4.5.14
7.4.14
HAVIAS DE GOSTAR
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:38 da tarde
2.4.14
A PRIMAVERA
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:11 da tarde
30.3.14
PICO, PICO, SERENICO
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:12 da tarde
23.3.14
MUITOS FILMES
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:38 da tarde
15.3.14
LER O JORNAL
Nunca encontrei lugar melhor para ler um jornal do que uma mesa de café, de preferência com tampo quadrado, com sessenta por sessenta. Em casa, nunca tive uma mesa dessas e duvido que, se a tivesse, fosse a mesa de ler o jornal, sem que logo se atafulhasse de papéis, livros, esferográficas, corta-unhas, um pacote de açúcar, o comando electrónico de qualquer geringonça. O certo é que a leitura de um jornal em casa me obriga a esforços que me põem mal disposta . Pode ser a mesa da sala, que tem mais de sessenta numa das dimensões, mas é baixota e não está tão perto do sofá que não me obrigue a debruçar-me, as costas em desamparo, a barriga a dizer que agora é maior e já não admite dobragens como antigamente. Há a mesa de trabalho, vulgo secretária, com o extenso tampo e a cadeira ergonómica, confortável. Apenas um inconveniente, ou melhor, um somatório deles: o tampo está literalmente cheio, de teclados, ratos, monitores, parafrenálias dos novos tempos, e mais as dos antigos que coexistem: os vasinhos cheios de canetas, a tacinha dos clips, os papéis e os pisa-papéis que não pisam mas são pisados pelas várias pilhas de livros prontos a colapsar. Pode-se abrir um espacinho, a custo, clareira em densa floresta, mas não dá. O espaço é sempre menor do que o tablóide aberto e lá ficam os cantos do papel dobrados, presos, amarrotados, a não deixar continuar, sem sobressalto, a leitura do texto que continua duas páginas mais tarde. Há a cama, claro, da leitura antes de dormir, mas aquele esticar de braços, as almofadas a escorregarem, o corpo a afundar, o ajeitar permanente dos óculos, a letra de tipo minúsculo que não se conforma com o foco de luz do candeeiro. Resta a mesa da cozinha, mas há sempre o pecado das nódoas, das migalhas que se insinuam por debaixo do papel e picam ao de leve o cotovelo que em má hora resolvemos apoiar sobre a página dos anúncios. Mais soluções sempre terá a casa, por muito pequena que seja, mas nunca me servirão. Tive há pouco a minha hora de luxo, no café a ler um jornal, muito mal escrito quase na sua totalidade, mas à medida da mesa onde até cabe a chávena da bica e mais o pratinho do bolo e o copo de água, tudo em devido lugar, sem incómodo para o folhear deleitoso do jornal, para trás, para diante, até ao fecho e dobragem em canudo que se instala pacificamente debaixo braço. Um mundo perfeito assim não cabe nas casas onde tenho vivido. Ainda melhor do que isto era aquela mesa onde o jornal dava para dois, muitas vezes para três, e a mesa devia ser extensível, porque o jornal era à nossa medida, à medida dos nossos silêncios, só interrompidos porque uma notícia nos provocava para uma conversa sem fim, o jornal já debaixo do braço, e a conversa a continuar, já sem a mesa, mas nós ainda presos à hora perfeita do encontro. Acho que só se ama verdadeiramente quando se lê o mesmo jornal, na mesma mesa, no mesmo café, e nada disto é monótono e tudo é irrepetível, até o silêncio profundo em redor da mesa que parecia ser única naquele café cheio de gente ruidosa. Hoje, a tal mesa com sessenta por sessenta é o quadrado perfeito da imperfeição dos meus dias.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:38 da tarde
14.3.14
MANIFESTO
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:37 da tarde
10.3.14
A LOJA DA MATILDE 2
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:10 da tarde
9.3.14
OS TURISTAS
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
6:46 da tarde
7.3.14
O MEU TESTEMUNHO
![]() |
Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:59 da tarde
3.3.14
À MANEIRA DE REQUIEM
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:23 da tarde
22.2.14
O CORPO
O corpo nasceu da pedra fria. Um homem o sentiu e o despiu de todo o excesso, de toda a fealdade. Descobridor de estátuas, humilde ofício é o do artista.
Licínia Quitério
|
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
6:53 da tarde
13.2.14
FLORESTA
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:46 da tarde
AS PESSOAS MUDAM
Hoje bateu-me à porta alguém chegado de um tempo em que todos eram velhos, uns mais do que outros, a não ser o Herlânder e a Neuza e os que eram novos como eu. Só os velhos, uns mais do que outros, é que não pulavam todo o dia e alguns ficavam muito sossegados nas cadeiras, com ou sem mesa, calados ou a conversarem. Hoje bateu-me à porta uma mulher daquelas mais velhas que já devia ser velha quando eu, o Herlânder e a Neuza corríamos, rua abaixo, rua acima, e gritávamos, porque só os velhos é que falavam baixo e devia ser por isso que nós não os ouvíamos.
A mulher que hoje me bateu à porta tinha um lenço preto a
tapar os cabelos brancos que eu bem os vi a espreitarem por cima da testa. No outro
tempo, havia muitas mulheres com cabelos brancos escondidos em lenços pretos.
Eu, o Herlânder e a Neuza até nos ríamos delas que pareciam as bruxas das
histórias, mas não tinham vassouras. Algumas tinham só os cabos e não sabiam montar-se
neles, por isso andavam muito mal e nunca voavam.
A mulher velha que hoje me bateu à porta trazia um ramo de
flores parecidas com as que havia no quintal da minha avó e que agora já não se
usam. Disse-me se as queria comprar e eu fiquei admirada porque as flores do
quintal da minha avó não eram para comprar. Também não eram para roubar, mas
era o que eu fazia, sem ela saber, para dar à Neuza, que o Herlânder dizia que
flores eram coisas de menina e ele não era maricas.
Nem todos os dias aparecem a bater-nos à porta velhos de
outros tempos e eu até pensei em contar isto à Neuza e ao Herlânder, mas depois
é que me lembrei que eles já cá não estão e quem sabe se a Neuza já não corre
tanto rua abaixo rua acima e o Herlânder gosta de flores, sem medo que lhe
chamem maricas.
As pessoas mudam muito.
Licínia Quitério
|
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:48 da tarde
26.1.14
SALAMANCA
Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:12 da tarde
16.1.14
PRONTO
Pronto para as batalhas, o general guardou os medos na gola do capote e avançou. Perdeu, ganhou, sofreu e voltou. Partiu ainda jovem, perdida a última batalha com a senhora-do-medo. Vemo-lo hoje, na branca pedra, o susto no olhar, a gola de general impecavelmente erguida. Licínia Quitério Nota: resposta a desafio em http://outrostemas.blogspot.com |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
12:35 da tarde
14.1.14
PENÉLOPE
![]() |
Era dia e Penélope tecia. Esperava e tecia e a idade crescia. E a raiva crescia e a cama vazia e a cidade vazia. Quando a noite chegava, a teia minguava, Penélope chorava, na cidade chovia. Ulisses navegava, Ulisses naufragava, Ulisses não cuidava, Ulisses não sabia, Ulisses não voltava e a teia não crescia. Outro esposo Penélope não queria, outro rei, outra lei a cidade não queria. Ainda ela tecia e Ulisses voltou e ninguém reparou como Ulisses mudou, como Ulisses sofria, como Ulisses chorou. Só o cão o cheirou, só o cão se deitou na velhice de Ulisses. Era noite e a teia encolhia, e outro dia haveria de a teia terminar, de Ulisses regressar ao seu trono vazio, às mãos da tecelã, sem tecer, sem tecer, a mirar, a mirar, a velhice de Ulisses, o cansaço de Ulisses, o cão fiel de Ulisses. Na cidade chovia. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
5:00 da tarde
12.1.14
EUSÉBIO
Só uma vez, dois anos atrás, vi Eusébio pessoalmente. Eu estava num restaurante, e olhava a rua através da montra. Vi-o sair de um automóvel, com enorme dificuldade, ajudado por um amigo. Atravessou a estrada, em direcção ao restaurante, apoiado no outro homem, com uma debilidade imensa, as pernas frouxas como papel ao vento. Foi nas pernas que fixei o olhar e o pensamento. Com aquelas pernas ele tinha conquistado o mundo, as mesmas pernas que agora se recusavam a deixá-lo avançar senão arrastando-se. É nesse momento em que vi Eusébio que penso hoje, sem me admirar, sem me entristecer. Um homem, por muito grande que tenha sido, começa a morrer muito antes da sua morte. Nós é que nos recusamos a pensar nisso.
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
7:04 da tarde
28.12.13
A CIDADE DE LUME
![]() |
Era no Inverno que ela floria. No Inverno, quando o frio
empurrava as mulheres para dentro das
casas, para dentro das vidas, a juntarem pedacinhos de lã, pedacinhos de
lembranças. No tempo em que o vento se esgueirava pelas frinchas das portas,
pelo buraco da chaminé, e a chuva alagava o pátio, alagava as meias dos
caminhantes. No tempo em que a chama do candeeiro se apagava quando a porta do
quintal se escancarava. O tempo das grandes noites, dos dias escuros e das
frieiras a magoarem os dedos. Era esse o tempo em que a menina vivia de lume,
vivia no lume, era o lume. No banquinho de madeira, esperava pelos carvões que haveriam
de se deitar na braseira de cobre. Vermelhos os do centro, negros os que em
redor se amontoavam, aguardando a sua vez de serem incêndio. Ali ficava a
menina, o queixo nas mãozitas, os cotovelos nos joelhos, em encaixe perfeito, equilíbrio e conforto. Era o seu tempo de
florir, os olhitos presos no mundo ardente dos carvões. Na cabecita nasciam histórias da cidade de
lume, com as suas ruas povoadas de pequeninos seres de lume que se moviam
atarefados, num sem-fim de subidas, descidas, avanços, recuos, como quem vive,
mesmo sem lume. Ali ficava, presa nas histórias dos seus homenzinhos de lume,
ou mulherzinhas, que eram iguais, de tanta luz, de tanto brilho. Quando os
olhos se cansavam de serem flores de
lume, o brilho da cidade esmorecia, acalmava, abrandava, desmaiava, e os olhos
fechavam-se, docemente, como se fecham as flores. Amanhã voltaria, o queixo nas
mãozitas, os carvões acesos, os homenzinhos na cidade, numa azáfama, as
histórias a começarem na cabecita da menina da cidade de lume. Era assim, no
Inverno.
foto da net |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:19 da tarde
26.12.13
UM PEDAÇO DE MAR
Um pedaço de mar é o que nos fica no olhar, abandonada a praia, quando nos chama a terra firme, a alta montanha que nos promete o céu. Um pedaço de mar é o que trazemos no olhar, na viagem de regresso, sabida a montanha que não nos deu o céu. Um pedaço de mar viaja connosco, mesmo quando a viagem não é mais longa do que a praia.
Licínia Quitério
|
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:57 da manhã
17.11.13
NEVE
Caiu neve na serra. É o que ela
diz, acrescentando açúcar no café, com a lentidão da manhã enfiada nos dedos.
Queria dizer mais coisas, outras coisas, mas a frase saiu com um ponto final e
ele não é homem de continuar um texto, de o ajudar a não morrer assim, seco,
impertinente. Tem o jornal para ler e, na sua importância de leitor, fecha-se
ao mundo, fecha-se à voz dela, que outra atenção não merece, que ela costuma demorar-se em oratórias, enquanto
bebe o café, enquanto toma duche, enquanto faz amor. São assim as mulheres, é o
que ele afirma, passado o viço, passado o vício. Falam e só para elas falam, no
desfiar de lamentos, de toadas dos
tempos de embalar, dos tempos de dançar, dos tempos do viço, do vício.
Se caiu neve na serra, se o filho
não apareceu, se a outra não fala, só sorri, se o outro acrescenta frases às
frases dela e sorri, se tudo há-de ter seu caminho e foz, é porque a hora virá de
a neve derreter, de se querer lago e afogar.
Licínia Quitério
|
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:09 da tarde
6.11.13
TEJO
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:53 da manhã
3.11.13
IR E VOLTAR
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
9:22 da manhã
23.10.13
APARIÇÕES
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:35 da manhã
14.9.13
SETEMBRO
O meu plátano não falha no seu cuidado de me anunciar o Outono. Todos os anos manda as primeiras folhas perdidas roçarem a minha porta, num vozear vegetal, feito de estalidos e sussurros arrastados. Foi assim hoje. Reconheci o toque, abri a porta e recolhi a folha maior, enorme, lindíssima no seu ainda verde mesclado de anúncios de dourado. Vai ser guardada até para o ano, se eu e o plátano mantivermos a nossa relação. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
1:14 da tarde
31.8.13
DONA CUSTÓDIA
| Na loja da dona Custódia havia tudo, cabia tudo, nada se limpava, nada se fiava, nada tinha peso certo, nada tinha preço certo. A montra da loja da dona Custódia era um amontoado de objectos, grandes, pequenos, médios, de caixas, mais ou menos amolgadas, de moscas mortas de tédio, lá pelo meio. A loja onde reinava, absoluta, a dona Custódia, era um armazém de objectos, de sacos, de sacas, de tulhas. No balcão que sobrava dos objectos, dos sacos, das caixas, dos papéis, cabiam a balança e a os braços da dona Custódia que se adiantavam até às mãos dos fregueses a quem pedia que mostrassem o dinheirinho que traziam, antes de aviar a encomendinha. Falava por diminutivos, com ternurinhas de beata, o dinheirinho, a moedinha, meu menino, minha menina, pede mais dinheiro ao paizinho, diz à mãezinha que a Custódia não tem, valha-te nossa senhora, quem não tem dinheirinho não tem vícios. Era assim. Toda a gente ia à loja da dona Custódia, porque lá havia de tudo, de tudo o que mais ninguém tinha, de tudo o que já ninguém supunha que havia. A ratoeira para os malandros dos ratos, o petróleo para o candeeiro, o vidro para o candeeiro que pum! estalara, o candeeiro, a torcida para embeber no petróleo do candeeiro, o bocal para o candeeiro que o outro estava todo retorcido, os fósforos para dar à luz. Na dona Custódia havia tudo. Muitas vezes, a dona Custódia demorava a fazer o avio, porque não era fácil sacar um vidro de candeeiro que morava na prateleira mais alta, à esquerda de quem entra, mesmo por detrás dos atados de chinelos, e das fitas peganhentas para apanhar moscas. Valha-te deus, menino, que trabalhos estás a dar à Custódia. A dona Custódia roubava no peso, no preço, na qualidade. Toda a gente sabia e gostava. Era assim. Ela tinha tudo o que fazia falta. Menos bondade, lá isso, mas uma pessoa com tanto dinheiro e um marido cobardolas em quem mandar não podia dar-se ao luxo de virtudes para além das que a santa madre igreja ordenava e de cuja falta sempre absolvia, mais padre-nosso, mais dízima à paróquia, mais mordomia pelas festas grandes. Era assim no tempo antigo do fado antigo da dona Custódia de carrapito e óculos de aros negros, redondos, de mãos estendidas para os dinheirinhos dos meninos. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:02 da tarde
29.8.13
OS ANOS
![]() |
Morreu, o cão. Nos seus anos de ser cão, quase duas décadas deviam ter passado. Agora a dona não traz as duas voltas da trela acrescentadas às pulseiras várias e coloridas. Tem mais simetria no andar, mais disponibilidade do braço para ajeitar com elegância o chapéu que faz mudar com as estações do ano. Os olhos, escandalosamente azuis, não dizem dos seus anos de dona. Na falta do velho cão que lhe alentava o passo, adianta-se ainda mais ao dono que envelhece largamente nos seus anos de dono e que tem um braço para a bengala e o outro para os grandes sacos que a dona faz questão de encher de belezas e saudades. Não se consegue saber a que filme pertencem, a que livro, a que quadro, a que história que nos tenham contado. Devem ter-se amado loucamente, saltado barreiras, regressado a conveniências, a velhas caixas. Chegou o tempo, este, de se detestarem. Daí a aspereza com que ela lhe fala, ao sacudir, com as costas das mãos de veias azuis e verniz escarlate, as migalhas de bolo que ele sempre deixa cair na aba do colete de teen-ager. Os olhos dele estão cada dia mais pequenos, mais baços. Tenta acompanhar o andar apressado da sua Miss Daisy mas é obrigado a parar, por momentos, o fôlego a quebrar, a raiva a crescer, a mão na haste da bengala, num simulacro de golpe de Zorro na colecção de cromos, escondida no forro da gaveta da mesa de cabeceira. À vista do fim, o amor torna-se insuportável, sufocante, e vira do avesso onde se lê o ódio. Um deles irá à frente, naturalmente, terminada a contagem dos seus dias de gente. O outro chorará, sinceramente, o amor perdido, o tempo perdido, o cão tão bom amigo de homens e mulheres que outras histórias não gostam de contar. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
4:25 da tarde
25.8.13
NPV
Estas, no retrato, são as minhas couves do pé da porta. São as melhores, as mais saborosas, as mais vistosas, as mais simpáticas, as verdadeiras-couves-como-já-não-se-fabricam.
A minha equipa cuidará das couves deste quintal como jamais alguém o fez. Projectará a sua qualidade e beleza ímpares muito para além das fronteiras do meu quintal. Daremos continuidade às boas regas, às boas podas, às boas práticas. À frente da equipa está gente que nunca tocou num adubo químico, que nunca vendeu couve por coelho, que é devotada à causa do quintal como à da sua família.
O nosso slogan: ASSIM SE COMEM AS COUVES.
Vote em nós.
DONA TELA"
Excerto do jornal de campanha do NPV- Novo Partido Vegetal
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:53 da tarde
21.8.13
AS PAREDES AZUIS
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
9:58 da tarde
20.8.13
O CAFÉ
Paguei. Recebi o troco. Tudo certinho. De momento sem mais clientes, o rapaz dedicou-se ao sector financeiro. Uma nota que, presumo, fosse aquela com que lhe paguei, foi enfiada no bolso. A caixa da registadora, que não funciona, foi aberta, com uma leve pressão dos dedos. Dela retirou umas moedas que transferiu para uma caixinha verde, noutra bancada. Acabei de assistir a uma operação corrente. Um investimento em bolsa e o remanescente em off-shore. Encerrada a operação, voltou para o balcão e olhou-me, tranquilo. Percebi que quem me tinha servido o café era o ministro das finanças. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:08 da tarde
14.8.13
A VIAGEM
Há quanto tempo morrera o que chamara A Viagem? Sabia exactamente o dia, a hora. Quatro da tarde, o sol perigoso, o abrigo do guarda-sol de riscas rosa e laranja. A mão na testa suada dele, em toque leve, hesitante. Vamos então? Posso marcar com a agência? Sentiu-lhe o estremecimento. Total, da raíz à copa. Disse não, já marquei. Levantou-se, pegou na toalha, nervoso. Sabes com quem vou. E, quase num grito, é melhor acabarmos com isto de vez. Foi no dia de Verão em que a noite se fez mais cedo, mais escura.
Olhou o relógio. Eram duas da
tarde naquela terra em que o sol chegava uma hora antes. À mesa do almoço,
incluído no pacote A Viagem, com mulheres que umas às outras se acompanhavam. As
pernas pesadas, cruzadas com esforço. A Viagem estava a ser dura e o calor
mordia-lhe as pernas dantes tão bonitas, a soltarem assobios nos olhos dos
homens. Fitava a das argolas faiscantes, poderosa ainda. Se fosse como ela,
quem sabe pensaria em, como se diz, refazer a vida, desfazer os anos,
inaugurar, porque não, uma nova paixão. Foi um relâmpago de desvario que lhe
trouxe os olhos azuis, magníficos, estuporados, de Donald Sutherland, no rosto
fechado do jovem empregado que lhe atirava vous voulez quoi, Madame? A carne.
Estava mal passada, rosada no interior que ela exibia, de garfo e faca
assestados na ferida. A Viagem é também aquilo. Decidir, exigir, protestar,
silabar Ca-pa-dó-ci-a quando dizem Palma de Maiorca, calar-se quando se erguem
os Himalaias na voz maiúscula do Homem-que-já-deu-duas-voltas-ao-mundo.
Tanto cansaço, tantas horas,
tão longe o chapéu de sol às riscas, tão sem sabor A Viagem finalmente ressuscitada,
tão diferente da outra, tão mal passada a carne.Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:36 da tarde
11.8.13
A MESA DA MÁQUINA
A Avó era pequenina, redondinha, airosa ainda no seu traje de viúva. Costurava os seus trapinhos numa máquina de manivela, sem pedal, que assentava numa mesinha de madeira, com um muro baixinho à volta do tampo, não fosse a máquina-só-tronco estremecer e sair mesa fora. A Avó sentava-se numa cadeira que dizia austríaca, de madeira preta, torneada, de assento de palhinha, a que mandara cortar uns bons centímetros de pernas, à medida da altura da Avó, da altura da mesa da máquina.
A máquina foi-se embora, a Avó também e mais a cadeira. Por artes de partilhas e repartilhas, sem eu dar bem conta, a mesa da máquina-só-tronco veio habitar o meu sótão das coisas sobrantes de vidas encerradas. Por capricho de recolectora de memórias em que me tornei, a mesa, já sem murete, pintada de vermelho, com tampo revestido de linóleo também sobrante de outro tempo, com sua gaveta de fechadura de chave perdida, instalou-se na minha cozinha, em parelha com banco de buraquinho no assento. A máquina deu lugar aos meus vasos de orquídeas, flores desconhecidas no tempo da Avó pequenina, que dava à manivela da máquina, no acerto e transformação de seus bem amados trapinhos.
Licínia Quitério
|
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
2:54 da tarde
3.8.13
PELAGENS
![]() |
Tomara acabem as férias dele.
No 112 não pode ir o cão, o da pelagem cor de café com
leite. Diz a lei.
Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
8:34 da tarde
30.7.13
A CASINHA DA EIRA
Quando nos recebem numa casa assim, A Casinha da Eira, feita e mantida por várias gerações de obreiros incansáveis, preservada com esforço e carinho, no respeito pelos objectos que atestam usos e trabalhos, renovada no serviço de refeições frugais, de conversas amenas, de risos de crianças, quando entramos numa casa assim, dizia, é como entrar num verso em que todas as palavras encontraram o seu lugar, sem artifícios nem desperdícios, isto é, as palavras imprescindíveis para vogar na suprema arte de ser simples. Licínia Quitério |
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
7:29 da tarde
10.7.13
A ORQUÍDEA
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:43 da manhã
2.7.13
26.6.13
AS COISAS
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
3:39 da tarde
22.5.13
A MASTABA
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
11:27 da manhã
1.5.13
OLAIA
Licínia Quitério
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
7:21 da tarde
29.4.13
CRISE
Publicado por
Licínia Quitério
Por favor comente clicando nas horas
10:22 da manhã










