gatos que sempre viveram em liberdade, ausentando-se de casa por tempo indeterminado, cumprindo os seus rituais de namoro e acasalamento, correndo os riscos que a vida livre implica. Trato-os quando adoecem, mimo-os sem exageros, fico triste quando morrem. Não lhes ponho coleiras nem chips. São gatos-gatos, sem pedigree, sem raça que nome tenha. Nunca comprei nem vendi um gato. Dão-mos ou são eles que vêm ter comigo, pela janela, pela porta, escolhendo-me, percebendo, no seu instinto apurado, que comigo não lhes faltará comida e bom trato. À medida que envelheço, vou ficando mais tolerante com eles, permitindo-lhes estragos em sofás, em vasos, acalmando a fúria pela sua teimosia, a sua gulodice, cedendo mais facilmente ao fascínio dos seus olhos onde ainda dorme a fera que um dia foram. 
Faz hoje um ano que chegou a minha casa o Tigre, recuperado do abandono a que o votaram, com uns dois meses de vida. Se não fosse ele, não teria escrito este texto. Vários gatos têm habitado outros textos meus. São inspiradores, provocadores, indomáveis, independentes. 
Nunca fui dona de humanos e também não sou dona de gatos. Uns e outros chegam e partem e, cada um à sua maneira, deixam uma história, uma lembrança, uma indelével marca de Vida.

Licínia Quitério

28.9.14

Lisboas


A Lisboa alindada, a dos turistas aos magotes, a da luz incomparável, a de novas culturas, a lindíssima cidade, e a outra, a dos sábados à tarde, de gente pobremente vestida, de gente idosa, sozinha, desfrutando bancos de jardim, esplanadas antigas, de mesas gastas, de pouco ou nenhum consumo, do metro de todos os países, de gente de muitas falas, de jovens mascando pastilha e falando ao telemóvel, de velhos, antecipadamente velhos, de poucos dentes, de grandes olheiras. Lisboa das avenidas das "marcas", das avenidas "novas" e gastas pelo uso, pelo desleixo, com resquícios de uma beleza antiga. Lisboa dos loucos, dos quase loucos, duma loucura cansada e pacífica, que dos brandos costumes ressalta hoje uma loucura branda, de fado e despedida, de morna e mar, de um novo tempo que envelhece, numa espera de maré alta, de gaivotas em terra, que assuste e acorde e vista de sorriso o que agora se gasta, se arrasta, se cala e se conforma e entristece.

Licínia Quitério

24.9.14

GOSTO


Gosto de quem sabe fazer. Gosto da pedra e do pedreiro. Gosto do ferro e do ferreiro. Gosto do ouro e do ourives. Gosto do vidro e do vidreiro. Gosto da tinta e do pintor. Gosto do construtor. Gosto do pão e do padeiro. Gosto da semente e do semeador. Gosto de mãos que amassam, enformam, transformam. Gosto de quem eleva, desloca, arrasta, conduz. Gosto da roda e do carpinteiro. Gosto do fio e da tecedeira. Gosto da argila e do oleiro. Gosto de quem molda, ata, desata, encaixa, arranca, prega, conserta, restaura. Gosto de Arquimedes e da alavanca. Gosto de quem gosta de quem faz.

Licínia Quitério

9.9.14

UM POUCO MAIS ACIMA


Um pouco mais acima e tudo muda, tudo se reduz, se dilui. Linhas que são estradas, verde-escuro a que chamamos bosques, cinzentos  a que chamamos campos. Lá pelo meio,  a geometria ovalada de uma vila, aldeia ou outro nome que damos às casas com gente dentro que se encostam, em defesa, em fuga, em solidão. Tudo fixo, imóvel, num sossego de mapa. Se há animais, ou homens, ou vento nas folhas, só a quietude e o silêncio se avistam. Se há paz ou guerra, ou mortes, ou sinos de festa, tudo estático, numa única dimensão, lá em baixo, no ínfimo pedaço de crosta do planeta. Mais alto agora e só o azul e o algodão e nem rasto de anjo nem de estrela. Tudo o resto lá em baixo, longe, muito longe e nós um átomo viajante, inconformado, julgando divisar a eternidade.

Licínia Quitério

8.9.14

A VIAGEM DA CAIXINHA


Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. Aconchegava a redondeza da caixa na palma da mão. Com a outra abria-a e fechava-a, uma vez, outra vez. Mirava-se no espelhinho que era o interior da tampa. Cheirava delicadamente o pó cor de rosa desmaiada que se escondia sob a rede, sob a almofadinha macia, macia, como outra não sabia. Fechada a caixa, o estalido metálico do fecho, perdia-se a olhar a estampa do que, já aprendera nos livros, ser o Sacré Coeur, as suas torres, os cavalinhos com cavaleiros, as colunas, os degraus. Trouxera-lha o tio que viajava, no seu trabalho duro de conduzir pessoas que viajavam em descanso mole. Era tão doce o tio de trabalho duro, um gigante com lágrimas quando revia os sobrinhos. Ela não parava de mirar, de abrir, de fechar, a caixinha com o Sacré Coeur na tampa. Esqueceu-se de passar a esponja pelo pó e de a passar no rosto, como faziam as meninas do seu tempo, chegada a idade de se prepararem para escolher e serem escolhidas para o tal casamento de que falavam as mães, as avós, as tias, as amigas das mães, das avós, das tias. Apaixonada esteve a menina pela caixa, não bem pela caixa, pela ideia de viagem que a caixa lhe trazia. Hei-de lá ir. Hei-de lá ir. E o pó continuava intacto debaixo da rede, debaixo da esponja. Paixão é paixão e a menina não parou até ao dia em que anunciou: Vou lá. Parto amanhã. Foi e subiu os degraus, olhou os cavalos, os cavaleiros, as torres. A caixinha ficou, a menina veio e voltou e voltou e viu muito mais do que as torres e os degraus. Viu cidades e mares e florestas e gente, muita gente. A caixinha morou por longos anos numa vitrine, junto das coisas pequenas com histórias grandes, se as quisermos contar. A menina cresceu, amou, envelheceu e mais uma vez voltou à cidade da tampa da caixinha, com o pó intacto, com um cheiro a coisas antigas que um dia foram belas. Foi desta vez que, num relance, olhou a vitrine e disse: Hás-de lá ir. Hás-de lá ir. Foi. A caixa fez a sua viagem de regresso. A menina, cada vez mais velha, sentiu que conseguira terminar mais um capítulo da sua  própria viagem.

Licínia Quitério   


6.9.14

IMIGRAÇÃO


O museu da imigração, em Paris. Um lugar a visitar. Ali está uma França digna a afirmar, logo à entrada, "nem todos somos filhos de gauleses". Lá dentro, muitíssimo bem concebida, a exposição da história da imigração que em França procurou vida e alimento e onde deu o suor, a dor, a força incrível de ganhar outras raízes nunca perdendo de vista as primeiras, as dos seus países que, em dados momentos da História, não lhes permitiram a dignidade, a liberdade, a sobrevivência. Entre outros, em lugar destacado, ali estamos nós, os portugueses, os que, entre o "ici" e o "lá-bas", construiram, limparam, serviram, reabilitaram, renovaram a grande cidade. Fotos, objectos, vídeos, testemunhos gravados, nomes de homens e mulheres--coragem que Salazar rejeitou e que outro país recebeu, com todas as grandezas e maldades que sempre sucedem a quem pede asilo e trabalho. Outras vagas estão a acontecer, de cá e de outros mundos, e o museu está atento, registando as trouxas, os pobres sacos dos que chegam, muitos de além-mar, sem nada a não ser a esperança de um lugar onde possam viver e criar os seus filhos. É este museu um lugar que se visita com um aperto no coração, donde se sai devagar, com poucas falas, que nunca se poderá dizer absolutamente a miséria que somos, a grandeza que somos.

Licínia Quitério

18.8.14

QUE SABES?


Que sabes que não nos contas?

Quantos amores te viveram?
Quantas dores te confessaram?
Quem escondes nessa cortina?
Quem a porta entreabriu
e nunca mais a fechou?
Tens o número primeiro
daquela rua enrugada
como a pele da tua face
outrora lisa e corada.
Quem te mora vai sobrando
o lampião esmorecendo
a ruína se oferecendo
ao passante que pressente
a dor dos ossos da casa
a dor dos ossos da gente.

Licínia Quitério

15.8.14

ESCREVER




Uma pessoa faz a vida com tudo o que lhe cabe fazer, tem gostos, desgostos, desejos, frustrações, amores, desamores. No fundo de uma certa gaveta, vão adormecendo escritos, versos, desabafos, ficções, uma amálgama de letras, de palavras, em desordem, em revolta. Depois de tudo, surge na sua frente um tempo breve que precisa de preencher, de justificar, de enfeitar com o melhor que lhe ficou. É um tempo de desassossego, de atrevimento, de interrogação, de desacerto, uma vez mais. Pode então acontecer que encontremos quem nos faça um pequeno aceno e nos ponha ao de leve a mão no ombro, a dizer: Vai, continua, és poeta. Acreditamos na sinceridade, mas não na nossa capacidade. A verdade é que tudo começou nesse instante. A gaveta foi remexida, a escrita cresceu, fez-se hábito e vício. Os livros foram aparecendo, outros talentosos amigos elogiando, dando força. Cada vez são mais e a minha gratidão é infinita. Não desejo nada além de bons leitores, por poucos que sejam, e tenho-os, fiéis e generosos. Se ainda houver tempo, outro ou outros livros aparecerão. Se não, sou já uma mulher feliz que pegou na memória dos sentidos e, de pé sobre o silêncio, alongou o seu tempo breve, nomeou os seus sítios e assim vai preenchendo o espaço ainda livre do seu disco rígido.


Licínia Quitério


ESCADA DO TEMPO



Escada do tempo. Esteve sempre ali e estará. Foi o que pensei. Não a subi, não a desci. Pareceu-me ver um druída, com a sua foice de oiro, que a chuva miúda fazia crescer o gui. Regressei. Os seres da floresta precisavam de silêncio.

Licínia Quitério

AH A FAMÍLIA!


Era um tipo comum, mais do que seria desejável numa sociedade que preze a seriedade, o bom senso. Era bom profissional do seu ofício, dedicadíssimo aos patrões, melhor, fidelíssimo, acérrimo defensor se alguém a eles se referisse com irreverência ou mágoa. Dizia para quem o queria ouvir que gostava mais da empresa do que da sua família. Talvez levado por um copito a mais, num dia em que um patrão desqualificou o seu trabalho, perdeu as estribeiras, zangou-se a sério, avermelhou como pescoço de peru, disse ao patrão o que pensava dele e retirou-se, perante a estupefacção do dono de tão fiel criatura que agora lhe mordia a mão. Foi raiva de tal monta, que se despediu na mesma hora e não mais voltou a pisar a empresa, outrora objecto da sua mais pura afeição. Foi por esse mundo fora, nos caminhos de aventura de português sem trabalho, até que encontrou poiso onde exercer a sua profissão. Mandou ir a família, agora subida na escala dos seus afectos, e por lá ficou. Tem saudades da Pátria, de Fátima, e dos velhos tempos em que os comunas, mais tarde ou mais cedo, iam morar atrás das grades. Mau grado estes desgostos, sempre que pode pega na família e vem visitar o seu torrão natal que, diz, é o mais lindo do mundo. Podemos vê-lo nas fotos das festividades do Verão, sempre que possível na cadeira da frente, na fila da frente, ao lado dos ilustres, deitado em abraços sobre os mais robustos, pegando criancinhas ao colo, trincando o courato que é o melhor do mundo, comprando no sul blusas do norte, as mais lindas do mundo, que a família veste, porque ele assim o quer. Se o filho mais velho voltar à Pátria, à terra, esperto, trabalhador e crente e praticante como é, quem sabe não virá a ser, para começar, Presidente da Junta? De política não quer saber e tem raiva de quem sabe, mas se for preciso, por um filho tudo se faz. Ah a Família, a Família! 

 Licínia Quitério

IMPRENSA REGIONAL



Houve o Jornal do Fundão, houve o Notícias da Amadora, houve o Diário do Alentejo, houve o Comércio do Funchal e outros jornais regionais à frente dos quais estava gente culta, e cujos corpos redactoriais eram formados por pessoas que liam e escreviam bem. A censura massacrava-os, perseguia-os, suspendia-os, prendia directores e jornalistas. Eles lá continuavam, sem nunca abdicarem da qualidade da notícia, da divulgação cultural, sem cederem ao popularucho e ao beato que era apanágio de outros jornais, abençoados e benquistos pela Igreja e pelo Estado Novo. 

Foram esses jornais veículo de informação honesta e desassombrada, de artigos excelentes, de bons autores, do melhor que a sociedade civil produzia e divulgava.
Esperar-se-ia que, depois da chegada da Liberdade, essa imprensa regional vingasse, crescesse, alargasse horizontes. Sonhos de Abril que não passaram de sonhos. Como em tantos outros ramos do jornalismo e da cultura em geral, regressaram os pasquins, entregues, salvo raras excepções, a gente que mal sabe escrever e que não faz a mínima ideia do que é jornalismo ou então a uma direita beata e reaccionária, catequisante e castradora. 
Não serei a pessoa indicada para bem abordar este tema, felizmente sujeito a controvérsia, mas não quis deixar de a ele me referir, até porque conto, na minha história bem longa, a amizade com um censor, redactor do ex-Secretariado da Propaganda (SNI). A ele cabia censurar exactamente a imprensa regional, seguindo as regras estúpidas dos seus superiores. Ora quantas vezes assisti a essa tarefa e quantas vezes consegui convencê-lo a não cortar isto ou aquilo. O Jornal do Fundão, do saudoso Paulouro, era então uma vítima de eleição. Com o atrevimento que a mútua amizade consentia, dava-me ao luxo de dizer: Ó Homem, deixe lá passar isso, não acha que é mesmo uma estupidez? E ele, embora medroso de represália, lá deixava passar, dando algum descanso ao lápis azul. 
Entendem, por certo, o meu desgosto quando, ao visitar uma terra, procuro o jornal regional e dou quase sempre com a maior miséria e iliteracia, que é um eufemismo para analfabetismo, penso eu.

Licínia Quitério

5.8.14

A NOVELA QUE NÃO SOU CAPAZ DE ESCREVER


Se eu soubesse escrever uma novela, situaria a acção em Portugal, nos anos setenta, no ante e após revolução de Abril. A acção decorreria inteiramente numa casa de Lisboa, em rua antiga, uma casa daquelas com muitas divisões, um quarto chamado independente porque tinha porta directamente para o patamar da escada, uma cozinha ampla com chão de mosaicos com desenhos a simular velas de moinhos, brancos e vermelho escuro. Havia de ter uma marquise com acesso a uma chamada escada de serviço, em ferro, de degraus sem espelho, impossível para quem sofresse de vertigens. Não haveria de me esquecer de citar a gaiola do canário com os seus trinados ao nascer do sol, a fazer nascer instintos assassinos nos hóspedes. Sim, porque a história devia passar-se numa casa de viúva sem filhos, sem outros rendimentos além dos que conseguia com o aluguer de todos os quartos da casa, nem que para isso tivesse de dormir num divã, na marquise, por baixo da gaiola do canário. Personagens  havia de os inventar, e não seria muito difícil, que relatos de vidas como as que passavam pela casa da viúva foi coisa que não faltou nesses anos de gente que acorria à capital, vinda de todo o país, para um emprego, para os estudos que na terra não havia,  bem como para os solitários, de fracos trabalhos, que a casa só sua não podiam aspirar. Traçar-lhes o retrato físico e mental havia de ser um bocado complicado, que inventar pessoas é uma coisa, fazê-las agir com a incoerência necessária para que pareçam reais é outra e por isso há os escreventes que escrevem e os escritores que criam, escrevendo. 

(continuará?)

Licínia Quitério 

3.8.14

A RUA


A vida vou-a fazendo
A rua vou-a descendo
O mar ao longe a fitar-me
A serra ao longe a fitar-me
Uns olhos entre a folhagem
Como se fossem verdade
Como se fossem miragem
E a vida vou-a descendo
E a rua minguando
O mar ao perto a fitar-me
A serra  ao perto a fitar-me
Umas mãos entre a folhagem
Como se fossem verdade
Como se fossem miragem
No meu deserto de esperas
No meu bornal de viagem
Rua abaixo, vida abaixo,
Que assim se fazem os contos
Que assim se contam as contas
Do meu colar de surpresas
A alternar com tristezas
Que assim se fazem os dias
Rua abaixo, rua acima,
Vida acima, vida abaixo,
Um rosto entre a folhagem
Esse que é meu de verdade
Esse que não é miragem

Licínia Quitério

EMIGRAÇÃO


Era Abril e a década contava-se por sessenta. Paris era uma ideia, um desejo, um encontro previsto. Trabalhava para pagar os estudos, arduamente, num afã que a juventude permite. A dureza das muitas horas de trabalho adiava, inviabilizava, destruía sonhos de  pequenos vícios, pequenos prazeres, mas a força de quem tem uma vida a começar não admitia desistência.  Havia quem só estudasse, quem não tivesse prazeres adiados, quem navegasse em águas mornas, como se natural fosse essa bem aventurança.  Assim eu vivia, com um pé no estribo outro no chão, aguardando os dias de montaria, rédea larga, mundo fora. Sabia bem que havia os outros que nem de livros, nem de sonhos, só comida pouca, cabeça baixa. Sabia também dos que não sabiam, dos que fingiam não saber, dos que não se importavam.
Paris era então um portão a transpor, um lugar de palavras proibidas, de Montesquieu, de Sartre, de Trenet, de Duras. “Hei-de lá ir” tornou-se um lema, uma divisa, uma profecia.
Era Abril quando me achei, com os outros das mesmas sebentas, com um Cartão Internacional de Estudante, com uma mala grande demais, com um coração a dilatar, na estação de Santa Apolónia, esperando o SUD, as três letras que queriam dizer viagem, partida, deserção ou aventura. Na extensa plataforma da estação, havia os outros, com outras malas, muitos sacos, muitos cestos, sem o sorriso dos meus, com o cenho carregado e húmido dos outros. A nossa tagarelice nervosa  destoava  do silêncio e da rouquidão dos outros. Logo ali comecei a achar que o meu sonho de Paris não era igual aos sonhos deles.  Eu e os meus íamos  à procura das palavras proibidas - liberdade, igualdade, fraternidade-, eles iam em demanda das palavras perdidas ou nunca achadas - trabalho, pão, dinheiro, casa-.
Dentro do comboio, atulharam os corredores de cestos, de malas, de sacos, que guardavam, com a preocupação  de quem não pode perder o único alimento. Pelo caminho, no interior dum país pardacento, entraram mais e mais, e os corredores ficaram a abarrotar de corpos e de tralha. Foram trinta e seis horas de coabitação, mesmo assim de costas voltadas,  dia e noite, nós os das mesmas sebentas e eles os das mesmas queixas. Paris esperava-nos e a cada um tinha para oferecer ou para negar  palavras de libertação ou de sobrevivência. Cansados todos do desconforto da viagem, o SUD despejou-nos na gare de Austerlitz que se encheu de linguajares diversos, do meu país de gente diversa. Foi aí que gravei na memória tantos homens de chapéu escuro, tantas mulheres sem crianças, correndo numa fuga de um país ingrato, na esperança de alguma recompensa prometida. Foi aí que me ficou até hoje o remorso de termos começado  a falar francês, meu pobre francês de escola, para que os de lá não nos relacionassem com os outros, os que quase corriam enquanto soltavam imprecações, no mais puro vernáculo do português falado em suas terras, sem temor nem pecado.
Paris não me desiludiu, não, aprofundou mesmo a minha admiração, o meu espanto pela cidade aonde haveria de voltar e voltar, já sem vergonha de falar português, porque as palavras que eu procurava tinham deixado de ser proibidas.
 
Era isto que tinha para contar sobre a emigração que voltou, a desgraçada, com outras roupagens, outras promessas, outros incertos destinos, neste mundo de fronteiras abertas e tantos sonhos fechados.

Licínia Quitério

2.8.14

OS MENINOS CRESCEM


Os meninos crescem-nos do coração. São gomos frescos de vida. Os meninos têm o choro igual ao riso, igual ao canto. Só param quando a fada passarinho os chama para as suas almofadinhas de sono. Olhamos os meninos e nada  entendemos do mistério de crescer. Habitamos com eles a substância do tempo.

Licínia Quitério

28.7.14

NEUTRO



Neutro é o cinzento que sujou o branco e despreza o preto.
Neutra é a Suíça que lava mais branco o que já nasceu sujo.
Neutro é o que tem opinião, mas a esconde.
Neutro é o que deseja entrar no campo do vencedor.
Neutro é o que espera lucrar com os dois lados da guerra.
Neutra é a morte que não escolhe, por profissão.


Licínia Quitério

A VIDA PASSA


A vida passa, a gente vai andando, vai sendo outra, ganhando, perdendo, deixando para trás tempos, lugares, histórias, pessoas que vamos esquecendo, enquanto outras entram no nosso patamar, na nossa mesa, nas nossas preocupações, para outras chegarem e se sentarem connosco nos mesmos livros, nas mesmas salas, com as mesmas vozes. A vida passa e de repente aparece-nos um rosto que não reconhecemos, que nos chama pelo nome, que nos trata por tu como se fosse ontem que tivéssemos deixado a carteira da escola em que fomos meninas, ela morenita, eu branquinha, como ela diz, ela que se lembra de tanta coisa que eu esqueci na voragem dos anos. Pouco a pouco, revejo-a, vou dizendo nomes que julgava perdidos, vamos, a duas vozes, refazendo o quadro que vivemos, há tantos anos, há tantos sonhos. Certificados de vida estes encontros, nascidos numa idade em que nada sabíamos das mulheres que haveríamos de ser, ainda assim de pé, num abraço, sem porquê a não ser o desejo dela de vir ao encontro do meu nome que nunca esqueceu.


Licínia Quitério

19.7.14

DANÇAS


Na penumbra da sala, veio-lhe à memória o primeiro nome dele. E logo os apelidos, três. O rosto magro, os olhos a trespassarem-lhe o corpo, os dedos esguios num toque suave na cintura, a fazerem-na estremecer, a voz ao ouvido, enquanto dançavam, numa saborosa clandestinidade. Foi há tanto tempo. Passaram décadas, cada um seguiu a sua vida, raras vezes tornaram a ver-se, um telefonema por uma morte, outro por outra morte. Foram somando mortes e filhos e netos. Da última vez que se viram, numa festa do liceu, ele tinha engordado, deixara de fumar porque as artérias tinham entupido e ameaçado o indesejável. Os olhos ainda lhe trespassaram o corpo, os dedos tocaram-lhe a cintura ao de leve, amável, a indicar-lhe o caminho, mas ela já não estremeceu. 
Foi no dia em que voltou a casa e a encontrou invulgarmente fria que recordou o nome dele. Foi às agendas antigas, amarelecidas, guardadas na gaveta dos papéis inúteis, e procurou, procurou. O nome lá estava, o apelido em primeiro lugar, que ela sempre fora metódica nos seus apontamentos, um pouco esborratada a tinta pelas humidades do tempo, da casa, dos corpos. Um número  de telefone à frente, esse bem legível, de poucos algarismos, que já teria sido mudado, acrescentado, decerto. Pediu ao neto que tentasse na internet saber o número actualizado. Ele ainda refilou, a afirmar a rebeldia, mas na mesma tarde telefonou-lhe. Tinham sido adicionados três algarismos, no princípio. O nome do assinante era o mesmo, sim senhora. 
Hesitou bastante em ligar, achou-se velha tonta, julgou a ideia uma indignidade para com a memória do seu homem  que partira há muito, pensou no que diria se fosse a mulher dele que atendesse, sentiu-se corada e menina, em clandestinidades de outrora.
Foi breve o diálogo, entrecortado por breves silêncios, de uma e de outra parte:
- Desculpe, é de casa do senhor J G M T?
Uma voz jovem de mulher perguntou:
- É, sim. Quem fala?
- Uma velha amiga. Ele está?
- Não, o avô não está. 
- Ah! Gostava de lhe falar. Fomos amigos há muitos anos.
- Pois. O avô está agora num Lar. Se quiser, digo-lhe onde é. Tem visitas da parte da tarde.
Disse Ah! e desligou. 

Com certeza os olhos dele já não lhe trespassariam o corpo, agora tão desajeitado, nem os dedos lhe guiariam a cintura que engrossara.  Nunca as danças se repetem. Só as dores.

Licínia Quitério

16.7.14

A OUTRA COISA


O que eu penso, o que eu sinto, o que eu sei ou não sei, o que eu digo ou não digo, não se encerra naquele corpo que me coube na lotaria dos genes. A outra coisa, a inviolável, a única, a que não tem dimensão, a que voa sem asas, a que chora sem lágrimas, a que vai e sempre fica, a que é e não é, a que ainda está mas já não está, essa coisa que, dizem, fala e ri com aquele corpo, que resiste, que luta, que envelhece, essa coisa, fantasma de mim, é o que procuro naquela foto, e na outra e na outra que teimo em olhar, em olhar, até ao esquecimento.

Licínia Quitério

10.7.14

A PERGUNTA


A cozinha tinha uma porta que dava para o quintal e na porta havia um postigo, um quadro de quatro vidros. Naquele tempo havia muitas moscas que poisavam e caminhavam nos vidros, vagarosas. De tarde, ela observava as moscas que não faltavam ao seu passeio ao sol, nos vidros virados ao sul. Chegava-se mais à porta até elas debandarem. Deixavam marcas redondinhas, pequeninas, nos vidros, que limpava com os dedos, quando a mãe não estava a olhar. Lembra-se de encostar a cabeça ao vidro quente e ficar assim, apoiada, olhando o quintal e não o vendo. Nesse tempo, não sabe precisar quando, nesse exacto lugar e circunstância, entrou, sem se aperceber, no mundo misterioso e inquietante dos que  colocam questões que nunca chegarão a ter solução. Encostada assim ao vidro, muito quieta, formulava, interiormente, as perguntas fatais: Porque é que Eu sou Eu? Porque é que não sou outra pessoa? Porque é que tenho este corpo e não aquele? E desfiava, num mantra silencioso, uma afirmativa-dubitativa: Eu sou Eu, Eu sou Eu, Eu sou Eu… Caía numa espécie de torpor, perdida de si, até que, ao chamamento da mãe, um estremecimento lhe percorria o corpo, a anunciar o regresso de uma viagem por outra dimensão, talvez por um outro Eu, num outro corpo. As miúdas da sua idade gostavam de tagarelar sobre a pergunta quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Ela ria-se, encolhia os ombros e, depois de incitada a responder, atirava um sei lá, a mostrar indiferença pelo assunto que lhe parecia pouco interessante. Só uma vez se atreveu a dizer que o que lhe interessava mesmo era ter resposta à pergunta porque é que Eu sou Eu. As outras olharam-na com surpresa que logo se transformou em troça, de riso forçado. Não regulas bem, é o que é, e com o indicador davam pequenos toques no meio da testa.

Ainda hoje repete a pergunta, na certeza de que não obterá resposta. Conformou-se a habitar aquele corpo, a ter aquele nome, aquela vida com um Eu por dentro. O Eu que lhe coube, há já muitos anos, que bem podia ter cabido noutro corpo, noutro tempo, ou que nunca tivesse sido senão uma pergunta a pairar, um passageiro a vogar eternamente, sem origem nem destino. 

Licínia Quitério

7.7.14

PORTUGAL


Portugal dos que foram, dos que voltaram, dos que por lá ficaram. Portugal belíssimo, das casas abertas uma vez por ano, dos que ainda constroem, dos que ainda cultivam, dos que de novo partem, do temor dos incêndios, dos falares antigos casados com falares alheios. Portugal que um dia se despejou em Hendaye e em Austerlitz, de sagas intermináveis, de brava gente que resistiu ao pior, que diz "a casa feita" como quem diz "o corpo erguido", que ombreia com os melhores de cá e de lá, que está hoje num eido duma aldeia serrana com o mesmo orgulho com que se mede nas capitais do mundo. Percebi que está muito ainda por contar da história da emigração a salto, a medo, na fuga do frio, da fome, na busca de trabalho, de comer, de um mundo para os filhos. País tão lindo, de amor madrasto.


Licínia Quitério

29.6.14

SERENATA À CHUVA


A mulher  pediu ajuda para elevar a mala pesada até ao lugar que a esperava, acima dos bancos. Eram uma mulher ainda jovem, com um farto cabelo negro enrolado sobre a nuca. Devia ser viajante habitual, sabedora de comboios e do que eles podem oferecer. Tirou os sapatos  e colocou os pés já um tanto deformados sobre o pedal de descanso. Armou o tabuleiro que o banco da frente lhe oferecia e nele colocou o tablet em posição adequada para leitura. O dedo indicador direito a afagar as células invisíveis do aparelho, as imagens a descerem, a subirem, a correrem, de cá para lá, a fecharem, a abrirem textos e imagens. Fixou-se por fim no fac-simile duma página de um livro sobre direito de qualquer coisa, um daqueles textos para quem estuda ciências jurídicas, se assim as posso nomear. Uma, duas, três páginas e desistiu do estudo. Deu uma volta pelo Facebook, o dela e os de alguns amigos, não fez comentário algum e mudou de rumo. Colocou os minúsculos auscultadores nos ouvidos, ligou os fios ao tablet, procurou um filme, só uma passagem, a mais famosa. Gene Kelly cantava, só para ela, a Serenata à Chuva e dançava, dançava. Just walking in the rain, dizia a boca dele,  a mulher a meu lado movimentava a cabeça, levemente, a compasso, e os pulsos também rodavam com o guarda-chuva de Gene. Tão antigo o filme, tão nova ainda a mulher que, em vez de estudar, se decidiu pela magia do cinema, da música, agora aprisionada no seu tablet, a dar-lhe um sopro de felicidade naquela viagem de comboio descendente.  Saiu antes de mim, sorriu-me, como que a dizer que percebera o meu interesse em lhe espreitar o tablet, a música que só ela ouvia e eu também sabia. Somos todos assim, com uma música em comum. Pode é acontecer que nunca nos sentemos lado a lado no mesmo comboio descendente.

Licínia Quitério


21.6.14

O TELEMÓVEL



O meu telemóvel é um telefone que telefona e é telefonado, manda uns recados teclados e recebe outros. Ah desperta-me à hora aprazada, tem uma lanterninha  que dá um jeitão quando o quadro eléctrico faz pum!. E ainda tem para lá mais umas coisitas que não uso, que não me fazem jeito nem falta. Dir-me-ão: mas isso é um aparelho do paleolítico. Não tens um Hi qualquer coisa, pad, pod, inteligente, ou outro com outros nomes, curtos, estranhos, estranjeiros? Não, não tenho, nem preciso, nem quero. O mais complicado será quando o meu flintstone morrer e eu tiver que ir a uma loja da especialidade comprar um sucessor. Antes, compro uns manuais, consulto especialistas, se for preciso frequento mesmo um curso de formação para utilizadores. Depois, porque já tenho antecedentes nestas andanças, chego à loja e digo: quero um telefone que telefone, não tire fotografias, não cozinhe, não faça ponto-cruz e seja, de preferência, a preto e branco. O mais provável será eu sair da loja com uma cafeteira eléctrica que isso é que anda mesmo a fazer-me falta. Não sou assim tão avessa às modernices. 


Licínia Quitério

18.6.14

A OUVIDORA


Acho que sou uma boa ouvidora. Deve ser por isso que amiúde pessoas me procuram para que as oiça. Chegam e ficam, durante horas, a falar, a contarem-me histórias, verdadeiras ou inventadas, tristes ou alegres, vulgares ou inacreditáveis. Vidas que parecem banais, lineares, no desfiar da voz desenrolam-se, desdobram-se, alimentam-se, excedem-se ou apaziguam-se. Não sei quantas histórias já ouvi, quantos relatos de amores, de dores, de perdas, de carências, de desditas, também de comicidades, de curiosidades, de extravagâncias. O ouvidor concede quase sempre um intervalo na solidão, um tempo de inclusão no relacionamento humano, um pequenino aceno de concordância ou discordância, mas sempre de presença, uma presença viva, atenta, paciente, disponível. Nem sempre volta, o falador. Há quem se arrependa de ter falado a quem nada perguntou, de recear a quebra do sigilo que a conversa impõe. É assim com os menos confiantes em si próprios e nos outros, com os tímidos, com os orgulhosos. Voltam quase sempre os que se entregam, os que dão, os que procuram sem vergonha o outro extremo da própria voz. Ouvir quem quer ser ouvido não é uma ciência, é uma arte que involuntariamente aperfeiçoo e com os falantes me enriqueço, me entristeço, me percebo um pouco mais. A fala é dos maiores dons da Humanidade. Oiçamo-la.

Licínia Quitério


RONALDO


SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

O rapaz é apolíneo, hercúleo, herdeiro de dons olímpicos. O rapaz tem a elegância de um discóbulo e a ligeireza de Hermes. É expressiva a face do rapaz, com o sorriso de menino, ou o esgar das fúrias, ou o grito retumbante dos vencedores. O corpo elástico fá-lo gazela ou lince ou arco ou flecha. Certeiro, o rapaz. Perfeito. As multidões adoram-no, incensam-no, incitam-no. As multidões precisam de deuses assim, solares, como o rapaz que acende verões com o seu esplendor, a sua sugestão de vitória para sempre. Quando falhar, será um deus apeado, esquecido, como os outros. Chama-se Ronaldo, o Cristiano.

Licínia Quitério

foto da net

6.6.14

SERÁ TALVEZ...


Será talvez o efeito da usura do tempo que me atraiu nesta porta que já foi sinal de riqueza de gosto e de meios dos seus proprietários. Nova se chamou a arte que nasceu na época, com os seus novos conceitos de socialização e de apreço pelos elementos naturais. Vinha aí um novo tempo e deles a casa foi testemunho. Hoje deixa-se violar pelo tecido da aranha, pela pedra afiada. Bela ainda, na velhice, a casa, a porta, em que pousei o olhar.
 
Licínia Quitério

30.5.14

A PALIDEZ


Estava tão pálido que as manchas da idade sobressaíam no rosto como um arquipélago de ilhas desertas.  As mãos afadigavam-se a amarrotar um boné que há pouco o protegera da chuva miúda. A televisão transmitia, sem som, um programa vulgarmente designado de entretenimento. Sentou-se mesmo por baixo dela, desinteressado, alheado. A seu lado, um suporte de revistas antigas com retratos de figuras conhecidas  do espectáculo. Nem as olhou. Possivelmente nem reparou nas únicas duas outras pessoas na sala de espera da clínica. A mulher obesa, de ligaduras na perna inchada, que suspirava abundantemente, e o jovem absorto a passar as polpas dos indicadores no écran do seu telemóvel inteligente. O homem era mais pálido por causa da luz artificial da sala, instalada há décadas na cave húmida e escura da clínica privada. Reparando melhor, também a mulher gorda e o rapaz do telemóvel se apresentavam descorados, baços, e a napa que revestia os assentos era de um rosa pálido, desbotado. Nos painéis  de madeira que faziam de paredes, alguns cartazes a anunciarem especialidades médicas, a avisarem que os exames devem ser levantados dentro de xis meses, a pedirem silêncio no corredor muito estreito onde se cruzam pacientes, médicos, funcionários administrativos, dizendo “desculpe”, “com licença”, uns numa pressa, outros penosamente ajudados por  bengalas mecânicas ou, com alguma sorte, humanas. Dos vários gabinetes saíam vozes, quase sempre femininas, fazendo a chamada do paciente seguinte. O homem pálido foi o último a ser chamado para um gabinete por detrás de uma das paredes de madeira e que tinha uma tosca tabuleta que dizia RADIOLOGIA.  Quando desapareceu e a porta se fechou, a sala ficou vazia, pálida, húmida, triste, sem ao menos um vasinho de flores que, pensando bem, depressa murchariam na luz fraca da cave.  Há lugares assim, neste mundo de vivos, longe, muito longe da provável alegria.

Licínia Quitério



13.5.14

N S F



No treze de Maio, lembro-me sempre dum outro treze, do fim dos anos quarenta, em que tivemos de colocar nas janelas umas luminárias com as iniciais N.S.F., abrir as janelas e acender as luzes da casa. Sabido que era não sermos uma família religiosa, foi meu Pai avisado de que correria perigos se não colaborasse colocando a iluminação, distribuída de casa em casa, à passagem da procissão. Eu fiquei à janela, encantada com as luzes das velas e os cânticos do padre ou seus acólitos. No chamado "carro de som" alguém gritava: "Nossa Senhora de Fátima livrai-nos do comunismo. Nossa Senhora de Fátima rogai por nós. Afastem-se do carro". E a multidão, maioritariamente mulheres, de véus ou lenços na cabeça, conforme a classe social, rezava em coro. Minha mãe punha um lenço e ficava à janela também. Tinha muito medo. Meu pai deitava-se ainda mais cedo. Eu gostava daquela festa e não entendia lá muito bem a zanga do meu Pai. Não tardei muito a perceber. Era a guerra fria que passava na rua e nós tínhamos que ser dos bons. Dos maus a Senhora de Fátima nos livraria se rezássemos muito. Nessa altura eu já era bastante desobediente e assim continuei até hoje.

Licínia Quitério

foto da net

11.5.14

AS AUSTRÍACAS


Eram conhecidas pelas Senhoras  Nunes e nenhuma delas se casou. Dedicavam-se a ensinar crianças pobres a ler, a escrever, a contar, a rezar. Não eram ricas, mas herdeiras de um ar distinto e senhorial que as fazia respeitadas. Generosas, cultas, católicas convictas, praticantes assíduas, mas sem nunca serem referidas como beatas, que delas se distinguiam por alguma altivez e finura de maneiras. Veio a guerra que tingiu de sangue a Europa. Salazar mantinha uma neutralidade complacente com o nazi-fascismo, naquela muito sua manha de estar bem com Deus e com o Diabo. Em plena guerra, anos quarenta, apareceram em casa das Senhoras Nunes duas meninas estrangeiras que, soube-se, se tinham disposto a acolher, fugidas que vinham do seu país, a Áustria, esmagada por Hitler. Eram as refugiadas, assim chamadas nas terras de acolhimento, sem que alguma vez se pronunciasse a palavra judias.  Vi-as aos domingos, a caminho da missa, ou em fins de tarde de novenas muito praticadas na altura. Eram bonitas, mais loiras e mais brancas do que eu, bem mais corpulentas, tendo aproximadamente a mesma idade que eu. Davam as mãos às Senhoras Nunes, caminhavam muito sossegadas e quase não falavam. Eram para mim motivo de curiosidade, que delas apenas sabia que tinham nomes estranhos e um dia voltariam para o seu país, o que aconteceu anos mais tarde. Uma delas voltou em visita às Senhoras Nunes, já mulher, grande, loira e bonita. Eu não soube mais da saga das meninas austríacas que passavam na minha rua aos domingos ou de semana em fins de tarde. Sei hoje que enquanto estiveram ao abrigo das bondosas senhoras praticaram a religião que não seria a delas, certamente. Que contarão as meninas, se ainda viverem, tão ou mais velhas do que eu, daqueles anos em que rezaram o terço, numa língua que não era a delas, num país que não era o delas, sem as famílias que por certo não voltaram a ver? Para mim foram a notícia mais próxima de uma guerra que eu não conhecia.

Licínia Quitério

10.5.14

CARTAGENA DAS ÍNDIAS


Ao ler no Público, no seu suplemento FUGAS, um artigo de Andreia Marques Pereira, sobre Cartagena das Índias, relembrei o lugar onde, por graça da vida, me encontrei vagueando durante um dia de não muitas horas. De tudo o que vi e ouvi, senti Gabriel García Marquez e os seus personagens, especialmente os de Amor em Tempo de Cólera. Procurei avidamente o balcão de Fermina Daza e o trote do cavalo de Florentino Ariza. Apesar da avalancha de turistas e vendedores ambulantes, não me foi difícil perceber a paixão de Gabo por aquele lugar, a cidade violenta e vitoriosa como lhe chamou. Das arcadas do antigo mercado de escravos ao palácio-museu da Inquisição, às cúpulas renascentistas, da mansidão do grande relógio à pressa do guia, foi quase uma tontura que me permitiu pensar no escritor que nos ofereceu o deslumbramento do realismo mágico, com as cores vivas dos muros, a quentura das brisas, a lentidão suada das gentes assoladas por piratas de tempos vários. Voltei lá hoje, lendo. Não preciso de voltar. Não devo. Seria já outra coisa.

Licínia Quitério

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