4.5.14

CHOCOLATE


Era uma loja pequena, envolta naquele cheiro quente e doce do chocolate. Em toda a loja havia chocolates e os chocolates eram de todos os feitios, cores, texturas, recheios. Para todas as ocasiões, como se notava pelos anjinhos prontos para a comunhão solene. Sentei-me na cadeira rococó,  enquanto as amigas escolhiam por entre aquela girândola de bombons, correndo o balcão em L de uma ponta à outra, numa indecisão de quem escolhe quando a oferta é exorbitante. Enquanto olhava em redor, catando os movimentos, eu pensava que tudo naquela casa era feito de chocolate. As paredes, o tecto, o chão, os móveis, tudo como num conto germânico de infância.  Mas o mais espantoso era a senhora de idade, como se diz de quem passou alguns "entas", magrinha, pequena, as costas já curvadas de tanto se dobrar sobre o balcão, de pinça e caixinha, a escolher, este, este não, aquele, mais um, com rapidez, de passinhos miúdos e deslizantes, a cabeleira impecavelmente penteada, os brincos, o colar com um pendantif, os óculos de aro dourado. Falava a senhora dos chocolates, enquanto escolhia, mais um destes, mais uma caixinha, das pequenas. Falava do seu desejo de viajar, de sair dali, de deixar o cheiro quente do chocolate e partir, por uns dias que fosse, para um país de sol e mar. Não podia. O marido não gostava de viajar, o filho também não, as amigas abastadas faziam viagens caras demais para ela, as amigas menos afortunadas não tinham dinheiro que chegasse. Deu um suspiro, endireitou quanto pôde o arco das costas e disse: É tão difícil, uma mulher sozinha.
Levantei-me, as amigas já tinham as suas caixinhas de delícias, olhei mais de perto para a senhora de olhinho triste.  Pensei: se ela fosse também de chocolate não havia de querer trocar a loja por uns dias de sol e companhia. Isto de ser de carne e osso, e mulher e sozinha tem que se lhe diga. Não é doce, não, pensa a senhora da loja dos chocolates.
Licínia Quitério

7.4.14

HAVIAS DE GOSTAR


Havias de gostar. Das memórias, das histórias. Havias de gostar. Dos que vieram do longe e do perto e dos abraços que deram. Da força ainda sobre os vidros, da alegria ainda sobre as dores. Havias de gostar que não estivessem os que se perderam, os que trairam, os que nunca foram. Havias de gostar que eu não vacilasse ao dizer o que foi, com quem foi.  Havias de gostar de saber que tudo percebeste e ensinaste e, diria eu,  adivinhaste.  De tal maneira havias de gostar, que lá estiveste e desfizeste o nó que eu tinha na garganta. Depois cantei.

Licínia Quitério

2.4.14

A PRIMAVERA


Sabemos que a Primavera é menina de caprichos, instável, imprevisível, de humores vários, temperaturas várias, de alto a baixo da escala, de roupas frescas e abafos, de neve na serra,  de chuva de manhã, de sol à tarde, de arco-íris e de nevoeiros. Também de alergias e gripes tardias, de neuras e depressões, de súbitas paixões, de súbitas separações, de desejos inconsequentes. Dou por mim a perguntar como será viver num país de outros meridianos, de outros paralelos, sem Primavera, sem Outono, sem estas estações de classe média, responsáveis, assim dizemos, por toda a nossa inquietude, pelos espirros e pelos desamores, pela vida mediana e mesmo assim esperançosa que nos faz acreditar em florações perenes, como se as árvores as pudessem suportar.

Licínia Quitério

30.3.14

PICO, PICO, SERENICO


Pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, dizia a avó, as mãos pousadas na saia preta de viúva de muitos anos, e a menina tentava acompanhar o ritmo da lenga-lenga  com os deditos minúsculos beliscando, entre o indicador e o polegar, as pregas da mão velhinha, com manchas castanhas e estradas azuis sob o véu da pele. Gostava a menina daquela mão, diferente da sua, diferente da da mãe, com as  pregas que os seus deditos iam pegando, aumentando, desfazendo, pico-pico serenico. Ficou-lhe o retrato da mão da avó, tão bonita, tão disponível, sossegada no colo, na cadeira baixinha, e a voz macia a repetir, pico, pico, serenico, quem te deu tamanho bico, e o resto que esqueceu. Não pode lembrar-se de tudo, mas as mãos da avó permanecem com ela, como se fossem as suas.

Licínia Quitério


23.3.14

MUITOS FILMES


Ai a minha cabeça, ai a minha cabeça, voz de mulher num banco mais atrás. Imagino-a ao telefone com alguém lá de casa que lhe diz que se esqueceu de apagar o gás do fogão, ou que deixou o gato fechado no roupeiro, ou que se esqueceu da sogra no supermercado. Isto imagino eu porque de facto nada sei de toda aquela gente que entra e se apeia e se senta, se houver lugar, ou fica de pé, aguentando solavancos e calores condicionados. Eu só posso imaginar que o rapaz de cabelo em repuxo deseja que morra já ali a mulher volumosa que insistiu em ocupar o lugar onde ele sentava a mala grande e pesada. Levou-a ao colo, pois, o resto da viagem, que a mulher assim mandou, de voz forte e redondo corpo. Os outros rapazes e raparigas, que têm mais ou menos fios ligados aos ouvidos, à cintura, às mãos, arrumo-os numa qualquer história batida de seres extraterrestres, extra mesmo galácticos, a espiarem, sempre a espiarem, que é isso que fazem todos os visitantes do longe muito longe. Na diversidade de passageiros, imagino que entre um árabe com uma terrina nos braços ou uma mulher velada com uma galinha morta num saco de palha. Imagino, mas quem aparece na paragem seguinte é um vulgar ser terrestre, vestido de luto carregado, com fitas e caricas coloridas e na mão uma pandeireta pequena que tilinta muito levemente corredor fora, agarra aqui, agarra ali. No final da curta viagem, desaguamos num cais de pressas e sujidades, igual a todos os cais deste mundo, onde se roçam respirações várias, alimento de muitos filmes, muitos livros, muita ficção do real ou irreal de que se fazem as viagens, mesmo as interurbanas de vou ali e já volto.

Licínia Quitério

15.3.14

LER O JORNAL


Nunca encontrei lugar melhor para ler um jornal do que uma mesa de café, de preferência com tampo quadrado, com sessenta por sessenta.  Em casa, nunca tive uma mesa dessas e duvido que, se a tivesse, fosse a mesa de ler o jornal, sem que logo se atafulhasse de papéis, livros, esferográficas, corta-unhas, um pacote de açúcar, o comando electrónico de qualquer geringonça. O certo é que a leitura de um jornal em casa me obriga a esforços que me põem mal disposta . Pode ser a mesa da sala, que tem mais de sessenta numa das dimensões, mas é baixota e não está tão perto do sofá que não me obrigue a debruçar-me, as costas em desamparo, a barriga a dizer que agora é maior e já não admite dobragens como antigamente. Há a mesa de trabalho, vulgo secretária, com o extenso tampo e a cadeira ergonómica, confortável. Apenas um inconveniente, ou melhor, um somatório deles: o tampo está literalmente cheio, de teclados, ratos, monitores, parafrenálias dos novos tempos, e mais as dos antigos que coexistem: os vasinhos cheios de canetas, a tacinha dos clips, os papéis e os pisa-papéis que não pisam mas são pisados pelas várias pilhas de livros prontos a colapsar. Pode-se abrir um espacinho, a custo, clareira em densa floresta, mas não dá. O espaço é sempre menor do que o tablóide aberto e lá ficam os cantos do papel dobrados, presos, amarrotados, a não deixar continuar, sem sobressalto,  a leitura do texto  que continua duas páginas mais tarde. Há a cama, claro, da leitura antes de dormir, mas aquele esticar de braços, as almofadas a escorregarem, o corpo a afundar, o ajeitar permanente dos óculos, a letra de tipo minúsculo que não se conforma com o foco de luz do candeeiro. Resta a mesa da cozinha, mas há sempre o pecado das nódoas, das migalhas que se insinuam por debaixo do papel  e picam ao de leve o cotovelo que em má hora resolvemos apoiar sobre a página dos anúncios. Mais soluções sempre terá a casa, por muito pequena que seja, mas nunca me servirão. Tive há pouco a minha hora de luxo, no café a ler um jornal, muito mal escrito quase na sua totalidade, mas à medida da mesa onde até cabe a chávena da bica e mais o pratinho do bolo e o copo de água, tudo em devido lugar, sem incómodo para o folhear deleitoso do jornal, para trás, para diante, até ao fecho e dobragem em canudo que se instala pacificamente debaixo braço. Um mundo perfeito assim não cabe nas casas onde tenho vivido. Ainda melhor do que isto era aquela mesa onde o jornal dava para dois, muitas vezes para três, e a mesa devia ser extensível, porque o jornal era à nossa medida, à medida dos nossos silêncios, só interrompidos porque uma notícia nos provocava para uma conversa sem fim, o jornal já debaixo do braço, e a conversa a continuar, já sem a mesa, mas nós ainda presos à hora perfeita do encontro. Acho que só se ama verdadeiramente quando se lê o mesmo jornal, na mesma mesa, no mesmo café, e nada disto é monótono e tudo é irrepetível, até o silêncio profundo em redor da mesa que parecia ser única naquele café cheio de gente ruidosa. Hoje, a tal mesa com sessenta por sessenta  é o quadrado perfeito da imperfeição dos meus dias.

Licínia Quitério

14.3.14

MANIFESTO


Eu sou tua mãe. Eu sou teu pai. Somos tuas mães. Somos teus pais. Tu sabes quem te ama e dizes mãe ou pai antes de saberes dizer amor. Tu sabes que não te abandonaremos, não te magoaremos, não te violentaremos, não te negaremos a felicidade de seres a criança que quisemos criar, no respeito, na liberdade, na alegria, no sol. Eu sou tua mãe e tu és o meu filho. Eu sou tua mãe e tu também és o meu filho. Eu sou o teu pai ou mãe, como quiseres dizer, e tu és a minha filha. Temos a responsabilidade de te dar o pão, a saúde, a educação, o sorriso. Respeitamos-te como tu nos respeitas, nas asas imensas do amor que partilhamos. Tu sabes, filho, filha, que mãe ou pai, ou mães ou pais, são as palavras que tens para viveres e cresceres, são a árvore, o rio, a flor, que serão o leito, o colo, o riso que farão de ti o homem, a mulher, o pai ou a mãe que quiseres ser, com quem quiseres ser, na imensa humanidade a que pertences e de onde não deixaremos que te expulsem ou te façam filho menor.

Licínia Quitério

10.3.14

A LOJA DA MATILDE 2


A loja da Matilde continua a ser um lugar de espantos. Agora já tem uma maquineta para as senhas de chegada, que há dias em que a freguesia é muito maior que o espaço onde possa caber. Assim se chega, se tira a senha, se dá uma olhadela lá para dentro a avaliar o número de cabeças, outra ao relógio, e se decide se ainda há tempo de ir ali ao sapateiro ver dos atacadores para as botas. Eu fico, aguardando o meu número de chamada e aproveitando bem o tempo para ver e ouvir tudo o que há para ser visto e ouvido. Nesta espera de boa vontade, lá deito mão a um vasinho de petúnias, floridas de carmesim, a regalarem-me os olhos. Não estava na minha lista de compras, mas vai e, porque não, há quanto tempo eu disse que havia de plantar, uns pezinhos de morangueiro, já com um arremedo de botão de flor. Devo ter um ar suspeito, no meio daquela gente que sabe de terras e de sementes e de trabalhos árduos, tantas vezes sem o sucesso pretendido. Vale-me o conhecimento da Matilde, na sua azáfama, a perguntar tá boazinha, não tem aparecido, a atestar que também ali pertenço. Na loja da Matilde há sempre fenómenos vegetais que no balcão são exibidos até definharem ou apodrecerem. Procuro-os e lá estão. Uma beterraba com cinco quilos trezentos e cinquenta, segundo o rótulo, com sessenta centímetros de comprimento, segundo a medi em palmos. Mas o mais curioso era o nabo, com três quilos duzentos e cinquenta, conforme o rótulo, acompanhado da foto, em papel de brilho, do seu produtor, ali de pé, de corpo inteiro, bem nutrido, orgulhoso, com o troféu seguro em taça numa das mãos possantes. Um lugar de espantos esta loja do meu bairro. Saí, com um saco em cada mão, dois para a senhora ir mais aconchegada. Uma maravilha.

Licínia Quitério

9.3.14

OS TURISTAS


Os turistas de massas, presumíveis sucessores dos viajantes aventureiros, deslocam-se em autênticas hordas, mundo fora, obedientes à bandeirinha, ao guia que os faz correr, suar, rápido, rápido, atenção às bolsas, não podem fotografar, entra em igreja, sai de igreja, sobe à torre, não sobe à torre, atenção à hora, quem não estiver não embarca, habla español, english, português no, Bolivar you know, mind the step, signora, nice eyes madam, vamonos, vamonos, time is money, you know, o museu, numa corrida, um quadro, dois quadros, trezentos quadros, uma angústia, quero lá saber de mais quadros, depois vejo na net, os pés, os pés, o calor, o suor, a bandeirinha do guia, não o podemos perder, Garcia Marquez, o tempo de cólera, a varanda de Fermina Daza, o trote do cavalo, pude ouvi-lo, vim de livro aberto, até o violino, sim, uma foto do balcão, e seguir, seguir sempre, a horda, as hordas, só assim eu poderia ver a rua, a varanda, ouvir o violino, sentir a asma da mulher do general, o restolhar das folhas, melhor, a hojarasca, fingir que percebi melhor, que fui mais longe dentro dos livros, da mágica de Gabo, com a horda, graças à horda, colorida, suada, ululante, em movimento, sempre, mundo fora, mundo dentro.


Licínia Quitério

7.3.14

O MEU TESTEMUNHO




Eu era pequena, franzina, nos meus oito anos, e o banquinho rectangular, de duas pernas e duas abas fixas, um buraquinho no tampo, dava um jeitão para eu chegar ao parapeito da janela e apoiar os cotovelos. Eu sabia muito pouco da vida que ainda em mim era tão curta, mas lia, sabia ler desde os quatro anos, e lia o que aparecia em casa: O Primeiro de Janeiro ao fim de semana, A República diariamente, chegada pelo correio, com o seu dia de atraso, e que era a paga do trabalho de meu Pai, Corrrespondente do jornal cá na terra. Lia pouco mais do que os títulos e embirrava quando apareciam palavras em línguas outras que eu teimava em soletrar como se de português se tratasse, mas talvez por gostar de ler gostava também de ouvir as pessoas crescidas, especialmente as que falavam baixinho, com a porta fechada, com gestos estranhos como se eu não devesse entendê-las. Nesse Verão de 1948, eu gastei muito o banquinho, com as subidas e descidas contínuas, entre as seis e as sete da tarde. A minha mãe dizia-me para eu parar com aquilo que a enervava ainda mais, mas eu olhava o relógio da cozinha e corria para a janela, sobe banco, desce banco. Quando o relógio dizia que as sete horas estavam quase, quase a chegar, eu já não descia do banquinho, os cotovelos firmes na madeira do parapeito, a cabeça de lado fixa no cimo da rua de onde devia chegar o meu pai, terminado o seu dia de trabalho. Nessa hora, já a minha mãe se fixava ao meu lado, a cabeça dela em diagonal, paralela à minha, os olhos das duas no mesmo ponto do cimo da rua de onde apareceria o meu pai, ela apertando as narinas repetidamente, como quando se zangava.
O meu pai nunca faltou, mas eu e a minha mãe nunca dissemos uma à outra porque é que a janela nos prendia todos os dias àquela hora, nos longos meses daquele verão de chumbo. 
Por detrás da porta do quarto eu ouvia-os falar, a minha mãe quase num soluço, o meu pai a dizer não te rales, eles estão a prender os da primeira página da lista e eu estou na terceira. 
Foi assim no verão em que o banquinho ficou desengonçado, em que o meu tio foi preso, em que os amigos do meu pai foram presos, em que a minha avó foi a Lisboa falar com uns senhores para lhe soltarem o filho, em que a minha mãe chorou muito, em que o meu pai queimou papéis dentro da pia e a minha mãe quase gritou não quero essa porcaria cá em casa e o meu pai ficou triste e saiu sem jantar.
Há quem diga que o fascismo não existiu. Se eu ainda tivesse o banquinho, havia de explicar melhor o que aqui vos disse. Ou então, mesmo diante dos banquinhos desengonçados, haverá sempre quem negue que ele viveu entre nós, sobre nós, dentro dos nossos medos e dos nossos sonhos. Felizmente houve gente como o meu tio, os amigos do meu pai, e o meu pai que estava na terceira página da lista e por isso nunca faltou lá no cimo da rua às sete da tarde do verão de 1948. Graças a eles e a muitos outros como eles, há hoje quem diga que o fascismo nunca existiu. Eu até os percebo. Custa mesmo a acreditar que tanto mal por tanto tempo nos tenha acontecido.


Licínia Quitério


Foto da net

3.3.14

À MANEIRA DE REQUIEM



A gente habitua-se a saber que a vida que levam, que os leva, não os serve, não lhes cabe, não se encaixa. A gente sabe que um dia, mais do que tropeçar, caem, que a vida que levam, que os leva, não perdoa, não se  dobra, só lhes pega quando os verga. A gente entende que são a outra parte de nós que não cuspimos no prato porque é feio, que não rasgamos a virgindade dos devassos porque é inútil, que não respiramos fundo, nem roubamos, nem nadamos para longe, nem dizemos aos filhos passem sem mim porque estou farto. Eles são o depósito a prazo da nossa adiada liberdade. Um dia sabemos que a morte os pegou, essa sim, com a franqueza que a vida não lhes deu, e nós ficamos órfãos daquele sonho de nós outros, livres da tal liberdade que só os loucos conhecem, só os loucos nos escondem.


Licínia Quitério

22.2.14

O CORPO


O corpo nasceu da pedra fria. Um homem  o sentiu e o despiu de todo o excesso, de toda a fealdade. Descobridor de estátuas, humilde ofício é o do artista.

Licínia Quitério 

13.2.14

FLORESTA



Era um caminho ao sol, a olhar os montes, perto e longe, que a distância se mede entre a vista e o coração. Quem nos seguia, ou seguíamos, era a mancha de floresta, a rasar-nos a sombra, a desdobrar-se em verdes e dourados, persistente e prometedora de flores e de frutos. Podia adivinhar-se um restolhar de bichos rente à terra, um adejar por entre as copas. Íamos.
Licínia Quitério

AS PESSOAS MUDAM



Hoje bateu-me à porta alguém chegado de um tempo em que todos eram velhos, uns mais do que outros, a não ser o Herlânder e a Neuza e os que eram novos como eu. Só os velhos, uns mais do que outros, é que não pulavam todo o dia e alguns ficavam muito sossegados nas cadeiras, com ou sem mesa, calados ou a conversarem.
Hoje bateu-me à porta uma mulher daquelas mais velhas que já devia ser velha quando eu, o Herlânder e a Neuza corríamos, rua abaixo, rua acima, e gritávamos, porque só os velhos é que falavam baixo e devia ser por isso que nós não os ouvíamos.
A mulher que hoje me bateu à porta tinha um lenço preto a tapar os cabelos brancos que eu bem os vi a espreitarem por cima da testa. No outro tempo, havia muitas mulheres com cabelos brancos escondidos em lenços pretos. Eu, o Herlânder e a Neuza até nos ríamos delas que pareciam as bruxas das histórias, mas não tinham vassouras. Algumas tinham só os cabos e não sabiam montar-se neles, por isso andavam muito mal e nunca voavam.
A mulher velha que hoje me bateu à porta trazia um ramo de flores parecidas com as que havia no quintal da minha avó e que agora já não se usam. Disse-me se as queria comprar e eu fiquei admirada porque as flores do quintal da minha avó não eram para comprar. Também não eram para roubar, mas era o que eu fazia, sem ela saber, para dar à Neuza, que o Herlânder dizia que flores eram coisas de menina e ele não era maricas.
Nem todos os dias aparecem a bater-nos à porta velhos de outros tempos e eu até pensei em contar isto à Neuza e ao Herlânder, mas depois é que me lembrei que eles já cá não estão e quem sabe se a Neuza já não corre tanto rua abaixo rua acima e o Herlânder gosta de flores, sem medo que lhe chamem maricas. 
As pessoas mudam muito.

Licínia Quitério

26.1.14

SALAMANCA



Sólida a cidade, Salamanca chamada, maciço de conventos,  igrejas,  colégios pontifícios, realíssimos, catolicíssimos, de saberes seculares. Os tempos atravessados, novos saberes chegados, multidões curiosas, cansadas, estouvadas, variadas, transbordando da exiguidade das ruas, comprimidas por fachadas solenes, de pedra bordada, profusamente exibindo poderes reais, temporais, santidades, severidades, clausuras, pecados, castigos, sonhos também de sinos e alturas. Hei-de voltar.

Licínia Quitério

16.1.14

PRONTO


Pronto para as batalhas, o general guardou os medos na gola do capote e avançou. Perdeu, ganhou, sofreu e voltou. Partiu ainda jovem, perdida a última batalha com a senhora-do-medo. Vemo-lo hoje, na branca pedra, o susto no olhar, a gola de general impecavelmente erguida.

Licínia Quitério

Nota: resposta a desafio em http://outrostemas.blogspot.com

14.1.14

PENÉLOPE


Era dia e Penélope tecia. Esperava e tecia e a idade crescia. E a raiva crescia e a cama vazia e a cidade vazia. Quando a noite chegava, a teia minguava, Penélope chorava, na cidade chovia. Ulisses navegava, Ulisses naufragava, Ulisses não cuidava, Ulisses não sabia, Ulisses não voltava e a teia não crescia. Outro esposo Penélope não queria, outro rei, outra lei a cidade não queria. Ainda ela tecia e Ulisses voltou e ninguém reparou como Ulisses mudou, como Ulisses sofria, como Ulisses chorou. Só o cão o cheirou, só o cão se deitou na velhice de Ulisses. Era noite e a teia encolhia, e outro dia haveria de a teia terminar, de Ulisses regressar ao seu trono vazio, às mãos da tecelã, sem tecer, sem tecer,  a mirar, a mirar, a velhice de Ulisses, o cansaço de Ulisses, o cão fiel de Ulisses. Na cidade chovia.

Licínia Quitério

12.1.14

EUSÉBIO




Só uma vez, dois anos atrás, vi Eusébio pessoalmente. Eu estava num restaurante, e olhava a rua através da montra. Vi-o sair de um automóvel, com enorme dificuldade, ajudado por um amigo. Atravessou a estrada, em direcção ao restaurante, apoiado no outro homem, com uma debilidade imensa, as pernas frouxas como papel ao vento. Foi nas pernas que fixei o olhar e o pensamento. Com aquelas pernas ele tinha conquistado o mundo, as mesmas pernas que agora se recusavam a deixá-lo avançar senão arrastando-se. É nesse momento em que vi Eusébio que penso hoje, sem me admirar, sem me entristecer. Um homem, por muito grande que tenha sido, começa a morrer muito antes da sua morte. Nós é que nos recusamos a pensar nisso.

Licínia Quitério

28.12.13

A CIDADE DE LUME



Era no Inverno que ela floria. No Inverno, quando o frio empurrava as mulheres  para dentro das casas, para dentro das vidas, a juntarem pedacinhos de lã, pedacinhos de lembranças. No tempo em que o vento se esgueirava pelas frinchas das portas, pelo buraco da chaminé, e a chuva alagava o pátio, alagava as meias dos caminhantes. No tempo em que a chama do candeeiro se apagava quando a porta do quintal se escancarava. O tempo das grandes noites, dos dias escuros e das frieiras a magoarem os dedos. Era esse o tempo em que a menina vivia de lume, vivia no lume, era o lume. No banquinho de madeira, esperava pelos carvões que haveriam de se deitar na braseira de cobre. Vermelhos os do centro, negros os que em redor se amontoavam, aguardando a sua vez de serem incêndio. Ali ficava a menina, o queixo nas mãozitas, os cotovelos nos joelhos, em encaixe perfeito,  equilíbrio e conforto. Era o seu tempo de florir, os olhitos presos no mundo ardente dos carvões.  Na cabecita nasciam histórias da cidade de lume, com as suas ruas povoadas de pequeninos seres de lume que se moviam atarefados, num sem-fim de subidas, descidas, avanços, recuos, como quem vive, mesmo sem lume. Ali ficava, presa nas histórias dos seus homenzinhos de lume, ou mulherzinhas, que eram iguais, de tanta luz, de tanto brilho. Quando os olhos se cansavam de serem  flores de lume, o brilho da cidade esmorecia, acalmava, abrandava, desmaiava, e os olhos fechavam-se, docemente, como se fecham as flores. Amanhã voltaria, o queixo nas mãozitas, os carvões acesos, os homenzinhos na cidade, numa azáfama, as histórias a começarem na cabecita da menina da cidade de lume. Era assim, no Inverno.

Licínia Quitério

foto da net

26.12.13

UM PEDAÇO DE MAR


Um pedaço de mar é o que nos fica no olhar, abandonada a praia, quando nos chama a terra firme, a alta montanha que nos promete o céu. Um pedaço de mar é o que trazemos no olhar, na viagem de regresso, sabida a montanha que não nos deu o céu. Um pedaço de mar viaja connosco, mesmo quando a viagem não é mais longa do que a praia.

Licínia Quitério

17.11.13

NEVE




Caiu neve na serra. É o que ela diz, acrescentando açúcar no café, com a lentidão da manhã enfiada nos dedos. Queria dizer mais coisas, outras coisas, mas a frase saiu com um ponto final e ele não é homem de continuar um texto, de o ajudar a não morrer assim, seco, impertinente. Tem o jornal para ler e, na sua importância de leitor, fecha-se ao mundo, fecha-se à voz dela, que outra atenção não merece, que ela costuma demorar-se em oratórias, enquanto bebe o café, enquanto toma duche, enquanto faz amor. São assim as mulheres, é o que ele afirma, passado o viço, passado o vício. Falam e só para elas falam, no desfiar de lamentos, de  toadas dos tempos de embalar, dos tempos de dançar, dos tempos do viço, do vício.
Se caiu neve na serra, se o filho não apareceu, se a outra não fala, só sorri, se o outro acrescenta frases às frases dela e sorri, se tudo há-de ter seu caminho e foz, é porque a hora virá de a neve derreter, de se querer lago e afogar.

Licínia Quitério

6.11.13

TEJO



Dos Pirinéus não se vê o Tejo. Digo eu que não subi ao alto mais alto dos altos montes. Tão pouco se vê quando tão baixo se vive. O mundo fica todo muito pequeno, inteirinho ao alcance da mão, do olhar. Dizem-me: os Pirinéus ficam ao fundo da rua, mas da minha mão ao fundo da rua é tão longe que eu fico a acreditar no que me dizem e não vou até lá ver os Pirinéus. Dizem-me: dos Pirinéus não se vê o Tejo e eu acredito. Acredito porque nunca subi ao monte mais alto entre os mais altos donde provavelmente se vê o Tejo. Nem sequer irei ao fundo da rua olhar os Pirinéus que, acredito, lá estão esperando por mim, sabendo que não irei. Bem melhor é ficar aqui, no nascer da rua, a ver a chuva cair e um rio a crescer, envergonhado, com vontade, esse sim, de chegar ao fundo da rua e dizer aos Pirinéus que lá do alto mais alto poderão avistar um riozinho seu irmão, a correr à procura de um país onde lhe chamem Tejo. Os Pirinéus vão acreditar no riozinho nascido na minha rua porque pensarão que ele sou eu nos meus tempos líquidos de correr montes e vales e me deitar no Tejo como em cama de nuvens de cidade muito amada. Dela me lembro agora, no meu tempo opaco de ficar e de olhar e de dizer Tejo como quem diz Vida. 

Licínia Quitério

3.11.13

IR E VOLTAR



   A gente às vezes vai e procura e encontra ou encontra o que não procurou ou desiste de procurar, tudo sempre sem saber porque procura. Andamos mundos, conhecemos gente, esperamos sempre mais, mais respostas, mais um passo, mais um minúsculo passo que nos ponha defronte da montanha mais alta, do pico mais aguçado, do ar mais rarefeito, da respiração da criança no sono, do claro-escuro da matinée de outrora, do silêncio branco da partida. 
   A gente às vezes volta, acrescentada de perguntas, de gente, de caminhos antiquíssimos, de coisas feitas, já rotas, já desfeitas, e de outras a nascer, que saberão dizer que ali nos viram, caminhando nas sombras de um sol a pique, com o espanto a crescer por ali estarmos, defronte dos montes, nomeando o pico mais alto dos picos que nunca subiremos.

Licínia Quitério

23.10.13

APARIÇÕES





    A ler um artigo de Alexandra Lucas Coelho, no Público, e a sua descrição de um tal teatrinho perdido no caminho para Death Valley, em cenários que atravessam a nossa memória de filmes de Antonioni, a ler este excelente artigo, dizia, e o pensamento a fugir-me para outro cenário retro em que entrei recentemente. 
    A propósito de colher um papelinho a que se chama vulgarmente atestado médico, acompanhei uma amiga a um prédio bonitinho, fim de século dezanove, rés-do-chão e primeiro andar, porta verde só encostada, dois degraus de pedra bem gasta. Empurra-se a porta e ficamos numa salinha chamada de espera, com um terno de sofás de madeira e napa, uma mesinha para revistas, tudo muito retro de baixo preço. Nas paredes, quadros com fotos da vila, num tom geral azulado que o tempo lhes conferiu. Um deles, tendo como moldura uma fita adesiva verde escura,  pendente do prego na parede por um cordão sedoso, não consegue horizontalidade e espera um ligeiro toque que o endireite. Na mesa, o Borda d' Água, o jornal da região, umas revistas de um laboratório de análises, um lápis e um bloco de apontamentos por estrear. Ninguém na sala, até que, num arrastar de pantufas pelo corredor, chega uma velha senhora que diz "o senhor doutor já vem". Informação dada, senta-se e  começa, em silêncio, a fazer o naperon de crochet que tira do bolso do avental. Esperamos uns longos minutos até que o senhor doutor aparece, diz "boa-tarde, venha",  e volta para o interior da casa, enquanto a senhora de crochet e pantufas ordena "ainda temos de ir a casa da tia Mila". O senhor doutor responde um "sim, mãe" e ainda o oiço dizer para a minha amiga "venha buscar para a semana". 
    Apenas dois degraus e o filme desenrola-se e rebobina-se, oitenta anos para trás, oitenta anos para a frente. Em Death Valley ou em Aboboreira do Mar, as aparições do passado não param de nos surpreender.

Licínia Quitério

14.9.13

SETEMBRO



O meu plátano não falha no seu cuidado de me anunciar o Outono. Todos os anos manda as primeiras folhas perdidas roçarem a minha porta, num vozear vegetal, feito de estalidos e sussurros arrastados. Foi assim hoje. Reconheci o toque, abri a porta e recolhi a folha maior, enorme, lindíssima no seu ainda verde mesclado de anúncios de dourado. Vai ser guardada até para o ano, se eu e o plátano mantivermos a nossa relação.


Licínia Quitério



31.8.13

DONA CUSTÓDIA

   

   Na loja da dona Custódia havia tudo, cabia tudo, nada se limpava, nada se fiava, nada tinha peso certo, nada tinha preço certo. A montra da loja da dona Custódia era um amontoado de objectos, grandes, pequenos, médios, de caixas, mais ou menos amolgadas, de moscas mortas de tédio, lá pelo meio. A loja onde reinava, absoluta, a dona Custódia, era um armazém de objectos, de sacos, de sacas, de tulhas. No balcão que sobrava dos objectos, dos sacos, das caixas, dos papéis, cabiam a balança e a os braços da dona Custódia que se adiantavam até às mãos dos fregueses a quem pedia que mostrassem o dinheirinho que traziam, antes de aviar a encomendinha. Falava por diminutivos, com ternurinhas de beata, o dinheirinho, a moedinha, meu menino, minha menina, pede mais dinheiro ao paizinho, diz à mãezinha que a Custódia não tem, valha-te nossa senhora, quem não tem dinheirinho não tem vícios. Era assim. Toda a gente ia à loja da dona Custódia, porque lá havia de tudo, de tudo o que mais ninguém tinha, de tudo o que já ninguém supunha que havia. A ratoeira para os malandros dos ratos, o petróleo para o candeeiro, o vidro para o candeeiro que  pum! estalara, o candeeiro, a torcida para embeber no petróleo do candeeiro, o bocal para o candeeiro que o outro estava todo retorcido, os fósforos para dar à luz. Na dona Custódia havia tudo. Muitas vezes, a dona Custódia demorava a fazer o avio, porque não era fácil sacar um vidro de candeeiro que morava na prateleira mais alta, à esquerda de quem entra, mesmo por detrás dos atados de chinelos, e das fitas peganhentas para apanhar moscas. Valha-te deus, menino, que trabalhos estás a dar à Custódia. A dona Custódia roubava no peso, no preço, na qualidade. Toda a gente sabia e gostava. Era assim. Ela tinha tudo o que fazia falta. Menos bondade, lá isso, mas uma pessoa com tanto dinheiro e um marido cobardolas em quem mandar não podia dar-se ao luxo de virtudes para além das que a santa madre igreja ordenava e de cuja falta sempre absolvia, mais padre-nosso, mais dízima à paróquia, mais mordomia pelas festas grandes. Era assim no tempo antigo do fado antigo da dona Custódia de carrapito e óculos de aros negros, redondos, de mãos estendidas para os dinheirinhos dos meninos.


Licínia Quitério
   

29.8.13

OS ANOS


   
Morreu, o cão. Nos seus anos de ser cão, quase duas décadas deviam ter passado. Agora a dona não traz as duas voltas da trela acrescentadas às pulseiras várias e coloridas. Tem mais simetria no andar, mais disponibilidade do braço para ajeitar com elegância o chapéu que faz mudar com as estações do ano. Os olhos, escandalosamente azuis, não dizem dos seus anos de dona. Na falta do velho cão que lhe alentava o passo, adianta-se ainda mais ao dono que envelhece largamente nos seus anos de dono e que tem um braço para a bengala e o outro para os grandes sacos que a dona faz questão de encher de belezas e saudades. Não se consegue saber a que filme pertencem, a que livro, a que quadro, a que história que nos tenham contado. Devem ter-se amado loucamente, saltado barreiras, regressado a conveniências, a velhas caixas. Chegou o tempo, este, de se detestarem. Daí a aspereza com que ela lhe fala, ao sacudir, com as costas das mãos de veias azuis e verniz escarlate, as migalhas de bolo que ele sempre deixa cair na aba do colete de teen-ager. Os olhos dele estão cada dia mais pequenos, mais baços. Tenta acompanhar o andar apressado da sua Miss Daisy mas é obrigado a parar, por momentos, o fôlego a quebrar, a raiva a crescer, a mão na haste da bengala, num simulacro de golpe de Zorro na colecção de cromos, escondida no forro da gaveta da mesa de cabeceira. À vista do fim, o amor torna-se insuportável, sufocante, e vira do avesso onde se lê 
o ódio. Um deles irá à frente, naturalmente, terminada a contagem dos seus dias de gente. O outro chorará, sinceramente, o amor perdido, o tempo perdido, o cão tão bom amigo de homens e mulheres que outras histórias não gostam de contar.

Licínia Quitério

25.8.13

NPV












"Há as couves de pé alto,  há as couves galegas, as portuguesas, as que têm coração de boi,  as mais ou menos farfalhudas, as enfezadas, as que é um gosto vê-las, as frisadas, as pencas, as despencadas, as de bruxelas, as de mais perto, as que nunca passam de repolhos, as chinesas e amarelentas, as couves-propriamente-ditas, as tronchudas, as de trepar até ao primeiro andar, as rasteirinhas, as que pegam de estaca.
Estas, no retrato, são as minhas couves do pé da porta. São as melhores, as mais saborosas, as mais vistosas, as mais simpáticas, as verdadeiras-couves-como-já-não-se-fabricam.
A minha equipa cuidará das couves deste quintal como jamais alguém o fez. Projectará a sua qualidade e beleza ímpares muito para além das fronteiras do meu quintal. Daremos continuidade às boas regas, às boas podas, às boas práticas. À frente da equipa está gente que nunca tocou num adubo químico, que nunca vendeu couve por coelho, que é devotada à causa do quintal como à da sua família.

O nosso slogan: ASSIM SE COMEM AS COUVES.

Vote em nós.

DONA TELA"

Excerto do jornal de campanha do NPV- Novo Partido Vegetal


21.8.13

AS PAREDES AZUIS



   


   Na época, usava-se pintar as paredes de cores fortes. Ele mandou pintar a sala de azul, azulão de mar aberto. Comprou sofás de napa vermelha, móveis em módulos ajustáveis, de linhas rectas. A kitchnette simpática, funcional. Ligou a aparelhagem e ouviu-se música francesa. Na relação com a Conceição, que Nanette se chamava, viera-lhe o interesse pela França. A música, os livros, até a comida. Aprendera a fazer omeletas que, explicava, tinham de ser “baveuses” no interior. Joana olhava em redor da sala, estranhando as cores, os sons, um tremor desusado nas ancas, uma súbita vontade de não estar ou de ficar para sempre. Léo vociferava “je pisse, j’éjacule”. Ele preparava dois uísques. Puro para ele, com soda para ela. Estava calor, o calor das noites belas e ardentes da cidade, nos seus abismos e clausuras. Transpiravam trinta anos de vida, de espanto ainda. Transgrediam, tremiam, mas não se detinham. Dançavam e bebiam e bebiam e dançavam. “Je t’aime moi non plus”, susurrava Jane Birkin. Bem se podia dizer que choravam, tremendo nas cordas finas da ternura. Sabiam da noite única impressa nas paredes azuis, no sofá vermelho, no ligar e desligar do pequeno frigorífico, no chiar do elevador, no tilintar do gelo nos copos.
   No dia seguinte, ele foi buscá-la ao emprego, para almoçarem. Tirou do bolso um gancho de cabelo e disse: deixaste-o no sofá, tens de ter mais cuidado. Sentiu a censura, cortante, a boca fina no beijo rápido, a compressão dos malares.
   Mesmo depois de cortar o cabelo bem curtinho, não voltou à sala com paredes azuis. Houve outras salas, até deixar de haver. Entretanto, a transgressão encorpava nas veias da cidade.


Licínia Quitério

20.8.13

O CAFÉ


   Paguei. Recebi o troco. Tudo certinho. De momento sem mais clientes, o rapaz dedicou-se ao sector financeiro. Uma nota que, presumo, fosse aquela com que lhe paguei, foi enfiada no bolso. A caixa da registadora, que não funciona, foi aberta, com uma leve pressão dos dedos. Dela retirou umas moedas que transferiu para uma caixinha verde, noutra bancada. Acabei de assistir a uma operação corrente. Um investimento em bolsa e o remanescente em off-shore. Encerrada a operação, voltou para o balcão e olhou-me, tranquilo. Percebi que quem me tinha servido o café era o ministro das finanças.

Licínia Quitério 

14.8.13

A VIAGEM



  Há quanto tempo morrera o que chamara A Viagem? Sabia exactamente o dia, a hora. Quatro da tarde, o sol perigoso, o abrigo do guarda-sol de riscas rosa e laranja. A mão na testa suada dele, em toque leve, hesitante. Vamos então? Posso marcar com a agência? Sentiu-lhe o estremecimento. Total, da raíz à copa. Disse não, já marquei. Levantou-se, pegou na toalha, nervoso. Sabes com quem vou. E, quase num grito, é melhor acabarmos com isto de vez. Foi no dia de Verão em que a noite se fez mais cedo, mais escura.
  Olhou o relógio. Eram duas da tarde naquela terra em que o sol chegava uma hora antes. À mesa do almoço, incluído no pacote A Viagem, com mulheres que umas às outras se acompanhavam. As pernas pesadas, cruzadas com esforço. A Viagem estava a ser dura e o calor mordia-lhe as pernas dantes tão bonitas, a soltarem assobios nos olhos dos homens. Fitava a das argolas faiscantes, poderosa ainda. Se fosse como ela, quem sabe pensaria em, como se diz, refazer a vida, desfazer os anos, inaugurar, porque não, uma nova paixão. Foi um relâmpago de desvario que lhe trouxe os olhos azuis, magníficos, estuporados, de Donald Sutherland, no rosto fechado do jovem empregado que lhe atirava vous voulez quoi, Madame? A carne. Estava mal passada, rosada no interior que ela exibia, de garfo e faca assestados na ferida. A Viagem é também aquilo. Decidir, exigir, protestar, silabar Ca-pa-dó-ci-a quando dizem Palma de Maiorca, calar-se quando se erguem os Himalaias na voz maiúscula do Homem-que-já-deu-duas-voltas-ao-mundo.
  Tanto cansaço, tantas horas, tão longe o chapéu de sol às riscas, tão sem sabor A Viagem finalmente ressuscitada, tão diferente da outra, tão mal passada a carne.


Licínia Quitério

11.8.13

A MESA DA MÁQUINA



  A Avó era pequenina, redondinha, airosa ainda no seu traje de viúva. Costurava os seus trapinhos numa máquina de manivela, sem pedal, que assentava numa mesinha de madeira, com um muro baixinho à volta do tampo, não fosse a máquina-só-tronco estremecer e sair mesa fora. A Avó sentava-se numa cadeira que dizia austríaca, de madeira preta, torneada, de assento de palhinha, a que mandara cortar uns bons centímetros de pernas, à medida da altura da Avó, da altura da mesa da máquina.
  A máquina foi-se embora, a Avó também e mais a cadeira. Por artes de partilhas e repartilhas, sem eu dar bem conta, a mesa da máquina-só-tronco veio habitar o meu sótão das coisas sobrantes de vidas encerradas. Por capricho de recolectora de memórias em que me tornei, a mesa, já sem murete, pintada de vermelho, com tampo revestido de linóleo também sobrante de outro tempo, com sua gaveta de fechadura de chave perdida, instalou-se na minha cozinha, em parelha com banco de buraquinho no assento. A máquina deu lugar aos meus vasos de orquídeas, flores desconhecidas no tempo da Avó pequenina, que dava à manivela da máquina, no acerto e transformação de seus bem amados trapinhos.


Licínia Quitério



3.8.13

PELAGENS




   Tomara acabem as férias dele. Para eu ter as minhas. Homens em casa, sabe como é. Isto diz a dona da pelagem loira coberta de uma pasta esbranquiçada que a havia de tornar de um loiro mais aberto, segundo ela declarara à menina cabeleireira. Mal acabara de falar, cala-te boca. O cão ladrou e o dono disse entre portas fica aí. E bico calado. Ficou, a trela amarrada a uma das grades do alpendre, a pelagem cor de café com leite recentemente tosquiada, hirsuta e abundante apenas nas orelhas e na cauda. A t-shirt de manga à cava e os calções deixam escancaradas grandes porções dos membros superiores e inferiores, do peito e das costas, forrados todos de uma pelagem negra, longa e espessa. O fio de ouro, grosso, de malha batida, com crucifixo, brilha pelo meio daquela selva. Uma tentação para a ladroagem. Bem lhe dizia, mas ele ai do filho da mãe que se atreva. Leva que contar. Exemplificava, a mão em cutelo, uma perna atrás, os joelhos flectidos, num arremedo de artes de defesa com nomes impronunciáveis. Um homem pronto para ir à praia, com as suas havaianas verdes, a dar com a t-shirt, essa de um tom mais discreto. Faz rodar, no pulso direito, uma fitinha cor de laranja que diz Porto Galinhas. Este ano, conta ela, compondo o botão que se desabotoara mesmo no meio do peito, ficaram pela Tunísia. Gostaram. A comida é que tinha sido um problema, especialmente para ele que só gosta dos cozinhados dela. O hotel, isso sim, uma lindeza. Até pétalas de flores lhes punham em cima da coberta da cama. Quem não gosta de um luxozinho de vez em quando, replicava a menina cabeleireira, com olhos de telenovela. Ela ajeita na cadeira os quilos a mais, pega no leque e abana-se, com expressão de fastio. Ah o Verão, o Verão. Não veste bata de dona de casa, mas é como se vestisse. Talvez sugestão do padrão do tecido da blusa, miudinho, em fundo escuro, para não se notar tanto a sujidade. A expressão, o gesto, esses são de professora primária, do tempo em que assim se chamavam e a escola assim era. Ele aproxima-se dela, o cão fora do alpendre a pedir festas, a companhia da dona, o rosto perto do dela, a fala num segredo, quase a roçar a pasta de tinta esbranquiçada rente à orelha. Por detrás dos óculos, tem o olhar assustado dos míopes. A careca não condiz com o traje decidido a grandes ares, grandes mares. Ela não deixa que a lamba, concede uma festa ao cão, na área tosquiada, distraidamente, da testa à nuca. Senta-te ali. Aqui fazes-me ainda mais calor. No alpendre há um latido frouxo. Ele vai escorregando pelo braço da cadeira em que se apoiou, escorregando, sentando-se, enroscando-se. Ela grita deixa-te de graças. O latido do cão no alpendre cada vez mais frouxo, mais espaçado.

   No 112 não pode ir o cão, o da pelagem cor de café com leite. Diz a lei.


Licínia Quitério

30.7.13

A CASINHA DA EIRA



  Quando nos recebem numa casa assim, A Casinha da Eira, feita e mantida por várias gerações de obreiros incansáveis, preservada com esforço e carinho, no respeito pelos objectos que atestam usos e trabalhos, renovada no serviço de refeições frugais, de conversas amenas, de risos de crianças, quando entramos numa casa assim, dizia, é como entrar num verso em que todas as palavras encontraram o seu lugar, sem artifícios nem desperdícios, isto é, as palavras imprescindíveis para vogar na suprema arte de ser simples.


Licínia Quitério 

10.7.13

A ORQUÍDEA


Há a orquídea acesa na janela, há um novíssimo, secreto, indecifrável dia, aceso na janela, em redor da orquídea.


Licínia Quitério


2.7.13

A ESCADA


O meu pátio vale um poema. Tem uma escada que leva ao céu.

Licínia Quitério

26.6.13

AS COISAS


  Quando eu era nova, não comprava flores. Ofereciam-mas, em corte, em vaso, para a jarra, para o quintal. E eu também as oferecia, ou roubava um tronquinho, como ainda faço. Levei muito tempo a convencer-me a comprar plantas, flores. Ainda hoje raramente o faço. Quando eu era nova, não comprava gatos, nem cães, nem pássaros, nem peixes, nem cágados. Davam-mos ou vinham ter comigo. Até hoje, apenas comprei peixinhos vermelhos para deitar em lagos. Quando eu era nova, não comprava salsa, nem coentros, nem hortelã, nem louro. Davam-me ou ia eu colher. Tenho sorte, ainda hoje me dão, para semear, para plantar, para usar. Quando eu era nova, não comprava amoras. Colhia-as, picava-me, e, sem sequer lhes soprar o pó do caminho, comia-as. Hoje não as compro, mas raramente as colho. Ficou-me o valor das coisas, o amor das coisas que me deram, que dei, que plantei, que colhi, que me acompanharam, sem nada para a troca a não ser a promessa de ficarem na memória dos meus sentidos. Coisas de velha.

Licínia Quitério

22.5.13

A MASTABA



Não se pode ficar indiferente a esta mastaba barroca com o seu peso descomunal, distante a pedra das gentes, muda, hierática, construída a ouro e sangue, testemunha de vãs glórias, nascida de promessa, de compromisso, de intrigas de nobres e frades, morada episódica de reis, albergue de monges, de soldados, de paisanos, de prisioneiros, de belíssimas peças de arte, viveiro de lendas mais ou menos macabras, poderosa, fria, mais fria ainda nas noites frias, desertas, estranhamente belas e pálidas.

Licínia Quitério

1.5.13

OLAIA



Não hesitou no seu labor de florir em tempo certo. Indiferente à sujidade, aos despojos de vidas mal contidas, às sobras das infindáveis obras que os homens sempre encetam, sem irmãs que a confortem, a olaia vive e abre múltiplos sorrisos coloridos, na esperança de uns olhos que nela se revejam, pensando em tempos idos, de muitas árvores,  de outras ruas, de outra pressa de chegar, os olhos sendo os outros e os mesmos.

Licínia Quitério

29.4.13

CRISE



Um corpo assim complexo
só pode ser um desafio 
à eternidade e afinal 
uma pequena oscilação, 
um ínfimo deslize, 
uma desatenção 
podem ser a explosão,
o fim da crise

Licínia Quitério


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